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Storytelling Precoce

por Murilo

Eu tinha um amigo, o Felipe, que sofria desta doença rara chamada “Storytelling Precoce”. Desde pequeno, coitado. Certa vez ele foi obrigado a cumprir o velho clichê escolar chamado redação de minhas férias. Não lembro bem, mas foi algo como:

“Nas minhas férias eu fui para a praia, vi um homem ser queimado por águas-vivas e uma mulher tão gorda que não cabia na sombra do guarda-sol.”

A professora disse que aquilo não era uma redação, era só uma frase. Ela ainda não sabia que Felipe era assim, um cara tão sucinto. E esse problema persistiu com o tempo. Quando ele contava piada, por exemplo, era um desastre. Contava piada de português sem se dar ao trabalho de imitar o sotaque do portuga, contava piada do Joãozinho sem imitar a voz aguda do menino, e era comum entregar os finais logo no começo. Com o tempo, teve que se adaptar a sempre contar as mais curtas.

“Soy paraguayo y estoy aquí para matar-te.”
“Para quê?”
“Paraguayo.”

Felipe era engraçado. Ao seu modo, mas engraçado. Acredito que o mais curioso era o fato de sempre ter histórias incríveis, extraordinárias, mas não saber como contá-las. Quando perguntavam sobre suas diversas viagens, por exemplo:

“E aí, como foi sua viagem para a Romênia?”
“Foi massa. Fui preso.”
“Como é que é?”
“É. Tava transando com duas romenas em um local público. Daí me pegaram.”
“Caaara! Mas conta! Como foi isso?”
“Foi assim.”

E o que renderia horas de papo acabava se reduzindo a alguns efêmeros segundos de alegria.

Para se aproximar das garotas ele também tinha dificuldades. Os assuntos acabavam muito rápido. Sorte que um dia encontrou a mulher perfeita para seu caso. Não surda, mas que falava pra cacete, o que dá quase no mesmo. E ele encontrou também um pequeno talento: escrever microcontos.

“Naquela noite, ela reclamou até que o carpaccio estava cru.”

“Overdose de Prozac. E morreram felizes para sempre.”

“Deixei-te flores sem saber que enfeitariam o túmulo do nosso amor.”

Foram tantos. Não me surpreenderia se hoje ele lançasse um livro inteiro.

Felipe era um cara legal. Fui aprendendo a conviver com ele. Com o tempo, acho que ficamos até mais parecidos.

É, foi assim.

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De volta aos garranchos

Hoje a tinta de minha caneta escureceu em luto. Antes azul, aos poucos fez negros todos os garranchos sobre o papel.

Pois a morte me revelou sua verdadeira face. E logo eu soube que a gadanha, sempre escondida, cedo ou tarde viria a se revelar. E percebi que aquilo que começou lúgubre não poderia terminar diferente.

Afinal, ela é assim, não pode ser compreendida ou controlada, nem mesmo por si própria. Acaba com tudo por mero acaso e, por mais sutil, sempre faz estrago. É viciada em desconforto, euforia, dorme em uma cama de espinhos. Em cada porto seguro que encontra faz questão de atear chamas.

No entanto, os espíritos que não partem da melhor forma são aqueles que acabam voltando. E assim estou de volta, vida cã. Confesso que senti saudades.

De volta à garoa fina e aos sons brutais a machucarem os ouvidos. Ao veneno puro de lágrimas engolidas. E à consciência de que o amor existe, mas, assim como a paixão, também se acaba.

Acaba como a história daquele escritor que, não sabendo como finalizar sua bela obra, jogou ao lixo todas as admiráveis páginas anteriores.

Resta-me também jogar aquelas cartas de outra vida à lixeira. Esse local aparentemente irrelevante que às vezes guarda o que mais queremos esconder. A lixeira, que guarda o que há de pior em cada um de nós.

M.

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463 Solitude

Possuia dinheiro para uma única passagem quando entrei no ônibus Solitude. Eram 18 horas. Passara a madrugada e o dia pensando no que faria e agora havia tomado minha decisão. Normalmente eu vinha até o ponto apenas para deixá-la, mas dessa vez foi diferente, eu vim mais cedo. Sentei-me ao fundo e logo os assentos estavam todos ocupados. No entanto, era como se eu estivesse sozinho.

