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O curumim que matou a lua

postado por Carolina

Na imensidão da floresta um curumim brincava e pulava e ria à solta como riem as crianças indígenas. Com o arco e a flecha nas mãos, praticava a pontaria acertando possíveis alvos que encontrasse pelo caminho, de pedras a folhas, num sensível treinamento para tornar-se, algum dia, um dos caçadores de confiança na tribo.

Eis que então avista a lua – branca, pura, crua, nua. Tão limpa que lhe ofusca os olhos. É Jaci, rainha da escuridão e mãe de todos os frutos, que ilumina a terra durante as noites e renova os espíritos para a vida no próximo dia. Brilha tanto, e mais que tudo, que comove o curumim. Desesperado por tamanha beleza, agarra-se ao arco em busca dum consolo concreto para encanto sem igual, e cego de amor atira uma flecha rumo ao céu.

A ponta da lança sobe percorrendo uma linha oval acima das árvores, e sobe alta, tão elevada quanto a força luminosa que a lua exerce sobre a terra. Desafiando a gravidade, a flecha sobe mais e mais; ao chegar ao topo, toca a superfície globosa e branca do satélite. O contato entre a ponta afiada da lança e a face lunar ocasiona um enorme estrondo, e logo pedaços brancos escorrem do céu aos pés da criança.

Sem querer, sem intencionar, e em pleno estado de terror, o curumim se dá conta de que sua flecha havia acertado a lua.

Quase sem fôlego pelo assombro, o curumim recolhe os restos da lua que encontra pelo chão e corre até a aldeia, com a terrível sensação de culpa que deve atormentar a alma dos piores assassinos. Sabia que seria responsabilizado pelo crime com a pena mais grave da aldeia, mas isso não lhe preocupava. Ele matara a lua. Com as mãos na flecha, tirou a vida e a luz daquela que era a mais sublime entre as deusas.

Ao chegar à aldeia, o curumim interrompe aos prantos o sono do pajé da tribo. Tão logo cruza com os olhos da criança, o ancião se dá conta de que algo grave aconteceu. Senta-se a seu lado pronto a ouvir a história, e fecha os olhos em reflexão quando escuta a inconsolável verdade: a lua estava despedaçada.

O pajé recorre a seus conhecimentos mais antigos e se dirige ao centro da aldeia, onde posiciona a si e ao curumim ao redor da fogueira. Sobre ela, despeja os restos da lua e a flecha responsável pelo acidente. Entre a fé e a aflição, dançam em torno das chamas, proferindo de olhos cerrados e com toda a esperança que há no mundo um hino mágico indígena, em homenagem à deusa que dá luz à escuridão. A melodia atrai outros habitantes da tribo, que se emocionam com a dança infeliz e juntam-se ao pajé e ao curumim para entoarem, juntos, a canção que faria a lua retornar.

O canto ressoa por toda a floresta, e pouco a pouco a leveza das chamas orienta a fumaça para cima, como se bailassem junto à tribo. Finalmente, quando as labaredas parecem atingir o topo do mundo, o curumim se atreve a olhar. Ergue a cabeça e seu gesto é então repetido por toda a roda; era um milagre. Jaci estava outra vez posicionada em meio ao céu.

A lua voltara, mais brilhante e cheia do que nunca. A canção mágica a salvou. Tudo estava bem outra vez.

A poucos quilômetros da aldeia, um grupo de pesquisadores sai em busca do balão branco e luminoso que deixaram flutuar sobre a floresta por algumas horas. Adentrando a mata, localizam pelo chão os resquícios brancos do material, um arco de madeira e pequenos pingos de luz espalhados no caminho, que jamais descobririam ser as lágrimas de amor de uma criança. Aparentemente, alguém havia acertado com uma flecha o balão de pesquisa.

Ao alto, uma lua cheia sorria, inabalada. Próximo dali, um garoto trocava a noite de sono por contemplar o céu. Na desesperada certeza de ter matado a lua que tanto amava, o curumim não pôde ver que ela nunca deixara de estar ali.

 

*Inspirado numa história em quadrinhos do Papa Capim que li quando criança e da qual jamais me esqueci.

