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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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Um todo de mim

por Rafael

Quando a chuva começou a cair naquele sábado a tarde, todos se encolheram sob marquises e toldos para se proteger. Eu saí para me encontrar.

Voltava para casa depois de almoçar naquele buffet por quilo atrás da catedral. Não o caro, mas aquele com preço honesto, comida sem graça e gelatinas sem gosto ou mamão picado descongelado como sobremesa.

O almoço mais uma vez pesava, não por satisfazer, mas por ser quase recusado por um estômago mal tratado. Pouco me importei. Acabei me acostumando a conviver com desconfortos e seguir em frente, como viver fosse isso mesmo. Uma pena.

Por não ter pressa e já não haver mais o que molhar, me permiti prolongar o caminho até a rua dos ipês. Sempre adoramos aquelas flores, lembra? Fazíamos o caminho mais longo para voltar pra casa, pois o tempo nunca é pouco quando estamos plenos.

Passei por lá e tudo parecia parado no tempo. Inclusive eu, que pude sentir sua mão segurando a minha enquanto olhava aquelas árvores que gritavam todo um passado que me engolia.

Olhei para o chão e tudo o que via eram as cores vivas daquelas flores mortas. Bonito.

Um tapete de flores amarelas e roxas, molhadas, para eu passar. Ainda assim, mortas.

Sua mão já não segurava mais a minha.

Passei pelos ipês, assim como o passado deveria ter-se-ido. Vim embora, subi as escadas e um cheiro de fritura aguçou ainda mais minha memória. Por um momento tive certeza de que o cheiro vinha do nosso apartamento. Seria bolinho de chuva.

Sua mão segurou a minha novamente e juntos subimos até o terceiro andar. Porta número 34. Levei a chave à fechadura, girei. Acho até que fechei os olhos enquanto abria a porta. Apertei sua mão, entrei e percebi: o cheiro não vinha dali.

O apartamento permanecia vazio. O cheiro por ali era do abandono que me consome. Da solidão que me afoga desde o dia em que você pegou aquele ônibus para voltar pra casa. Voltar pra mim. Aquele ônibus que nunca chegou. Que ficou naquela ribanceira. Com você. Com um todo de mim que já não encontro mais.

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Em algum lugar algo nos espera

por Rafael

Após anos morando nas ruas, chego à conclusão de que pressa e vida pouco se dizem respeito. Durante anos corri atrás de prazos e metas para um futuro em que o mundo estaria ao meu alcance. Mas só agora, sentado à margem desta calçada, sinto que finalmente alcancei minha vida.

Aqui como, durmo e faço tudo o que vocês fazem em suas casas. Talvez com a diferença de que quando acordo querendo ir ao banheiro eu preciso andar dois quarteirões (até a praça).

Precisei de tempo e paciência para conseguir a paz que me permite estar. Dia após dia vaguei por quase todos os becos desta cidade.

Quando somos jovens, confundimos constantemente o medo de ficar, com  a vontade de estar em todos os lugares. E nos projetamos mundo afora, endurecendo a cada esquina. E era isso o que eu sentia: medo de estar só, comigo.

Fingia buscar algo ou alguém, quando apenas evitava olhar o espelho. Forjava uma eterna busca, quando no fundo estava em fuga.

Do que fugi primeiro?

Das primeiras fugas de minha vida, já nem lembro. Mas tenho silêncios e dores do dia em que me deparei com o pavor que me fez fechar a porta da casa que construí com minhas próprias mãos durante três anos. Nunca mais voltei.

Era tarde, era sol, 8 de agosto de 2010 e aniversário de quatro anos do casamento mais lindo desse mundo: meu e de Irene.

Era também dia dos pais, mas a data nunca me trouxe alegria, apenas a esperança de que no ano seguinte eu teria um pai. Jamais aconteceu.

Naquele domingo, mesmo sem um pai, eu estava feliz. Trabalhei normalmente no posto de gasolina, até as três da tarde. Completei o tanque de uma meia dúzia de famílias em festa. Coloquei vintão em carro de gente nova em busca de vidas inimagináveis, e às três e vinte já estava diante do portão preto de nossa casinha branca.

Trazia na mão uma flor pra Irene. Dessas que caem das árvores e nos encontram na rua.

Entrei. O silêncio da casa era comum nos dias em que Irene dormia depois do almoço. Mas a cama estava arrumada.

Sobre meu travesseiro solitário, um bilhete escrito em azul, com o típico garrancho de Irene: “Não me procure, por favor”.

Pouco entendi e saí procurando pela casa. Sala, banheiro e cozinha eram tudo além de nosso quarto. Nada.

