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Ilha

por Jadson André, autor convidado

“Mais uma vez eles vão celebrar. Vão dançar a noite toda com suas roupas brancas e taças de champanhe”, diz o pescador para a garota ao lado. Na linha do horizonte há algumas luzes, apenas pontos opacos. Vêm das praias do sul, abarrotadas. Aquela ilha isolada, cortada do continente, é fronteira final do Atlântico. Alto-mar está ali na frente deles.

As nuvens se acumulam em volta da ilha quase deserta. Deságuam no oceano. Incrivelmente formam um círculo ao redor e somente ela não recebe a chuva. É açoitada com o vento que leva os mosquitos noturnos, leva também as cortinas de areia fina, quase virgem.

A ilha está obscurecida pelo manto da noite costeira. Raios iluminam as nuvens que ganham tons metálicos. Flashs que dão ar festivo à noite do casal ermitão. A garota não sabe o que é uma festa de réveillon, nunca deixou a ilha, embora acariciasse a ideia certas vezes. Assistia de longe os fogos quando criança, mas à medida que se aproximava da maioridade, abandonara esse costume de fim de ano. Na ausência de calendário, os dias não eram iguais, mas eram sempre os mesmos.

A casa de madeira fica depois do córrego cor de cobre. Sem luz elétrica, água se puxa pela bomba mecânica, alavancando-a freneticamente. Aparelho tão velho que o gosto de metal enferrujado é intruso na água. Ela não sabe a diferença, nunca provou outra se não aquela. Há dois anos a mãe morrera. Estava sentada na rede quando simplesmente parou de respirar. O pai desapareceu em alto-mar dias antes. Se lembrava da voz, do contorno dos ombros dele, embora não conseguisse formar o rosto em sua mente.

Depois das perdas, estava resignada a solidão. O pescador chegara há dois dias em um barco de fibra, movido por motor a diesel. Era o primeiro a aportar na praia deserta em anos. Contornar a ilha era inútil para os navios e os barcos pequenos não se arriscavam entrar naquela faixa de mar. A turbulência acontecia em volta, a espreita como um leão preso em coleira de aço. A ilha mantinha-se intacta.

De manhã o pescador suicida esticava as redes ao longo de dois quilômetros. Antes do crepúsculo as recolhia com peixes prateados. A garota o recebera apreensiva, mas agora já se aquecia com a presença humana. Ele a olhava sem pretensões. Na noite da virada a convidou para ir à praia. Olhavam as estrelas por uma abertura nas nuvens. O jogo dos raios continuava e a encenação da chuva, em círculos, também.

Ele descrevia como era a passagem do ano no continente. Ela olhava fixamente para a arrebentação. Pupilas acostumadas à escuridão tocavam conscientemente as espumas brancas e a areia rígida, refletida em cobalto. Sonhava todas as noites com o duende Kobold que morava em cavernas da Alemanha, das quais tinha ouvido falar. Atravessaria o oceano em diagonal e viria sufocá-la na cama. Acordou da distração para ouvir outra parte das descrições do pescador. Pensou em interrompê-lo e pedir que a levasse embora dali. Hesitou. Talvez amanhã, talvez o próximo pescador, no próximo ano. Haveria outras chances de deixar a ilha.

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O Volúvel e o Volátil

Gabriel Protski

A vida segue em meio a grandes explosões. Uma espécie de Big Bang particular. A base de tudo que acreditamos foi construída na ruína de nossas antigas crenças. Herdamos valores do nosso meio. Herdamos tudo o que não queremos. E negamos. Nossa vontade de mudar é iminente, sintomática. E essa vontade, nosso combustível. Que, na pior das hipóteses, se não fizer com que nos movamos, nos fará explodir.

 

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As loucas da tarja preta

por Nina Zambiassi

Eu amo as loucas da tarja preta
Estriquinadas e mal amadas
acelerando para desacelerar

Todas iguais
as loucas da tarja preta
não querem voltar pra casa
encontrar seus problemas
todos de mãos dadas

Como serão solitárias suas casas
suas mentes drogadas
criando maneiras de ser normais

Não me reparam
as loucas da tarja preta
o meu pensamento lento e aéreo
se dissolve à química moderna

Me limito a imaginar
tamanha excitação
das loucas da tarja preta
ao ouvir o médico dizer
que a dose vai ter que aumentar

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Pela manhã

do mestre Bernardo Staut

Pela manhã, calafrios e arrepios
Passa o sereno, dia após dia
Não adivinho a origem dessa transição
Nada diferente, começa a liturgia

Vidas inteiras passam,
Até que eu compreenda o erro do movimento:
As correntezas distraem o sujeito,
Fruto de todo esse vento.

