O outono levou o meu amor

postado por André Petrini. 

Essa nossa vida gosta mesmo de um romance, né moço? Lembro como se fosse ontem da última viagem que fiz com o meu velhinho. Era um mês de maio bonito, com as folhas caindo para anunciar o outono, e nós achamos que conhecer Buenos Aires seria uma boa comemoração para os nossos 58 anos de casados. Sabe, o Bernardo, o meu velhinho, conseguia fazer até mesmo uma ida à panificadora ficar mais interessante, e sugeriu que fôssemos em segredo, sem contar a ninguém. “Igual fazíamos naquela época…”, ele disse. E eu aceitei. Eu sempre aceitava.

A verdade é que “naquele tempo” ainda tínhamos alguém de quem fugir, mas depois que envelhecemos acabamos sendo a família um do outro. Nossos poucos amigos se foram antes de nós, não tínhamos irmãos e nunca conseguimos ter filhos. Não que não tivéssemos tentado, porque com a energia que ele tinha ficávamos dias e dias sem sair do quarto. Também éramos muito saudáveis (ele comia um limão todos os dias em jejum, pra renovar as vitaminas) mas aconteceu de nunca acontecer. Sabe como é a vida, não adianta ficar forçando as coisas, né? Um dia, quando ele percebeu que aquilo estava me deixando deprimida, voltou mais cedo do trabalho com um buquê de rosas brancas, uma caixa do meu chocolate preferido, e falou que o nosso amor era igual àquele chocolate: tão grande e tão gostoso, que provavelmente deveríamos guardar só pra nós dois. Devia mesmo ser verdade, e eu acreditei. Eu sempre acreditava.

Que que eu tava falando mesmo? Ah sim… nosso vôo fez uma conexão no Uruguai – é conexão que se fala, né? – e o vôo para Buenos Aires atrasou por causa de uma bendita chuva. Eu estava cansada do vôo anterior, e aquelas cadeiras duras do aeroporto estavam me matando! Ele falou que eu não precisava me preocupar, que era pra eu ficar ali esperando enquanto ele ia descobrir o que estava acontecendo. E eu fiquei. Eu sempre ficava.

É incrível, moço. Você passa 50, 60 anos ao lado de uma pessoa, ela sai por 5 minutos pra ir ao banheiro e você já sente saudades. É como se o amor fosse tão urgente, que todo o resto pudesse esperar. E enquanto meu Bernardinho tentava descobrir quando que a gente ia sair daquele aeroporto-país, eu fiquei ali esperando, tentando confortar os meus 75 anos naquela cadeira mais dura que rapadura amanhecida. Ele jurou que não levou mais de 10 minutinhos, mas pra mim demorou mais tempo que a viagem inteira. No início eu achei que ele tivesse parado pra tomar uma água, ou não estivesse entendendo o que as pessoas estavam falando, porque lá embaixo só o Brasil que fala português. Os vizinhos todos falam um espanhol indígena meio arrastado. Mas ele começou a demorar mais, e mais, e você sabe como é a imaginação. A gente sempre pensa no pior. Comecei a imaginar que ele tivesse passado mal, caído em cima das garrafas de whisky caro, tido um ataque do coração, ou valha-me Deus o que mais poderia ter acontecido. Tinha um casal novinho, novinho sentado ao meu lado esperando o mesmo vôo, e percebeu a minha preocupação. Eles tentaram me acalmar, falando que se tivesse acontecido alguma coisa com ele teriam avisado no microfone. É por isso que essa juventude de hoje está estragada, eles acham que está sempre tudo bem. Mas o meu velho poderia ter morrido e eu nem ficaria sabendo, moço! Não era pra ficar preocupada? É o homem da minha vida, eu me preocupei. Eu sempre me preocupava.