Sobre o fogão, uma única panela. Na tampa, um novo bilhete, também em azul, aparado por uma colher: “Meu último feijão, pra você”.

A panela estava morna, o feijão estava fresco. Irene teria saído umas duas horas antes. Pra onde? Nunca poderia saber. Jamais iria contra as vontades de Irene.

Comi o que pude do feijão ali, em pé, diante do fogão impecavelmente brilhoso.

Tapei a panela, virei as costas, andei até a porta da sala, saí e fechei. Sequer tranquei. Deixei as chaves por lá. A rua agora seria a minha casa.

Não poderia viver em um lugar que respirasse Irene. Sufocaria. Seria engolido pela morte daquelas paredes brancas.

Em três meses foram quatro cidades. Perambulando por ruas, endurecendo a cada esquina. Para que seguisse sem jamais contrariar Irene.

A dor da solidão me destruía a cada segundo. A cada lembrança de um passado que não resistiu, do pai que não veio.

Até que pude admitir que estava sozinho no mundo.

Uma vez li uma entrevista com uma escritora famosa que dizia que o ser humano é um ser solitário. Que cedo ou tarde se descobriria só, no mundo. Era eu.

Sou eu. Sem a pressa de ser.

Desde então, leio sempre os jornais do dia anterior, que pego no lixo. Sem problemas, pois a vida não tem pressa. As coisas de ontem ainda existem hoje. O tempo corre apenas pra quem foge do amanhã. Ou: “O tempo corre com a gente junto”, como dizia Irene.

Cuido dos carros que estacionam aqui na rua só quando preciso de algum trocado. Sinto é nojo daquela cara de medo que as madames me olham, sempre abraçando as bolsas, como aquelas merdas de couro e marcas valessem alguma coisa pra mim.

Já tive vergonha de pedir dinheiro por aí, mas não tenho mais. É uma atividade tão humilhante quanto a de todas as centenas de pessoas que passam aqui, diante do meu colchão, todos os dias. Com a diferença de que elas se sentem dignas por possuírem uma carteira assinada em troca do tédio diário e café morno na garrafa térmica.

Muitos têm pena de mim. Passam e me olham com piedade, virando o rosto se eu retribuo o olhar. Já não lembro do último sorriso que me dirigiram.  Sequer “bom dia” recebi essa semana. Nem ligo mais.

De lá pra cá, deixei de correr atrás de um tempo que não chegaria, pois somente com calma conseguimos viver no presente, sem atropelar os nossos sonhos.

Sim, gente. Morador de rua também sonha.

Já sonhei em reencontrar Irene numa esquina improvável qualquer, ter uma nova casinha, montar família, ser pai, levar meus filhos pra Disney, mas hoje não. Sou desses solitários, que gosta de se ouvir no silêncio entre os desesperos das ruas.

Nunca mais vi Irene, nem voltei na nossa antiga casa. Mas ainda lembro do gosto daquele último feijão e dos silêncios que inundaram tudo por lá. Lembranças.

Lembranças que chegam até mim neste dia dos pais de um ano que já não me importa qual é.

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Carlos, o Silêncio e a Sirene

Tô ouvindo uma sirene dentro da minha cabeça. Tá assim desde a hora em que acordei, que foi com um susto, claro. Não entendi como troquei o Nokia Tunes por esse barulho insuportável. Desligo o celular e o barulho se vai, pro meu alívio. Abro o chuveiro e o barulho volta, pra minha surpresa. Ligo o som do carro e lá está ele, alimentando meu medo. Dou bom dia para o meu chefe e em resposta a sirene ecoa novamente, pro meu desespero. Vou ao banheiro lavar o rosto, péssima ideia a de abrir a torneira. Fico agachado no cantinho do reservado, ao lado do vaso. As paredes, em fúria, vieram em minha direção. Preciso sair daqui. Desço do prédio pelas escadas, já que as paredes do elevador são primas das do banheiro. Eu sei. Não vão me pegar. Entro no primeiro táxi que vejo. Acho que cortei a vez de uma senhora manca. Hoje preciso mais disso que ela. Precisava. Abandono o carro em menos de uma quadra, impossível chegar em casa com três sirenes naquela porra. Na rua tem sirene pra caralho, uma sinfonia dantesca. Saio correndo. Não consigo mais segurar o choro, que se foda.

