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A Índia que descobriu a América

Não estava claro se ela tinha mais medo da água ou das pessoas ao redor, mas era nítido o choque que aquele passeio lhe causava. Ia agarrada ao corrimão, segurando seus vários metros de sari púrpura enrolados ao corpo, mas nem por isso suficientes para lhe aquecer do vento frio que já corta até os pensamentos que não deveriam existir. Se o balançar do barco não fosse assustador o suficiente, ainda estava cercada de ocidentais com suas roupas masculinizadas ou vulgares, expelindo palavras que ela não entendia. Via-as embaçadas à sua frente, como se não entendesse o que diziam por estar sem seus óculos, mas tinha certeza que aquelas palavras tinham algo de obsceno. O ocidente é sempre obsceno.

André Petrini

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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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Maria Mole

Maria Aparecida. Maria Aparecida do Carmo Biscoito, disse seu pai orgulhoso ao segurar o bebê ainda banhado em sangue e dores, mas nem por isso lhe parecendo ser menos do que o bebê mais bonito do mundo. A mãe gostou do nome, e a parteira não teria coragem para contar seu presságio, que ademais, poderia ser só um desses pensamentos que se invertem com o vento e essa não era a hora pra falar de bobagens, mas ninguém se preocupou em perguntar àquela nova alma viva se o nome lhe cabia, se estaria satisfeita ou gostaria de trocar, como quem vai ao armazém reclamar dos ovos que chegaram podres, e o senhorio responderia “é claro, freguês. mil perdões. leve mais dois por minha conta, pra reparar o incômodo”, e tudo ficaria certo. A ninguém ocorreu de perguntar a Maria Aparecida se esse era o nome que queria, ou se já havia pensado em uma opção melhor do que uma homenagem à atriz da radionovela, lá ainda dentro da barriga de sua mãe onde tudo era feito de amor e líquidos e de onde era arrancada contra a sua vontade numa tarde de calor excessivo até para quem já vivia do lado de fora há tempos.

Maria Aparecida não gostava de ser uma homenagem, não gostava da ideia de “aparecer” cada vez que falasse seu nome, não gostava de ter sobrenome de comida, não gostava desse calor todo, não gostava de chegar ao mundo com tantas decisões já tomadas por ela, e por isso chorou. Chorou por anos sem parar com toda a intensidade de seus pulmões, que ganhavam mais força à medida que cresciam. O caso ficou famoso na cidade e Maria Aparecida gostou menos ainda de ter virado um caso, um algo ao invés de um alguém. Por muitos anos seus pais tentaram soluções que vinham de todos os lados, e gastaram pequenas fortunas em busca dos médicos da capital, que haveriam de ser mais espertos que os do interior, e acabar com a aflição que corroía seus ouvidos já há quase uma década.

Foi em uma das idas à cidade que Maria Aparecida viu Ayrton pela primeira vez, enquanto saía do consultório daquele médico velhinho, e gostou. Gostou tanto que não sentiu mais o choro subir garganta acima e jorrar pelos olhos embaçados. Limpou a vista desacreditando no que sentia, mas o calor continuou a subir por todo seu corpo. Gostava do que via, e de repente não lembrava mais de chorar.

Os pais chamavam os amigos e comemoravam a vitória frente ao jugo de lágrimas, mas Maria Aparecida precisava desesperadamente encontrar um jeito de voltar à cidade em busca de seu já eterno amor. Tentou chorar, mas não conseguiu. Era como se já tivesse usado o estoque de lamentações de sua vida inteira, e quem sabe até de suas próximas gerações. Decidiu, então, sorrir. Comeu um pedaço do doce que sua mãe preparava na cozinha, sorriu, e gostou.

Texto de André Petrini

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Todos Querem ser Funcionários Públicos

Fernando não é um profissional. Não tem uma carreira ou colegas com quem reclamar do expediente que se arrasta pelo dia. Tem, sim, um emprego que sustenta mais aos seus patrões do que sua própria família, mas são tempos difíceis para todo mundo.

Como vem fazendo por estes 24 anos, pontualmente chega ao galpão às 7:10 e atravessa o portão estreito até chegar ao local de trabalho. Já na ante-sala, tira cuidadosamente o casaco de pele que herdara do pai e pendura-o sobre a cadeira com o mesmo cuidado desmedido que as mães devolvem suas crias ao ninho. Olha sobre a mesa à procura de recados enquanto esfrega uma mão na outra tentando aquecê-las. Não há nada; sem nomes ou orientações especiais. Serve um pouco de café da garrafa térmica que Lucy enviara, mas ele está mais fraco do que deveria, como acontece todas as segundas-feiras, quando sua esposa, ainda embriagada pelo amor intensivo que recebera durante todo o final de semana, coloca meia colher de pó a menos na garrafa. Mais uma daquelas atitudes bobinhas que tomamos inconscientemente, desejando resultados que nunca acontecerão. Lucy deseja em seu íntimo, sem saber, que Fernando volte para casa logo nos primeiros minutos da manhã, em busca de um café mais forte e encorpado para aguentar todo o stress do dia, e no minuto em que entrasse pela porta encontraria a mulher ainda cheia de amor, a lhe dar mais do que buscava, e ao sair, aí sim estaria preparado para enfrentar aquele dia com um sorriso no rosto. Mas isso nunca acontecera, e embora o ato continue semana a semana, o único efeito é a sonolência matinal de Fernando, que toma a primeira xícara, abre o jornal para olhar as fotos bonitas e exclama para si mesmo “Segunda-feira. Sensação física de quinta”.

Às 7:30 se prepara para começar as atividades do dia. Vai caminhando em direção à porta enquanto estrala os dedos da mão, e em seguida o pescoço. “Humm, este foi dos bons”. Antes de entrar, para em frente ao toca-discos que já está preparado com o Álbum Branco, lado A. Alinha a agulha para a primeira faixa, e sente o arrepio correr pelo seu corpo com o ruído do vinil à espera das primeiras notas. Veste o seu avental branco já marcado com o sangue e suor de seu trabalho, e continua a expectativa para a música, que logo começa. “Isis show times”, pensa tentando citar um filme que assistira há algum tempo com sua esposa. A verdade é que não sabia bem o que significava, mas a frase parecia ter sido pensada para este momento, e fazia com que Fernando se sentisse parte de uma sociedade que só existia em seu imaginário.

Por se tratar de um porão sem janelas, sua sala de trabalho é bastante escura e sem conforto. De um lado, uma mesa com suas ferramentas. Do outro, material de limpeza. Ao centro, a cadeira com seu próximo cliente, já amarrado e com silvertape na boca, que é utilizado também como etiqueta para identificar o nome do sujeito – sempre homem, afinal Fernando tem seus princípios e deixou claro desde o início que não bateria em mulheres. Não conseguiria, argumentou, e esta foi a única condição que impôs. Foi aceito, afinal torturadores não eram fáceis de encontrar antes da internet.