Depois disso vi ao longe um homem de cabelos brancos, óculos antigo, jaqueta marrom, calça social, olhando para todos os lados sorrindo e andando meio arqueado, com as mãos cruzadas pra trás – ele dizia que era porque o coração dele era muito grande, então tinha que balancear o peso com as mãos. Aiai meu velhinho… – você tem um lenço aí, moço? Obrigada. As cataratas dificultaram um pouco pra ter certeza que era ele, mas era. E quando eu tive certeza, não sabia se ficava mais aliviada por ele estar bem ou brava pela demora, até que ele chegou dizendo “Amorzinho, o avião vai atrasar mais um pouco, mas está tudo bem. Eu trouxe um chocolatinho pra te deixar mais feliz.”. Acho que eu vou precisar do lenço de novo, moço. Agradecida. Tem como não se emocionar com um homem que depois de tantas rugas ainda te chama de amorzinho e traz chocolate pra ver você sorrir? Eu me emociono. Eu sempre me emocionei.

Algumas semanas depois de voltarmos da viagem o coração dele parou mesmo, e eu entreguei meu velhinho pra Nossa Senhora cuidar até eu chegar lá. Eu fiquei meses sem sair de casa, e estes 3 últimos anos duraram mais que uma vida, até que eu percebi que teria que reaprender a viver. Sabe, tudo de novo? Reaprender a pegar as cartas, a ir comprar pão, a sair na rua sozinha, a ligar a televisão no horário da novela, e a comprar o meu chocolatinho. E a cada vez que eu fazia isso, podia jurar que escutava ele falando “Parabéns, amorzinho” no meu ouvido, como ele sempre fazia. A verdade é que a gente nem percebe o quanto depende de uma pessoa. O meu Bernardinho me ensinou a ver a vida de um jeito mais encantador, mesmo depois de não estar mais aqui. E é por isso que eu estou indo levar as cinzas dele pra jogar em Paris, a cidade mais romântica do mundo. Ele merece, né? Ele sempre mereceu.


Ô moço, agora é você quem está precisando do lenço. Toma aqui. Obrigada, viu?

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Alguns ainda escrevem cartas

postado pela Carol, que confia nas cartas com a fé da vida inteira.

Oi, Martinho,

Escrevo porque prometi mandar notícias, e aprendi com os jornais que notícias são os acontecimentos da vida. Isso me faz sentir meio boba, porque não participei da aprovação de nenhum projeto de lei nem instaurei CPIs. Mas pode deixar minha carta de lado e ocupar-se com a edição do dia, se você quiser.

Bem, caso ainda esteja lendo, na semana passada tropecei da escada e levei três pontos na testa, e ontem eu escrevi um poema pro Genaro.

Na verdade eu peguei um papel em branco, encorajada pela possibilidade de tirar pra fora essa coisa invisível, e meu primeiro instinto foi desenhá-la. Saiu um emaranhado de rabiscos, mas risquei com tanta força que o papel se rasgou.

Peguei outra folha em branco (tenho várias, agora. Comprei até uns lápis de cor). Quase mordi o papel, pra tentar pôr nele o que havia comigo. Comecei a pular com ele nas mãos. Pularia por horas e horas, parando apenas quando as pernas latejassem de modo realmente insuportável, e então quis bater a coisa invisível num saco de boxe até que eu e ela e o saco de boxe fôssemos todos companheiros de coisices. Pus aquele seu vinil de Jelly Morton e me subiu um arrepio da coluna até o topo da cabeça. A música flutuava e eu entrei em transe, como quando ouvíamos jazz no porão. Não queria que acabasse e voltei nela tantas vezes que perdi a conta. O som do piano me transportava a um estado hipnótico, escancarado por aqueles calafrios na nuca que me fazem estremecer. Você zombava muito de mim quando isso acontecia, mas não consigo fazer nada pra evitar.