É difícil achar as chaves no bolso. Chego em casa com os tímpanos prestes a explodir. Ando apressado de um lado para outro da casa. Arranco toda minha roupa, rasgando parte dela. Três socos desmontam o armário do banheiro. Dois chutes no criado mudo. Quebro a lâmpada do quarto com uma vassoura. Essas coisas acalmam a sirene. Não por muito tempo, toda vez que me acalmo muito, ela volta mais forte. Filha da puta. SIRENE FILHA DA PUTA. Pego um caco da lâmpada do chão. Faço uns cortes no meu braço. Ela quase emudece. É isso, ela quer que eu me destrua. A sirene quer que eu me torture. Ela quer purificar meu corpo. Quando faço isso ela se cala. Corto meus braços o suficiente pra conseguir uns minutos de paz. Me acalmo. A consciência vai voltando aos poucos. Agora meu choro é bem baixinho, não quero que a sirene ouça.

Tento lembrar da última coisa que ouvi antes da sirene. Não foi hoje. Deve ter sido ontem. Foi ontem. Deve ter sido antes de dormir. Deve ter sido o barulho da tevê. Não, espera, não foi. Ontem não consegui ver tevê. Ontem briguei por umas três horas com a Marcela. Deus, como aquela mulher fala. Sua voz fez questão de se sobrepor a do Cléber Machado. Nem sei quanto deu o jogo. Nem o que a gente conversou. Confesso que pouco participei disso que seria um diálogo. Tava um tanto ocupado, sorvendo a meia garrafa de whisky que tava na gaveta. E não dei nem meia atenção praquele manifesto patético. Sei que ela citou minha apatia. Minha inércia. Supostos medos. E mais umas trezentas coisas das quais ela sempre fala, inclusive sobre minha mãe. No fim ela conseguiu toda minha atenção. Depois de juntar todas as roupas, tacou a garrafa com um fundinho de bebida na parede. Disse “adeus, Carlos” e bateu a porta. Sei como é o som de uma porta batendo. A Marcela mesmo já me proporcionou esse barulho algumas vezes. Mas não lembro de tê-la ouvido ontem. Nem nada depois. Acho que a última coisa que ouvi foi esse estúpido e seco “adeus, Carlos”. Pois é, foi sim. A boca cheia de rancor. Todos os músculos contraídos, concentrados em me odiar. Aquela voz amarga. Adeus, Carlos. Foi isso. Adeus.

Acordo com o saudoso Nokia Tunes. Tenho medo de desligar o alarme. Crio coragem, vou pro chuveiro. O barulho da água me acalma. A água nos cortes me incomoda. Adeus, Carlos. Acho que a sirene foi embora. Invento uma mentira pro meu chefe. Tio doente, desespero, pressa, deixei até o carro no estacionamento. Álibi perfeito. Adeus, Carlos. Abro três planilhas do excel. Seis relatórios pra fazer. Se ao menos Carlos conseguisse se concentrar. Adeus. Faz seis dias que não ouço a sirene. Não me desesperei mais. Mas também não tive ânimo pra mais nada. Liguei pra Marcela. Setenta e duas vezes. Não atendeu, nem ligou de volta. Tô exausto. Tem um navio ancorado na minha cabeça. Tenho trabalhado muito. Acho que isso é bom. Bom pra esquecer. Adeus, Carlos. Porra, que saudade da sirene.

Gabriel Protski

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Versos para Sofia

Rafael

Após certo tempo usamos as lembranças da vida para espantar o medo da morte. Memórias de épocas em que o fim era apenas uma possibilidade e não uma eminência.

Lembro de sorrisos, de lágrimas, de adeuses e de abraços. Poucas dores ainda doem.

Lembro sorrindo de muitas pessoas.

Eu sempre gosto muito das pessoas. Ao menos no começo.

E eu gosto muito de você, Sofia. Gosto um tanto que não se encaixaria em tamanhos ou intensidades, desde aquele dia em que nos conhecemos. Falávamos como recitássemos poemas.

Lembro que me perguntou, sem mais nem menos, qual era a pergunta mais bonita que eu conhecia.

Desconcertado, olhei para dentro de mim e me vi inebriado pela pergunta e, sem hesitar, respondi: “Essa: qual a pergunta mais bonita que você conhece?” e sorri. Você também sorriu.

sorrimos juntos

éramos jovens
e não sabíamos de nada

ao contrário dos dias de hoje,

quando somos velhos
e não sabemos de nada.

Passamos a vida inteira querendo viver, esgotar as possibilidades, para chegar ao fim preparados, mas não. Independentemente da forma como vivemos, morreremos despreparados, como amadores.

O tempo nos deu a paciência para entender que os sentimentos entram e nos atravessam como correntes elétricas. E passam.

O que sentimos depois são apenas lembranças.

Devo confessar que não vivi a procurar, mas me faltaria dissimulação para negar que em você encontrei a minha essência.

Não sou o maior interessado por poesia, mas com você só sei falar em versos.

Me faz bem.

Sou eu.

somos nós

nada é mais belo
que nossos corpos
entrelaçados
às nove
da manhã
de um domingo

qualquer.