Água sempre para lá e para cá, doce ou seca
Mas nunca deixou de ser a mesma presença
Até que eu comece a respirar submerso
Nunca chegarei à essência .

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Luzes que Vagam

por Jhonny Castro.

– Será que dá pra fotografar os vaga-lumes?

– Com uma boa câmera, e abertura de lente e tudo mais, talvez dê.

– Vou tentar com essa mesmo.

– Mas desliga o flash, ele tá perturbando os bichinhos.

– Sem flash não vejo eles, só aparecem dois pontinhos luminosos no fundo preto.

– Então tira foto das estrelas e diz que é vaga-lume, que no fim é a mesma coisa.

– São diferentes.

*flash*

– Mas dá pra enganar as pessoas, dizendo que na foto dos vaga-lumes são estrelas, e que a das estrelas são vaga-lumes.

– Mas quem me garante que aqueles não são mesmo os vaga-lumes, e essas aqui embaixo as estrelas? As coisas só tem os nomes que damos a elas.

– Você sabia que boa parte das estrelas que nós vemos já nem existem mais?

– Se você apagar a luz vai dar pra ver melhor os vaga-lumes no quintal, lá atrás.

– Eu prefiro ver os vaga-lumes lá de cima.

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Bolha

por Jadson

Duas batidas na porta e ele não se levanta. Do outro lado, o carteiro continua insistindo. Bate mais uma vez, chama pelo nome que consta na prancheta, mas ninguém atende. A sala tem teto alto e paredes brancas com algumas marcas de sujeira. Estão lisas, sem relógio, pôster ou quadro. Um tapete redondo de crochê. Uma poltrona velha de couro marrom. O homem está sentado com o queixo colado ao peito, braços sobre os encostos, pernas separadas, boca aberta e babando. Não está dormindo, mas com os olhos abertos, paralisados. Dopado desde a noite anterior, sem dormir, sem se mexer. Pendurada em uma veia grossa do pé direito está a seringa.

A alguns metros dele, no chão, perto da passagem para a cozinha está o corpo da garota, prostrado, pernas dobradas em foram de ‘s’ e o rosto no chão, como uma indígena adoradora do fogo, braços esticados. Depois de morta por estrangulamento com cadarço, exatamente naquela posição, teve a mão esquerda cortada com um só golpe de lâmina. Está exatamente no mesmo lugar desde então, nada foi mexido. A grande poça de sangue está quase secando, parece esmalte vermelho derramado no chão de revestimento sintético.

São quatro e meia da tarde e o carteiro sente o cheiro estranho que passa pelas frestas da porta. Dá pouca importância ao detalhe, quer terminar a rua e ir embora. Pelo menos o trocaram de zona, na anterior tinha cansado de fugir de um pitbull de rua, que não era de ninguém, mas que todos os vizinhos alimentavam. O cão se fora, mas em seu novo caminho outra pedra aparecera. Aquele prédio sem porteiro, sem elevador, sem corrimão nas escadas. Era obrigado a entrar, a agência do bairro disponibilizava a chave da porta do hall de entrada e ele era obrigado a subir os treze andares entregando cartas e encomendas. Queria se livrar logo e por isso aquele cheiro não lhe dizia nada, apenas dava repulsa. Seu cérebro canino o fez sair correndo e xingando em voz contida.

Antes, porém, colou o bilhete na porta intimando o morador comparecer até a agência postal e retirar a caixa, selada e carimbada em Fênix, no noroeste do estado. Desistiu de subir os outros sete andares, amanhã terminaria de entregar as outras cartas.

O barulho dos passos deixando o corredor foi ouvido no interior do apartamento do sexto andar, mas nada lá dentro se moveu. O viciado permaneceu intacto, respirando devagar. Fechou os olhos e caiu em sono profundo. Entrou na bolha.