A etiqueta identifica o cliente como James, mas Fernando reconhece aquele rosto. Acabara de vê-lo estampado no jornal sob o nome de Luiz, um deputado que lutava há anos pela educação pública e a valorização dos professores. Parecia ser um bom homem sob uma nobre causa, mas se ali estava, era porque havia feito algo de errado, segundo a conclusão lógica de Fernando. Embora não conhecesse seu empregador, tinha a plena convicção de que aquele era um trabalho honesto e necessário. Estaria ajudando a combater ladrões, corruptos, sindicalistas vendidos, cozinheiros que não lavavam as mãos,  guardas de trânsito, enfermeiras insensíveis, e todo tipo de pessoa que precisasse de uma ajuda pra melhorar as próprias atitudes. Foi até o homem, tirou a fita com força e lhe deu dois tapas na face, uma lembrança de sua infância que trazia como ritual de trabalho. Quando criança, seu pai vinha pelo corredor em direção ao seu quarto com a lanterna fraca e o chamava para acordar. Como invariavelmente continuava com os olhos fechados fingindo ainda dormir, seu pai, um homem justo mas de poucos modos, lhe dava dois tapas na cabeça. “Pra acordar pra vida”, dizia. O terceiro vinha logo após se vestir. “Pra aprender a não começar o dia mentindo”.

Após os tapas de aquecimento, começam os socos que continuariam por várias horas. A mesa ao lado está cheia de facas e ferramentas de corte – todas muito enferrujadas –, mas Fernando usara-as em um único caso, com um cliente que insultou a memória de seu pai. Fora isso, se autointitulava um purista, e por isso usava apenas os próprios punhos. Com o tempo foi aprimorando a própria técnica, e agora dava nome a alguns dos seus golpes, que muitas vezes eram anunciados em voz alta antes de serem proferidos: “Fúria dos Marginalizados!”, e lá vinham 3 socos de direita e 3 de esquerda; “Injeção Letal”, e mais alguns murros em locais estratégicos. Uma singela tentativa de não cair na rotina do emprego, algo que, contraditoriamente, desejava com todas as suas forças.

Como era de se esperar, Lucy não suspeitava da natureza real de sua profissão. Quando, ainda no namoro, lhe perguntou o que fazia, Fernando respondeu de supetão que era funcionário público: um trabalho bastante entediante, mas que ajudava a sociedade. Foi o bastante para Lucy, e principalmente para seus pais, aceitarem o casamento que logo veio. Mas compelido pela facilidade com que sua mulher acreditara naquela mentira quase inocente, passou a desejar o cargo público como seu objetivo único e máximo. Sem êxito até o momento.

Fernando descobriu que a pior surra que poderia dar em alguém, mesmo que merecida, não seria tão dolorosa quanto se Lucy descobrisse a verdade, ainda que lhe contasse quantos bandidos tirou da rua, e realmente acreditou nisso até o exato momento em que viu Luiz sentado à sua frente. Um homem público acima de qualquer suspeita, era pouco provável que de fato merecesse estar ali, e estes pensamentos foram tomando forma em seu dia ao ponto que sentia que a cada soco que lançava, era voltado instantaneamente em sua face. Sem suas certezas, deixava de ser um agente transformador do mundo, um herói ao avesso, e era renegado à mera posição de torturador: uma profissão sem carteira registrada. Não se pode conviver com este tipo de dúvida.

– Como foi o trabalho, querido?, pergunta Lucy ao ver o marido chegar em casa.

– Ahhh – suspira cansado. Uma tortura.

André Petrini.

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Lágrimas no Paraíso

Poucas coisas poderiam estragar o paraíso de Maragogi, com suas águas em tons de verde-olhos-de-top-model, piscinas naturais com peixes de cores que parecem só existir ali, e o céu incansavelmente azul. É abduzida por este cenário que Cana Chorona vai morrendo sua vida, vertida em lágrimas a se arrastar pelas areias claras, implorando por um copo de bebida, um pedaço de peixe ou um afago para seu coração.

Chorona desde sempre, Dolores passou a ser a Cana há 11 anos, junto com a conta que abrira em todos os três botecos do vilarejo. Antes disso, trabalhava na vila dos pescadores consertando as redes que prendiam nos recifes ou fazendo artesanato que seria levado para venda na capital, à época ainda pouco desenvolvida no turismo. Seu marido levantava-se antes do sol e partia em uma pequena jangada, que após os dias de tempestade não comportava toda a sua sorte. Ganhara a embarcação aos 14 anos, como presente de seu pai. Se na época representava a liberdade contra o marasmo das areias de fogo, com o tempo passou a ser sua independência das cooperativas e locadoras de barcos que ficavam com grande parte do lucro dos pescadores. Após a desvalorização e o pescado valendo menos que chuveiro elétrico no deserto, o barquinho era suficiente para garantir o sustento sem conforto de sua esposa e filho. “O amor é todo luxo que nós precisa”, dizia afagando a cabeça do filho ainda novo, que não entendia por que eles não poderiam ter um ventilador igual a todas as casas da redondeza, para aliviar o calor de todo dia que chega e rouba a disposição de viver.

Foi na noite anterior aos seus 13 anos que o filho decidiu aproveitar a tempestade que se autoanunciava, para “pescar mais peixes do que tem no mar”, e surpreender a todos com o tamanho da sua ventura ainda tão novo, e que, com a ajuda de Iemanjá, haveria de ser suficiente para comprar um ventilador para a casa e um vestido de missa novo para sua mãe. Saiu ainda noite, com as estrelas encobertas, a lua tímida e os pássaros quietos. O vento agitava os coqueiros e bagunçava ainda mais seu cabelo opaco, mas jogava a água em sua face, molhando seus lábios rachados e revelando a sensação de aventura que bem conhecia de contos dos velhos pescadores.

O dia amanheceu cinza e por todos os cantos via-se gente arrumando os estragos da chuva nas casas e armazéns da região. A pequena igreja ficara totalmente destelhada, e a chuva acabou com os bancos recém adquiridos pelo Padre A., que todos começavam dizer, já contabilizava decepções demais na vida para ter que aguentar mais essa. Os moradores corriam em suas casas na tentativa de salvar uma cadeira aqui, uma muda de roupa lá, e foi por volta do meio-dia que Dolores percebeu um estranho silêncio pela vila, que embora aparentasse um cenário de guerra, estava manco de uma voz aguda de sotaque arrastado, que vinha dia após dia às 11:40 lhe perguntar se teriam pirão para acompanhar no almoço. Olhou pela porta o grupo de meninos que brincava na areia, mas eles não tinham visto seu filho naquela manhã. Saiu com passos cada vez mais apertados perguntando a quem encontrasse pelo caminho, mas a resposta era sempre a mesma. Voltando para casa, já num misto de desesperança e inquietude, resolveu passar pelo cais torcendo para perder a viagem, pois sabia muito bem que se encontrasse o que buscava, todo o resto estaria perdido. Seu coração de mãe desesperada lhe sufocava o peito a cada pulsada, como se tentasse fugir garganta acima e correr em busca do filho na frente do corpo, que lutava para arrastar os anos de má postura e noites na rede, de modo que Dolores teve que parar algumas vezes para respirar e só então continuar aquela maratona de 700 metros entre sua casa e o cais.