Abracei a folha em branco e dancei, a vida sendo ali tudo que podia ser, num papel como meu companheiro de dança, o galã que se encanta pela garota desajeitada e solitária no canto do salão. Morton, querido, I could sit right here and I could think a thousand miles away, o jazz era sugado pra dentro de mim pela respiração e pelos poros, e foi aí que eu decidi escrever o poema. Se, na entrega, eu empurrasse o envelope contra o peito do Genaro, se lhe cantasse um jazz ou dobrasse o vinil do Morton cerrando os maxilares, se eu o abraçasse e mordesse, será que ele entenderia? Eu ia acabar arrancando-lhe a pele em desespero… deve ser por isso que vampiros não morrem. Mordem-se e passam a coisa invisível uns aos outros e ela se multiplica em quantidades infiníticas e aí eles conseguem viver para sempre.

O problema é que hoje eu fui entregar o poema pro Genaro. Eu não o abracei nem mordi nem dobrei o vinil do Morton, fique tranquilo. Só disse Genaro-esse-envelope-é-pra-você. Acho que ele pensou que era algum informativo ou recado qualquer, porque me olhou com indiferença burocrática. Como ele podia olhar daquele jeito tão enxuto, imune à força da coisa invisível?

Ele agradeceu, mas não disse mais nada. A menina do segundo andar vinha pelo corredor e lhe desviou a atenção. Ela é tão bonita que seus olhos azuis logo o levaram embora. Espero que se lembre do envelope, mas tudo bem se não se lembrar. Vai ver ela consegue transpassar as coisas invisíveis pelos olhos azuis, ou morde antebraço do Genaro quando fica desesperada de tanto sentir. Ele estava de mangas compridas, então não pude conferir as cicatrizes.

O Genaro e a menina do segundo andar caminharam até a porta num trajeto em linha reta, como quem vive de sensatez. Acho que ele não sabe andar em curvas e nunca tentou ir mais pra lá. Ele acorda, vive suas burocracias e dorme. Tic, tac, tic, tac. Toc, toc, toc. Não: bip, bip, bip, que é mais parecido com essas bugigangas eletrônicas que funcionam com botões e pilhas.

Uma vez ele me disse que preciso parar com a mania de rasgar papéis (imagina se soubesse que danço com eles). Aconselhou-me a paparicar o chefe para conquistar cargos e conhecer pessoas influentes, que usem gravatas e discutam a alta do dólar. Eleger-me vereadora, deputada, presidenta. Disse até que eu deveria alisar os cabelos. “Você precisa ser alguém nesse mundo, Kassandra”. Ao que parece, ainda não sou nada por aqui.

Queria sonhar simples assim. Se ele soubesse o quanto me é difícil ser alguém nesse mundo… Mas suspeito querer algo maior do que possa suportar, e às vezes acho que não caibo aqui. Eu sinto que isso em que a gente vive é uma empresa e estamos num círculo sufocante, onde todos batem ponto, almoçam em horários criados para almoçar e fazem coisas sem perceber que não precisariam fazê-las, se não quisessem. E acho que ninguém realmente quer, mas nos acostumamos a viver a vida desse jeito. Essa coisa de se conformar é muito venenosa pra plenitude.

Sinto sua falta, Martinho. Você sempre soube ir mais pra lá comigo e me trazer de volta quando fosse necessário pagar as contas. No fundo, nós dois sabemos que entreguei o poema ao homem errado. Escrevi aquilo para você, mas já não me lembro do teor, nem das rimas, nem da ordem das palavras.

Está cada vez mais difícil viver nesse mundo. Não gosto da ideia de alisar os cabelos ou ser deputada para que o Genaro goste de mim.

 

Espero que esteja bem.

 

Com muito amor,

Kassandra.

 

P.S.: desculpe-me pelo papel rasgado. Tive de morder a carta algumas vezes antes de colocá-la no envelope.

P.S.S.: não estou levando flores porque sua mãe pôs novas ainda ontem. Margaridas. E também limpou seu túmulo, disse que agora você reflete o sol ao mundo todo. Eu disse que você sempre refletiu e que é uma pena que esteja chovendo. Tem chovido muito por aqui.