Sonhou que estava de volta à pequena vila com ruas de terra onde cresceu com a tia. Andando por um campinho verde, onde jogava bola, viu do outro lado uma menina, pele branca, cabelos enrolados, com um vestido bege de alças finas, ela o esperava do outro lado, o chamava, acenava e ele planou em direção a ela, ouvindo sons suaves, ventos com tons avermelhados o carregaram até encontrar a mão da menina, ela o puxou e ambos caminharam por algumas quadras até chegar ao lago. Embaixo de uma árvore, que sustenta um balanço, eles sentaram, colocaram os pés na água e ela passou a mão esquerda lentamente atrás do cabelo dele. Ele respirou, pensou em dizer algo, olhou para cada detalhe do rosto da menina branca, mas desistiu de falar. Temia que qualquer movimento estourasse a bolha.

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O acaso é a escolha mais livre

por Nina Zambiassi

São Paulo, filosofia, a nova vida de professor universitário, o filme do Lars von Trier: tudo o que se fala nesta mesa. Mas se virar a esquina para a esquerda, um baseado passa de mão em mão e a fumaça sobe em volta de um grafite de um menino negro e pobre. Ou se preferir, sentido litoral, tem o morro do sabão. Diante do morro, cólicas menstruais. O sangue escorre pelas pernas. Ao longe, o mar. Um deserto de caminhada sem fim. E pra variar, no hemisfério norte, três mexicanos abandonam um brasileiro em meio a outro deserto.

– Dizem que a morte no deserto é a melhor que tem, você fica molinho, molinho e apaga, desidrata, nem sente.

O celular epilético se contorce dentro do bolso. Ela te liga todo o dia? Mais de uma vez por dia? Não vai atender? Agora não, daqui a pouco. Tenho que ir. Tão cedo? Ela tá te cercando, fica esperto. Eu vou levando…

Na mesma rua, um portão de garagem se abre para uma família de ácaros. Em meio às antiguidades, levo o meu dedão à boca e chupo, feito criança. Ele retorna molinho, molinho, feito morte no deserto.

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Cartas de Camila | Bianca

Deisy Soares!

Camila tinha apenas 7 anos de idade quando sua mãe resolveu ir embora para a capital em busca de uma vida melhor para sua filha. A mãe de Camila, Dona Joana, sonhava em abrir um Café do outro lado da rua de sua casa. Imaginava o dia em que estaria preparando seus sonhos – ela adorava fazer sonhos de nata – enquanto sua filha a observava cuidadosamente, do balanço de madeira instalado no jardim.

Dona Joana foi, mas nunca mais voltou. Camila foi criada por sua avó materna, não chegou a conhecer seu pai, e estava sempre rodeada por tias. Camila vivia uma vida tranquila, mas sem uma mãe ou sonhos de nata.

Camila se sentia sozinha. Sua avó, já muito doente, não era a companhia mais estimulante. Suas tias fofoqueiras passavam o dia entre opiniões e julgamentos alheios. No meio de tantas pessoas e tantas lamúrias, ela não tinha ninguém que a escutasse. Assim então, Camila costumava ficar em seu quarto, escrevendo suas cartas. As cartas davam vozes aos seus sentimentos e aliviavam as dores do seu coração.

O seu tempo era dedicado aos outros, Camila não tinha vaidade, não sabia o que era cuidar de si. Tinha dores no peito, tinha um coração grande demais, tão grande que um dia ele parou de bater.

Dois anos se passaram desde a morte prematura da menina Camila, e os seus familiares ainda não conseguiam olhar para aquelas paredes do seu antigo quarto sem cair em desespero. Isso deixava tia Clarice incomodada e agitada. Foi então que em um dia morno de domingo ela resolveu fazer uma faxina naquele quarto.

Enquanto varria embaixo da cama e cantava uma melodia animada, Tia Clarice encontrou um pequeno baú, sem hesitar, abriu sem cuidado, encontrando cinco envelopes amassados. Ficou curiosa, pegou os envelopes, escolheu um aleatoriamente. Abriu.

Era uma carta de Camila para sua amiga mais próxima, Bianca.
Bianca era uma menina que tentava ser uma boa amiga, mas na maioria do  tempo esquecia de ao menos perguntar se Camila havia tido um bom dia.

“Oi Bianca,

Estava pensando nos últimos tempos, mastigando o quanto nós nos afastamos uma da outra, e sentindo uma nostalgia dolorida.

Sabe, lembro-me dos seus olhos perdidos e sinceros. Quando te encontrei, apavorada pelos corredores da escola. Você não sabia muito sobre o mundo e suas dores, era uma menina docemente ingênua.

