31 anos de arrependimento por ter pensado em ’30 anos de parasitismo’

Eu não sei de onde você

veio. E quem sou eu

pra julgar o que quer que seja?

Pois é.

O dia passa. A noite passa. A raiva também. E nunca fez sentido. Muito bem.

Essa paz que vejo é da luz que você vive.

Essa luz que vejo é da paz que você é.

O dia passa. A noite passa. A raiva também. E se nunca fez sentido,

tudo bem.

 

Marco Antonio Santos

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uma vez mais

por Rafael

abro a porta, é você
matamos saudades
as suas

e você volta

e eu mergulho

num passado
que só

quero sair.

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Luzes que Vagam

por Jhonny Castro.

– Será que dá pra fotografar os vaga-lumes?

– Com uma boa câmera, e abertura de lente e tudo mais, talvez dê.

– Vou tentar com essa mesmo.

– Mas desliga o flash, ele tá perturbando os bichinhos.

– Sem flash não vejo eles, só aparecem dois pontinhos luminosos no fundo preto.

– Então tira foto das estrelas e diz que é vaga-lume, que no fim é a mesma coisa.

– São diferentes.

*flash*

– Mas dá pra enganar as pessoas, dizendo que na foto dos vaga-lumes são estrelas, e que a das estrelas são vaga-lumes.

– Mas quem me garante que aqueles não são mesmo os vaga-lumes, e essas aqui embaixo as estrelas? As coisas só tem os nomes que damos a elas.

– Você sabia que boa parte das estrelas que nós vemos já nem existem mais?

– Se você apagar a luz vai dar pra ver melhor os vaga-lumes no quintal, lá atrás.

– Eu prefiro ver os vaga-lumes lá de cima.

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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paranoia

por Rafael

horas com o celular na mão, contando as vezes que Você fica online no whatsapp sem falar comigo.

hoje, 17, até agora.

fosse eu até o final destas linhas, 20.

quem tanto
a tem?

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Dependência

Atrasado, entrou no ônibus às 7:30 e deixou o troco com o cobrador.

Gostava da chuva.

– Que tempinho feio – disse o velho sorridente tentando iniciar conversa.

– Tempo ruim.

Olhou pela janela procurando verdade.

Não encontrou.

 

Bruno Vaccari

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De volta aos garranchos

Hoje a tinta de minha caneta escureceu em luto. Antes azul, aos poucos fez negros todos os garranchos sobre o papel.

Pois a morte me revelou sua verdadeira face. E logo eu soube que a gadanha, sempre escondida, cedo ou tarde viria a se revelar. E percebi que aquilo que começou lúgubre não poderia terminar diferente.

Afinal, ela é assim, não pode ser compreendida ou controlada, nem mesmo por si própria. Acaba com tudo por mero acaso e, por mais sutil, sempre faz estrago. É viciada em desconforto, euforia, dorme em uma cama de espinhos. Em cada porto seguro que encontra faz questão de atear chamas.

No entanto, os espíritos que não partem da melhor forma são aqueles que acabam voltando. E assim estou de volta, vida cã. Confesso que senti saudades.

De volta à garoa fina e aos sons brutais a machucarem os ouvidos. Ao veneno puro de lágrimas engolidas. E à consciência de que o amor existe, mas, assim como a paixão, também se acaba.

Acaba como a história daquele escritor que, não sabendo como finalizar sua bela obra, jogou ao lixo todas as admiráveis páginas anteriores.

Resta-me também jogar aquelas cartas de outra vida à lixeira. Esse local aparentemente irrelevante que às vezes guarda o que mais queremos esconder. A lixeira, que guarda o que há de pior em cada um de nós.

M.

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sonhava ser poeta

por Rafael.

sempre sonhei
que para
ser poeta
era só rimar
ou dar enter
quebrando tudo
ou uma frase
em várias coisas.

no fundo
era.

para poesia
basta poesia.

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Pela janela

– Se a Deise não tivesse aparecido na minha vida, ou eu tava preso, ou eu tava morto.

– Eita.

– Sério.

– Por quê?

– Cê tinha que ver minha disposição quando eu era mais novo. Ainda mais morando do lado do Paraguai.

– Onde cê morava?

– Perto lá.

– E o quê que tinha lá?

– Tinha tudo. Eu levantava um dinheiro. Trazia produto da fronteira, repassava maconha. Tudo que desse grana eu fazia…

– Nah, tudo, tudo, cê num fazia.

– …mas só gastava com merda, também. Aí num adianta, né?! Festa, puta, moto. Um monte de merda. Aí, conheci ela…aí que veio a coisa.

– Que coisa?

– Sei lá.

– Porra, mas que bom, né?! Pelo menos você tá aqui agora.

– É, irmão. Tô te falando.

– Será que tem café ali naquela lanchonete?

– Tem, mas é ruim.

– Vou pegar um.

