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Ta todo mundo conferindo o novo Obscenidade Digital

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Até amanhecer, até morrer

 

O motoboy da pizzaria chegou e ficou olhando para as minhas pernas. Foi estranho, porque não costumo dar confiança para vagabundo, mas dele eu gostei. Ele também gostou do meu shortinho, então acho que tudo bem. Marido viajando, solidão, uma pizza média que comprei para jantar hoje e para sobrar para o café de amanhã. Sei lá. E ele foi tão fofo, com aquele papo de “desculpa a demora, mas juro que acabou de sair do forno”, enquanto apontava para a caixa de comida com a cabeça. “Imagina”, respondi, querendo mesmo que ele imaginasse o que quisesse. “É no cartão, né?”, disse ele, tirando a maquininha daquela caixa enorme que eles carregam na moto. “É sim. Pode ser crédito, né?”, “pode”, “tá. Pizza, vinho com esse frio…hmmmmm”. “Pois é. É bom, né?”. “Aham”. Ele parecia fingir desinteresse, mas tudo bem, porque, no fim, quem sou eu? Que fosse. “E você, trabalha até que horas?”, perguntei. “Até uma meia noite e meia…o cartão não passou. Vou tentar de novo. Desculpa”. “Imagina, desculpa eu…passa esse outro aqui, por favor. Dei o cartão errado”. Um ônibus passou na rua, cheio de gente, ou seja, completamente “repleto de homens vazios”, como diria o Vinícius de Moraes sobre os bares. “Arrisquei um “e vai fazer o que depois do trabalho?”, e ouvi um “Vou dormir, cuidar do meu filho. Minha mulher pediu pra eu levar fralda, que pra amanhã de manhã já não vai ter. Bebê é isso, né?”. “Ah, legal, tem que cuidar mesmo…”. “Ééé”. “Tá bom…brigada, tchau”.

 

Parece que todo mundo está sempre ocupado demais quando é para fazer algo que gere alguma emoção. Ninguém me acompanha. Parece até, pensando assim, que o tempo existe mesmo e que ele é sempre muito curto.

 

Marco Antonio Santos

 

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Storytelling Precoce

por Murilo

Eu tinha um amigo, o Felipe, que sofria desta doença rara chamada “Storytelling Precoce”. Desde pequeno, coitado. Certa vez ele foi obrigado a cumprir o velho clichê escolar chamado redação de minhas férias. Não lembro bem, mas foi algo como:

“Nas minhas férias eu fui para a praia, vi um homem ser queimado por águas-vivas e uma mulher tão gorda que não cabia na sombra do guarda-sol.”

A professora disse que aquilo não era uma redação, era só uma frase. Ela ainda não sabia que Felipe era assim, um cara tão sucinto. E esse problema persistiu com o tempo. Quando ele contava piada, por exemplo, era um desastre. Contava piada de português sem se dar ao trabalho de imitar o sotaque do portuga, contava piada do Joãozinho sem imitar a voz aguda do menino, e era comum entregar os finais logo no começo. Com o tempo, teve que se adaptar a sempre contar as mais curtas.

“Soy paraguayo y estoy aquí para matar-te.”
“Para quê?”
“Paraguayo.”

Felipe era engraçado. Ao seu modo, mas engraçado. Acredito que o mais curioso era o fato de sempre ter histórias incríveis, extraordinárias, mas não saber como contá-las. Quando perguntavam sobre suas diversas viagens, por exemplo:

“E aí, como foi sua viagem para a Romênia?”
“Foi massa. Fui preso.”
“Como é que é?”
“É. Tava transando com duas romenas em um local público. Daí me pegaram.”
“Caaara! Mas conta! Como foi isso?”
“Foi assim.”

E o que renderia horas de papo acabava se reduzindo a alguns efêmeros segundos de alegria.

Para se aproximar das garotas ele também tinha dificuldades. Os assuntos acabavam muito rápido. Sorte que um dia encontrou a mulher perfeita para seu caso. Não surda, mas que falava pra cacete, o que dá quase no mesmo. E ele encontrou também um pequeno talento: escrever microcontos.

