Surdo para seu olhar

postado por Murilo, o intermitente

Os olhos pretos na madeira do velho armário não me assustam mais. A ingenuidade tardou a me abandonar, mas finalmente o fez. Os olhos de Cristo, do quadro do corredor, não me vigiam mais, pois paguei todos meus pecados. O olho mágico da sua porta, garanto, também não voltará a me ver.

Pois sobretudo dos seus olhos é que me libertei. Eles, que muito me diziam, e agora matraqueiam ao léu. Portanto saiba que das rápidas vezes que, por descuido, os seus se encontrarem com os meus, antes que pisquem se separarão.

Pois agora são os meus, libertos, que têm um mundo inteiro a se prosear. E só se fecharão quando lábios roubarem a cena.

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Seu lixo

postado por Henrique, o boss

Naquela noite, terminadas as tarefas, faltava apenas retirar o lixo da casa, que estava encostado na porta da sala do apartamento aguardando seu destino. Colocou as sandálias e levou-os até a central de lixo do condomínio. Uma tampa para o reciclável e outra para o orgânico. Feito isso, após fechar a tampa final tropeçou em uma lajota solta, o que soltou a tira de sua havaiana direita. Foi se abaixar para arrumar as ditas, mas raspou com vigor o braço em uma farpa de metal na enorme lata de lixo do condominio “eu sabia que isso iria acontecer um dia, está aí há meses”.
Após essa rápida crise de culpa branda resolveu correr para o apartamento para limpar o corte no ante-braço. Ao pegar o elevador um cara vestido de verde “tendo um dia ruim?” “nem me fale, a esta hora da noite vou levar o lixo pra fora e ainda corto o braço. E isso é só uma parte da história”. Com um sorriso esquisito, o estranho aperta o botão de emergência, travando o elevador. “E sua noite está apenas começando. Você sabia que o lixo que não é lixo, não vai pro lixo?” “O que?” “Mas você vai!”
Ao abrir a porta do elevador, uns pombos misturados a alguns urubus voam assustados com a luz que sai do elevador. “Amigo, eu não sei quem é você, mas me leva de volta já, preciso cuidar do meu braço”. “Assim ficamos iguais” e cortou o ante-braço no mesmo lugar. “Podemos ir agora?” E empurrou o condômino para fora do elevador, que se fechou.
Escuridão de 92%. Ouvia apenas um barulho de asas longe e perto. Mas o cheiro. Notas de bosta misturadas com lixo clássico de pia de cozinha, com tons de cerveja amanhecida acompanhadas de ondas do inconfundível aroma de mercúrio de baterias esgotadas. “A maioria das pessoas acredita em mágica. Aquela sensação de que o lixo desaparece”. E o sangue escorria dos braços. “Por favor, porque você está fazendo isso?” “É minha função” e começou a cavar, ou melhor, abrir espaço em meio ao lixo.
O nosso condômino já estava em vias de desmaiar quando resolve em um último lampejo de desespero correr. Mas cai em um buraco em meio aos buracos que se formam aleatoriamente entre os sacos de lixo do Mercadorama, Big e toda uma variedade de sacolas não biodegradáveis. “Como quiser” e começou a jogar lixo e mais lixo em cima do moribundo.
Terminada a cerimônia, o rapaz de verde, robusto, enrola um pedaço de pano qualquer em seu corte e aperta o botão do elevador. A porta se abre, o ambiente é inundado por um corredor de luz. Novamente alguns pássaros se dispersam, a porta se fecha e em seguida ele sobe em direção aos céus.