– Pega um pra mim também?

– Pego sim.

 

Marco Antonio Santos

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Afluentes

Somos parte de um rio. Seguimos a mesma direção. Vamos para o mesmo lugar. Não sabemos nossas motivações. Nossas capacidades. Nossas fragilidades. Não sabemos de nada. Apenas vamos. Mais uma força da natureza.

Alguns viram lagos. Se desprendem da correnteza. Ficam ilhados em meio a terra. Solitários. Vez ou outra, pela manhã, a neblina vem lhes fazer companhia. Mas logo se vai, num sopro. O sol os castiga. Tudo seca. Tudo os cerca.

O velho rio, virou mar. Conservou o ímpeto. Ignorou as dúvidas. Foi. Hoje é água salgada. É um amontoado de vontades e experiências. E faça chuva, faça sol. Todos os dias vai de encontro à praia. Vira espuma. Depois volta a ser mar.

Gabriel Protski

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Um todo de mim

por Rafael

Quando a chuva começou a cair naquele sábado a tarde, todos se encolheram sob marquises e toldos para se proteger. Eu saí para me encontrar.

Voltava para casa depois de almoçar naquele buffet por quilo atrás da catedral. Não o caro, mas aquele com preço honesto, comida sem graça e gelatinas sem gosto ou mamão picado descongelado como sobremesa.

O almoço mais uma vez pesava, não por satisfazer, mas por ser quase recusado por um estômago mal tratado. Pouco me importei. Acabei me acostumando a conviver com desconfortos e seguir em frente, como viver fosse isso mesmo. Uma pena.

Por não ter pressa e já não haver mais o que molhar, me permiti prolongar o caminho até a rua dos ipês. Sempre adoramos aquelas flores, lembra? Fazíamos o caminho mais longo para voltar pra casa, pois o tempo nunca é pouco quando estamos plenos.

Passei por lá e tudo parecia parado no tempo. Inclusive eu, que pude sentir sua mão segurando a minha enquanto olhava aquelas árvores que gritavam todo um passado que me engolia.

Olhei para o chão e tudo o que via eram as cores vivas daquelas flores mortas. Bonito.

Um tapete de flores amarelas e roxas, molhadas, para eu passar. Ainda assim, mortas.

Sua mão já não segurava mais a minha.

Passei pelos ipês, assim como o passado deveria ter-se-ido. Vim embora, subi as escadas e um cheiro de fritura aguçou ainda mais minha memória. Por um momento tive certeza de que o cheiro vinha do nosso apartamento. Seria bolinho de chuva.

Sua mão segurou a minha novamente e juntos subimos até o terceiro andar. Porta número 34. Levei a chave à fechadura, girei. Acho até que fechei os olhos enquanto abria a porta. Apertei sua mão, entrei e percebi: o cheiro não vinha dali.

O apartamento permanecia vazio. O cheiro por ali era do abandono que me consome. Da solidão que me afoga desde o dia em que você pegou aquele ônibus para voltar pra casa. Voltar pra mim. Aquele ônibus que nunca chegou. Que ficou naquela ribanceira. Com você. Com um todo de mim que já não encontro mais.

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Barbatanas

O que fizestes com tuas brânquias, oh criatura? Pensas então que não eras mais feliz em barbatanas? Abandonastes o que te deram, os benefícios com que a natureza lhe proveu. As facilidades vencedoras das dificuldades. As adaptações. Eras melhor, criatura! E veja o que fizestes dispensando tais atributos.

Oras, por que, criatura!, por que abandonastes? Não sabias você o que tinhas atado ao seu corpo singelo? Não que singelas fossem frágeis, eram fortes, como eram! E ainda assim trocastes tuas fabulosas habilidades por rotas e deterioradas falanges, parcos acessórios de coisas caídas e depreciadas. De devoluções.

Onde largastes tuas nadadeiras? Dorsais e branquiais, elementares, impactantes adereços de sua fisiologia, de suas impressionantes hidrodinâmicas. Habilidosas características de criatura tão espetacular. E, ao mesmo tempo, de criatura tão ingrata pelo que tivera.

Não aceitardes as possibilidades anatômicas que se lhe criaram, que se lhe deram. E de maneira grotesca abandonastes o torpor líquido. Abandonastes a flutuância, maldita criatura! A capacidade de estar solta, livre, e mergulhante em três dimensões. Deixastes o líquido, a vida, e as possibilidades. Deixastes nadadeiras, barbatanas e brânquias para trás.

Em troca de quê, estúpida criatura? Em troca de pulmões controversos. De brônquios. Que criatura incipiente trocaria lindas brânquias por defectos brônquios? No entanto, tu fizestes, abandonastes o líquido todo que te deram. E agora caminhas bípede, balbucia palavras, e explode coisas. Tivestes tuas chances, mais de uma, por certeza mais de uma. E infelizmente abandonastes barbatanas.