“Naquela noite, ela reclamou até que o carpaccio estava cru.”

“Overdose de Prozac. E morreram felizes para sempre.”

“Deixei-te flores sem saber que enfeitariam o túmulo do nosso amor.”

Foram tantos. Não me surpreenderia se hoje ele lançasse um livro inteiro.

Felipe era um cara legal. Fui aprendendo a conviver com ele. Com o tempo, acho que ficamos até mais parecidos.

É, foi assim.

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Abelha hoje em dia

Em um arranjo de flores pousa uma abelha. Meia volta em direção ao lixo, há um belo copo de refrigerante.

Muitos carros buzzzzzzzinam.

 

Henrique Chefe.

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Ela

Ouço alguém me chamar.

Oi?!

Lembro que estou sozinho.

Minha mãe falava pra nunca responder.

Se estiver sozinho pode ser ELA.

ELA quem?!

Você sabe.

Nunca acreditei nessa babosei…BLAM!

 

Saul Machado

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31 anos de arrependimento por ter pensado em ’30 anos de parasitismo’

Eu não sei de onde você

veio. E quem sou eu

pra julgar o que quer que seja?

Pois é.

O dia passa. A noite passa. A raiva também. E nunca fez sentido. Muito bem.

Essa paz que vejo é da luz que você vive.

Essa luz que vejo é da paz que você é.

O dia passa. A noite passa. A raiva também. E se nunca fez sentido,

tudo bem.

 

Marco Antonio Santos

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uma vez mais

por Rafael

abro a porta, é você
matamos saudades
as suas

e você volta

e eu mergulho

num passado
que só

quero sair.

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Dependência

Atrasado, entrou no ônibus às 7:30 e deixou o troco com o cobrador.

Gostava da chuva.

– Que tempinho feio – disse o velho sorridente tentando iniciar conversa.

– Tempo ruim.

Olhou pela janela procurando verdade.

Não encontrou.

 

Bruno Vaccari

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De volta aos garranchos

Hoje a tinta de minha caneta escureceu em luto. Antes azul, aos poucos fez negros todos os garranchos sobre o papel.

Pois a morte me revelou sua verdadeira face. E logo eu soube que a gadanha, sempre escondida, cedo ou tarde viria a se revelar. E percebi que aquilo que começou lúgubre não poderia terminar diferente.

Afinal, ela é assim, não pode ser compreendida ou controlada, nem mesmo por si própria. Acaba com tudo por mero acaso e, por mais sutil, sempre faz estrago. É viciada em desconforto, euforia, dorme em uma cama de espinhos. Em cada porto seguro que encontra faz questão de atear chamas.

No entanto, os espíritos que não partem da melhor forma são aqueles que acabam voltando. E assim estou de volta, vida cã. Confesso que senti saudades.

De volta à garoa fina e aos sons brutais a machucarem os ouvidos. Ao veneno puro de lágrimas engolidas. E à consciência de que o amor existe, mas, assim como a paixão, também se acaba.

Acaba como a história daquele escritor que, não sabendo como finalizar sua bela obra, jogou ao lixo todas as admiráveis páginas anteriores.

Resta-me também jogar aquelas cartas de outra vida à lixeira. Esse local aparentemente irrelevante que às vezes guarda o que mais queremos esconder. A lixeira, que guarda o que há de pior em cada um de nós.

M.

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Pela janela

– Se a Deise não tivesse aparecido na minha vida, ou eu tava preso, ou eu tava morto.

– Eita.

– Sério.

– Por quê?

– Cê tinha que ver minha disposição quando eu era mais novo. Ainda mais morando do lado do Paraguai.

– Onde cê morava?

– Perto lá.

– E o quê que tinha lá?

– Tinha tudo. Eu levantava um dinheiro. Trazia produto da fronteira, repassava maconha. Tudo que desse grana eu fazia…

– Nah, tudo, tudo, cê num fazia.

– …mas só gastava com merda, também. Aí num adianta, né?! Festa, puta, moto. Um monte de merda. Aí, conheci ela…aí que veio a coisa.

