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Até amanhecer, até morrer

 

O motoboy da pizzaria chegou e ficou olhando para as minhas pernas. Foi estranho, porque não costumo dar confiança para vagabundo, mas dele eu gostei. Ele também gostou do meu shortinho, então acho que tudo bem. Marido viajando, solidão, uma pizza média que comprei para jantar hoje e para sobrar para o café de amanhã. Sei lá. E ele foi tão fofo, com aquele papo de “desculpa a demora, mas juro que acabou de sair do forno”, enquanto apontava para a caixa de comida com a cabeça. “Imagina”, respondi, querendo mesmo que ele imaginasse o que quisesse. “É no cartão, né?”, disse ele, tirando a maquininha daquela caixa enorme que eles carregam na moto. “É sim. Pode ser crédito, né?”, “pode”, “tá. Pizza, vinho com esse frio…hmmmmm”. “Pois é. É bom, né?”. “Aham”. Ele parecia fingir desinteresse, mas tudo bem, porque, no fim, quem sou eu? Que fosse. “E você, trabalha até que horas?”, perguntei. “Até uma meia noite e meia…o cartão não passou. Vou tentar de novo. Desculpa”. “Imagina, desculpa eu…passa esse outro aqui, por favor. Dei o cartão errado”. Um ônibus passou na rua, cheio de gente, ou seja, completamente “repleto de homens vazios”, como diria o Vinícius de Moraes sobre os bares. “Arrisquei um “e vai fazer o que depois do trabalho?”, e ouvi um “Vou dormir, cuidar do meu filho. Minha mulher pediu pra eu levar fralda, que pra amanhã de manhã já não vai ter. Bebê é isso, né?”. “Ah, legal, tem que cuidar mesmo…”. “Ééé”. “Tá bom…brigada, tchau”.

 

Parece que todo mundo está sempre ocupado demais quando é para fazer algo que gere alguma emoção. Ninguém me acompanha. Parece até, pensando assim, que o tempo existe mesmo e que ele é sempre muito curto.

 

Marco Antonio Santos

 

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Soliloque

 

Tem essa porrada de coisas que fazem sucesso mas não fazem sentido, tipo pagar pra entrar num bar e depois ter que pagar dez pila numa porra de um chopp de trezentos ml. Será que lavei a louça antes de sair de casa? Que seja. A casa é minha. As visitas que aprendam a lidar com o jeito que eu organizo as minhas coisas. Se eu chegar atrasada no trabalho de volta… Não tenho nem mais desculpa, nem cara pra isso. Ah. Se for o caso também, não dou desculpa nenhuma, sento lá e nem falo nada. Nem dou bom dia pra ninguém. Numa dessas é melhor. Será que se eles pensarem que tô com algum problema sério em casa não me perguntam nada? Deve ser por aí. Que seja, também. Acho que lavei a louça sim. Ai, Pedro, pra que apertar tanto minha mão, porra? E eu lá sou criança pra precisar segurar minha mão pra atravessar a rua? Ainda bem que você não sabe o quanto eu te amo. É meio foda admitir. É mais saudável falar a verdade, mas é mais difícil, então sei lá. Assim tá bom. Assim tá legal. Assim me sinto bem. Será que peço ele em casamento agora? Ai, com esse frio na barriga não consigo nem falar. Tá foda respirar. Tipo “your gut sinks each time you see her”, do Defeater, mas com “him” no final. O Converge é melhor que o Defeater. “Phoenix in flames” é melhor que qualquer coisa que o Defeater fez ou vai fazer. “Sadness Come Home” também. O La Dispute é meio diferente dos dois. O Touché Amore também. O Every Time I Die é bom desde o nome. O Leathermouth também é maneiro, é moleque. O Nails não tem nada a ver com nenhum deles, mas é sinistrão. O Cavalera Conspiracy também. O Alceu Valença e o João Gilberto são melhores que todos esses. O Wes Anderson é melhor que o Paul Thomas Anderson? Nem fodendo. O Caetano Veloso é melhor que o Chico Buarque? Sei lá. Não é competição. Ai, Pedro. Solta. Não tenho coragem de soltar de novo. Vai ser a …quart…quinta vez que eu vou soltar a mão dele em menos de duas quadras. Na cabeça dele deve fazer sentido segurar minha mão assim. Deve estar fazendo bem pra ele. Pra alguém tem que fazer. Vou deixar…”a vida me levar”. E o Jota Quest é melhor que o Skank? Ah. Sei lá. Eu nunca sei. Eu sei, mas não vou admitir. Pensar é bizarro. Pensar é uma merda, mas falar é pior. Ouvir é legal. Vou pedir ele em casamento. Não consigo. Eu devia. Ele merece. Eu quero. Eu mereço. Sei lá.