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O penúltimo continente perdido

Marco Antonio.

- Você tá morrendo, Fábio. O que a gente podia, a gente fez, mas não tem mais jeito nenhum de combater… esse… mal. Você sabe que a gente tentou, né? Se você começou a acreditar em Deus, acho que era uma boa rezar pra Ele. Sua família tá ali fora.

- Tá todo mundo aí?

- Eu não conheço toda a sua família, mas tem bastante gente. Seu irmão não para de chorar, e o seu pai tá resistindo, mas dá pra ver que ele tá bem triste. Quer que eu chame eles aqui?

- Se você puder, eu agradeço. Mas, se tiver vindo todo mundo mesmo, não vai caber aqui.

- Então não veio todo mundo.

- Imaginei. Acho que eu não mereço…tanto.

- Tem uma criança pequena ali também. Será que deixo entrar, ou você prefere que não?

- Deve ser meu sobrinho.

- Deixo entrar?

- Tanto faz, Carlo. Não tô em posição de preferir muita coisa, agora.

Os amigos compartilharam uma risada quase constrangida. Quase sem graça. Quase sem sentimento. Uma quase risada, sem nenhuma vida. Naquele momento, ambos perceberam que já haviam compartilhado de outras risadas, muito mais animadas e verdadeiras. No tempo em que se divertiam de verdade um com o outro. Nada disseram a esse respeito.

Inês, a enfermeira presente, olhou para Fábio com um pouco de pena. Nos últimos meses, os piores para o (agora) paciente, intensificaram a relação que construíram ao longo dos últimos doze anos. Fábio achou que a moça não ganharia nada olhando para ele daquele jeito triste. Mais que isso: aquele olhar não o ajudaria. Mas ela não tinha culpa, se cedia a um certo sentimentalismo em um momento assim. Uns dias intermináveis de trabalho, mais umas noites no plantão no pronto-socorro iriam, inevitavelmente, apagá-lo das memórias dela, como um efeito colateral de um acidente qualquer em que o destino tivesse se metido. De qualquer forma, este “hoje” ocorreu em um dois de setembro, e ela teria mais com o que se preocupar daqui a três ou quatro dias, quando estivesse em alguma fila para pagar as contas do mês, e isso geralmente consumia bastante da atenção de sua querida amiga, e bastava mais algum tempo, e era isso.

Que fosse.

O que realmente preocupava Fábio era o funeral, seu preço, e todo o mais que isso geralmente envolve. Ele não queria incomodar ninguém.

A família entrou. Fábio queria recitar seu epitáfio.



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Apático

postado por Murilo

Pobres crisântemos, têm seus aromas transformados em odores repugnantes nessas ocasiões. Cheiro de morte, dizem. Se não fosse por eles, no entanto, o cheiro no ar seria de podridão, sobretudo nesse calor. Aliás, que sacrifício ficar de preto nessa temperatura. Seria bom se acontecesse como nos filmes, em que sempre chove nos funerais. Além de um ar mais fresco eu poderia pegar algumas gotas de chuva para usar como lágrimas. Chorando, como todo mundo, talvez eu pudesse fugir dos olhares acusadores, que me viam como culpado pelo suicídio do guri. Mas eu não fiz absolutamente nada, como poderiam me acusar?

Fumar um cigarro pareceria falta de respeito, mas ao menos indicava aos outros que eu estava abalado. Na verdade, eu estava um pouco incomodado sim, mas era com o calor e a choradeira sem fim. Alguns consideravam-me cúmplice do ocorrido, mas eu não fui sequer testemunha. Eu não suspeitava que isso aconteceria, como então seria cúmplice? Doidos. Antes diziam que eu tinha problemas psicológicos, mas, no fim das contas, não fui eu que me matei.