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Tetos não-familiares

por Rômulo

A pouca luz que entrava pela janela mostrava uma textura listrada naquele teto que era, pelo jeito, de gesso – bem diferente dos dois ou três tetos que conhecia de cor. Luisa tentou contar de cabeça a quantidade de tetos não-familiares a que foi apresentada nos últimos dez meses mas não conseguiu: eram muitos. Preferiu lembrar-se dos três.

O primeiro teto que de que Luisa se lembrava era o do quarto em que viveu até os doze anos, o ano em que sua mãe morreu. O forro era de madeira, mas a cor verdadeira sempre foi uma incógnita, pois ele era inteiro pintado de um rosa bem suave, assim como o resto do cômodo todo. Lá ela tinha o conforto do aconchego, do carinho, do abraço apertado que dona Maria Luisa lhe dava toda noite antes de ajeitar a coberta da filha, do “dorme bem, te amo” que a mãe dizia antes de dar um beijo na testa da menina e fechar a porta do quarto. Esse teto, tinha certeza, estaria para sempre em sua memória. Lembrar da mãe lhe trazia um sentimento nem de dor nem de alegria, uma pureza que inundava o coração e transbordava pelos olhos.

Havia também um teto todo colorido, cheio daquelas estrelinhas adesivas que brilham no escuro. A esse Luisa se acostumou durante os dois anos que viveu na Argentina, na casa da tia que a acolheu tão carinhosamente quando sua mãe faleceu. Era o teto de um quarto que, apesar de bastante grande, não oferecia lá muita privacidade, uma vez que o dividia com suas duas primas mais novas. Foi uma adolescência complicada, sem um cantinho onde ela pudesse ficar totalmente sozinha, mas ela nunca reclamou. A tia havia sido muito boa com ela e essa divisão de quarto, ela sabia, era coisa passageira. Quando voltou ao Brasil, seis anos mais tarde, Luisa até sentiu falta das estrelinhas, por algum tempo. Tinha se apegado à posição de algumas constelações que ela mesma tinha inventado, a partir da disposição aleatória dos astros de papel brilhante.

Até que chegamos ao outro teto que Luisa conhecia de cor, o terceiro deles. Era o do quarto de Renan. Desde que ele a deixara, ela tentava, sem sucesso, encontrar em vários cômodos diferentes o conforto que sentia quando olhava para o teto de madeira crua, de um marrom-quase-bege-de-tão-clarinho, quando os dois acordavam, se abraçavam e, mirando sempre o teto, contavam um para o outro os sonhos que tiveram, os planos para o dia, os sonhos que ainda tinham, os planos para a vida. Também era muito confortável, de um jeito diferente. Trazia o alento do porvir, da vontade de viver aquele amor até quando se tornassem dois velhinhos, acordando abraçados.

Hoje nenhum desses três tetos existem na vida de Luisa. Esse teto (pelo jeito, de gesso) que ela fitava, sem pressa, enquanto divagava, nem de longe abraçava sua alma do jeito que os outros três faziam. Mas era o que havia para hoje e, do que se há para hoje, nunca se deve reclamar. Segue a busca por um teto que volte a lhe confortar. Mais uma noite, mais um teto não familiar.

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É preciso burilar-se

por Rafael

Uma vez mais me encerro em meu quarto para escrever uma das já não sei quantas cartas-que-jamais-lhe-entregarei, pois qualquer coisa é melhor do que ficar calada.

Tenho todas elas guardadas na primeira gaveta ao lado da minha cama. A parte mais organizada do meu quarto. Talvez da minha vida.

Ainda hoje revirei sua biblioteca e os papéis que você tanto escrevia. Tento me encontrar nas suas linhas (tão tortas). Sei, mas tento me esquecer, que muitas delas não foram escritas pensando em mim, mas ignoro, pois só eu chego a elas. São minhas.

Em que momento nos perdemos destas linhas? Onde a vida começou a desfiar?

Vivemos à espera de um marco, um triunfo, uma derrocada que sinalize um fim que insistimos em esconder. Blindamos nosso presente ignorando que ele se esvai a cada momento e é substituído por outro agora que, ai, passou.

Quanto de mim já se foi? Quanto ainda me resta? Não nos preocupamos com isso porque temos o conforto de que no final tudo dará certo, sem levar em conta que, no fundo, o que existe é o caminho até lá. Por onde tenho andado?

São sempre tantos por quês, que nos damos ao luxo de achar normal o fato de que algumas perguntas não possuem mesmo respostas.

Hoje passei em frente ao seu trabalho e pensei em entrar. Ir direto à sua sala, sem me identificar a seguranças, secretárias, a ninguém. Pular a catraca e correr até a última porta do corredor.