– Que coisa?

– Sei lá.

– Porra, mas que bom, né?! Pelo menos você tá aqui agora.

– É, irmão. Tô te falando.

– Será que tem café ali naquela lanchonete?

– Tem, mas é ruim.

– Vou pegar um.

– Pega um pra mim também?

– Pego sim.

 

Marco Antonio Santos

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Afluentes

Somos parte de um rio. Seguimos a mesma direção. Vamos para o mesmo lugar. Não sabemos nossas motivações. Nossas capacidades. Nossas fragilidades. Não sabemos de nada. Apenas vamos. Mais uma força da natureza.

Alguns viram lagos. Se desprendem da correnteza. Ficam ilhados em meio a terra. Solitários. Vez ou outra, pela manhã, a neblina vem lhes fazer companhia. Mas logo se vai, num sopro. O sol os castiga. Tudo seca. Tudo os cerca.

O velho rio, virou mar. Conservou o ímpeto. Ignorou as dúvidas. Foi. Hoje é água salgada. É um amontoado de vontades e experiências. E faça chuva, faça sol. Todos os dias vai de encontro à praia. Vira espuma. Depois volta a ser mar.

Gabriel Protski

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Barbatanas

O que fizestes com tuas brânquias, oh criatura? Pensas então que não eras mais feliz em barbatanas? Abandonastes o que te deram, os benefícios com que a natureza lhe proveu. As facilidades vencedoras das dificuldades. As adaptações. Eras melhor, criatura! E veja o que fizestes dispensando tais atributos.

Oras, por que, criatura!, por que abandonastes? Não sabias você o que tinhas atado ao seu corpo singelo? Não que singelas fossem frágeis, eram fortes, como eram! E ainda assim trocastes tuas fabulosas habilidades por rotas e deterioradas falanges, parcos acessórios de coisas caídas e depreciadas. De devoluções.

Onde largastes tuas nadadeiras? Dorsais e branquiais, elementares, impactantes adereços de sua fisiologia, de suas impressionantes hidrodinâmicas. Habilidosas características de criatura tão espetacular. E, ao mesmo tempo, de criatura tão ingrata pelo que tivera.

Não aceitardes as possibilidades anatômicas que se lhe criaram, que se lhe deram. E de maneira grotesca abandonastes o torpor líquido. Abandonastes a flutuância, maldita criatura! A capacidade de estar solta, livre, e mergulhante em três dimensões. Deixastes o líquido, a vida, e as possibilidades. Deixastes nadadeiras, barbatanas e brânquias para trás.

Em troca de quê, estúpida criatura? Em troca de pulmões controversos. De brônquios. Que criatura incipiente trocaria lindas brânquias por defectos brônquios? No entanto, tu fizestes, abandonastes o líquido todo que te deram. E agora caminhas bípede, balbucia palavras, e explode coisas. Tivestes tuas chances, mais de uma, por certeza mais de uma. E infelizmente abandonastes barbatanas.

 

Jhonny Castro

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Queria

Queria água encanada.

Queria água quente.

Queria uma toneira monocomando (http://bit.ly/1l7asPq).

Queria ser feliz.

Henrique Schaefer

 

 

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Jovem escorrega e cai do oitavo andar no centro da cidade

Rômulo Candal

Ouviu o nome enquanto passava ao lado de uma tevê ligada no jornal local, durante a fila do bufê, indo do nhoque à bolonhesa pra lasanha quatro-queijos e só conseguiu pensar “nossa, que coincidência esquisita”, mas o pensamento passou tão rápido que Mariana nem prestou muita atenção. Renan Oliveira era um nome relativamente comum, afinal. “Se não me engano tinha até um jogador do Coxa com esse nome”, ela pensou. Perguntou pro colega chato que, infelizmente, se convidou pra almoçar com ela, se realmente havia um jogador do Coxa com esse nome e ele respondeu que sim, que houve um jogador do Coxa com esse nome e que inclusive era fraquíssimo. Parece que tinha ido pro Grêmio. Ou Goiás. Era com G. Mariana pegou um pedaço de lasanha e seguiu para a carne de panela, sem pensar mais na estranha coincidência de ter ouvido o nome de seu ex-namorado ser dito no jornal local.

