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Ilha

por Jadson André, autor convidado

“Mais uma vez eles vão celebrar. Vão dançar a noite toda com suas roupas brancas e taças de champanhe”, diz o pescador para a garota ao lado. Na linha do horizonte há algumas luzes, apenas pontos opacos. Vêm das praias do sul, abarrotadas. Aquela ilha isolada, cortada do continente, é fronteira final do Atlântico. Alto-mar está ali na frente deles.

As nuvens se acumulam em volta da ilha quase deserta. Deságuam no oceano. Incrivelmente formam um círculo ao redor e somente ela não recebe a chuva. É açoitada com o vento que leva os mosquitos noturnos, leva também as cortinas de areia fina, quase virgem.

A ilha está obscurecida pelo manto da noite costeira. Raios iluminam as nuvens que ganham tons metálicos. Flashs que dão ar festivo à noite do casal ermitão. A garota não sabe o que é uma festa de réveillon, nunca deixou a ilha, embora acariciasse a ideia certas vezes. Assistia de longe os fogos quando criança, mas à medida que se aproximava da maioridade, abandonara esse costume de fim de ano. Na ausência de calendário, os dias não eram iguais, mas eram sempre os mesmos.

A casa de madeira fica depois do córrego cor de cobre. Sem luz elétrica, água se puxa pela bomba mecânica, alavancando-a freneticamente. Aparelho tão velho que o gosto de metal enferrujado é intruso na água. Ela não sabe a diferença, nunca provou outra se não aquela. Há dois anos a mãe morrera. Estava sentada na rede quando simplesmente parou de respirar. O pai desapareceu em alto-mar dias antes. Se lembrava da voz, do contorno dos ombros dele, embora não conseguisse formar o rosto em sua mente.

Depois das perdas, estava resignada a solidão. O pescador chegara há dois dias em um barco de fibra, movido por motor a diesel. Era o primeiro a aportar na praia deserta em anos. Contornar a ilha era inútil para os navios e os barcos pequenos não se arriscavam entrar naquela faixa de mar. A turbulência acontecia em volta, a espreita como um leão preso em coleira de aço. A ilha mantinha-se intacta.

De manhã o pescador suicida esticava as redes ao longo de dois quilômetros. Antes do crepúsculo as recolhia com peixes prateados. A garota o recebera apreensiva, mas agora já se aquecia com a presença humana. Ele a olhava sem pretensões. Na noite da virada a convidou para ir à praia. Olhavam as estrelas por uma abertura nas nuvens. O jogo dos raios continuava e a encenação da chuva, em círculos, também.

Ele descrevia como era a passagem do ano no continente. Ela olhava fixamente para a arrebentação. Pupilas acostumadas à escuridão tocavam conscientemente as espumas brancas e a areia rígida, refletida em cobalto. Sonhava todas as noites com o duende Kobold que morava em cavernas da Alemanha, das quais tinha ouvido falar. Atravessaria o oceano em diagonal e viria sufocá-la na cama. Acordou da distração para ouvir outra parte das descrições do pescador. Pensou em interrompê-lo e pedir que a levasse embora dali. Hesitou. Talvez amanhã, talvez o próximo pescador, no próximo ano. Haveria outras chances de deixar a ilha.

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O Volúvel e o Volátil

Gabriel Protski

A vida segue em meio a grandes explosões. Uma espécie de Big Bang particular. A base de tudo que acreditamos foi construída na ruína de nossas antigas crenças. Herdamos valores do nosso meio. Herdamos tudo o que não queremos. E negamos. Nossa vontade de mudar é iminente, sintomática. E essa vontade, nosso combustível. Que, na pior das hipóteses, se não fizer com que nos movamos, nos fará explodir.

 

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As loucas da tarja preta

por Nina Zambiassi

Eu amo as loucas da tarja preta
Estriquinadas e mal amadas
acelerando para desacelerar

Todas iguais
as loucas da tarja preta
não querem voltar pra casa
encontrar seus problemas
todos de mãos dadas

Como serão solitárias suas casas
suas mentes drogadas
criando maneiras de ser normais

Não me reparam
as loucas da tarja preta
o meu pensamento lento e aéreo
se dissolve à química moderna

Me limito a imaginar
tamanha excitação
das loucas da tarja preta
ao ouvir o médico dizer
que a dose vai ter que aumentar

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Pela manhã

do mestre Bernardo Staut

Pela manhã, calafrios e arrepios
Passa o sereno, dia após dia
Não adivinho a origem dessa transição
Nada diferente, começa a liturgia

Vidas inteiras passam,
Até que eu compreenda o erro do movimento:
As correntezas distraem o sujeito,
Fruto de todo esse vento.

Água sempre para lá e para cá, doce ou seca
Mas nunca deixou de ser a mesma presença
Até que eu comece a respirar submerso
Nunca chegarei à essência .

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Luzes que Vagam

por Jhonny Castro.

– Será que dá pra fotografar os vaga-lumes?

– Com uma boa câmera, e abertura de lente e tudo mais, talvez dê.

– Vou tentar com essa mesmo.

– Mas desliga o flash, ele tá perturbando os bichinhos.

– Sem flash não vejo eles, só aparecem dois pontinhos luminosos no fundo preto.