Me apaixonei pela sua vontade em dedicar-se a ajudar outras pessoas, me impressionei com o nossa afinidade na busca pela melhor forma de ser indiferente às coisas negativas da vida. Não existia egoísmo, não existia orgulho, só existia garra. Éramos unidas.

Não sei o que aconteceu, ou em que momento eu te perdi, nem por que nós nos afastamos, mas sinto que se eu soubesse toda a decepção que ia acompanhar a nossa amizade, realmente não sei se eu teria te ajudado e feito tudo de novo.

Te amei, te amparei, até te ajudei a achar o seu caminho. Já fui como mãe, peguei na sua mão, te ensinei a dar um passo de cada vez, te ensinei a andar. Talvez seja simples perdoar pessoas “pequenas”, mas não sei se é possível perdoar alguém que já foi tão grande em minha vida.

Como Judas, a sua traição foi silenciosa, o punhal era afiado, matador, veio em golpes rápidos, acertando direto a minha jugular. Senti um gosto amargo, gosto de sangue que escorre no canto da boca e explode enquanto o coração pulsa rumo a um enfarto agudo. A morte do amor que estava ali. Um tipo de decepção, que deixa a cabeça tonta e sem rumo, arrancando o chão que estava sempre ali, firme, forte, intocável.

Eu já disse coisas desagradáveis sobre as suas atitudes, mas nunca te desejei nenhum mal. Infelizmente, pelas minhas costas, você plantou coisas ruins sobre mim para outras pessoas e não se importou com as minhas necessidades, querendo a minha desgraça, desejando para mim, coisas que eu jamais desejaria para você.

Será que fui eu que errei e não vi? Será que fui eu quem magoou e não notei? Será que fomos nós que nos esquecemos de o que é uma boa amizade?

Pensando em tudo isso chego a me sentir com o peito apertado, culpado, sem saber o que dizer. Será que fui eu ou será que foi você? No meio do caminho talvez fossemos nós que nos silenciamos diante de um momento de orgulho bobo, sem tentar parar para resolver isso de uma forma sensata. Demos brechas e ouvidos para as nossas inseguranças, deixando mesquinharias roerem o nosso laço.

Só espero que nossas dores passem, e passem logo. Que elas cicatrizem e se tornem marcas bonitas como as dos heróis de guerra. Pois se for para lutar, é melhor que o rumo seja a vitória.

Com saudades da minha querida Bianca.

Camila”

Tia Clarice fechou os olhos, sofrendo com a saudade e vontade de abraçar sua pequena sobrinha. Ninguém sabia dos sentimentos de Camila, ninguém nunca lembrou de perguntar sobre sua vida, ou sobre os seus dias.

Camila nunca disse para Bianca o que sentia, mas sorria, nas poucas vezes em que as duas se encontravam.

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Tetos não-familiares

por Rômulo

A pouca luz que entrava pela janela mostrava uma textura listrada naquele teto que era, pelo jeito, de gesso – bem diferente dos dois ou três tetos que conhecia de cor. Luisa tentou contar de cabeça a quantidade de tetos não-familiares a que foi apresentada nos últimos dez meses mas não conseguiu: eram muitos. Preferiu lembrar-se dos três.

O primeiro teto que de que Luisa se lembrava era o do quarto em que viveu até os doze anos, o ano em que sua mãe morreu. O forro era de madeira, mas a cor verdadeira sempre foi uma incógnita, pois ele era inteiro pintado de um rosa bem suave, assim como o resto do cômodo todo. Lá ela tinha o conforto do aconchego, do carinho, do abraço apertado que dona Maria Luisa lhe dava toda noite antes de ajeitar a coberta da filha, do “dorme bem, te amo” que a mãe dizia antes de dar um beijo na testa da menina e fechar a porta do quarto. Esse teto, tinha certeza, estaria para sempre em sua memória. Lembrar da mãe lhe trazia um sentimento nem de dor nem de alegria, uma pureza que inundava o coração e transbordava pelos olhos.