Entrar no Solitude era um alívio e um tormento. Iria para casa após um cansativo dia de labuta, mas ainda teria essa cotidiana aporrinhação a enfrentar. Gente suada te apertando por todos os lados, a preocupação de segurar firme sua bolsa e não ser assediada por ninguém. Sempre que pego o ônibus nesse horário, das 18 horas e 22 minutos, penso a mesma coisa: o quão irônico é um ônibus chamado Solitude estar abarrotado de gente.

Já havia saído do centro. Eu procurava o lugar ideal. Logo passamos pelo Jardim Botânico. Bonito lugar com um sol de fim de tarde. Porém, nuvens muito carregadas se aproximavam. Uma aguaceira daquelas cairia a qualquer momento. É, assim eram as coisas da vida, desmoronavam de repente.

Um dia comum, tranquilo. Acho que finalmente estava conseguindo levar minha vida em frente. Sentia-me livre. Já bastavam de confusões, lamúrias. Mas acho assim é a vida, num dia parece que tudo vai desmoronar, e no outro sua única preocupação é não ter trazido um guarda-chuva para esse temporal que acabou de começar.

Encontrei o lugar certo. O ônibus ia a alta velocidade pela BR. Pedi para descer no próximo ponto. Voltei um pouco, caminhando até o local. Começou a chover e eu fiquei ali mesmo debaixo d’água. Quem sabe um raio me acertaria. Não, não podia ser assim. Eu precisava esperar o próximo ônibus.

Estávamos na BR. Em breve eu chegaria em casa. O motorista não se deixou inibir pela chuva forte e dirigia rapidamente. Foi quando ouvimos, ou vimos, ou sentimos, uma freada brusca. Nessas horas tudo é tão rápido e tão devagar que demoramos a saber o que ocorreu. O fato é que o ônibus freou e atingiu alguma coisa. O baque foi forte. Os passageiros, desprevenidos, foram arremessados para frente, caindo pelo veículo uns em cima dos outros. Levantei-me e vi algumas pessoas feridas, mas aparentemente nada grave. É que o ônibus não chegou a parar com a batida. O que quer que tenha sido, ele passou por cima. As pessoas se acumularam nas janelas traseiras para tentar ver o que era. Assim que abriram as portas, alguns desceram para ver, mesmo na chuva. Eu fiz o mesmo.

E lá vinha ele, veloz. 463 Solitude. Amarelo e  inexorável, cortava a tempestade para cumprir o seu dever. Hoje sua função seria outra, e ele nem mesmo sabia. Viria vingar minhas frustrações. Porque esse tipo de coisa, quando a gente faz, não faz só para desaparecer ou fugir. A gente quer mostrar para alguém por que fugiu. Fomos tão castigados pela vida que queremos respingos de nosso sangue em outras mãos. Naquelas mãos.

 A hora chegou. Esperei que se aproximasse para dar os derradeiros passos. E lá vinha ela, encontrar sua solitude com a minha solidão.

.

Murilo

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Respostas

por Henrique

Sobre aquela vez que discutimos no Facebook. Que argumentamos no bar qual sistema era mais correto. Que discordamos sobre que lado seguir na encruzilhada. Se o azul era mais bonito que o amarelo e se o comunismo era melhor que o capitalismo. Passados esses 3 meses, eu teria respostas melhores que as suas.

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Ao diabo um segundo na Terra

por Murilo

Tac Tic. Voltei no disco do tempo. E tal qual em disco da Xuxa, vi os sinais do tinhoso.