Eu estava com uma bruta fome também. No início do dia havia começado a comer uns amendoins que trazia comigo, mas os olhares censores me convenceram a parar. Guardei o pacote e não comia nada desde então. As pessoas conversavam entre si, mas eu não. Nem mesmo com o guri eu costumava conversar. Também por isso penso: como minhas palavras poderiam ter influenciado em algo? Não, a responsabilidade não era minha e não seria minha agora.

Havia ali uma criança que, como eu, olhava tudo sem entender. Contudo, não precisava fingir pesar. Descobri, no entanto, alguém que se parecia muito mais comigo, e senti que não estava sozinho. O guri dormia profundamente em seu caixão, pálido e impassível. Parecia a ele que nada tinha gosto ou sentido, e que os sorumbáticos pranteavam em vão. Ao meu finado filho, que no fundo eu mal conhecia, sussurrei algumas últimas palavras:

- É rapaz, mais cedo ou mais tarde você haveria de puxar o pai.

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Quase sempre tão juntos

postado por Rafael.

Nunca fui dominado por medos. Mas coragem jamais foi traço forte em mim, até
Como usual, conversamos por escrito. Talvez melhor que em qualquer outro
que encontrei você. A coragem tem falhas decisivas, que infiltram qualquer
formato.
segurança. Por isso, nunca fui um obcecado pela perfeição; nem mesmo a
Vou tentar descrever o que você significou pra mim: uma massa que infla e tem
aparente.
uma cor meio verde-piscina. A cor me inspira tranquilidade e me faz sentir bem,
J
amais diria que você mudou minha vida. Foi apenas uma das histórias com as
muito bem. Quando infla aqui por dentro, me preenche, me faz sentir menos só
quais deparei nessa artéria do espaço e do tempo. Como quem pega pela mão,
e responde a algumas dúvidas (meio sem responder, como se a massa fosse
você me levou a outro mundo, onde eu realmente pude me sentir. Só então pude
resposta em si).
contemplar algo. Não era nada que eu procurasse. Nada que eu desejasse. Era
Mas ela inflou demais, por ter sido tanto e tudo o que foi. Sem ter espaço para
algo que eu não sabia que existia. Algo em mim.
crescer, atingiu meus limites e tive que liberá-la.
A partir de então, nada seria rotina; nada passaria despercebido. Acordar de
Não tive escolhas. As coisas foram acontecendo com uma intensidade que eu
ressaca, com dor de cabeça, tornou-se uma celebração à água. “Como pode, algo
não estava pronta para viver. Forte demais, e são tantas situações – aliás, o que
tão milagroso ser assim, transparente, tão passivo de forma?”. Jamais me
não faltam são situações, de todos os lados. Precisei optar.
esquecerei destes momentos em que a morte não me assustaria, pois tinha a
Eu gosto de mergulhar de cabeça nas coisas que surgem pra mim, mas
certeza de que eu tinha finalmente atingido a vida.
infelizmente sou incapaz de entrar em cabeça em todas elas ao mesmo tempo,
A vida dura para sempre, nós é que a abandonamos. Comigo não foi diferente.
ao menos não sem me afogar. E eu estava me afogando.
Como tivesse sonhado e um despertador me acordado, me vi desprotegido de
Com você percebi que o mundo é mais. Maior do que compreenderíamos.
você. Assim, brusco como tudo o que nos vicia e continua seu caminho, sem nos
Diante de tudo, eu preciso de espaço para que as coisas caibam em mim.
carregar.
Preciso prová-las. Assim como nos provamos. Como nos tivemos.
M
as a morte já não me atingiria, pois nada em mim lembrava vida. Nada que me
Jamais duvide do que eu senti por você e a questão nunca foi essa. Hoje
desse vontade de um amanhã. Já não me enxergava. Não havia pelo que acordar.
posso enxergar, acompanhada destas lágrimas que te pertencem, que

P
assei a viver um mundo de lembranças. Recordando o instante em que
coincidimos, 
e depois media a distância que estávamos deste tempo; dos
sentimentos e, sobretudo, 
da memória.
Vivia uma saudade. Mas não aquela saudade que quer magoar. Apenas uma
saudade 
que celebra o passado. Um passado vivido.
Meus olhos sempre foram pequenos demais para as coisas tão grandes que nos
rodearam enquanto coincidimos. Hoje enxergo o que já não tem mais tamanho.
Sinto falta do que não existe. Algo em torno de qualquer saudade de mim
mesmo. 
Pois quem somos é sempre algo do que fomos, por mais que inventemos
coisas novas. Ainda não sei precisar tudo isso em palavras, pois

***

foi tudo tão rápido que não pude dizer que te amo.