Abriria a porta sem me importar com mais nada. Contaria o quanto eu sofri, cresci, me iludi, caí, reconstruí e só então pude perceber que você jamais sairia de dentro de mim.

Assim como diariamente me espremo até caber nas suas entrelinhas. Me vejo (e odeio isso) regar minhas letras com lembranças de você.

Escrevi isso e sorri. É quase um ódio o que sinto ao perceber o quanto meu corpo reage sem pensar, como fosse um motim. Há coisas que guardo comigo e finjo esquecer, escondendo de mim mesma.

Há dias em que me sinto fraca e sem razão para existir, como as flores que não cheiram. Como pode tudo estar tão fora do nosso controle? Já não me preocupo com os motivos pelos quais você se foi. A pergunta agora é “Quando você começou a ir?”

Hoje, entre seus papéis, uma folha em branco, com uma única frase no meio, me dizia: “é preciso burilar-se”, com a nota de rodapé mais bonita do mundo. Era o seu nome desenhado dentro de um córrego que corria para fora do papel.

Te vi como um rio. Indo, escorrendo, sempre tão independente do que lhe possa aguardar na próxima queda. Um rio jamais deixa de escorrer por temer sua foz.

Quando finalmente consegui sair daquele rio, que sequer cheguei a mergulhar, me vi envolvida pela fumaça dos cigarros já sem vida no cinzeiro. Era como o nevoeiro do seu rio ao amanhecer.

Escrever pra você é minha maneira de burilar-me, de fortalecer o meu caminho. Já não tenho nada a lhe esconder. Amontoo estas cartas que me acompanham há quatro anos, desde aquele dia que era vencido pela escuridão e seu caixão entrava no forno que lhe levaria às cinzas que hoje adubam nosso jardim. Ele está lindo, aliás.

As begônias estão como as de Macondo, como as imaginamos-um-dia-juntos, como quando enxergávamos o mesmo horizonte, sempre tão distante.

As cartas compõem meu testamento, que pretendo queimar comigo, com sua biblioteca, com esta casa que grita seu nome a noite inteira, e assim nos tornaremos uma coisa só, adubando este jardim. Pois é preciso burilar-se.

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Portas são para o quê

Por Rômulo

Daqueles momentos que mudam uma vida. Tudo faz sentido de um jeito estranho, tudo se encaixa e se explica automaticamente. Um momento intenso, solitário mas compartilhado.

Falemos, Luisa, sobre portas. Ignorar portas não significa nem que elas estarão fechadas e nem que elas estarão abertas: é uma questão de deixar que elas cumpram a sua função. Portas, diz um poeta, são pra conter ou deixar passar. Quando se quer passar, basta girar a maçaneta ou apenas escancarar (no caso de a porta estar apenas encostada). Essas são as portas ignoradas. As portas que apenas estão ali, destrancadas ou até encostadas, pois acreditamos que algo em algum momento pode entrar, algo que faça sentido e tenha um significado.

A porta que reservo pra você é uma dessas. É uma porta enorme, de um tamanho até meio desproporcional. Veja, essa porta nada mais é do que uma construção – ela tem o tamanho do seu tamanho dentro de mim –, e esse tamanho no momento é indiferente. O mais importante agora, Luisa, é que você saiba que essa porta está sendo ignorada. Quando quiser passar, fique à vontade. Se quiser nunca mais entrar, está permitido também. É uma conclusão meio melancólica, eu sei, mas quem foi que disse que melancolia é ruim? Sempre entendi melancolia como um conceito relacionado à mudança, à desconstrução, e azar o seu se quiser ir procurar no dicionário só pra me contradizer (o que seria bem a sua cara).

Confesso que chorei. Mas foi um choro tão saudável que você se surpreenderia. Foi um choro de melancolia aos meus moldes. Me bateu um arrepio, me bateu uma dor (que eu achei exagero, verdade) e uma alegria que nem sei de quê. E, com isso tudo, sinto que cresci.

Não te cobro mais,
pelo menos não deveria.
Não te ligo mais,
pelo menos não deveria.
Nem espero nada,
ou, pelo menos, (tenho a impressão de que) não deveria.

Vai com Deus (nunca escrevo Deus com maiúscula, mas você gosta que eu sei). E não esqueça que essa porta sempre vai estar ali, encostada.

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Entre as estrelas

por Rafael

Eram 18 horas de mais uma quinta-feira, daquelas que não se diferenciam em nada das outras quintas. Ventura estava na rua, saindo de seu emprego burocrático. No peito, um único sentimento: mais um dia vencido. Mal sabia ele que, na verdade, era um a menos.