O respeitoso senhor fitar os seios da mãe amamentando no ônibus, desejando estar no lugar do bebê. A moça conferir, de soslaio, o volume do melhor amigo de seu namorado. O irmão mais velho passar a perna no caçula. O caçula dedurar para os pais, aumentando a história toda.  O tio olhar para a sobrinha que já pegou no colo há 15 anos, com vontade de pegá-la novamente. A menina trendsetter espalhar a novidade do falecimento de sua amiga, e ficar secretamente feliz por ter sido uma das primeiras a saber. O pai duvidar das capacidades de sua filha. O psiquiatra zombar, internamente, das lamúrias de seu paciente. O funcionário desejar a morte do chefe. O chefe, no carro, desejar a morte do mendigo na rua. O gordo de dieta não resistir a um bolinho. O padre olhar, incrédulo, para a hóstia em suas mãos. O pastor olhar, crédulo, para o dinheiro nas suas. O garçom cuspir no sanduíche. Boça se vingar ao seu modo. O jovem, nem tão jovem, falsificar sua carteirinha de estudante. A casa de shows cobrar o dobro para compensar o prejuízo com essas carteirinhas. A garota invejar o corpo, a roupa, o trabalho e a vida da outra. O caipira fitar a égua e planejar o barranqueio. O policial descer o sarrafo no manifestante. O manifestante quebrar tudo que pode. O opressor contar uma piada racista. O oprimido gargalhar. A velha funcionária pública jogar paciência enquanto se acaba a paciência na fila de atendimento. O velho funcionário ficar até mais tarde no trabalho para acessar pornografia. O rapaz tirar a aliança antes de entrar na balada. O garoto ignorar o post que fala sobre as crianças da África e curtir um meme qualquer. A garota engajada que postou sobre crianças na África desligar o Macbook e pega sua bolsa Louis Vuitton para ir ao shopping. O chefe defender o talento da estagiária, mesmo que só interessado em sua bunda. E todos os funcionários saberem disso, e todos compreenderem.

Um segundo de podridão humana. Um segundo como outro qualquer.

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Dórian

por Murilo

Não foi quando papai morreu que eu descobri que ninguém escapa da morte. Foi algumas semanas depois, quando morreu Dórian, meu peixinho imortal.

Ganhei Dórian de meu pai quando tinha quatro anos. “É um peixinho imortal, filha”, disse. O nome foi ele mesmo quem deu. Falou que era nome de um personagem de livro famoso, belo e imortal como o peixinho. De lá para cá, não posso dizer que tive momentos extraordinários com Dórian. Apesar de bonito, inteiro vermelho e com longas barbatanas, não deixava de ser um peixe, que nadava e comia e só. No entanto, posso dizer que ele sempre esteve lá.

Eu entrei para a primeira série, fiz amigas, odiei garotos, cresci, entrei para a quinta série, comecei a gostar de garotos, fiz inimigas, dei meu primeiro beijo, fui ao meu primeiro show, tive meu primeiro namorado, voltei a odiar alguns garotos, fui para a Disney, me formei depois da oitava série, e Dórian ainda estava lá. Quando eu contava às pessoas, elas não acreditavam. Um peixe ornamental daquela espécie vive em média três anos e pode chegar a, no máximo, oito, se bem cuidado. O meu já tinha mais de dez, e eu nem cuidava assim tão bem dele. “Ele deve ser mesmo imortal” eu pensava.

Dois anos depois, papai fez uma cirurgia complicada no coração e não sobreviveu. Por vários dias eu chorei e, depois disso, para que não cessasse meu pranto, foi Dórian que, em um dia frio, apareceu boiando no aquário. Só então minha mãe me contou toda a verdade.

Não havia existido apenas um Dórian, mas vários. Meu pai trocava o peixinho por outro muito parecido cada vez que parecia abatido, ou se simplesmente já tivesse vários meses de vida. Uma vez, ela contou, o peixe morreu de repente e papai saiu na madrugada atrás de outro, para que eu o encontrasse vívido e exuberante pela manhã. Era assim que ele cumpria o que havia dito, era assim que fazia de Dórian imortal.

Nos anos seguintes, não estava lá meu pai, mas estavam alguns homens tentando se passar por ele. Não foram poucos os namorados que minha mãe, bonita como era, trouxe para casa. Marcos, Fabrício, Daniel, eu nem me lembro.

O tempo vagou. Tomei meu primeiro porre, perdi a virgindade, comecei a fumar, passei no vestibular, beijei uma menina na faculdade, comecei a trabalhar, saí de casa, parei de fumar, me formei. E quem estava lá eram os namorados da minha mãe, constantemente substituídos, sempre gentis, querendo me agradar.