 

– Pedro, quer almoçar no shopping, mais tarde?

 

– Sei lá. Num dá pra ser em outro lugar?…eu não curto muito shopping.

 

– Ah, é. Real.

 

– É…só gente imbecil gosta de shopping. Escada-rolante, luz branca…

 

– Luz branca tipo de morte…rá rá…

 

– É…aquela merda toda lá…loja, loja, loja…

 

– Nah, mas pode ser em qualquer outro lugar. Eu só quero almoçar com você. Você me liga umas 11 e meia?

 

– Ligo. Vou tar por aqui umas 11 e pouquinho. Te ligo sim. Deixa o telefone perto hoje, tá?

 

– Tá.

 

– Tchau.

 

– Beijão. Vai bem.

 

– Também. Te amo.

– Rá rá. Vem de novo com essa que você tá fodido…rá rá.

 

 

 

Marco Antonio Santos

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O penúltimo continente perdido (parte 2)

Marco Antonio.

Parte 1 aqui.

Alguns de vocês devem estar estranhando o fato de eu estar fazendo um discurso aqui. Até porque eu não fui ver ele no hospital. Não por causa do hospital, ainda que eles suscitem em mim uma sensação de desespero, mas por duas outras razões: eu moro em outra cidade, e não tinha como saber que o Fábio estava tão doente. A gente não se falava mais.

Fomos casados por 18 anos, dos quais mais ou menos 13 foram ótimos. Outros podem mentir sobre o Fábio, dizer que ele não tinha defeitos, e sei lá mais o que. Mas eu não vim de tão longe para isso. Ninguém é perfeito. Enfim, pensei bastante e concluí que é justo e elegante dizer aqui que o nosso relacionamento foi igual aos outros. Nos bons momentos, fomos paraíso, e nos momentos ruins, simplesmente não.

Acho que disso vocês vão lembrar. Ele nunca pedia desculpas. Na verdade, partia do princípio de que não devemos pedir desculpas para os nossos amigos. Nunca entendi isso direito. O problema é que ele sempre teve muitos amigos, e vivia cercado desse grupo, do qual um dia fiz parte. Enfim. Ele não pediria desculpas por este texto do epitáfio, que me pediu para ler, por alguma razão que desconheço e, sinceramente, ignoro. De qualquer forma, é por isso que vim. Só tem uma linha.

“Lembrete para todos nós: no fim do caminho, assim como no meio, estamos sós.”.

Ninguém entendeu muito bem. Seria aquela a última brincadeira de Fábio? Sim ou não, seria no mínimo uma das que sobreviveriam à passagem do tempo. Pelo menos, a pedra na qual estas palavras estão inscritas terá vida mais longa que qualquer um dos que assistiram ao pequeno evento que se desenrolou naquele cemitério.

Alguns choraram, outros não. Desceram o caixão. Cobriram-no com terra. Todo mundo foi embora, e aquele grupo de pessoas que ali estavam nunca mais se reuniu. Helena voltou para sua cidade, e hoje nem lembra das palavras que leu no funeral do ex-marido. Helena também vai morrer um dia.

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