 

Jhonny Castro

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Queria

Queria água encanada.

Queria água quente.

Queria uma toneira monocomando (http://bit.ly/1l7asPq).

Queria ser feliz.

Henrique Schaefer

 

 

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Bolha

por Jadson

Duas batidas na porta e ele não se levanta. Do outro lado, o carteiro continua insistindo. Bate mais uma vez, chama pelo nome que consta na prancheta, mas ninguém atende. A sala tem teto alto e paredes brancas com algumas marcas de sujeira. Estão lisas, sem relógio, pôster ou quadro. Um tapete redondo de crochê. Uma poltrona velha de couro marrom. O homem está sentado com o queixo colado ao peito, braços sobre os encostos, pernas separadas, boca aberta e babando. Não está dormindo, mas com os olhos abertos, paralisados. Dopado desde a noite anterior, sem dormir, sem se mexer. Pendurada em uma veia grossa do pé direito está a seringa.

A alguns metros dele, no chão, perto da passagem para a cozinha está o corpo da garota, prostrado, pernas dobradas em foram de ‘s’ e o rosto no chão, como uma indígena adoradora do fogo, braços esticados. Depois de morta por estrangulamento com cadarço, exatamente naquela posição, teve a mão esquerda cortada com um só golpe de lâmina. Está exatamente no mesmo lugar desde então, nada foi mexido. A grande poça de sangue está quase secando, parece esmalte vermelho derramado no chão de revestimento sintético.

São quatro e meia da tarde e o carteiro sente o cheiro estranho que passa pelas frestas da porta. Dá pouca importância ao detalhe, quer terminar a rua e ir embora. Pelo menos o trocaram de zona, na anterior tinha cansado de fugir de um pitbull de rua, que não era de ninguém, mas que todos os vizinhos alimentavam. O cão se fora, mas em seu novo caminho outra pedra aparecera. Aquele prédio sem porteiro, sem elevador, sem corrimão nas escadas. Era obrigado a entrar, a agência do bairro disponibilizava a chave da porta do hall de entrada e ele era obrigado a subir os treze andares entregando cartas e encomendas. Queria se livrar logo e por isso aquele cheiro não lhe dizia nada, apenas dava repulsa. Seu cérebro canino o fez sair correndo e xingando em voz contida.

Antes, porém, colou o bilhete na porta intimando o morador comparecer até a agência postal e retirar a caixa, selada e carimbada em Fênix, no noroeste do estado. Desistiu de subir os outros sete andares, amanhã terminaria de entregar as outras cartas.

O barulho dos passos deixando o corredor foi ouvido no interior do apartamento do sexto andar, mas nada lá dentro se moveu. O viciado permaneceu intacto, respirando devagar. Fechou os olhos e caiu em sono profundo. Entrou na bolha.

Sonhou que estava de volta à pequena vila com ruas de terra onde cresceu com a tia. Andando por um campinho verde, onde jogava bola, viu do outro lado uma menina, pele branca, cabelos enrolados, com um vestido bege de alças finas, ela o esperava do outro lado, o chamava, acenava e ele planou em direção a ela, ouvindo sons suaves, ventos com tons avermelhados o carregaram até encontrar a mão da menina, ela o puxou e ambos caminharam por algumas quadras até chegar ao lago. Embaixo de uma árvore, que sustenta um balanço, eles sentaram, colocaram os pés na água e ela passou a mão esquerda lentamente atrás do cabelo dele. Ele respirou, pensou em dizer algo, olhou para cada detalhe do rosto da menina branca, mas desistiu de falar. Temia que qualquer movimento estourasse a bolha.

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Jovem escorrega e cai do oitavo andar no centro da cidade

Rômulo Candal

Ouviu o nome enquanto passava ao lado de uma tevê ligada no jornal local, durante a fila do bufê, indo do nhoque à bolonhesa pra lasanha quatro-queijos e só conseguiu pensar “nossa, que coincidência esquisita”, mas o pensamento passou tão rápido que Mariana nem prestou muita atenção. Renan Oliveira era um nome relativamente comum, afinal. “Se não me engano tinha até um jogador do Coxa com esse nome”, ela pensou. Perguntou pro colega chato que, infelizmente, se convidou pra almoçar com ela, se realmente havia um jogador do Coxa com esse nome e ele respondeu que sim, que houve um jogador do Coxa com esse nome e que inclusive era fraquíssimo. Parece que tinha ido pro Grêmio. Ou Goiás. Era com G. Mariana pegou um pedaço de lasanha e seguiu para a carne de panela, sem pensar mais na estranha coincidência de ter ouvido o nome de seu ex-namorado ser dito no jornal local.

Na mão direita de Renan, apenas um bilhete que dizia: “não confie em mim. eu não sou confiável”. A imprensa não divulga, mas à boca pequena dizem que foi suicídio. 

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