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Casa da praia

escrito por Petrini, o Dr. Sucesso

Olho para meu relógio novo, que aponta as 12 horas e os 39 minutos. Ele não diz, mas sei que é da noite, porque o dia eu já tive, e este que se vá longe. Estamos na sala de jantar, eu, ela e seus pais. O casal, o mais velho, porque nós não somos bem um casal, se prepara para ir dormir, e percebo que a movimentação toma conta da moça que já vai se preparando para o banho. “Para não acordar grudenta”, como ela explicou. Apresso-me e também vou, afinal a sujeira do outro fica mais evidente quando se está recém banhado. Termino o banho correndo e vou para o quarto que dividimos, no intento de deixar tudo arrumado e surpreendê-la tanto com a ordem quanto com o meu perfume, aquele que ela gosta. Mulher adora este tipo de coisa. Ou pelo menos costumava adorar, porque nos dias que se vão, mais parecem achar que se faz obrigação. Culpa daquelas que queimaram uns trapos de roupas, e deixaram a vida urbana em cinzas. Ela entra no quarto, nota a diferença e agradece com a educação que nem sempre lhe é natural, mas se entendeu a minha intenção, assim não o pareceu. Mulher adora se fazer de desentendida. Mas caralhos, tem coisa mais explícita que dois travesseiros, o meu e o dela, lado a lado na mesma cama? Mulher adora se fazer de desinteressada. Ela olha para mim com desgosto e pergunta como se fosse a mais absurda das ideias “Você não quer dormir junto, né?”. “Não mais”, é o que eu deveria ter dito no lugar da simples negativa que apresentei. Ela explicou que não ia dormir agora, que esperava seus castanhos secarem antes de deitá-los no travesseiro, e enquanto isso ia jogar um pouquinho. O mesmo pouquinho que os políticos roubam, e o mesmo pouquinho que o gordo come além da conta. São estes pouquinhos que ninguém acha que faça falta, mas faz. Para ALGUÉM, sempre faz. Ela pega o mini-game, que com crianças é o sossego das mães, mas com adultos é instrumento alienador e destruidor de lares. Não que alguém fosse admitir isso, mas no fundo se sabe. “Se separaram. Mas também, ele não largava aquele joguinho”, é o que dizem as que são dadas à fofoca. E é sempre culpa do homem. Mulher adora jogar a culpa no homem. E lá estou eu, o culpado potencial, com cara de velho rabugento ao lado da dama com seu joguinho. Fico imaginando as cenas seguintes daquela nossa piada ridícula, mas só de pensar nos poréns, já sei que nada daquilo tem graça. Olho para a escrivaninha e vejo meu nanquim. Mas tão longe, este meu amigo… Difícil é saber quem está mais perto, o meu companheiro de escrita ou moça ao lado, que se vai tão desconhecida quanto o motorista de uma linha de ônibus doutra cidade. Enfim levanto, agarro as notas e começo a escrever. Olho no relógio, o novo, e se passaram uma hora entre o preludio sexual não finalizado e a carta de testamento do nosso amor. Tudo que eu queria eram uns beijos, pra ter certeza que ela ainda me ama, mas agora ela já se deita, virada para o lado e adormecida. Mais uma noite ela ganhou. Mulher adora ganhar.

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Enquanto sua solidão existir, ninguém a perceberá

postado por Rafaé. beijos.

Nunca ouvi sua voz, mas posso senti-la falar entre estas linhas. Do bilhete em minhas mãos, chego ao seu sorriso – profissionalmente sincero.

Melina: do tipo de mulher com quem poucos se preocupariam. Suas qualidades não passam de eficiências cotidianas, cumpridas à risca. Também não alimenta desafetos. Seu único defeito: não possui imaginação, uma pontinha de imaginação sequer. Seus dias são recheados de timidez e tarefas burocráticas impecavelmente realizadas.

Em sua vida, tudo está sob controle (exceto, claro, o que seja questionado).

Orgulha-se de ser a responsável pelo almoxarifado de um respeitável escritório de advocacia em sua cidade. Traz em sua memória os lugares de cada objeto. De clips a papéis higiênicos (dos comuns aos especiais-perfumados-da-chefia).

Mas agora Melina deu pra reclamar; que sua vida é monótona, que nunca teve um amor – como se o amor fosse algo passivo de posse. “É sempre a mesma história: entramos com as lágrimas para que os outros sorriam”. A mesma história há trinta e um anos.