Quando chegou ao local, as ondas ora rebatiam com brutalidade, ora voltavam a amaciar as areias com cuidado materno. O cenário também era de caos, e vários barcos estavam aos pedaços. Pescadores se desesperavam pela já certa perda que teriam na temporada, pois ainda que conseguissem reformar as embarcações, não seria feito a tempo de abastecer a cidade durante as abundantes cheias. Mas embora a maioria dos barcos estivesse despedaçado, ainda era possível distinguir cada um deles e fazer a contagem a que Dolores se apressou a fazer, sofrendo um tanto a mais a cada barco que encontrava e não distinguia as letras de seu nome na lateral, sinal daquela singela homenagem que seu marido lhe havia feito. Dois barcos a menos, e não havia recontagem que corrigisse a falta. Além do “Dolores da Saudade”, também faltava o barco do sr. H., um homem de meia idade que surgiu no povoado enquanto caminhava sem rumo. Falava pouco, mas era de bons modos, de forma que foi prontamente acolhido pelos outros pescadores. H. sumiu naquela noite de tempestade com seu barco, e só foi visto novamente 16 anos e alguns meses depois, quando reapareceu na cidade com o mesmo barco que todos lembravam (tirando por uma falha na pintura aqui e outra lá, como se é de se esperar depois de tanto tempo), contando uma história para justificar seu sumiço que poucos acreditaram, mas ninguém se sentiu no direito de questionar.

Nos dias seguintes ao temporal, partes do “Dolores da Saudade” foram aparecendo pelo litoral de Maceió e as notícias chegavam a Dolores como flagelos que descascam a pele e corroem a carne. “E o meu filhinho? Meu menino tava junto? Vocês deram um pirão pra ele? Deve de tá com fome, tadinho do meu menino. Ele tá bem? Cadê ele, ‘cê já vai trazer?” E corria olhar para fora da casa, a verificar se lhe esperava ali, como a fazer uma surpresa daquelas que aumenta a expectativa pra aumentar o sabor, mas ele não estava, e não esteve nos vários meses seguintes, aos quais bastava que alguém passasse perto de sua casa para que Dolores corresse derramada em lágrimas ao abraço fantasma do filho semi-vivo que sumia à primeira vista.

Os amigos, preocupados com a situação da mãe que se recusava a acreditar no destino do filho, providenciaram uma despedida simbólica, com flores e uma muda de roupa do garoto sobre uma jangada que seria entregue a Iemanjá, assim como o menino havia feito com a própria vida. Na noite depois da cerimônia, Dolores saiu correndo pelas areias e por toda parte se ouviam os uivos de sua tristeza, que se arrastou por todo o litoral e em outros estados também foi se conhecendo sua história. A caminhada durou vários meses sem nenhuma notícia para o marido, que se abatera em uma depressão mortal com a certeza de ter também perdido a esposa, e quando ela voltou para casa já não era mais a pessoa a quem amara. Os meses de caminhada pelo litoral a gritar pelo nome do filho sem se alimentar, tomando cachaça para matar a sede do corpo e do coração levaram consigo o olhar de esperança, a pele brilhante e os cabelos negros.

Os anos passaram sem que Cana Chorona percebesse. Morria seus dias andando sem rumo pelas praias, e não raro seu marido era chamado em cidades próximas para buscar a esposa caída, resmungando, babando, espantando os turistas que “estavam lá para curtir o paraíso e não para lembrar que a vida tem dessas”. Estes mesmos turistas que não eram capazes de enxergar além daquela imagem decadente, e nem teriam a obrigação de fazê-lo, alguns dirão. Turistas que, se entre um gole e outro de suas caipirinhas atribuem aquele descontrole à fraqueza humana, ao sistema político, ao desemprego, aos capitalistas, à peguiça, tão logo alguém venha tirá-la dali, voltam à paz de suas férias. E nunca, nestes 11 anos de sua morte lenta, houve sequer um passante que a visse e pudesse imaginar o sofrimento que lhe revirava o estômago como tubarões destraçalhando o pescado no oceano a lhe inabilitar à ação. Em tempo algum houve sequer uma pessoa que pudesse ver aquela imagem e imaginar que um filho, ao morrer, leva junto a vida de sua mãe.

escrito por André Petrini.

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O melhor lugar do mundo é dentro de uma mulher

Por toda vida escolhi minhas mulheres sabendo que algo tão efêmero quanto a beleza não deveria ser a primeira coisa a ser desejada. Sempre preferi as inteligentes, carinhosas, engraçadas, às lindas. Mas não naquele 19 de dezembro, quando saí de casa pensando que pouco importaria se a dama envelhecesse feia, enrugada e sofrendo a gravidade empurrando-a para o centro da terra, pois muito antes disso meu amor fugaz já teria desaparecido no mar das paixões afogadas, e eu mal poderia me lembrar do rosto ou da cor daqueles olhos que haveriam de se fechar enquanto os lábios me beijassem como se a vida toda dependesse disso. Aquela noite eu teria a mulher mais linda do mundo, e foi assim que conheci Diana.

A noite deveria estar quente, como geralmente é naquela época do ano, mas tínhamos uma chuva fina caindo do lado de fora, o que fazia com que as moças entrassem na festa enxugando suas grossas capas de chuva e corressem para o banheiro conferir se os penteados continuavam inteiros.  Foi seguindo este mesmo roteiro que vi minha Diana entrar pela porta, vestida de sua elegância com passos suaves, caminhando em direção ao lavatório sem olhar para os lados, ou sequer imaginando que meus olhos a seguiam entorpecidos, enquanto eu tentava lembrar se em algum momento já havia encontrado outra menina que iluminasse meu ser daquela forma, e a conclusão foi que não. Nunca encontrara, e nem encontraria depois daquele dia, quando Diana me petrificou de desejo e intenções. Não foi amor, como nunca poderia amar alguém apenas pela sua forma física. Era mais forte do que isso. Era um desejo que crescia fazendo todo o meu corpo latejar. Eu desejava conhecê-la, ouvir sua voz, sentir seu perfume, tocar seus dedos finos de unhas claras, beijar sua pele branca, saber onde estudava, qual seria sua profissão, seu disco preferido, o que achava do comunismo, e até mesmo o nome de sua cachorrinha. Era, no fundo, um instinto de auto-preservação que desejava conseguir amá-la acima de tudo, evitando toda a frustração com outras mulheres que haveriam de passar pela minha vida e seriam reduzidas a imagens imperfeitas de Diana.