Hoje penso que seria melhor se ela tivesse continuado a trocar apenas o peixinho.

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Fraturas

por Murilo

Desculpe-me, Cidinha, por quebrar a sua bacia. Eu espero sinceramente que a senhora se recupere logo da fratura, mas por enquanto tudo que posso fazer é pedir perdão. Talvez você, aí com o quadril todo engessado, acredite que foi um acidente (como aquela vez em que a Paulinha quebrou o braço). Afinal, escorregões acontecem, não é mesmo? Mas a verdade é que o chão da área de serviço estava muito liso naquele dia, mais do que o normal, e foi por isso que você caiu. E sabe, dona Cidinha, o chão não estaria tão liso se não fosse pelo lubrificante WD-40 que eu passei ali na noite anterior.

Calma, Cidinha, não foi nada premeditado, sabe. Com tantos anos de seu bom serviço, por que eu haveria de tramar tal armadilha para a senhora? Não, tudo não passou de um infortúnio, as coisas foram acontecendo. Mas você deve estar se perguntando por que diabos alguém passaria WD-40 no chão. Bem, dona Cidinha, a culpa não foi minha, e sim de uma barata. Isso mesmo, uma maldita barata que apareceu ali na lavanderia naquela noite.

O bicho me provocou, zanzando entre os armários e eletrodomésticos, furtivo em cada quina (e isso me lembra de como foi engraçada aquela vez que eu estava com a Paulinha e ela viu uma barata, mas essa é outra historia). Enfim, para matar o inseto, ocorreu-me pegar o inseticida mais próximo. Sem titubear eu peguei a lata e jorrei o aerossol por tudo. Só quando vi que a barata não morria, é que percebi que o spray não era inseticida coisa nenhuma, mas sim o fatídico lubrificante. Perdão, Cidinha, eu realmente me confundi.

Fosse eu um personagem da Clarice Lispector (que, aliás, a Paulinha tanto gostava), escreveria um livro inteiro sobre minhas introspecções ao matar a barata. Mas não. Eu sou bem menos interessante. A minha única epifania foi perceber que lambuzar o chão com lubrificante foi uma péssima ideia, e a única coisa que consegui escrever foi essa carta de retratação.

A senhora também deve estar se perguntando que tipo de idiota confunde uma lata de inseticida com uma de WD-40. Bem, acontece que eu estava bêbado. Isso mesmo, completamente embriagado. No estado em que eu cheguei em casa, Cidinha, eu não conseguiria diferenciar uma laranja de um limão, não conseguiria diferenciar uma privada de um bidê, e provavelmente já havia demorado vários minutos para conseguir diferenciar a chave do portão da chave da porta (sem falar das chaves do apê da Paulinha, que ainda guardo não sei por que). Enfim, fosse um desodorante ou um laquê de vovozinha, eu teria feito o mesmo, mas infelizmente a primeira lata que encontrei foi de um lubrificante. Bêbado é mesmo uma desgraça. No fim das contas, não matei a barata, mas quase matei a senhora no dia seguinte.

Como eu disse, dona Cidinha, as coisas foram acontecendo. Não é muito usual que eu chegue em casa tão regado de cachaça, sabe, mas é que aquele dia havia sido difícil para mim. Eu tive que beber muito para, como se diz, afogar as mágoas. A realidade às vezes é dura demais, mais dura que o piso da área de serviço.

Acontece que naquele dia eu havia encontrado a Paulinha, lembra dela? Eu ficaria muito feliz em revê-la e toda essa confusão teria sido evitada, se não fosse a maneira que a vi. Ela estava nos braços de outro cara, Cidinha. Disse que era seu mais novo namorado, e já lhe chamava demeu amor”.

Cidinha, desculpe-me por quebrar a sua bacia. Mas, cá entre nós, isso tem conserto e logo a senhora se recupera. Sabe, difícil mesmo vai ser consertar essa outra coisa quebrada aqui dentro de mim.