O sorriso-conformado-de-Melina a abandonara. Nas últimas semanas deixou de praticar suas pequenas vaidades. Como a de se arrumar em frente ao espelho e, na solidão de seu quarto, ensaiar a surpresa que demonstraria ao ouvir o seu primeiro “eu te amo” de seu eterno-novo-amor.

O espelho refletia pouco. Pois além da quase total ausência de expressão em Melina, no quarto havia apenas um colchão no chão, ao lado de uma cômoda adornada com um abajur e sua lâmpada eternamente queimada; roupas impecavelmente dobradas e organizadas em pilhas uniformemente distribuídas do outro lado; além das quinquilharias que ficavam por cima de sua penteadeira – típica de uma mulher que jamais levará suas vaidades para as ruas.

A luz fraca, amarelada, dava um tom entre a melancolia e a solidão às encenações de Melina em frente ao espelho. A cortina xadrez, em verde e branco, raramente era aberta, por uma certa indiferença aos vizinhos – que também não chegariam a lamentar uma possível falta sua.

Hoje, na noite do seu 31º aniversário, Milena decidiu que seria sua última. Sua última encenação. Abriu a cortina e se pôs à janela, encarando uma rua vazia. Via em cada casa luzes acesas, fortes. Sua luz fraca era vencida pela do poste na rua. Seu quarto foi tomado por um amarelo alaranjado.

Seu eterno-novo-amor jamais a conheceria. Não fingiria mais. Um almoxarifado organizado já não lhe bastava. Melina não seria mais. O que lhe restava era o nada. Um nada diferente do que havia sido. Um novo-nada.

E assim Melina tomou uma única e derradeira atitude que deu um novo rumo à sua vida. Nunca soube das consequências – se é que esperava algo. Um metro e meio de corda bastaram para ligar seus 31 anos à eternidade. Seus pés relaxaram a quatro palmos do chão.

Ela precisou de 31 anos – os exatos 31 anos de sua vida, minuto a minuto – pra chegar àquele instante, para se fortalecer e sentir-se mais poderosa que o seu próprio destino.

Sobre a penteadeira um bilhete sem data – que tenho em minhas mãos:

“só se vagueia só
pois dois
caminhariam juntos”

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Postado por Marco Antonio,

Entre impressões coloridas e em preto-e-branco J flagra a si próprio em uma crise brutal de consciência. Flagra-se, em terceira pessoa, como se ele e sua alma fossem entidades distintas e independentes uma da outra e pudessem, assim, contemplar-se admirativamente ou desprezar-se descompromissadamente.

J reflete sobre a atividade a que se submete para ganhar o dinheiro do aluguel e das refeições, e não gosta do que vislumbra. J opera máquinas, impressoras, computadores, capas de plástico e grampeadores durante oito horas diárias, e agora está pensando que cópias e impressões não são assim tão legais, que deve haver mais emoção em produzir que em reproduzir, e que há de haver algum resquício de ineditismo ou surpresa em algum lugar, mais provavelmente dentro de algum labirinto na própria mente.

O som cada vez mais alto de uma sirene, e a rua cheia de veículos cuspindo fumaça. A água acabou, e o cara só consegue trazer o novo galão daqui uma hora. A moça da lanchonete em frente não trabalha mais ali, e J está decepcionado. Viver não faz sentido, e essa constatação provavelmente doeria muito mais no passado selvagem.

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No dia em que abriu os olhos não a via mais

postado por Rafaé, o mosqueteiro.

Cosme andava tão sem graça que nem mesmo um dente de ouro traria brilho ao seu sorriso. Há tempos não se via forte, muito menos se orgulhava da sua sorte. Suas pequenas decepções cotidianas já não o incomodavam, porque afinal de contas a vida é mesmo assim. Pequenas tristezas sempre existirão. Cabe a nós reconhecer e colher as felicidades que se escondem por aí.

Parado ali, diante do espelho, Cosme mal enxerga seu reflexo, tamanho desânimo que o consome. Já não consegue manter seu olhar cruzado com o de mais ninguém, desde que desviou seus olhos de seu maior objetivo.

Mariana havia ficado para trás, sem ao menos saber que era parte fundamental para realização de planos e sonhos que Cosme tanto arquitetara em seu cotidiano-vazio.