– Então tira foto das estrelas e diz que é vaga-lume, que no fim é a mesma coisa.

– São diferentes.

*flash*

– Mas dá pra enganar as pessoas, dizendo que na foto dos vaga-lumes são estrelas, e que a das estrelas são vaga-lumes.

– Mas quem me garante que aqueles não são mesmo os vaga-lumes, e essas aqui embaixo as estrelas? As coisas só tem os nomes que damos a elas.

– Você sabia que boa parte das estrelas que nós vemos já nem existem mais?

– Se você apagar a luz vai dar pra ver melhor os vaga-lumes no quintal, lá atrás.

– Eu prefiro ver os vaga-lumes lá de cima.

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Bolha

por Jadson

Duas batidas na porta e ele não se levanta. Do outro lado, o carteiro continua insistindo. Bate mais uma vez, chama pelo nome que consta na prancheta, mas ninguém atende. A sala tem teto alto e paredes brancas com algumas marcas de sujeira. Estão lisas, sem relógio, pôster ou quadro. Um tapete redondo de crochê. Uma poltrona velha de couro marrom. O homem está sentado com o queixo colado ao peito, braços sobre os encostos, pernas separadas, boca aberta e babando. Não está dormindo, mas com os olhos abertos, paralisados. Dopado desde a noite anterior, sem dormir, sem se mexer. Pendurada em uma veia grossa do pé direito está a seringa.

A alguns metros dele, no chão, perto da passagem para a cozinha está o corpo da garota, prostrado, pernas dobradas em foram de ‘s’ e o rosto no chão, como uma indígena adoradora do fogo, braços esticados. Depois de morta por estrangulamento com cadarço, exatamente naquela posição, teve a mão esquerda cortada com um só golpe de lâmina. Está exatamente no mesmo lugar desde então, nada foi mexido. A grande poça de sangue está quase secando, parece esmalte vermelho derramado no chão de revestimento sintético.

São quatro e meia da tarde e o carteiro sente o cheiro estranho que passa pelas frestas da porta. Dá pouca importância ao detalhe, quer terminar a rua e ir embora. Pelo menos o trocaram de zona, na anterior tinha cansado de fugir de um pitbull de rua, que não era de ninguém, mas que todos os vizinhos alimentavam. O cão se fora, mas em seu novo caminho outra pedra aparecera. Aquele prédio sem porteiro, sem elevador, sem corrimão nas escadas. Era obrigado a entrar, a agência do bairro disponibilizava a chave da porta do hall de entrada e ele era obrigado a subir os treze andares entregando cartas e encomendas. Queria se livrar logo e por isso aquele cheiro não lhe dizia nada, apenas dava repulsa. Seu cérebro canino o fez sair correndo e xingando em voz contida.

Antes, porém, colou o bilhete na porta intimando o morador comparecer até a agência postal e retirar a caixa, selada e carimbada em Fênix, no noroeste do estado. Desistiu de subir os outros sete andares, amanhã terminaria de entregar as outras cartas.

O barulho dos passos deixando o corredor foi ouvido no interior do apartamento do sexto andar, mas nada lá dentro se moveu. O viciado permaneceu intacto, respirando devagar. Fechou os olhos e caiu em sono profundo. Entrou na bolha.

Sonhou que estava de volta à pequena vila com ruas de terra onde cresceu com a tia. Andando por um campinho verde, onde jogava bola, viu do outro lado uma menina, pele branca, cabelos enrolados, com um vestido bege de alças finas, ela o esperava do outro lado, o chamava, acenava e ele planou em direção a ela, ouvindo sons suaves, ventos com tons avermelhados o carregaram até encontrar a mão da menina, ela o puxou e ambos caminharam por algumas quadras até chegar ao lago. Embaixo de uma árvore, que sustenta um balanço, eles sentaram, colocaram os pés na água e ela passou a mão esquerda lentamente atrás do cabelo dele. Ele respirou, pensou em dizer algo, olhou para cada detalhe do rosto da menina branca, mas desistiu de falar. Temia que qualquer movimento estourasse a bolha.

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O acaso é a escolha mais livre

por Nina Zambiassi

São Paulo, filosofia, a nova vida de professor universitário, o filme do Lars von Trier: tudo o que se fala nesta mesa. Mas se virar a esquina para a esquerda, um baseado passa de mão em mão e a fumaça sobe em volta de um grafite de um menino negro e pobre. Ou se preferir, sentido litoral, tem o morro do sabão. Diante do morro, cólicas menstruais. O sangue escorre pelas pernas. Ao longe, o mar. Um deserto de caminhada sem fim. E pra variar, no hemisfério norte, três mexicanos abandonam um brasileiro em meio a outro deserto.

– Dizem que a morte no deserto é a melhor que tem, você fica molinho, molinho e apaga, desidrata, nem sente.

O celular epilético se contorce dentro do bolso. Ela te liga todo o dia? Mais de uma vez por dia? Não vai atender? Agora não, daqui a pouco. Tenho que ir. Tão cedo? Ela tá te cercando, fica esperto. Eu vou levando…

Na mesma rua, um portão de garagem se abre para uma família de ácaros. Em meio às antiguidades, levo o meu dedão à boca e chupo, feito criança. Ele retorna molinho, molinho, feito morte no deserto.

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