Na mão direita de Renan, apenas um bilhete que dizia: “não confie em mim. eu não sou confiável”. A imprensa não divulga, mas à boca pequena dizem que foi suicídio. 

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Teu nome é tempo, vento, vendaval

Recreio em uma escola municipal, três anos atrás.

Era junho e o frio tinha começado a incomodar, o que fazia todo mundo ficar meio desconfortável e se vendo forçado a tirar as peças mais pesadas do guarda-roupa. Alunos, Pais & Mestres pareciam picolés, curiosamente. Todos meio duros dentro de toucas e jaquetas pesadas. Seria mais engraçado comentar este fato se todo mundo tivesse condições de ter roupas boas, mas isso não acontecia lá. Nós, da equipe da escola, fazíamos o possível para dar conforto a todos, permitindo que as crianças ficassem dentro das salas de aula nos piores dias.

Isa, Lu e Jé, as três de seis anos, saíram juntas da minha sala, como era rotina em todas as quartas-feiras daquele primeiro semestre letivo. Avisei do intervalo e elas começaram a se mostrar animadas através dos olhares que trocaram, por razões óbvias. Elas não gostavam da minha aula. Professora sabe quando o aluno é assim. Não me acho melhor que ninguém por gostar do que gosto, no caso matemática, ainda mais porque cada qual deve mesmo fazer o que quer, desde que aguente conviver com as consequências dos próprios atos. E embora as crianças não pensem nestes termos anteriores, elas também sabem de tudo, porque todo mundo sabe.

Quem forma nossos hábitos? Nossa Força de Vontade, ou sua irmã, a Apatia?

As três costumavam brincar de boneca num canto do pátio, inventando historinhas que às vezes contavam com príncipes encantados, às vezes não, às vezes contavam com provações e correria, aventura e griteiro, às vezes não etc. Nenhum colega existia para elas naqueles momentos. Parecia que elas gostavam mais de viver a imaginação que o normal da vida, caso esta divisão exista. Gosto desse método de uso do tempo – partindo da hipótese de que o tempo é mesmo algo utilizável como um objeto qualquer, tal como um garfo, uma régua ou um controle remoto.

Fiquei observando a cena. Estava tudo bem, até que a Lu decidiu acabar com a brincadeira. Ainda não tenho coragem de nomeá-la por extenso, o que é uma pena.

Interessa que ela era mal educada demais. Folgada, manhosa. Ainda bem que não preciso mais olhar para aquele rosto estranho e desafiador, cheio de perguntas, perdido. Em essência, acho que todos temos e somos nossos próprios desafios, estranhezas e descaminhos. Acho também que o problema do que penso ou não é inteiramente meu, pelo que peço licença, mas jamais desculpas.

A Demônia esperou as outras meninas se distraírem, pegou uma boneca sobressalente no contexto da fábula da vez e a escondeu atrás do bebedouro do pátio, ao lado de onde estavam. As outras duas quiseram usar, claro, exatamente aquela peça para alguma brincadeira por volta de quarenta segundos depois. Procuraram infrutiferamente pela região das pernas, atrás das lancheiras pequenas, e a sonsa então decidiu fingir que ajudava o grupo, Figura Má que era.

Observando o desespero das colegas, dirigi-me ao local e resolvi a situação, devolvendo o item ao lugar em que ele estava, tornando-o disponível novamente para o que quer que fosse.

Tenho ainda a imagem do olhar de desespero que Lu me lançou naquela hora. Ela não gostou do flagrante. Eu gostei um pouco, pelo que me arrependo.

O problema é que a perversidade dela naquela sequência de fatos denunciou a minha própria, já que só se lê em linguagem conhecida. Quanto ao desespero, foi ainda pior para mim. Desde então durmo mal, e às vezes chego a levantar para escrever nesse computador velho. Não funciona.

Marco Antonio Santos

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