No dia em que Mariana soubesse que era parte deste projeto de felicidade, sua vida ganharia um significado que só os que conheceram o amor reconheceriam. Dizem que só quem realmente viveu o amor compreende a grandeza de quem o carrega. Dizem coisas demais…

O fato é que Cosme abriu mão de conhecer o seu amor e veio embora protegido por uma desculpa qualquer. Desde que abandonou sua cidade, vem tentando se iludir a cada dia. Como se pagasse por pecados, Cosme sufoca sua vontade de Mariana enchendo-se de desgosto como quem tenta enterrar um buraco infinito.

Por um lapso de distração, Cosme acabou se reconhecendo ali, diante do espelho. O Cosme de outros tempos, que via no amanhã algo além de mais um hoje. Viu Mariana em seus olhos. “Talvez nós devêssemos dançar”. Não teve dúvidas, voltaria à sua cidade para admitir o grande amor que guardava para os dois; finalmente voltaria a existir e tomar para si a grandeza dos que conhecem o amor.

Correu para a rodoviária. Sem malas, sem preocupações. A partir de agora teria uma nova vida. Não precisaria mais de seu passado-quase-nulo.

Pegou o primeiro ônibus que conseguiu. Estava ansioso. Ninguém ali compreenderia a emergência de sua vida. Estava prestes a começar a viver. Chegou a esboçar um sorriso, enquanto olhava para o relógio e via que em menos de três horas daria início ao irreversível processo da felicidade.

Entrou no ônibus, sentou-se só, olhando pela janela como planejasse seus próximos passos. Carregava consigo um quase-sorriso, como nunca havia visto naquele rosto.

Jamais soube o desfecho desta história, Cosme jamais retornou. Não soube sequer se Mariana realmente existiu.

Sei apenas que ela o fazia viver.

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O tempo do meu ser

postado por Rafaé, o arquipélago.

Hoje acordei e senti: seria diferente. As vontades que deixei passar, hoje seriam vividas. Como fosse o último dia de minha vida, hoje aconteceria tudo o que preciso para existir. Café da manhã reforçado, um passo de cada vez; pois hoje existirá.

Perfume de sexta-a-noite em plena segunda-de-manhã, pois hoje existirá.

Um bom dia sorridente a todos os vizinhos, porque já não me importa que este seja o último; pois hoje existirá.

Um dia especial como outro qualquer. Adentro ao ônibus quase lotado, onde o cheiro do primeiro banho predomina. Os olhares penetram o horizonte, que não tardará a chegar; pois hoje existirá.

O café recém passado na esquina, o bom dia cativante. Um time que ganhou, o outro que perdeu. Felicidades e tristezas que se misturam, embebidas em esperança, prometem um novo dia; pois hoje existirá.

Dentro do meu monitor, um universo que se reinventou. Você que cortou o cabelo, você que perdeu a dignidade, você que falou por falar. Mas isso não importa, já passou; pois hoje existirá.

Passo o dia reinventando o ontem, idealizando o amanhã. O agora não passa de um cumprimento de obrigações. Não me preocupo; pois hoje existirá.

A escuridão começa a raiar seus negros tentáculos no horizonte, tão longe daqui, do décimo andar. (Queria poder compartilhar contigo: o alaranjado-lilás que conquista o azul e enegrece os prédios). Uns minutos a mais de procrastinação, e outro dia estará vencido. Um dia a menos para sexta-a-noite-que-tanto-promete. E da segunda-feira resta a noite onde as surpresas residem; pois hoje existirá.

Agora, nada mais de obrigações, apenas prazeres. Duas ou oito cervejas que me dão o prazer de voltar pra casa. Nenhuma preocupação; pois hoje existiu.

Volto pra casa no mesmo ônibus, com as mesmas pessoas. Os sulcos cavados pelo tempo em sua testa revelam o esforço que lhe foi necessário para que este dia fosse abatido. Seu olhar caído, que não enxerga nada além do reflexo no vidro, revela o quanto lhe custa a vontade de viver, de sentir. Mas nada que justifique desânimo; pois amanhã existirá.