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Até amanhecer, até morrer

 

O motoboy da pizzaria chegou e ficou olhando para as minhas pernas. Foi estranho, porque não costumo dar confiança para vagabundo, mas dele eu gostei. Ele também gostou do meu shortinho, então acho que tudo bem. Marido viajando, solidão, uma pizza média que comprei para jantar hoje e para sobrar para o café de amanhã. Sei lá. E ele foi tão fofo, com aquele papo de “desculpa a demora, mas juro que acabou de sair do forno”, enquanto apontava para a caixa de comida com a cabeça. “Imagina”, respondi, querendo mesmo que ele imaginasse o que quisesse. “É no cartão, né?”, disse ele, tirando a maquininha daquela caixa enorme que eles carregam na moto. “É sim. Pode ser crédito, né?”, “pode”, “tá. Pizza, vinho com esse frio…hmmmmm”. “Pois é. É bom, né?”. “Aham”. Ele parecia fingir desinteresse, mas tudo bem, porque, no fim, quem sou eu? Que fosse. “E você, trabalha até que horas?”, perguntei. “Até uma meia noite e meia…o cartão não passou. Vou tentar de novo. Desculpa”. “Imagina, desculpa eu…passa esse outro aqui, por favor. Dei o cartão errado”. Um ônibus passou na rua, cheio de gente, ou seja, completamente “repleto de homens vazios”, como diria o Vinícius de Moraes sobre os bares. “Arrisquei um “e vai fazer o que depois do trabalho?”, e ouvi um “Vou dormir, cuidar do meu filho. Minha mulher pediu pra eu levar fralda, que pra amanhã de manhã já não vai ter. Bebê é isso, né?”. “Ah, legal, tem que cuidar mesmo…”. “Ééé”. “Tá bom…brigada, tchau”.

 

Parece que todo mundo está sempre ocupado demais quando é para fazer algo que gere alguma emoção. Ninguém me acompanha. Parece até, pensando assim, que o tempo existe mesmo e que ele é sempre muito curto.

 

Marco Antonio Santos

 

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Storytelling Precoce

por Murilo

Eu tinha um amigo, o Felipe, que sofria desta doença rara chamada “Storytelling Precoce”. Desde pequeno, coitado. Certa vez ele foi obrigado a cumprir o velho clichê escolar chamado redação de minhas férias. Não lembro bem, mas foi algo como:

“Nas minhas férias eu fui para a praia, vi um homem ser queimado por águas-vivas e uma mulher tão gorda que não cabia na sombra do guarda-sol.”

A professora disse que aquilo não era uma redação, era só uma frase. Ela ainda não sabia que Felipe era assim, um cara tão sucinto. E esse problema persistiu com o tempo. Quando ele contava piada, por exemplo, era um desastre. Contava piada de português sem se dar ao trabalho de imitar o sotaque do portuga, contava piada do Joãozinho sem imitar a voz aguda do menino, e era comum entregar os finais logo no começo. Com o tempo, teve que se adaptar a sempre contar as mais curtas.

“Soy paraguayo y estoy aquí para matar-te.”
“Para quê?”
“Paraguayo.”

Felipe era engraçado. Ao seu modo, mas engraçado. Acredito que o mais curioso era o fato de sempre ter histórias incríveis, extraordinárias, mas não saber como contá-las. Quando perguntavam sobre suas diversas viagens, por exemplo:

“E aí, como foi sua viagem para a Romênia?”
“Foi massa. Fui preso.”
“Como é que é?”
“É. Tava transando com duas romenas em um local público. Daí me pegaram.”
“Caaara! Mas conta! Como foi isso?”
“Foi assim.”

E o que renderia horas de papo acabava se reduzindo a alguns efêmeros segundos de alegria.

Para se aproximar das garotas ele também tinha dificuldades. Os assuntos acabavam muito rápido. Sorte que um dia encontrou a mulher perfeita para seu caso. Não surda, mas que falava pra cacete, o que dá quase no mesmo. E ele encontrou também um pequeno talento: escrever microcontos.

“Naquela noite, ela reclamou até que o carpaccio estava cru.”

“Overdose de Prozac. E morreram felizes para sempre.”

“Deixei-te flores sem saber que enfeitariam o túmulo do nosso amor.”

