Noites pretas

Como seria

um dia inteiro

de alegria?

 

Será que as flores

se abririam, em gratidão

por este sol que nunca morre?

 

Ou, mais lindo: as palavras ganhariam sentido?

Marco Antonio Santos

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Como deveriam ser os dias

por Carolina

O sol me acorda por uma fresta na cortina.

Com um feixe de luz a definir, em parte do meu rosto, uma grossa linha calor solar, decido que hoje trocaria o pensar pelo sentir. Em vez de deliberar meus passos e gestos a partir de impulsos racionais do cérebro, descolados das batidas emocionais do coração e carregados das preocupações cotidianas, eu faria o que tivesse vontade (não vos alarmais, forças divinas, eu não intenciono causar mal a ninguém nem penso ser este o sentido de “liberdade”). Está definida a última definição do dia; seguirei hoje aquela coisa invisível que não se pode ver e que está sempre oculto por dentro da gente, doida pra saltar afora, sempre à espera de quando deixaremos de lado esses pensamentos todos e nos voltaremos para o que importa de verdade.

A mente esvaziada de banalidades, aquelas tantas besteiras inúteis, as contas a pagar e que horas são, e ainda preciso entregar aquele relatório, maldito relatório, odeio relatórios, odeio sobretudo entregá-los a meu detestável chefe, logo cede espaço a uma sensível percepção do ambiente. Meu olhar recai sobre a garrafa térmica vermelha que Verônica deixou à mesa antes de sair. O gole me desce quente e reconfortante pela garganta, sem o peso do hábito ou a busca racional por cafeína. Eu caminho lentamente para fora da casa e sento à grama para ouvir o disco do Boldrin.

Ainda inspirado pelo sol, vejo a velha Barra Forte esquecida ao lado do carro. Quantas vezes o bagageiro já conduziu amigos embriagados à sóbria segurança de seus lares, ou uma Verônica de perna quebrada como um peso extra na garupa. Por meses não conseguiu caminhar depois do tombo que levou no casamento da irmã. Quero tocá-la e meus dedos escorregam suaves pela bicicleta, como um músico que dedilha o piano há muito abandonado ao canto da sala. Não sinto vontade de dirigir, embora faça isso todos os dias, e num impulso afetivo saio de casa pedalando até a avenida principal da cidade.

Mas sem planejar eu mudo o rumo do trajeto. A longa estrada que leva os trabalhadores do bairro aos seus ofícios diários também conduz ao mar quem se atrever a tomar o caminho contrário. Não muito longe dali havia a praia, pouco frequentada durante a semana, substituída pelos prédios com seus relógios de ponto. Sinto a pretensão de vê-la. Quero um dia na companhia do mar.

O tempo segue meu até o anoitecer, entre peixes e mergulhos, do cheiro de maresia ao sol e céu e sal, quando a lembrança da casa onde moro me faz subir à bicicleta e retornar. Verônica sorri quando abro a porta, cheio de suor e de saudades. A poeta é ela, mas antes de rumar o banho e cortarmos a cebola sou eu quem anota num pedaço de papel:

É ela, Verônica
que matiza esta
vida marginal
mulher biotônica
de tom e de cor
e som acima do som
supersônica.

Talvez amanhã eu acabe calculando uma desculpa qualquer para me justificar no escritório. Tive diarréia, ou a Verônica teve diarréia, ou – inacreditável, eu sei! – fui vítima de um terrível furacão que atingiu apenas a minha casa e me manteve soterrado e preso aos escombros. E os bombeiros só chegaram às 18h, depois do expediente, vejam só como está esse país.

Mas hoje não me importo com nenhuma destas bobagens, porque escolhi sentir.

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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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Abelha hoje em dia

Em um arranjo de flores pousa uma abelha. Meia volta em direção ao lixo, há um belo copo de refrigerante.

Muitos carros buzzzzzzzinam.

 

Henrique Chefe.

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O Volúvel e o Volátil

Gabriel Protski

A vida segue em meio a grandes explosões. Uma espécie de Big Bang particular. A base de tudo que acreditamos foi construída na ruína de nossas antigas crenças. Herdamos valores do nosso meio. Herdamos tudo o que não queremos. E negamos. Nossa vontade de mudar é iminente, sintomática. E essa vontade, nosso combustível. Que, na pior das hipóteses, se não fizer com que nos movamos, nos fará explodir.

 

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no centro do palco

por Rafael.

o tempo não hesita
em nos tornar

coadjuvantes

de nossos
próprios

de
fei
tos.

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As loucas da tarja preta

por Nina Zambiassi

Eu amo as loucas da tarja preta
Estriquinadas e mal amadas
acelerando para desacelerar

Todas iguais
as loucas da tarja preta
não querem voltar pra casa
encontrar seus problemas
todos de mãos dadas

Como serão solitárias suas casas
suas mentes drogadas
criando maneiras de ser normais

Não me reparam
as loucas da tarja preta
o meu pensamento lento e aéreo
se dissolve à química moderna

Me limito a imaginar
tamanha excitação
das loucas da tarja preta
ao ouvir o médico dizer
que a dose vai ter que aumentar

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