Quando enfim consegui levá-la até o centro da sala para envolver seu quadril em minhas mãos e dançar sentindo o seu coração disparado tanto quanto o meu, suas mãos geladas e o perfume que nunca esqueci, sabia que aqueles seriam os últimos lábios que eu desejaria em toda minha vida. Ela tremia enquanto eu beijava seu pescoço lentamente e voltava para sua boca com desejo vibrante, fazendo-a ser tomada por uma expressão sonhadora e adorável.

Quatro dias depois, exaustos de paixão, lutávamos para deixar a quitinete que nos abrigava desde aquela noite, para voltar à vida infeliz e monocromática que nos aguardava do lado de fora. Resistindo ao impulso de arrastá-la para mais várias semanas esparramada sobre a cama, compreendi que os bebês levam 9 meses para nascer porque não há lugar melhor no mundo para se estar, senão dentro de uma mulher, mas Diana não era minha, e nem seria justo que fosse. Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, andando pelas ruas alegrando cada pessoa que a encontrasse e fosse contagiada pela sua presença, e ai que sorte de quem recebesse ao menos um olhar seu. Mas cada uma dessas pessoas iria para suas casas e fantasiaria uma história de amor com a mulher mais linda do mundo. Histórias que durariam dias, semanas, meses ou anos, mas nenhuma delas poderia ser eterna porque Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, para que outra pessoa pudesse encontrá-la e dar um pouco de sentido à sua existência. Não prendam a minha Diana. Ela deve ser livre.

André Petrini.

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Forte e sem açúcar

Já fazia muito tempo desde que Dona Alice pedira, com a voz baixa e suave, um cafezinho à aniversariante e ainda não o recebera. Pessoas sentaram-se à mesa com ela, comeram, beberam, experimentaram as famosas sobremesas da anfitriã, levantaram-se, outra rodada de pessoas seguiu o mesmo fluxo, e Alice continuava com a sensação de garganta seca e cabeça pesada. É como quando você acorda esperando que o dia seja maravilhoso e ele não é, simplesmente porque você esperava que fosse. Parte das coisas boas da vida está no inesperado e, a essa altura, nem o melhor café do mundo vai superar o amargor daquela demora. Depois de tantas artrites, Alice achava uma falta de caridade fazer um ser humano passar tanto tempo esperando por um simples café. Preto, forte e sem açúcar, como havia sido a vida inteira.

É um fato bem conhecido para essa senhora, de que quando se chega a certa idade e ela fica aparente em sua pessoa, o velho vira também um ponto turístico, tal qual as pirâmides, as torres e os monumentos. As pessoas olham, admiram e ficam se perguntando como aquilo, depois de tantos anos, continua de pé. Alice, que já não se levanta com a mesma facilidade de sua juventude, aproveita a curiosidade alheia para lembrar e se felicitar com a própria vida, como quem relê continuamente o mesmo livro porque já não há mais tempo para começar um novo.

– 97 anos. Eu acho que é isso. Deve ser 96 ou 97… Não lembro se já fiz aniversário esse ano. Isso, foi 1915. Você é bom pra fazer conta de cabeça, heim? Sabia que eu era professora? Me aposentei aos 43, sem nunca ter uma falta e nenhum aluno reprovado. Depois eu fui dar aula de piano, pra ocupar a cabeça, sabe? Mas foi aí que eu me encontrei. Passava o dia inteiro ouvindo e tocando os meus queridinhos. Você conhece Strauss? Ahhh, então eu vou pedir pro meu filho gravar um disco pra você. É maravilhoso.  Eu ouço todo dia, antes das minhas orações. Meu filho? Tem 55, o meu menino. Só tive um, sabe? Pra poder educar direito, e ensinar tudo com bastante cuidado. Agora eu tô morando com ele, porque ele é medico e insistiu que era pra poder cuidar de mim. Assim é bom, né? Ainda tenho umas coisas pra ensinar pra ele, e posso ficar perto dos pequenos. Ele é tão atrapalhado, que é capaz de qualquer dia fazer miojo na panela de pressão hahaha. Ainda bem que tem o moço que cozinha pra gente lá. E o meu café, heim? Ainda não trouxeram. A sua esposa está aqui? Ela não é ciumenta? Ah, que bom… tem muita mulher ciumenta hoje em dia. Sabe, eu fui casada por 52 anos, 1 mês, 14 dias, 6 horas e 28 minutos e desejo que vocês sejam tão felizes quanto eu fui. É fácil, viu? Só precisa ter paciência, porque ninguém é perfeito. E estar com alguém que goste de ler. Você gosta de ler? Que bom! Eu conheci o meu velhinho numa praça, num dia lindo e ensolarado. Como todo bom romance, né? Eu estava lendo Dom Quixote quando ele sentou ao meu lado e falou a minha parte preferida do livro: “Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade”. E aí eu fiquei toda apaixonada, porque quando você encontra alguém que gosta do mesmo livro que você, é como se tivesse reencontrado um amigo de infância depois de muito tempo. Por mais que ele não saiba da sua vida hoje, vocês continuam compartilhando uma história. E depois disso eu compartilhei uma vida inteira com aquele homem que fez a minha história ser um sonho. Ahhh, chegou meu cafezinho! Nossa, não deu nem uma xícara! É por isso que eu te disse, moço: só precisa ter paciência, porque senão você nunca chega no felizes para sempre. E se é pra parar o livro no meio, é melhor nem começar.

André Petrini

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Délia

escrito por Leandro Fagundes.

“Vem ouvir lindas histórias
que por seu amor sonhei.
Vem saber quantas vitórias, morena,
por mares que só eu sei.”

 – Chico Buarque, Morena dos olhos d’água.

 

A primeira vez que Délia foi lá em casa eu tinha seis ou sete anos, não me lembro bem. Com o passar do tempo, insistimos em querer lembrar de tudo o que passou conosco e quando não conseguimos inventamos. Comigo, não. Os fatos que em mim sobrevivem, lembro-os com um raro prazer de criança que esconde joaninhas em uma caixa de fósforos, alegrando-se cada vez que as vê ou as mostra aos amigos de escola. E do que não me lembro? Melhor nem pensar. Foram joaninhas que escaparam, perderam-se, incapazes de permanecerem ali para serem lembradas, e a isso preferiram o esquecimento – ou a liberdade –, o que aprovo sem contestar e sem nenhum ressentimento.

Mas, voltando a Délia, ela aparecia lá em casa sem avisar. Tanto que nas primeiras visitas eu a tomei como invasora, chegando a odiá-la com um ódio de criança que não é bem um ódio, mas um medo de que alguém chegue e roube seus brinquedos, seu espaço, você mesmo. E então só lhe resta odiar, um pouquinho, para se fazer presente e defender-se.

