Arquivo da categoria: Texto Curto

A Índia que descobriu a América

Não estava claro se ela tinha mais medo da água ou das pessoas ao redor, mas era nítido o choque que aquele passeio lhe causava. Ia agarrada ao corrimão, segurando seus vários metros de sari púrpura enrolados ao corpo, mas nem por isso suficientes para lhe aquecer do vento frio que já corta até os pensamentos que não deveriam existir. Se o balançar do barco não fosse assustador o suficiente, ainda estava cercada de ocidentais com suas roupas masculinizadas ou vulgares, expelindo palavras que ela não entendia. Via-as embaçadas à sua frente, como se não entendesse o que diziam por estar sem seus óculos, mas tinha certeza que aquelas palavras tinham algo de obsceno. O ocidente é sempre obsceno.

André Petrini

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Noites pretas

Como seria

um dia inteiro

de alegria?

 

Será que as flores

se abririam, em gratidão

por este sol que nunca morre?

 

Ou, mais lindo: as palavras ganhariam sentido?

Marco Antonio Santos

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paranoia

por Rafael

horas com o celular na mão, contando as vezes que Você fica online no whatsapp sem falar comigo.

hoje, 17, até agora.

fosse eu até o final destas linhas, 20.

quem tanto
a tem?

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Dai as mãos

Tônia se sentia abençoada. Vivia um daqueles raríssimos primeiros encontros sem medo ou mentira – imaculado. Noite quente, conversa farta, as sardinhas dele no nariz, uma vontade de amor incondicional despertada pelo filme do Wes Anderson. Agora caminhavam pelo calçadão vazio, o barulho da bicicleta levada de lado lembrava o do projetor. A menina desempenhava seu papel confiante, relaxou demais, cedeu ao diabo, agarrou a mão do amigo. Corta! Oh, horror, o que eu fiz, meu Deus? Ela soltou no susto, quis morrer para não ter que explicar. Desculpa, desculpa, sei que é muito cedo, não somos namorados. Tiago ainda riu, disse que dar as mãos não era pecado, mas a infratora assumiu a culpa irredutível, exilou-se em si mesma. O jeitinho bobinho dela o fez sorrir. Se ela não tivesse arrancado os próprios olhos, talvez tivesse notado. Ele quis ampará-la, mais de uma vez procurou a mão dela, que sempre fugia, não precisava da piedade de ninguém. No fim, nem a lua onipresente no céu pôde transformar o constrangimento na intenção de um segundo encontro.

Suelen Trevizan

(http://www.sularien.blogspot.com.br/)

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Na ilha de uma revista famosa

O que você diz não vale atenção. “Eu, eu, eu, eu, eu”,: os pés pelas mãos.

Meu tempo não volta. Acho que o seu também não. Então não vai adiantar. Nunca adiantou.

O que você diz é menos que o que faz. Como sempre é. E que não seja mais.

O vento só fala do que nunca vou entender. Mas é assim que é. E como vai ser?

Marco Antonio Santos

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Ao diabo um segundo na Terra

por Murilo

Tac Tic. Voltei no disco do tempo. E tal qual em disco da Xuxa, vi os sinais do tinhoso.

O respeitoso senhor fitar os seios da mãe amamentando no ônibus, desejando estar no lugar do bebê. A moça conferir, de soslaio, o volume do melhor amigo de seu namorado. O irmão mais velho passar a perna no caçula. O caçula dedurar para os pais, aumentando a história toda.  O tio olhar para a sobrinha que já pegou no colo há 15 anos, com vontade de pegá-la novamente. A menina trendsetter espalhar a novidade do falecimento de sua amiga, e ficar secretamente feliz por ter sido uma das primeiras a saber. O pai duvidar das capacidades de sua filha. O psiquiatra zombar, internamente, das lamúrias de seu paciente. O funcionário desejar a morte do chefe. O chefe, no carro, desejar a morte do mendigo na rua. O gordo de dieta não resistir a um bolinho. O padre olhar, incrédulo, para a hóstia em suas mãos. O pastor olhar, crédulo, para o dinheiro nas suas. O garçom cuspir no sanduíche. Boça se vingar ao seu modo. O jovem, nem tão jovem, falsificar sua carteirinha de estudante. A casa de shows cobrar o dobro para compensar o prejuízo com essas carteirinhas. A garota invejar o corpo, a roupa, o trabalho e a vida da outra. O caipira fitar a égua e planejar o barranqueio. O policial descer o sarrafo no manifestante. O manifestante quebrar tudo que pode. O opressor contar uma piada racista. O oprimido gargalhar. A velha funcionária pública jogar paciência enquanto se acaba a paciência na fila de atendimento. O velho funcionário ficar até mais tarde no trabalho para acessar pornografia. O rapaz tirar a aliança antes de entrar na balada. O garoto ignorar o post que fala sobre as crianças da África e curtir um meme qualquer. A garota engajada que postou sobre crianças na África desligar o Macbook e pega sua bolsa Louis Vuitton para ir ao shopping. O chefe defender o talento da estagiária, mesmo que só interessado em sua bunda. E todos os funcionários saberem disso, e todos compreenderem.

Um segundo de podridão humana. Um segundo como outro qualquer.

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Ver-sos-de-nos

por Rafael

Esforço vão foi o de tentar nos escrever. Sei, mas tento me esquecer de que jamais tive punhos tão ágeis para registrar você e acompanhar a velocidade com que transita e se reinventa dentro da sua própria existência.

Por mais que eu permanecesse imóvel no tempo, no espaço, o nós seria sempre algo diferente-a-cada-momento, além de cada possível-interpretação.

Me conforta saber que um episódio de sinceridade dispensa compreensões. Por isso desisto destas linhas e aceito que você segue sempre um passo à minha frente. Sequer olha para trás.

Eu, devagar, me dou ao luxo de juntar meus pedaços que se misturam aos versos que resvalam dos seus passos leves, como passeássemos num entardecer em Mercúrio.

Um passeio que jamais fizemos, ou adiamos para uma próxima encarnação.

Ainda atrás de você, com um golpe furtivo, anoto em um pedaço de papel rasgado:

nunca tão longe, sempre à vista
te miro sem que me sintas
te vivo à minha maneira
em um mundo onde
o tempo não nos atinge
corre às margens de nós

 

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