Havia também um teto todo colorido, cheio daquelas estrelinhas adesivas que brilham no escuro. A esse Luisa se acostumou durante os dois anos que viveu na Argentina, na casa da tia que a acolheu tão carinhosamente quando sua mãe faleceu. Era o teto de um quarto que, apesar de bastante grande, não oferecia lá muita privacidade, uma vez que o dividia com suas duas primas mais novas. Foi uma adolescência complicada, sem um cantinho onde ela pudesse ficar totalmente sozinha, mas ela nunca reclamou. A tia havia sido muito boa com ela e essa divisão de quarto, ela sabia, era coisa passageira. Quando voltou ao Brasil, seis anos mais tarde, Luisa até sentiu falta das estrelinhas, por algum tempo. Tinha se apegado à posição de algumas constelações que ela mesma tinha inventado, a partir da disposição aleatória dos astros de papel brilhante.

Até que chegamos ao outro teto que Luisa conhecia de cor, o terceiro deles. Era o do quarto de Renan. Desde que ele a deixara, ela tentava, sem sucesso, encontrar em vários cômodos diferentes o conforto que sentia quando olhava para o teto de madeira crua, de um marrom-quase-bege-de-tão-clarinho, quando os dois acordavam, se abraçavam e, mirando sempre o teto, contavam um para o outro os sonhos que tiveram, os planos para o dia, os sonhos que ainda tinham, os planos para a vida. Também era muito confortável, de um jeito diferente. Trazia o alento do porvir, da vontade de viver aquele amor até quando se tornassem dois velhinhos, acordando abraçados.

Hoje nenhum desses três tetos existem na vida de Luisa. Esse teto (pelo jeito, de gesso) que ela fitava, sem pressa, enquanto divagava, nem de longe abraçava sua alma do jeito que os outros três faziam. Mas era o que havia para hoje e, do que se há para hoje, nunca se deve reclamar. Segue a busca por um teto que volte a lhe confortar. Mais uma noite, mais um teto não familiar.

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Portas são para o quê

Por Rômulo

Daqueles momentos que mudam uma vida. Tudo faz sentido de um jeito estranho, tudo se encaixa e se explica automaticamente. Um momento intenso, solitário mas compartilhado.

Falemos, Luisa, sobre portas. Ignorar portas não significa nem que elas estarão fechadas e nem que elas estarão abertas: é uma questão de deixar que elas cumpram a sua função. Portas, diz um poeta, são pra conter ou deixar passar. Quando se quer passar, basta girar a maçaneta ou apenas escancarar (no caso de a porta estar apenas encostada). Essas são as portas ignoradas. As portas que apenas estão ali, destrancadas ou até encostadas, pois acreditamos que algo em algum momento pode entrar, algo que faça sentido e tenha um significado.

A porta que reservo pra você é uma dessas. É uma porta enorme, de um tamanho até meio desproporcional. Veja, essa porta nada mais é do que uma construção – ela tem o tamanho do seu tamanho dentro de mim –, e esse tamanho no momento é indiferente. O mais importante agora, Luisa, é que você saiba que essa porta está sendo ignorada. Quando quiser passar, fique à vontade. Se quiser nunca mais entrar, está permitido também. É uma conclusão meio melancólica, eu sei, mas quem foi que disse que melancolia é ruim? Sempre entendi melancolia como um conceito relacionado à mudança, à desconstrução, e azar o seu se quiser ir procurar no dicionário só pra me contradizer (o que seria bem a sua cara).

Confesso que chorei. Mas foi um choro tão saudável que você se surpreenderia. Foi um choro de melancolia aos meus moldes. Me bateu um arrepio, me bateu uma dor (que eu achei exagero, verdade) e uma alegria que nem sei de quê. E, com isso tudo, sinto que cresci.

Não te cobro mais,
pelo menos não deveria.
Não te ligo mais,
pelo menos não deveria.
Nem espero nada,
ou, pelo menos, (tenho a impressão de que) não deveria.

Vai com Deus (nunca escrevo Deus com maiúscula, mas você gosta que eu sei). E não esqueça que essa porta sempre vai estar ali, encostada.