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Cena de um Jantar

Postado por Marco Antonio, o que é só amor.

Apolônio fugiu com uma vizinha e mudou de cidade. Desde então, nada funciona direito para Jacira.

Neste sábado ela está servindo um jantar para “amigos”. Enquanto os convidados admiram as últimas mentiras uns dos outros, o material de que são feitos os talheres, ou algum dos diplomas pendurados estrategicamente para virar assunto, Jacira tenta lembrar de como era a vida antes desse eterno estado de sonho e deja vu, em que nada é interessante de verdade, e tudo parece uma ilusão em tons pastéis.

Um dos canalhas pede para que ela passe a maionese, antes de iniciar uma breve divagação sobre a beleza da decoração da sala. Como previsto. Como se fosse importante. Os convidados falando sobre frivolidades, e ela considerando atear fogo em uma das cortinas da cozinha, na hora de pegar a sobremesa.

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O cosmos nas mãos

postado por Carolina, a da cabeça que não funciona direito.

Pense no cosmos como uma bolsa amarela. Aquela grande massa disforme cheia de galáxias confusas, embalagens de cereal, lençóis freáticos, jovens inconsequentes, tábuas de passar roupa, chiclete mascado sob o banco de madeira, o próprio banco de madeira, toda condensada numa vasta bolsa amarela. Preferencialmente em couro sintético, para uma boa durabilidade sem massacre de animais (que de certa forma poderia ser considerado autoflagelo). Cheia de bolsos para armazenar as galáxias confusas, embalagens de cereal e demais bugigangas a que se conjuga. E amarela.

Você poderia vasculhá-la diariamente e entender melhor as coisas por dentro. Os mais sistemáticos podem organizá-las em compartimentos: aqui vão os derivados de petróleo; aqui, os mamíferos; nesse cantinho, os sentimentos, acompanhados de manual de instruções. O número Pi vai precisar de uma válvula para se expandir, não se esqueça de inseri-lo numa área descoberta. Talvez algum bolso externo, sem zíper. Procure reservar o fundo da bolsa para os buracos negros – mas bem lá embaixo, para que não suguem os colegas. São muito temperamentais para a sociabilidade.

Que possamos segurar o cosmos-bolsa-amarela contra o peito e senti-lo mais de perto. É mais fácil compreendê-lo numa bolsa amarela que espalhado pela infinitude do universo. Que, com o cosmos nas mãos, a angústia de não saber nada sobre nada nem o sentido de coisa alguma enfim se dissipe.

- Que bela bolsa, a sua.

- Puxa, obrigada. É o cosmos.

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Amanhã seria sempre domingo

postado por Rafaé.

Hoje morri e nada aconteceu. Hoje morri e de nada me serviu viver. Tudo o que idealizei não foi preparado. Das poucas coisas que precisei arrumar em vida, por serem tão simples, tão óbvias, foi inevitável adiar.

A cada dia me parecia mais com o cadáver que me tornei. A cada falha, uma desculpa, uma justificativa que me confortou até aqui. Mas já não preciso me justificar nada.

A derrota está escancarada, e de nada me adiantariam as explicações.

Não cheguei sequer a tentar desvendar o enigma dos seus lábios, o labirinto do seu corpo. Contava mentalmente as oito ou onze pintas das suas costas, imaginando os possíveis desenhos que eu faria, ligando-as. Nunca a toquei por mais de um segundo, pois não tinha pressa.

Nosso dia chegaria. Amanhã seria sempre domingo.

Mas o presente me escapava. Me fiz de indiferente, evitando medos, para que estivessem sempre num passado que me justificasse o orgulho da superação.

Finalmente consegui colocar você em um passado. Não preciso mais defender o fato de não…

…a quem posso enganar, se nem mesmo você pode me entender?

Passei não-sei-quantos-dias ao seu lado e não fui capaz de dizer que tenho em você algo essencial para prosseguir? Para adquirir vida.

Estou morto desde que te descobri e não quis pude admitir.

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