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Sejamos Turistas

por Murilo

Há dias se viu pensando em viajar; para onde não sabia. Foi num guia de viagem, de um sebo qualquer, que encontrou o que queria. Dentre as muitas sugestões, rumos que nunca ouviu falar. Leu dicas de A a Z, como estas que vou contar.

A simpática Amanda, do litoral catarinense, é de beleza leve e graciosa. Ideal para quem procura momentos de tranquilidade, também pode surpreender com suas agitadas noites de verão. Se estiver de passagem, não deixe de se escorregar por suas dunas ou perambular por suas curvas. Se for ficar mais tempo, não hesite em alugar um chalé na beira da praia, pendurar uma rede na varanda e aproveitar a vida simples e plena que Amanda pode oferecer. Mas fique sabendo: se apaixonar é fácil e não tem volta.

A moderna Gisele sempre foi vista como uma das paisagens mais cosmopolitas do ocidente. Sempre se reinventando, ela muda comportamentos e dita tendências. A fama de caráter fechado não passa de balela; Gisele é aberta a pessoas interessantes que tenham a coragem de desbravar suas fronteiras e se aprofundar em suas peculiaridades. Para conhecê-la bem, falar inglês é fundamental, mas dominar o idioma francês é ainda melhor. Se você quer dar uma balançada nos seus dias, não deixe de visitar Gisele. Ela quer mudar o mundo, mas pode mudar a sua vida.

Frenética e exótica, Nicole é um dos destinos mais cobiçados do planeta. Nela você encontra atrações monumentais, como os famosos olhos verdes ou os distintos lábios carnudos. Sua atmosfera inebriante atrai homens de todos os lugares; já o custo da estadia não é dos mais baratos. Acostumar-se com seu ritmo inquieto não é fácil, mas pode ser estimulante. Uma semana é pouco tempo para conhecer as nuances de Nicole; portanto, se quiser visitá-la, faça grandes malas e prepare-se para muitas emoções.

Sofia é linda e cheia de história. Sem dúvida, um achado perfeito para quem tem apreço pela cultura. No inverno, é destaque nos festivais, apresentando muita dança, música e poesia. Para quem admira a gastronomia, ela é também um prato cheio, com diversas receitas típicas a ensinar. Se tiver a competência, você pode até mesmo se aventurar por suas montanhas alvas e seus vales pouco explorados. Sofia parece ter saído de um romance, e às vezes faz você pensar que está dentro de um. Venha revelar seus mistérios e ver como a felicidade pode estar mais perto do que imagina.

E havia tantas outras, que lhe abateu certa indecisão; mas foi na última página que encontrou a solução. E dizia o tal guia, seja qual for a sua escolha, o importante é que . Destinos não virão, você é quem irá.

Se planos cogitados são sonhos e planos executados são vida, parece-me que precisamos dos dois, impressos numa passagem de ida.

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deprediação

Do piá aqui dentro
um só lamento
trocaram o parquinho
pelo estacionamento.

Murilo.

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23 dias sem você

Escrito por Deisy

Sou feita de um copo cheio. Não meio cheio, nem meio vazio, mas cheio. Cheio de uma paixão incontrolável, dona de um coração de carne, que sente tudo com a leveza e a dor de um corte rápido feito por uma folha de papel sulfite.

Esse amor, que por vezes se perde dentro de mim, tornando-me sozinha a ponto de fugir e me enfiar no abraço das pessoas, como um cachorro que tem medo de trovão e se ampara em qualquer canto da casa, na esperança de se sentir seguro e confortável. Desespero-me quando as coisas são desejáveis, e ao mesmo tempo inalcançáveis.

Como papilas aflitas após saborear um tempero agridoce, assim me sentia enquanto as mentiras me rodeavam. Quando eu percebi, estava encurralada e não importava o que eu fizesse ou quais caminhos eu seguisse, as mentiras me perseguiam, sustentando em minha alma e no brilho dos meus olhos a dor da culpa. Todas as verdades secretas apodreciam, dentro dos meus pensamentos, virando tumores em minha garganta.

Senti os seus olhos se afastando dos meus enquanto as nossas bocas salivavam e transbordavam em palavras. Por um momento você se afastou e eu pude observar seu sorriso de longe e nossas vidas se desencontrando. Sabia que eu não fazia mais parte daquela alegria.