Saiu na rua com as mesmas mãos nos bolsos e cabeça baixa de sempre. Não precisava olhar para frente, pois o trajeto até sua casa contaria com o mesmo roteiro de sempre: passaria no mesmo mercado de sempre e compraria a mesma cerveja de sempre, que, como sempre, não beberia até o final e jogaria o resto no mesmo terreno baldio de sempre. Caminha por estas oito quadras todos os dias.

Perdera o prazer de realizar o seu trabalho há cerca de quatro anos; uma semana depois que começou a lidar com as planilhas. Era um trabalho como outro qualquer, daqueles que fazem parar o relógio.

Eu poderia dizer que o tédio reinava, mas não, era uma quinta-feira como outra qualquer: Ventura passou no mesmo mercado de sempre e comprou a mesma cerveja de sempre. Mas, desta vez, talvez por tédio, talvez por distração, tomou tudo. Virou a lata e entornou a cerveja boca a dentro. Sem querer olhou o céu e lá estavam as estrelas. Milhares delas.

As estrelas sempre estiveram ali, sempre observaram o seu tédio, silenciosamente. Ventura parou, chegou a babar um pouco da cerveja já meio quente mas não se importou, até sorriu. Ficou parado, olhando para o céu que estava ali para todos, mas era percebido só por ele-só.

Ventura decidiu continuar seu caminho, pois a vida continuava, mas não pôde tirar os olhos daquelas estrelas, que já não estavam tão distantes quanto antes. Estava entre elas.

Dobrou por esquinas que jamais havia passado e, ao retornar seus olhos para o chão, não reconheceu nada ao seu redor. O espanto e o medo que deveriam surgir, desta vez, deram lugar à curiosidade. Ventura se viu instigado e feliz em meio ao novo.

Era a rua paralela à da sua casa. Um universo que sempre existiu, mas Ventura não possuía olhos para nada que não fizesse parte de sua rotina dura e cinza. Deixara de re-conhecer as cores-novas-de-novos-universos desde que Mariana deixou de conduzi-lo pelas mãos, transmitindo uma segurança capaz de fazê-lo explorar o desconhecido de olhos fechados.

Pela primeira vez, desde a partida de Mariana, Ventura sentia o prazer de conhecer, de descobrir o novo, ou até mesmo de inventá-lo. Voltou a sorrir sozinho, até cantarolava músicas que jamais teria coragem de cantar fora de sua casa cinza. Estava sozinho, mas com o mundo, com o novo, com as estrelas. Só ele sabia e isso bastava.

Nenhum detalhe passava despercebido. Nas casas, pais iam chegando, uns abraçando seus filhos, alguns já com uma cerveja em mãos, relaxando o dia burocrático que certamente haviam tido. Ventura contemplava tudo. Era uma estrela.

Percebia que, para o amor, não seriam necessárias duas pessoas. Não sempre.

“Vocês assistem a isso todos os dias?”, perguntava às estrelas, que brilhavam como resposta, “Em dias nublados a vida de vocês deve ser um tédio daqueles!” e elas continuavam lá, brilhando com aparente indiferença.

Ventura teve certeza de que jamais retornaria das estrelas e queria saber de Mariana, para lhe dizer que a entendia. “Se ela ao menos soubesse que eu enxerguei”.

E assim Ventura foi, flutuando sem rumo por ruas desconhecidas, até que se deparou com a esquina da própria casa.

Foi como cair de outra galáxia ali, na mesma rua. A queda não doeu, mas  lhe custou as cores da percepção. Ali ele não podia olhar para as estrelas.

Colocou as mesmas mãos nos bolsos, baixou a cabeça e caminhou rumo à sua casa, como sempre, pois amanhã, às oito da manhã, começaria mais uma sexta-feira, provavelmente igual às demais.

As estrelas continuaremos aqui, todos os dias, mais próximas do que Ventura possa imaginar. O novo estará sempre o acompanhando, pois está dentro de si, mas seu coração está arisco desde que Mariana deixou de lhe guiar. Um coração quando está à caça de seu velho amor é cego para as novas coisas, que envelhecem sem que sequer cheguemos a tocá-las.

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O melhor lugar do mundo é dentro de uma mulher

Por toda vida escolhi minhas mulheres sabendo que algo tão efêmero quanto a beleza não deveria ser a primeira coisa a ser desejada. Sempre preferi as inteligentes, carinhosas, engraçadas, às lindas. Mas não naquele 19 de dezembro, quando saí de casa pensando que pouco importaria se a dama envelhecesse feia, enrugada e sofrendo a gravidade empurrando-a para o centro da terra, pois muito antes disso meu amor fugaz já teria desaparecido no mar das paixões afogadas, e eu mal poderia me lembrar do rosto ou da cor daqueles olhos que haveriam de se fechar enquanto os lábios me beijassem como se a vida toda dependesse disso. Aquela noite eu teria a mulher mais linda do mundo, e foi assim que conheci Diana.