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Dai as mãos

Tônia se sentia abençoada. Vivia um daqueles raríssimos primeiros encontros sem medo ou mentira – imaculado. Noite quente, conversa farta, as sardinhas dele no nariz, uma vontade de amor incondicional despertada pelo filme do Wes Anderson. Agora caminhavam pelo calçadão vazio, o barulho da bicicleta levada de lado lembrava o do projetor. A menina desempenhava seu papel confiante, relaxou demais, cedeu ao diabo, agarrou a mão do amigo. Corta! Oh, horror, o que eu fiz, meu Deus? Ela soltou no susto, quis morrer para não ter que explicar. Desculpa, desculpa, sei que é muito cedo, não somos namorados. Tiago ainda riu, disse que dar as mãos não era pecado, mas a infratora assumiu a culpa irredutível, exilou-se em si mesma. O jeitinho bobinho dela o fez sorrir. Se ela não tivesse arrancado os próprios olhos, talvez tivesse notado. Ele quis ampará-la, mais de uma vez procurou a mão dela, que sempre fugia, não precisava da piedade de ninguém. No fim, nem a lua onipresente no céu pôde transformar o constrangimento na intenção de um segundo encontro.

Suelen Trevizan

(http://www.sularien.blogspot.com.br/)

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19h28

por Jean Suzuki

Encostado no parapeito da sacada, observa do décimo oitavo andar as luzes dos semáforos se fundirem ao feixe de luz vermelha dos carros, dando um tom pitoresco ao crepúsculo.

A cada dose, o nada se alastra em seu organismo, dilascerando suas vísceras, preenchendo veias e artérias, levando o vazio para todo o seu corpo. Acende um cigarro e tudo aquilo se transforma em uma densa fumaça de  prazer e nirvana.

Os grooves de Marcus Miller se fundem ao barulho do secador de cabelos. Na TV, há um desfile daquelas bundas famosas de nomes anônimos.

– Caralho, que horas são?
– Ainda é cedo – ela grita da sala.
– Não era pra gente…

Antes de prosseguir, corta a frase e apenas a observa.

O uísque é a sopa de letrinhas na escassez das palavras.

O secador desliga.

Pôde ouvir seu silêncio.

O vestido dela é negro como a sombra de uma nuvem em um oceano deleitoso. Nas últimas semanas, é onde tem mergulhado em prazeres para abdicar as angústias que o sufocam.

O relógio tic-taca.

Ele a olha com desejo.

Ela nota e ri, desconcertada. Corresponde.

Ele leva o copo até a boca com um riso no canto dos lábios.

Ela se esforça para fechar o zíper das costas.

Ele ajuda.

– Não era pra gente estar lá já?
– Para de ser chato, já tô quase pronta – ela responde rindo.

Continua a fitando. Entre uma tragada e outra, imagina como seria deitar no colchão em uma noite fria, com  os pés gelados e cegos por não encontrarem os dela.  Ela é a única realmente capaz de preencher este abismo que o habita.

Acho que eu a amo, pensa. E amar é foda, conclui. Esse é o pior tesão que existe. Os amores carnais geralmente são devastadores. Com ela, até planeja ter uma casa com jardim, um cachorro, um emprego seguro e um carrinho na garagem para buscar as crianças na escola. Sempre achou esse pensamento medíocre, mas agora tem a certeza que mediocridade é ser um dono do mundo solitário.

Olha ao redor.

Desde que ela começou a visitar seu apartamento, há 3 semanas, as roupas no chão triplicaram, os cabelos no ralo do banheiro multiplicaram e na TV tem passado mais comédia romântica que futebol.

Mas está feliz com isso.

– Tô pronta, ela diz.
– Tá maravilhosa, ele pensa.

Bebe o último resquício do uísque e apaga o Lucky Strike no gélido piso. Descarta a xepa em um vaso sem vida que serve de cinzeiro.

Apaga a a luz da sacada.

Desliga a TV.

Pega as chaves.

Coloca o blazer.

Antes de sair, dá uma última olhada rotineira.

Vê sapatos espalhados, prancha de cabelo, secador, sutiã, toalhas, escova, estojo de maquiagem e um filme qualquer do Adam Sandler sobre a mesinha de centro.

Está tudo em ordem.

Não há mais vazio.

Apaga a luz.

Fecha a porta.