A dor aumentava dentro do meu peito, uma ou duas lágrimas caíram junto aos cacos da minha alma, falecendo enquanto os meus pensamentos pulsavam em minha cabeça, como bombas sem controle.

Respirei duas, três, mil vezes e, então, esse coração maluco, que há segundos atrás estava embriagado em desespero, lentamente sentiu a angústia se espatifar no chão e voar com o vento.

Um sorriso tomou conta do meu rosto. Não um sorriso triste ou alegre, mas um sorriso livre. Caminhei um, dois, três passos. Dessa vez as mentiras não estavam mais ao meu lado.

Já se passaram 3 semanas e 2 dias desde a ultima vez que te vi. Sinto falta até de poder sentir a sua falta. Melhor assim, os dias são diferentes agora, porque tenho a alegria em ser livre. Essa é a sensação mais suprema.

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Tentei vadiar,

mas o café estava envenenado
com vontade de trabalhar.

Murilo.

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Essa história de se encontrar

escrito por Murilo

Quatro da tarde. É o horário que o sol bate na janelinha e  me cega enquanto trabalho, como que para mostrar sua imponência perante a luz fraca do monitor. Ultimamente o sol muito tem dado  as caras. Há muitos dias não se vê chuva em Curitiba e, quando chove, eu mal percebo, pois ando de carro.
Mas o que é isso? Eu estou mesmo falando sobre o tempo? Que babaca.

Dias bonitos. Esquisitos.

Saí para fumar um cigarro. Havia comprado um maço ontem e ainda restavam alguns. Estranho, maços não costumavam durar tanto. Na volta peguei um café, mais por prazer do que por necessidade.

Alguma coisa aconteceu aqui dentro. Alguma coisa muito séria.

Soube que um amigo meu vai se casar. O curioso é que não me senti tão contrariado com o fato. Coloquei meu fone. Não consegui identificar o que tocava, dentre os tantos gigabytes daquela pasta de músicas. Era um som alegre e bunda-mole. Devia falar de amor.

Até eu, Brutus? Eu que caminhava com volume alto e cabeça baixa, ouvindo bandas brutais a machucar os meus ouvidos. Eu que andava sob a garoa fina e o vento frio, emputecido, segurando cada lágrima para que se transformasse em veneno. Eu que achava que paixão era amor.

Risadas, risadas. Alegria, alegria. Estranhos esses dias, certos demais.

O sol já desceu por completo. Convidam-me para um happy hour. O boteco não parece mais tão atraente como antigamente, mas aceito. Não bebo muito e ninguém ali o faz. Ao pagar, eu que já contei moedas, mal confiro a conta antes de passar o cartão. Estou confuso.

Eu que chegava em casa embriagado e escrevia cartas que nunca seriam entregues a suas destinatárias. Garranchos carregados de desabafos e confissões, muitas vezes indecifráveis no dia seguinte.
Hoje, sóbrio, mando um SMS de boa noite a uma só mulher, sabendo que ela responderá um adorável  bom dia pela manhã.

Antes de dormir, algo me vem à cabeça. Abro o moleskine empoeirado e da caneta sai um haicai torto, quase do avesso.

Sensação boa, mas terrível,
essa de se encontrar,
se habituado a estar perdido.

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Por uma vaga no seu coração

escrito por Murilo.

Felipe não imaginaria que sua entrevista de seleção para aquela empresa seria tão difícil. Era um cara confiante e competente, que já passara por duas empresas e sempre fora muito bem. No entanto, daquela vez a situação foi diferente. Ao entrar na sala, apaixonou-se imediatamente pela moça do RH.  Isabel – pode chamar de Bel – era absurdamente linda. Foi amor à primeira (entre)vista.

“Oi Felipe, tudo bom?” – cumprimentou com beijinho de bochecha estalado.