Foram tantos. Não me surpreenderia se hoje ele lançasse um livro inteiro.

Felipe era um cara legal. Fui aprendendo a conviver com ele. Com o tempo, acho que ficamos até mais parecidos.

É, foi assim.

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Como deveriam ser os dias

por Carolina

O sol me acorda por uma fresta na cortina.

Com um feixe de luz a definir, em parte do meu rosto, uma grossa linha calor solar, decido que hoje trocaria o pensar pelo sentir. Em vez de deliberar meus passos e gestos a partir de impulsos racionais do cérebro, descolados das batidas emocionais do coração e carregados das preocupações cotidianas, eu faria o que tivesse vontade (não vos alarmais, forças divinas, eu não intenciono causar mal a ninguém nem penso ser este o sentido de “liberdade”). Está definida a última definição do dia; seguirei hoje aquela coisa invisível que não se pode ver e que está sempre oculto por dentro da gente, doida pra saltar afora, sempre à espera de quando deixaremos de lado esses pensamentos todos e nos voltaremos para o que importa de verdade.

A mente esvaziada de banalidades, aquelas tantas besteiras inúteis, as contas a pagar e que horas são, e ainda preciso entregar aquele relatório, maldito relatório, odeio relatórios, odeio sobretudo entregá-los a meu detestável chefe, logo cede espaço a uma sensível percepção do ambiente. Meu olhar recai sobre a garrafa térmica vermelha que Verônica deixou à mesa antes de sair. O gole me desce quente e reconfortante pela garganta, sem o peso do hábito ou a busca racional por cafeína. Eu caminho lentamente para fora da casa e sento à grama para ouvir o disco do Boldrin.

Ainda inspirado pelo sol, vejo a velha Barra Forte esquecida ao lado do carro. Quantas vezes o bagageiro já conduziu amigos embriagados à sóbria segurança de seus lares, ou uma Verônica de perna quebrada como um peso extra na garupa. Por meses não conseguiu caminhar depois do tombo que levou no casamento da irmã. Quero tocá-la e meus dedos escorregam suaves pela bicicleta, como um músico que dedilha o piano há muito abandonado ao canto da sala. Não sinto vontade de dirigir, embora faça isso todos os dias, e num impulso afetivo saio de casa pedalando até a avenida principal da cidade.

Mas sem planejar eu mudo o rumo do trajeto. A longa estrada que leva os trabalhadores do bairro aos seus ofícios diários também conduz ao mar quem se atrever a tomar o caminho contrário. Não muito longe dali havia a praia, pouco frequentada durante a semana, substituída pelos prédios com seus relógios de ponto. Sinto a pretensão de vê-la. Quero um dia na companhia do mar.

O tempo segue meu até o anoitecer, entre peixes e mergulhos, do cheiro de maresia ao sol e céu e sal, quando a lembrança da casa onde moro me faz subir à bicicleta e retornar. Verônica sorri quando abro a porta, cheio de suor e de saudades. A poeta é ela, mas antes de rumar o banho e cortarmos a cebola sou eu quem anota num pedaço de papel:

É ela, Verônica
que matiza esta
vida marginal
mulher biotônica
de tom e de cor
e som acima do som
supersônica.

Talvez amanhã eu acabe calculando uma desculpa qualquer para me justificar no escritório. Tive diarréia, ou a Verônica teve diarréia, ou – inacreditável, eu sei! – fui vítima de um terrível furacão que atingiu apenas a minha casa e me manteve soterrado e preso aos escombros. E os bombeiros só chegaram às 18h, depois do expediente, vejam só como está esse país.

Mas hoje não me importo com nenhuma destas bobagens, porque escolhi sentir.

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Abelha hoje em dia

Em um arranjo de flores pousa uma abelha. Meia volta em direção ao lixo, há um belo copo de refrigerante.

Muitos carros buzzzzzzzinam.

 

Henrique Chefe.

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Ela

Ouço alguém me chamar.

Oi?!

Lembro que estou sozinho.

Minha mãe falava pra nunca responder.

Se estiver sozinho pode ser ELA.

ELA quem?!

Você sabe.

Nunca acreditei nessa babosei…BLAM!

 

Saul Machado

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