A noite deveria estar quente, como geralmente é naquela época do ano, mas tínhamos uma chuva fina caindo do lado de fora, o que fazia com que as moças entrassem na festa enxugando suas grossas capas de chuva e corressem para o banheiro conferir se os penteados continuavam inteiros.  Foi seguindo este mesmo roteiro que vi minha Diana entrar pela porta, vestida de sua elegância com passos suaves, caminhando em direção ao lavatório sem olhar para os lados, ou sequer imaginando que meus olhos a seguiam entorpecidos, enquanto eu tentava lembrar se em algum momento já havia encontrado outra menina que iluminasse meu ser daquela forma, e a conclusão foi que não. Nunca encontrara, e nem encontraria depois daquele dia, quando Diana me petrificou de desejo e intenções. Não foi amor, como nunca poderia amar alguém apenas pela sua forma física. Era mais forte do que isso. Era um desejo que crescia fazendo todo o meu corpo latejar. Eu desejava conhecê-la, ouvir sua voz, sentir seu perfume, tocar seus dedos finos de unhas claras, beijar sua pele branca, saber onde estudava, qual seria sua profissão, seu disco preferido, o que achava do comunismo, e até mesmo o nome de sua cachorrinha. Era, no fundo, um instinto de auto-preservação que desejava conseguir amá-la acima de tudo, evitando toda a frustração com outras mulheres que haveriam de passar pela minha vida e seriam reduzidas a imagens imperfeitas de Diana.

Quando enfim consegui levá-la até o centro da sala para envolver seu quadril em minhas mãos e dançar sentindo o seu coração disparado tanto quanto o meu, suas mãos geladas e o perfume que nunca esqueci, sabia que aqueles seriam os últimos lábios que eu desejaria em toda minha vida. Ela tremia enquanto eu beijava seu pescoço lentamente e voltava para sua boca com desejo vibrante, fazendo-a ser tomada por uma expressão sonhadora e adorável.

Quatro dias depois, exaustos de paixão, lutávamos para deixar a quitinete que nos abrigava desde aquela noite, para voltar à vida infeliz e monocromática que nos aguardava do lado de fora. Resistindo ao impulso de arrastá-la para mais várias semanas esparramada sobre a cama, compreendi que os bebês levam 9 meses para nascer porque não há lugar melhor no mundo para se estar, senão dentro de uma mulher, mas Diana não era minha, e nem seria justo que fosse. Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, andando pelas ruas alegrando cada pessoa que a encontrasse e fosse contagiada pela sua presença, e ai que sorte de quem recebesse ao menos um olhar seu. Mas cada uma dessas pessoas iria para suas casas e fantasiaria uma história de amor com a mulher mais linda do mundo. Histórias que durariam dias, semanas, meses ou anos, mas nenhuma delas poderia ser eterna porque Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, para que outra pessoa pudesse encontrá-la e dar um pouco de sentido à sua existência. Não prendam a minha Diana. Ela deve ser livre.

André Petrini.

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Minhas tardes com Maurício

por Rafael

Maurício seria um menino qualquer, com suas inconsequências, brigas com as irmãs mais velhas, preguiça de estudar e a relutância em tomar banho, não fosse um único e isolado fato: minha carência por um irmão.

Foi ele quem despertou pela primeira vez o amor por um amigo em mim. Obviamente, à época não percebi isso, e lamento com todas as forças destes mundos em que vivo. Foi Maurício quem encontrou em mim aquela vontade de querer estar sempre junto, querer bem, querer cuidar, querer ser. Era com ele que eu me sentia bem, que fugia de todo o vazio do meu quarto.

Eu queria ter ele em meus braços, embalá-lo, tirar uma foto como tiram todas as crianças, em algum momento, com seus irmãos mais novos no colo, ainda bebês.

Era com Maurício que eu subia no pé de manga, no pé de pitanga, no telhado, que sempre quebraria, correria sobre o muro, e viveria tardes em que nada além do quintal entre as duas casas existiria. A não ser quando quebramos o cano da caixa d’água do vizinho e inundamos um mundo inteirinho. Tivemos que nos esconder de todos, atrás da casa. Nunca ninguém nos achou lá, onde ficamos até que a água chegou ao pescoço, nos obrigando a ficar de castigo.

Maurício morou nos fundos da casa da minha tia por um tempo que eu nunca soube medir.