A presença daquela mulher em nossa casa me assustava e me fazia esconder no quarto, onde não se ouvia voz nenhuma, onde não havia nada, só a ausência de Délia. E essa ausência – saberia eu mais tarde – era um modo que arranjei para pensar nela, para dizer que eu precisava de suas visitas, pois negando a presença de Délia eu estava ao mesmo tempo afirmando a sua existência e a minha necessidade de senti-la perto de mim.

Lembro-me que depois me culpei por ter odiado Délia assim, por um dia ter querido mal a ela. Pois não sei bem como foi, mas a partir de um momento eu comecei a ver em Délia a minha salvação. E esperava, esperava e esperava suas visitas, mesmo às vezes sabendo que ela poderia não vir, mas o simples fato de pensar que talvez ela aparecesse já me fazia ficar contente. E em pouco tempo o que era aversão transformou-se em uma afeição sem tamanho.

Eu a esperava apoiado numa almofada de leão dourado para que pudesse alcançar a janela da sala. Quando ela enfim aparecia, abria o pequeno portão azul e depois olhava para mim na janela. Então eu ouvia o meu coração bater mais forte e ia me sentindo cada vez mais alegre, dava pulos e cantava, porque sabia que de alguma maneira cada visita de Délia traria algo novo para minha vida.

Das coisas que me lembro (ou não) com exatidão, uma é o rosto de Délia. Um rosto singular, de sobrancelhas grossas e lábios finos, cabelos quase sempre amarrados ou seguros por um arco. Tinha uma beleza encantadora aquela Délia dos meus seis ou sete anos, uma beleza de conto de fadas de que eu nunca me esqueceria. Lembro-me também dos doces que ela me trazia, doces de abóbora em forma de coração, e que eu comia como se fossem o próprio coração de Délia em minhas mãos. E ainda hoje, passado tanto tempo, ainda me lembro das coisas que ela me dizia, coisas ternas, simples, que hoje me fazem tanta falta, coisas como “minha criança”, “meu menino querido” ou “meu pequenino”. E também dos passeios que fazíamos, em que andávamos sempre de mãos dadas. Délia a me mostrar tudo, e eu mais interessado em sentir o suave de sua mão, os dedos finos e longos, a quentura gostosa deles entrelaçados nos meus.

Um dia, não sei por que razão, Délia sumiu e não mais voltou. Durante dias fiquei na janela esperando que ela aparecesse novamente, o que nunca aconteceu. Lembro-me que chorava e dava chutes na almofada de leão dourado, culpando-o pelo sumiço de Délia. Os outros estranhavam o meu comportamento, a minha falta de fome, o sono e o choro. – Eu disse que esse menino não estava bem!, diziam. Mas eles não entendiam, não podiam entender, somente eu, Délia e agora a ausência dela. Eles não entendiam que na minha inocência de criança eu fiz de Délia a minha primeira namorada, o meu primeiro contato com o mundo fora daquela casa. Fiz de Délia o meu souvenir d’enfance, a mais nítida das lembranças, a joaninha que insiste em permanecer na caixa de fósforos apesar das frequentes insistências para que ela saia.

Mas passado tanto tempo não distingo o que realmente aconteceu do que é invenção minha. Se realmente existiu alguém como Délia ou, então, se eu tenha existido dessa forma. Por essas e outras é que hoje me sinto preso, fechado, como se também estivesse numa caixa, à espera de que venha alguém abri-la, alguém como Délia, e me liberte sem dizer uma palavra.

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Carta ao Capitão

escrito por André Petrini.

Terra/Continente Infra, 2169
Ao Capitão Aureliano Buenanoche.

Excelentíssimo Capitão, em vista da minha grande admiração pelo seu trabalho à frente do nosso Planeta-Nave, venho, por meio desta, fazer uma solicitação de máxima importância para a conclusão dos nossos objetivos de evolução constante. Entendo que alguns hábitos estão arraigados em nossos cotidianos de tal forma que se tornam quase automáticos, mas acredito que se pararmos para uma análise rápida e racional, perceberemos que eles nem sempre fazem sentido. Isto posto, gostaria de sugerir a revisão de um hábito, uma convenção – e se me permite, quase uma praga, a qual estamos acostumados a chamar de “horário comercial”. Não a sua existência em si, pois sei de sua importância em nossos sistemas comerciais tanto intra quanto extraplanetários, mas minha crítica refere-se exclusivamente ao período em que esse flagelo se realiza. Afinal, após séculos de evolução, ainda somos obrigados a iniciar nossas obrigações diárias às 8 horas da manhã e não há uma alma sequer, nesta ou em qualquer galáxia, que faça isso com bom gosto.

Veja bem, Capitão, longe de mim querer contestar qualquer decisão em sua maneira de comandar nossa nave, mas em vista de sua linhagem de Capitães, Coronéis, Padres e Políticos que vêm nos direcionando rumo às galáxias mais pacíficas, tenho certeza que compreende a necessidade de uma tripulação que trabalhe com um sorriso no rosto. Nós, meros humanos da Terra, obviamente temos muito a aprender com a inteligência de nossos vizinhos Budnianos, com a sabedoria milenar dos Schaefs, a alegria constante dos Marcolóculos, o silêncio lendário dos Scouts, a doçura dos Slonks, a perseverança dos Graes e a amizade dos Kaltows, mas se tem uma coisa que aprendemos nos anos de convivência com estes planetas-irmãos, foi que a união nos leva a galáxias mais distantes. E sinceramente, sr. Buenanoche, não há união que resista à interrupção contínua e diária do sono em horas tão prematuras.

Sei que nesses anos aprendemos muito e nossa morada já não padece das falácias pelas quais nossos ancestrais passaram, dentre as quais reverencio a recente inovação que não permite o acúmulo de calorias pela ingestão de bacon, a qual considero um passo importante rumo à felicidade plena da humanidade. Além disso, a completa extinção das calças saruel, sandálias Crocs, esmaltes vermelhos, reality shows, torcidas organizadas, funcionários públicos, professores de ginástica laboral, agentes de trânsito e tantos outros exemplos que não cabem nestas linhas, mostraram uma grande consciência e respeito de sua família pelos povos dos 3 continentes. Óbvio, a maioria destes itens ainda é encontrado nos mercados ilegais, mas a simples criminalização dos aplausos ao final da ginástica, já indica o pensamento que deveria ser adotado contra as corporações que nos forçam o despertar em horários impróprios.

Aureliano, meu amigo, sei que não deve receber muitas cartas e é um grande infortúnio que receba uma com tal pedido. Sei também que estamos em desvantagem em relação aos planetas que têm mais de 24 horas em seus dias, mas depois de tantos anos cruzando os oceanos em busca de profecias e invenções para o progresso do mundo, meu propósito não é o de diminuir o trabalho, mas o de aumentar o tempo para sonhar.