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Anos míopes

por André Petrini.

Shangai, 11 de maio de 2209.

Alice,
hoje faz 8 anos, 5 meses e 13 dias que completei 30 anos e me privaram de te ver crescer, para vir a este lado do mundo pagar os anos míopes de intolerância e escravidão que nossa raça impôs a estes povos, hoje mais amargos que chá de Xia Ku Cao. Você está completando 10 anos, e gostaria de te contar como era o mundo antes de virar este caos.

Tenho certeza que na escola você aprende sobre este período pela ótica oriental, mas saiba que nem tudo era ignorância, e o racismo não era aceito por todos. Pelo contrário, muitos de nós, como o seu avô e bisavô, tentavam ao seu próprio modo trazer um pouco de dignidade e respeito aos que geralmente não tinham isso garantido pela sociedade. Você com certeza já ouviu sua avó falando do Sr. Lee, um chinês muito magro que chegou à nossa casa em busca de abrigo, fugindo de uma fábrica escravocrata.

Nós nunca soubemos seu nome verdadeiro porque, hoje entendo isso na pele, quando se é submetido a regimes de ódio em período integral, tende-se a desconfiar até mesmo de quem te estende a mão. Sempre o chamamos de Lee porque foi uma das poucas palavras que meus pais compreendiam de seu dialeto, e nos anos seguintes ele nunca fez questão de dizer seu nome verdadeiro. Provavelmente um jeito de não nos colocar em perigo caso alguém descobrisse seu paradeiro.

Sr. Lee chegou à nossa casa faminto, doente, vestindo trapos e muito assustado. Nos primeiros dias mal conseguia mastigar e era impossível dizer a cor de seus olhos, e até mesmo se ainda os tinha, tamanho era seu receio de olhar em nossa direção. A ponta de seus dedos já não tinha mais as impressões digitais, suas costas eram profundamente marcadas pelo couro do açoite, e sua perna direita era curvada para dentro, resultado de uma fratura não tratada. Eu ainda era criança, e às vezes ficava intrigado espiando aquele homem de tamanha magreza que tinha seus ossos cobertos apenas pela fina camada de pele, parecendo um esqueleto vestindo pele humana.

Quando Lee se recuperou, meu pai conseguiu um emprego para ele na empresa que trabalhava, e os dois passaram a ir e voltar do trabalho juntos, formando a amizade que você com certeza já ouviu falar. Até hoje me lembro da felicidade estampada em seu rosto quando voltou para casa com o primeiro salário, e quis guardar tudo com medo de ser escravizado novamente. Levou um bom tempo até que conseguisse usar o dinheiro para comprar alguma coisa que não fosse extremamente necessária à sua sobrevivência, e quando o fez, foi para trazer uma bola de futebol nova para mim. Dizia, em sua mistura de mandarim aportuguesado, que agradando o filho se agrada ao pai.

Aqueles foram bons anos para a sociedade de uma forma geral, mas nós não sabíamos a que custo isso estava sendo executado. É difícil dizer como passou despercebido pela maior parte de nós o fato de que nossos povos escravizavam seus semelhantes do outro lado do mundo, em busca de recursos naturais e mão de obra barata. Nunca fora tão fácil comprar roupas, sapatos, eletrônicos, carros, e até apartamentos novos, e ninguém fazia questão de perguntar quem pagava pela diferença.