Com currículo em mão e caneta na outra, sentou-se do outro lado da mesa e cruzou as pernas. Seria uma situação corriqueira e passaria despercebida não fossem dois fatores. Primeiro, a fina meia-calça que revelava a forma e a cor das maravilhosas pernas de Isabel. Segundo, o tampo de vidro transparente da mesa, que permitia que tudo aquilo fosse visto. Felipe não só fitou o cruzar de pernas, como se esqueceu, por um breve momento, o que estava fazendo ali. Se você já viu uma mulher assim, deve saber como é. Mais ou menos como uma voadora no peito. Com uma incredulidade, digna de um ateu, você ao mesmo tempo agradece a Deus por colocar tanta perfeição em um só lugar. Uma situação contraditória, enfim.

“Muito bem, Felipe. O seu currículo parece muito adequado, mas eu gostaria de saber um pouco mais sobre você e suas experiências.”

Bel perguntou sobre seus empregos anteriores, sobre seu plano de carreira, seus sonhos, seus pontos fortes e fracos, seu salário e, enfim, tudo o que normalmente se pergunta em entrevistas do tipo. Felipe havia aprendido a importância do contato visual, mas naquela ocasião isso realmente o desconcentrava. Afinal, era difícil não se perder nos grandes olhos azuis da moça. Apesar disso, o rapaz foi bem na entrevista. Ao fim, contudo, algo muito o incomodava. Nesse momento, ele tomou coragem, levantou-se e disse a verdade.

“Isabel, tem mais uma coisa que eu gostaria de dizer.”

“Pois diga.”

“Você me perguntou por que eu queria trabalhar aqui, e agora eu digo: é porque você trabalha aqui. Você me perguntou se eu sou casado, e agora eu posso dizer que pretendo ser em breve, pois acabei de encontrar a mulher da minha vida. Um sonho meu? Viajar pelo mundo só se for ao seu lado.”

“Como é?” – pergunta, confusa.

“Eu disse que trabalho bem em equipe, mas posso fazer coisas muito melhores a dois. Eu disse que minha pretensão salarial era de quatro mil, mas vou precisar de pelo menos seis, pois quero comprar para você os melhores presentes e te levar ao mais incríveis lugares.”

Ela estática, sem saber como reagir. Ele continua.

“Eu demorei a responder algumas perguntas porque fiquei vidrado nos seus olhos, não conseguia me concentrar. Bel, essa vaga era tudo que eu queria antes de entrar por essa porta, mas agora tudo que eu quero é você.”

Surpreendida e atordoada, ela apenas segue com o protocolo, como que no modo automático.

“Felipe, conforme conversamos, entraremos em contato para agendar uma entrevista com o psicólogo.”

“Você sabe que eu não vou passar. Eu estou louco, e você saber por quem.” – responde ele, saindo da sala.

Estarrecida, ela volta para a cadeira e senta. Olha para o currículo sobre a mesa. Circula o número do telefone. Sorri.

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Entre o conhaque e a cicuta

escrito por Murilo

Em um bar, dois homens praticam a famigerada filosofia de boteco. Curiosamente, um deles se chama Sócrates – mas mais devido ao jogador do que ao filósofo. Não por acaso, entre beber e filosofar, ele prefere a primeira opção, assim como o finado futebolista. No entanto, às vezes mistura as duas coisas, como agora é o caso.