Do seu amigo de gerações,
Melquíades

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Procura-se

escrito por André Petrini.

Era uma noite bonita, mas fria, com a Lua brilhando na escuridão e os casais na rua aquecendo a mão um do outro com o ar quente das próprias bocas, quando, pelo rádio, ouvi a nova oportunidade que a vida me apresentava.

Desde que cheguei neste país, com passaporte falso e dinheiro para apenas três dias de comida e hospedagem, fui obrigado a fugir correndo de um lado a outro. Depois de tudo o que fiz, é provável que fosse apenas o Karma esbofeteando minha face com a sutil ironia que só o universo seria capaz de providenciar. Mas com o passar das décadas, o costume de estar em movimento tornou-se tão intrínseco, que achei que só conseguiria ficar parado dentro de um caixão, e isso não figurava nos meus planos mais próximos. Foi quando, por um misto de fome e frio, me vi aceitando o emprego de taxista, que mantive até dias atrás.  Não era dos piores, confesso. Eu não ganhava muito, mas o troco era suficiente para me manter. Não tão bem quanto na minha cidade, mas nunca é, não é mesmo? No final das contas, valia para conhecer pessoas novas, e quem sabe, até um conterrâneo.

Naquela noite eu levava um casal de turistas ao teatro para a apresentação de uma orquestra. Os dois eram jovens, e embora ele não tivesse ficado em um ângulo que pudesse ser visto pelo retrovisor, o casal me lembrava muito da minha juventude, e tudo o que deixei para trás quando saí da Alemanha. O tom da pele, os cabelos caindo levemente no ombro, o tamanho da cintura e o jeito de se encolher agarrando o braço dele, tudo naquela jovem lembrava a minha Kirsten. Aliás, depois destes mais de 50 anos, não sabia mais se a imagem que eu tinha correspondia com a verdade, ou apenas com os meus desejos, ainda que ela estivesse igual em todos os meus sonhos, desde o último minuto que olhei para aqueles olhos levemente esverdeados com uma manchinha mais escura no canto direito.

O sonho, inclusive, era sempre o mesmo. Em uma tarde cinza, fria, nos encontrávamos na praça em que nos conhecemos, e eu a abraçava como se abraça a alguém que já se foi há tempos. Na verdade, agora me lembro, com o passar dos anos algumas coisas mudaram. Logo no início, ela falava pra eu me cuidar, que sabia que eu não havia feito nada errado, e estaria me aguardando quando eu voltasse. Anos mais tarde, passou a perguntar se aquilo estava mesmo certo, e que talvez algumas pessoas tenham sofrido. Depois passou a me olhar com um pouco de receio, até que um dia falou que eu deveria me entregar. A conclusão continuava sempre a mesma: eu ignorava seu pedido, e dizia que não havia passado um dia sequer em que eu não pensasse nela, o que era a maior verdade da minha vida. Ela me abraçava e desaparecia virando fumaça, até que eu, desesperado por perder meu amor, acordava com falta de ar.

Mas naquela noite, ao ouvir o anúncio no rádio, o plano da volta se estruturou em minha cabeça tão rapidamente quanto ela desaparecia em meus sonhos. Decidi que Dávid faria a denúncia, para assim receber a recompensa, e eu me deixaria ser pego. Era o mínimo que eu poderia fazer por aquele homem, para pagar os tantos anos que me emprestou o táxi e dividiu o lucro comigo.

Agora estou aqui, algemado neste avião, com cinco oficiais me cercando, e mais alguns outros disfarçados ao longo da aeronave. O que está à minha esquerda mostra a capa do jornal, com a minha face estampada. A manchete, em enormes letras negras, noticiava com orgulho “Criminoso nazista mais procurado do mundo foi achado em Budapeste”. Para mim, muito mais do que isto, diz “László Csatáry volta para perto de sua Kirsten”. O resto é história.

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Eles

escrito por Leandro Fagundes.

Acordei atrasado e com as pernas molhadas de suor, pois o sol já atravessava a janela e vinha bater em cheio no meu cobertor. Espreguiçando-me, empurrei-o com os pés até que ele caísse no chão, soltando um pequeno grunhido, sem me preocupar com o que eles poderiam falar, caso acordassem. Mas essa minha preocupação era inútil porque eu sabia que eles não estavam mais ali. Talvez eu estivesse querendo me iludir e não pensar que, quando enfim criasse coragem e me levantasse daquela cama, não os encontraria. Porque a presença deles, apesar de incômoda no início, foi anulando aquela terrível sensação de solidão em que eu me encontrava.

Eles apareceram do nada e sem motivo aparente para mim. Comecei a perceber a presença deles pelos vestígios que deixavam: restos de biscoito no tapete da sala, latinhas de ervilha, milho e leite condensado com pequenas marcas nas bordas como se minúsculos dentes tivessem tentado abri-las. Na geladeira, frutas e legumes também apareciam com mordidinhas. Na despensa, pacotes de macarrão e bolacha eram abertos e o conteúdo esparramado.

Primeiro achei que se tratava de ratos e cheguei a falar com o síndico, que sem nada entender me disse que não havia outras reclamações e, além disso, há pouco tempo todo o prédio havia sido dedetizado. Não satisfeito, ao encontrar no elevador a senhora que é minha vizinha de andar, perguntei se por acaso ela não havia percebido ratos em seu apartamento. Ela mal me deixou terminar e com desconfiança respondeu que não. Depois, ao sairmos do elevador e antes que eu entrasse no meu apartamento, olhou-me com piedade e perguntou se eu estava bem. Respondi que talvez.

Mas os sinais continuavam e agora eram minhas roupas espalhadas pela casa, meus livros abertos e com pequenas pegadas de chocolate nas folhas (eles adoravam chocolate). A senhora que uma vez por semana vem limpar a casa perguntou-me a respeito da bagunça. Respondi que eram sobrinhos que agora deram para me visitar, sem que ela soubesse que eu não tinha sobrinhos.

Um dia pensei em espalhar ratoeiras pela casa, distribuídas na sala, despensa, quarto, banheiro e num pequeno escritório. Mas no outro dia elas estavam intactas, como se eles não tivessem passado por ali. Assim, como não mais me incomodavam e, pelo contrário, até me faziam companhia, resolvi deixá-los em paz.

Mas a presença deles foi se tornando cada vez mais notada por mim e até pelos vizinhos. Pelos vizinhos, pelo barulho que faziam, contam, durante toda a tarde, em que eu não estou em casa. Segundo uma das minhas vizinhas de andar, eram conversas em uma língua estranha, que seriam imperceptíveis caso não houvesse centenas deles espalhados pela casa. Por mim, pelos vestígios que deixavam, como eu já falei, porque vê-los eu nunca vi. Nunca me deram essa chance. Vontade e tentativas não faltaram. Desde chegar mais cedo da agência e abrir rapidamente a porta para surpreendê-los, fingir que dormia no sofá da sala e vez ou outra abrir os olhos ou até acordar de madrugada e acender rapidamente uma lanterna estrategicamente escondida sob o travesseiro. Tudo em vão.