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Soul love

por Teresa

Talvez eu estivesse te esperando, ela disse. Ele não entendia como. Afinal, tanto tempo… Mas ela disse talvez. E talvez nem saiba do que está falando. Foram muitas garrafas de vinho. As que ele tinha em casa, as duas que ela trouxe de onde veio. Agora mais nenhuma. Mas nem precisariam. A verdade já estava ali, como evocada. A verdade em pessoa, ele pensou e riu. Que cara teria a verdade, se pudesse ser vista? Ela apoiava a cabeça em uma mão e com a outra brincava com o isqueiro na mesa de toalha xadrez. Ele lembrou de um roteiro que um dia escreveu. Era sobre um casal que, depois de jurarem amor eterno, se perderam e, no reencontro, depois de muitos anos, resolveram cumprir com a promessa. Não se tratava de compromisso, convenções, ele sempre justificava ao contar sua história. Era em relação ao sentimento mesmo. Eles viveriam a vida que quisessem, livres, e ao final de cada ciclo, se encontrariam e se amariam. Era um pouco do que ele esperava pra si e muito do que sentia ser sua verdade. Mas será que ela esteve mesmo esperando? Que desgraça essas suposições todas. Ela sumiu por tanto tempo! Voltou com tanta coisa pra contar. Era bonito vê-la ali, marcada por uma sequência de desastres pessoais e, ainda assim, sorrindo. Ela sempre sorria. Era um sorriso complacente, quase como uma promessa de: se tudo der errado, eu ainda estarei aqui, sorrindo pra que você volte a acreditar. Sempre que se perdia, ele fechava os olhos e lembrava dela sorrindo. Coloca alguma coisa pra gente ouvir, ela pediu. Ele levantou, lento, o corpo pesava mais do que antes. Escolheria um vinil, decidiu. Um Coltrane. Vamos fingir ser adultos, disse ela.

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Ah, a vida

por Henrique, o Schaefer.

-Papai, o que são lactobacilos probióticos?

-Aonde você leu isso?

-No Yakult que eu tomei na escola.

Puta merda, na minha época eram lactobacilos vivos!

-Bem meu filho, os lactobacilos, são uma forma de vida muito legal e bacana, pois eles são como operários que vão para a flora intestinal e ajudam a gente a ficar com o intestino reguladinho.

-Como assim?

-Ah, você vai ao banheiro e faz o cocô rapidinho.

-Tipo, tipo, o Activia que eu vi na TV?

-É, isso, mais ou menos.

-E o que acontecem com os lactobacilos?

-Eles fazem o seu trabalho e depois vão embora com o cocô.

-E eles morrem?

-Sim.

-Então eu matei os lactob..bb.. buáaaaa

-Filhinho, calma, o nosso corpo está cheio de bichinhos que vivem com a gente, alguns deles vivem, outros morrem.

-Buáaaa, eu não queria ter matado ninguém!

Porra, que frescura!

-Escuta moleque, a vida é assim mesmo, as coisas vivem, as coisas morrem, põe isso na cabeça. E um dia todos vamos morrer.

-Buáaaaaaaaa, eu não quero morrer! Papai, porque você está dizendo isso?

Biiiip, biiip, CATAPLUM! BUM! CAPOT! CRASH!

 

Depois, já no céu:

-Pai, porque o ônibus bateu em você?

-É que o papai achou que fosse uma moto e não quis causar um rebuliço maior ainda, tentando desviar de todo mundo.

Cacete, vem o ônibus expresso a mil por hora, dá aquela buzinada que não ofende ninguém, mas também não serve de nada! Uma buzinada super educada e cá estou eu tentando explicar isso pro meu filho. E o que vai pensar minha mulher? Que eu sou mau motorista, que não soube proteger meu filho? Onde está o Chico Xavier nessas horas?

-O senhor é o Alfredo Manfredo da Costa (o anjo contendo uma risadinha)?

-Sim sou eu! Está rindo do que, plumoso?

-Olha, sua situação já está difícil, melhor não querer desacatar uma autoridade, meu querido.

-Difícil, por que?

-Temos aqui que você foi negligente no trânsito, tem três multas por excesso de velocidade, por pouco não perdeu sua habilitação… e isso é só a ponta do iceberg. Mas não é comigo que você vai tratar desses assuntos. É mais lá em baixo (novo riso contido).

-Escuta aqui seu albino, você vai tomar no meio… pluft. Desaparece.

-Papai, papai! Onde foi o meu papai?

-Meu queridinho, a vida é assim mesmo.

-Eu quero meu pai!

-Bem vejamos. Você cuspiu na sua amiguinha, mostrou a bigolinha para sua professora, cortou com o estilete o cachorro do seu vizinho (que moleque do caralho), soltou uma bomba de bicarbonato no banheiro do McDonald`s, etc, etc. Vejamos… você disse que queria o seu pai?

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Pedestria Defensiva

Estava eu andando pela XV.

Heitor Gonzales.

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