– Você não precisa de muita coisa para ser feliz, sabia? – pergunta Sócrates ao outro.
– Ora, não me venha com essa filosofia barata. É claro que preciso.
– Vou te provar. Você está feliz agora, não?
– Não muito.
– Pelo menos um pouco feliz está. Olhe essa cerveja no seu copo, o bar ao redor… traz um pouco de felicidade, não?
– Sim, um pouco sim.
– Pois bem, agora me diga coisas que, se fossem diferentes aqui, te deixariam ainda mais feliz.
– Bom, para começar eu poderia estar bebendo uma cerveja melhor – dá risada.
– Então tá. Vai imaginando aí, enquanto eu encho seu copo, que essa Antarctica é na verdade uma Stout. Pode ser? Uma Guinness?
– Uhum – concorda.
– Imagine você bebendo uma Guinness, em um boteco melhor… o que mais?
– Umas gostosas também. Por todo lado.
– Tipo em uma…
– Não. Não esse tipo de lugar. As mulheres não estão cobrando nada.
– Entendi. E o que mais? – Sócrates enche os copos novamente.
– Ora, eu podia estar pegando uma dessas gostosas.
– Uma?
– Duas. Melhor duas. E lá fora eu teria um carro importado estacionado também.
– Que carro, um Camaro?
– Não – pensa um pouco enquanto bebe meio copo – Acho que um Mustang.
– Boa escolha. E nessa situação você está feliz para caralho?
– Com certeza.
– Mas poderia estar mais feliz ainda, não? – indaga, enquanto sinaliza para o garçon trazer outra garrafa cheia.
– Provavelmente.
– Veja só, você é um bon bivant, bebendo Guinness em Búzios, e está prestes a levar duas mulheres maravilhosas para o seu Mustang.
– É. Mas acho que eu ficaria ainda mais feliz se eu quisesse pegar essas mulheres há muito tempo, e agora estivesse conseguindo. E também se eu não tivesse que trabalhar no dia seguinte – riu-se.
– Hum… faça um esforço para se imaginar na cena. Você está conseguindo desfrutar de sua máxima felicidade?
O homem fecha os olhos e reflete, não antes de virar mais um copo de cerveja.
– Não sei. Estou feliz, mas sempre tem alguma coisinha que incomoda, não é?
– É verdade – concorda Sócrates – e o que o está incomodando agora?
– Pode parecer ridículo, mas o que mais está me incomodando é uma maldita vontade de mijar. Sabe como é, né? A cerveja…
– Isso, estamos chegando aonde eu quero chegar. O que você faz nessa situação?
– Vou no banheiro, é claro.
– Muito bem, imagine-se com toda a sua concentração agora. Você está em uma noite perfeita, acompanhado de mulheres perfeitas, com muito dinheiro e poucos compromissos. Você está no banheiro, mijando e pensando em tudo isso. Você está no ápice de sua felicidade?
– Sim, agora com certeza.
– Muito bem. E o que te fez chegar no ápice da felicidade?
– Ora, todas essas coisas que você disse que tenho. Dinheiro, mulher, saúde, sucesso…
– Pense bem. Tem certeza? – indaga Sócrates.
O homem pensa, pensa e responde:
-Tem razão. Não foi nada disso.
– E o que foi, então?
– A mijada. Foi a mijada. Nada no mundo é melhor do que uma boa mijada.
– Muito bem. Agora você compreende.

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Tempos que não voltam, porque nunca saíram de nós

escrito por Murilo

Curitiba, 10 de março de 1996.

Mr. Blackhawk

Há homens que nasceram para jogar bola no recreio. Há homens que foram feitos para atazanar as meninas. E há ainda alguns poucos que vieram a esse mundo para estudar. Porém a sua tarefa, o seu propósito, o seu destino é outro. E bem sabemos que os melhores destinos são aqueles que não sabemos dizer se escolhemos ou se fomos escolhidos.

A partir de hoje você faz parte da maior sociedade secreta deste colégio, e aqui não encontrará paz ou repouso. Chegou o momento de esquecer o futebol, as garotas e até mesmo sua diária pipoteca. Agora sua luta será ininterrupta, pois você é um membro oficial do Esquadrão do Giz.

Em cada missão, você deverá ser invisível ao roubar o giz das salas de aula. Depois deverá levar os gizes ao nosso esconderijo, que em breve saberá onde fica. Após a coleta de todo o giz, será a hora de deixar a marca do EG, não nos detestáveis quadros-negros, mas por todas as calçadas e paredes da escola.

Advertimos, contudo, que os inimigos estão por toda parte, sejam eles professores, supervisores ou até mesmo os brutamontes da quarta série. Se você for pego em flagrante, alertamos que, embora a punição por parte da diretoria do colégio possa ser dura, a punição do EG para delatores será muito pior. Após ler essa carta, não hesite em queimá-la, para que todas essas informações habitem apenas o absoluto sigilo de sua mente.

E lembre-se que, por mais efêmeras que forem as nossas marcas de giz no chão, serão perenes em nossas memórias, como ferro e fogo não fariam igual.

Seja bem-vindo ao EG.

Atenciosamente
Capitão Wolfheart

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