Certa vez, de manhã, pensei ter visto um deles no banheiro, tomando banho na pia. Mas já estava tão acostumado a eles que a princípio não liguei, passei direto e fui urinar. Quando me dei conta e virei para olhar novamente, ele já não estava mais ali, se é que realmente estivesse. Eu digo isso porque, como não se mostravam para mim, comecei a criar situações em que me via falando com eles, numa tentativa de contato. Acordava de manhã e falava alto bom dia, na esperança que me respondessem. Quando chegava em casa, cumprimentava-os. Deixava pratos com chocolate (a comida preferida deles) e xícaras de chá de erva-doce (a bebida preferida deles) espalhados pela casa, também deixava a TV e o rádio ligados. Uma vez cheguei a ligar para casa, esperando que eles atendessem o telefone. Uma outra, deixei um bilhete no chão, no qual escrevi que não me importava por eles estarem ali, que eram bem-vindos, que ficassem à vontade, que aparecessem para conversar, tomar uma bebida, e muitas outras bobagens.

O fato é que, a partir dessas minhas incursões, eles começaram a não deixar mais rastos. A impressão que eu tive é que não queriam ser notados, apesar de estarem ali e isso ser impossível. Como lembranças ruins que a gente tem e é obrigado a levar consigo até o fim da vida – apesar das tentativas de esquecê-las – e, mesmo que a gente não queira e faça esforços para que isso não aconteça, vez ou outra elas afloram para nos atormentar, invadem nossas vidas, preenchendo-as de um vazio angustiante e silencioso, onde não há lugar para mais nada.

E, quando acordei atrasado e com as pernas molhadas de suor e me espreguicei, soltando um pequeno grunhido, sem me preocupar com o que eles poderiam falar, caso acordassem, eu estava mentindo para mim mesmo, pois sabia que eles não estavam mais ali e que isso era para sempre. E foi assim que eu me vi novamente só. E se agora ainda procuro vestígios, sinais que não mais existem, é para tentar recriar um mundo todo especial deles. Mas só o que consigo é deixar meu mundo cada vez menor, minúsculo, que qualquer dia me pego do tamanho deles, quem sabe até posso me juntar a eles, ou desaparecer sem deixar marcas.

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À sombra de Paulo Coelho

escrito por André Petrini.

Felipe era um homem médio. Crescera assim, e a média era seu único meio de viver. “Na medida; nem para mais, nem para menos”, dizia sempre. A verdade é que não sabia ser diferente, e havia sido assim desde quando podia se lembrar. Precisamente, desde o dia 28 de junho de 1982,  quando recebeu seu primeiro boletim escolar, com nota 6 em todas as matérias. Hoje, preso numa idade entre a juventude e a velhice, tem seu 1,70m de altura, 69,4 Kg, faz parte da Classe Média (a antiga, não a nova, como ele bem gosta de ressaltar) e seu time nunca foi além da 5ª posição no Campeonato Brasileiro.  Tudo isso faria de Felipe Silva de Oliveira a pessoa mais desinteressante do mundo, não fosse um detalhe que ele pretende mudar em breve: é o ghostwriter que escreve todos os livros do Paulo Coelho.

Sua insatisfação não vinha das gozações que recebia pontualmente às 9:45 dos colegas, ou fato de trabalhar em uma cadeira já muito velha enquanto seu “patrão” tinha a Cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras. “Faz parte da profissão que eu escolhi”, afirmava para si mesmo. Mas em uma quinta-feira daquelas que se mostram perfeitamente ordinárias até que algo acontece e muda todo o rumo do nosso dia – às vezes até da vida -, enquanto escrevia um novo livro, foi tomado por uma raiva que chicoteou em seu corpo, fazendo-o cair de rosto na velha máquina de escrever.

Ficou ali por alguns instantes, se apoiou na mesa e foi levantando a cabeça lentamente, como a evitar as indesejáveis vertigens que nos acometem em movimentos súbitos. Olhou novamente para a folha ainda presa à máquina, fitando as últimas palavras que escrevera, e a cólera aumentava a cada sílaba que compunha a frase “viu sua esposa partir, achando ser para nunca mais, sem imaginar que a encontraria no ano seguinte, em suas férias pelo Casaquistão”. Arrancou a folha com brutalidade e a amassou o máximo que pode, para depois colocar na boca e engolir aquele trecho de ódio impresso.

“Eu nunca saí de Campinas. Eu nunca tirei férias. Eu nunca tive uma esposa. Eu nunca sequer amei alguém.”. Aqueles pensamentos colocaram a miséria de sua vida diante de si, e decidiu que estava na hora de conquistar tudo que havia dado para o mago. “A começar pelos livros, que são todos meus. MEUS! O único que ele tentou escrever, fracassou exemplarmente. E agora o mundo precisa saber.”, foram os pensamentos que o começaram a projetar a repercussão que isso teria. Já podia ver as manchetes nos jornais ao redor do globo vociferando “Revelado o ghostwriter de maior sucesso da história”,  e nas revistas de fofoca sairiam entrevistas: “Conheça o homem que escreveu os livros de Paulo Coelho”. “E os royalties, imagine os royalties, Felipe!”, exclamou animado.

Se havia uma forma de fazer esta revelação, deveria ser em uma carta aberta à imprensa. Mas desta vez, assinada, contaminada por suas impressões digitais, e marcada com o sangue de seu dedo polegar, se fosse necessário. Não era mais tempo de se esconder. Recolocou o papel na máquina e começou a escrever. Dirigia-se a todos aqueles que liam, haviam lido e pretendiam ler algum dos livros daquele senhor que eles acreditavam ser também um belo escritor. Pedia desculpas primeiro por tê-los enganado, permitindo que depositassem sua admiração e fé em outrem, e ainda, pela baixa qualidade a que submetia seus textos. Agora, livre das amarras do salário, prometia explorar seu potencial criativo para lhes presentear com uma obra de arte libertadora e intelectual, ao contrário da filosofia de Biscoito Chinês a que estavam acostumados.

Continuou escrevendo aos fãs do Coelho, que antes de tudo, eram SEUS fãs,  afirmando que o caráter de auto-ajuda das obras não passava de psicologia barata que ajudava a rentabilizar a indústria literária, porque ele, o próprio autor daquelas palavras, vivia uma  existência sem sentido, à sombra de outra pessoa, e se as palavras pudessem fazer qualquer sentido, haveriam de ter começado por ele.