O resto você já deve ter ouvido falar. Um grupo de chineses escravos conseguiu se comunicar com outro grupo, que se comunicou com outro grupo, e explodiram três fábricas que juntas, concentravam 75% da produção mundial de energia. Alguns grupos de negros, judeus, homossexuais e indianos se juntaram aos chineses e deram o golpe dos até então marginalizados. Com o resto do mundo enfraquecido, a Revolta foi rápida. Mas ao contrário das Guerras anteriores, a única opção que nos foi dada era a de submissão, e a partir de então, todo homem com 30 anos ou mais seria levado para trabalho forçado em suas fábricas. Vivendo tanto tempo escondidos da sociedade, com condições mínimas de sobrevivência, não entendiam como o dinheiro lhes poderia ser mais útil do que limpar a honra dos anos que lhes foram roubados.

Alice querida, não tenho mais muito tempo para continuar a carta, mas apesar de tudo isso não quero que sinta raiva deles. Pelo contrário, peço que seja gentil e amorosa com todos que estão ao seu redor e lembre que se esta carta pode chegar até você, é porque a família do Sr. Lee é grata ao seu avô. Se não o tivéssemos acolhido quando bateu em nossa porta, talvez hoje eu não pudesse te dar os parabéns mais este ano. A nossa distância é grande agora, mas isso é para nos encontramos em tempos melhores, onde a felicidade é plena e constante para todos os povos, porque só assim vale a pena ser feliz.

Feliz aniversário.

Beijos, papai.

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Página 54

Marco Antonio.

 

Essa revista é horrível.

Na página 54, um anúncio publicitário. A foto até que é bonita, com uma imagem composta em camadas. O visual, elegante, me faz lembrar de um seriado famoso da televisão.

No terceiro plano, mais distante, muita madeira. Móveis escuros e caros, iluminação fraca e amarelada. Há um diploma na parede, cuja moldura é bonita, mas não é possível afirmar de qual curso ele atesta o fim, porque tudo ali é desfocado, e as letras no papel são miúdas demais.

Segundo plano: homem de uns 45 anos, levemente grisalho e com a barba por fazer. Trajando roupa social, com a gravata afrouxada e a camisa amassada, passa a impressão de que acabou de chegar do trabalho, onde provavelmente dá mais ordens do que recebe. O conjunto formado por sorriso debochado e cabelo desalinhado avisa, mas o copo de bebida na mão esquerda afirma duas coisas: que ele é casado, e que ele está em um momento de descanso. Estão vendendo conhaque.

Primeiro plano: mensagem em destaque. As palavras “Perder é uma arte” me fazem refletir um pouco, devo admitir.

Devaneio. Vou. Volto. Volto. Volto.

Vou.

Devaneio mais. Ou menos.

Hora de pegar minha carteirinha do plano de saúde. A secretária já fez o que precisava com ela. Autografo um papel.

A revista segue com outros anúncios mais ou menos parecidos. Minha constatação é óbvia, mas válida: os produtos que eles vendem não são para mim. Mas, também, se eu levar em conta que as matérias e entrevistas que aparecem nessas páginas nada tem a ver com o meu estilo de vida, o fato de que tomei conhecimento da minha inadequação a este microuniverso diminui a minha dor. Ainda que não seja exatamente uma dor, isso o que sinto. Não tenho sentido novas dores. Nem novos ódios. O que tenho feito, sim, é medido a vida através de velhos limites, esperando por alguns novos objetivos. É o que posso fazer, mas estes novos objetivos não vêm nunca, aparentemente. Cancelaram a visita e não me avisaram.

Sobre ódios antigos, digo o de sempre: odeio esperar. Ainda mais em consultórios médicos. Odeio música easy listening. E odeio outras coisas que, de fato, valem a atenção.

Esse cenário não faz sentido. Essa revista, também não. Mas, como representação de um aspecto da vida, este pequeno circo simboliza bem o todo das coisas, das situações e dos dias ao qual se refere.

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