A carta estava pronta e assinada. Bastava revisar e enviar suas cópias para os principais jornais, que todo o resto seria feito pela própria mídia. Relia o texto, absorto pela sua vitória iminente, tomado pelo sabor de sua vingança, deliciado a cada frase que se aproximava do final. Mas ao terminar, algo estava muito errado. Não podia acreditar naquilo. Esfregava os olhos para ter certeza que não era uma imagem retida, uma miragem ou algo que o valha. Não era. Ali estava, assinado à caneta no final de sua carta de alforria: Paulo Coelho. Como poderia? Tinha certeza de ter assinado seu nome completo.  “’Felipe Silva de Oliveira’, onde está?”. Mas não estava.

Sentou mais uma vez desesperado, amassando também a carta, atordoado pela constatação de que, com o passar dos anos,  havia cedido não só suas palavras, mas também sua personalidade ao velho que tanto desprezava. Tornara-se sua sombra. Desolado, sentado em seu cubículo chorando, rasgou a carta ao meio e comeu uma das metades. Felipe ainda era um homem médio. Crescera assim, e a média era seu único meio de viver.

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O outono levou o meu amor

postado por André Petrini. 

Essa nossa vida gosta mesmo de um romance, né moço? Lembro como se fosse ontem da última viagem que fiz com o meu velhinho. Era um mês de maio bonito, com as folhas caindo para anunciar o outono, e nós achamos que conhecer Buenos Aires seria uma boa comemoração para os nossos 58 anos de casados. Sabe, o Bernardo, o meu velhinho, conseguia fazer até mesmo uma ida à panificadora ficar mais interessante, e sugeriu que fôssemos em segredo, sem contar a ninguém. “Igual fazíamos naquela época…”, ele disse. E eu aceitei. Eu sempre aceitava.

A verdade é que “naquele tempo” ainda tínhamos alguém de quem fugir, mas depois que envelhecemos acabamos sendo a família um do outro. Nossos poucos amigos se foram antes de nós, não tínhamos irmãos e nunca conseguimos ter filhos. Não que não tivéssemos tentado, porque com a energia que ele tinha ficávamos dias e dias sem sair do quarto. Também éramos muito saudáveis (ele comia um limão todos os dias em jejum, pra renovar as vitaminas) mas aconteceu de nunca acontecer. Sabe como é a vida, não adianta ficar forçando as coisas, né? Um dia, quando ele percebeu que aquilo estava me deixando deprimida, voltou mais cedo do trabalho com um buquê de rosas brancas, uma caixa do meu chocolate preferido, e falou que o nosso amor era igual àquele chocolate: tão grande e tão gostoso, que provavelmente deveríamos guardar só pra nós dois. Devia mesmo ser verdade, e eu acreditei. Eu sempre acreditava.

Que que eu tava falando mesmo? Ah sim… nosso vôo fez uma conexão no Uruguai – é conexão que se fala, né? – e o vôo para Buenos Aires atrasou por causa de uma bendita chuva. Eu estava cansada do vôo anterior, e aquelas cadeiras duras do aeroporto estavam me matando! Ele falou que eu não precisava me preocupar, que era pra eu ficar ali esperando enquanto ele ia descobrir o que estava acontecendo. E eu fiquei. Eu sempre ficava.

É incrível, moço. Você passa 50, 60 anos ao lado de uma pessoa, ela sai por 5 minutos pra ir ao banheiro e você já sente saudades. É como se o amor fosse tão urgente, que todo o resto pudesse esperar. E enquanto meu Bernardinho tentava descobrir quando que a gente ia sair daquele aeroporto-país, eu fiquei ali esperando, tentando confortar os meus 75 anos naquela cadeira mais dura que rapadura amanhecida. Ele jurou que não levou mais de 10 minutinhos, mas pra mim demorou mais tempo que a viagem inteira. No início eu achei que ele tivesse parado pra tomar uma água, ou não estivesse entendendo o que as pessoas estavam falando, porque lá embaixo só o Brasil que fala português. Os vizinhos todos falam um espanhol indígena meio arrastado. Mas ele começou a demorar mais, e mais, e você sabe como é a imaginação. A gente sempre pensa no pior. Comecei a imaginar que ele tivesse passado mal, caído em cima das garrafas de whisky caro, tido um ataque do coração, ou valha-me Deus o que mais poderia ter acontecido. Tinha um casal novinho, novinho sentado ao meu lado esperando o mesmo vôo, e percebeu a minha preocupação. Eles tentaram me acalmar, falando que se tivesse acontecido alguma coisa com ele teriam avisado no microfone. É por isso que essa juventude de hoje está estragada, eles acham que está sempre tudo bem. Mas o meu velho poderia ter morrido e eu nem ficaria sabendo, moço! Não era pra ficar preocupada? É o homem da minha vida, eu me preocupei. Eu sempre me preocupava.

Depois disso vi ao longe um homem de cabelos brancos, óculos antigo, jaqueta marrom, calça social, olhando para todos os lados sorrindo e andando meio arqueado, com as mãos cruzadas pra trás – ele dizia que era porque o coração dele era muito grande, então tinha que balancear o peso com as mãos. Aiai meu velhinho… – você tem um lenço aí, moço? Obrigada. As cataratas dificultaram um pouco pra ter certeza que era ele, mas era. E quando eu tive certeza, não sabia se ficava mais aliviada por ele estar bem ou brava pela demora, até que ele chegou dizendo “Amorzinho, o avião vai atrasar mais um pouco, mas está tudo bem. Eu trouxe um chocolatinho pra te deixar mais feliz.”. Acho que eu vou precisar do lenço de novo, moço. Agradecida. Tem como não se emocionar com um homem que depois de tantas rugas ainda te chama de amorzinho e traz chocolate pra ver você sorrir? Eu me emociono. Eu sempre me emocionei.

Algumas semanas depois de voltarmos da viagem o coração dele parou mesmo, e eu entreguei meu velhinho pra Nossa Senhora cuidar até eu chegar lá. Eu fiquei meses sem sair de casa, e estes 3 últimos anos duraram mais que uma vida, até que eu percebi que teria que reaprender a viver. Sabe, tudo de novo? Reaprender a pegar as cartas, a ir comprar pão, a sair na rua sozinha, a ligar a televisão no horário da novela, e a comprar o meu chocolatinho. E a cada vez que eu fazia isso, podia jurar que escutava ele falando “Parabéns, amorzinho” no meu ouvido, como ele sempre fazia. A verdade é que a gente nem percebe o quanto depende de uma pessoa. O meu Bernardinho me ensinou a ver a vida de um jeito mais encantador, mesmo depois de não estar mais aqui. E é por isso que eu estou indo levar as cinzas dele pra jogar em Paris, a cidade mais romântica do mundo. Ele merece, né? Ele sempre mereceu.


Ô moço, agora é você quem está precisando do lenço. Toma aqui. Obrigada, viu?

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