Foram dias em que tudo o que eu fazia, se não fosse com ele, quereria que fosse. Sempre que fosse a algum lugar longe dele, pedia pra leva-lo junto. E seria assim pra sempre, claro que seria, não fossem esses detalhes são irreversíveis no percurso do tempo, tal e qual as pedras de uma ribanceira para o endereço da foz de um rio qualquer.

Jamais soube o verdadeiro motivo, e isso era detalhe de bastidores, que jamais chegam aos ouvidos das crianças, mas Maurício passou a não estar mais em minhas tardes.

Diariamente, depois da escola eu corria até a casa dele para encontra-la fechada, sempre fechada. Todos os dias acordava com a esperança renovada, de que chegaria lá e o encontraria para que pudéssemos viver o que sempre vivíamos, com a intensidade que transforma todos os universos em um estádio de futebol de cinco por três metros. Era esse sentimento que eu queria recuperar.

Hoje sei que aquilo que se sucedia às janelas da casa de Maurício fechada era uma espécie de tristeza. Mas nada muito extremo, pois era uma criança ainda descobrindo a parte sem felicidade de uma vida.

Foram esses dias que me ensinaram a me encontrar em cima de uma árvore. Sempre buscando subir o mais alto possível, eu provava a mim mesmo o quanto eu era bom. Como um barão das árvores, aprendia novos truques, novos movimentos, para subir cada vez mais alto, até que não houvessem mais galhos para, no dia seguinte, mostrar a Maurício o novo lugar a que poderíamos ir juntos. Mas ele nunca mais voltou.

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Desdente

por Rafael

Hoje foi um dia como outro qualquer, onde nada aconteceu. Mais uma vez o calor está insuportável. Um calor exagerado, demais pra mim. Talvez amanhã chova e todos sejamos levados embora pela água. Talvez amanhã eu possa contar a alguém sobre o calor ao qual sobrevivi.

São muitos talvezes para um único amanhã, mas ninguém se importa. Talvez amanhã eu esteja mais forte.

Eram três e meia da tarde, mais ou menos, e o calor me venceu. Me vi obrigado a parar à sombra de uma árvore qualquer da praça da catedral. Todos parecem esgotados e entediados em um dia como o de hoje, onde o calor afoga todas as possíveis vozes.

Ao pé da árvore, um homem qualquer. Daqueles que são capazes de atravessar uma vida inteira sem que sejam notados. Cochila. Um sono sincero. Cochila um sono sincero sentado sobre sua vida inteira que coubera em uma única mala. Sua boca aberta mostra ao mundo todos os dentes que lhe faltam. O mundo, uma vez mais, ignorou. Ao lado, deitada, sua companheira das últimas horas, ainda cheia pela metade. Algo em torno de meio litro de conforto ou desilusão.

Uma praça sem um chafariz no centro. Onde já se viu? Uma praça assim faz tanto sentido quanto amantes que julgam terem feito amor na noite anterior, ignorando o fato de que o amor já estava feito muito antes da sua trepada.

A praça desdentada me abraçou. Um abraço duro, incômodo, me fez enjoado, tornou o sol escuro. A luz que queimava a todos era a mesma que insistia em me apagar.

Todas aquelas pessoas vazias, que passavam, que iam e voltavam por não conseguirem estar. Apenas eu ficava, tão invisível quanto a boca sem dentes.

No centro, onde deveria existir um chafariz, um carrinho de sorvete e seu vendedor sem rosto. Logo aparece uma mãe com seu filho, que se lambuzará todo com um picolé de fruta. Uma criança com a cara lambuzada de sorvete. Existe algo mais sincero?

Tiro minhas botas e sinto as meias encharcadas de um suor que não me refresca. Tenho os dedos dormentes. Quem precisa de calçados e calças tão quentes em um dia como o de hoje?

O suor que brota em minha testa é o mesmo que escorre pelas minhas pernas. A boca seca como nunca antes. Me faltam as águas que jorram do meu corpo.

Um pássaro caga em meu ombro direito. Olho e não lhe encontro. Sequer posso lhe xingar, pois sei que este não é o meu lugar. Minha passagem é com pressa, não me posso demorar.

Os sons se misturam. Nada é estático. Carros frenéticos correm sem ter onde chegar. Alto falantes berram os nomes dos próximos vereadores. E eu, vencido pelo calor, não tenho nada além da sombra de uma árvore qualquer.

Já não sei que horas são, o sol continua a me queimar com sua luz ainda negra. As pessoas continuam vazias, e a única coisa que sinto, além do cansaço, é essa merda no meu ombro direito.
Não permita Deus, que eu morra em um dia como o de hoje, onde nada aconteceu.

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Amor

Medo e fascínio. Tal qual o ódio, que é, no entanto, algo completamente diferente.

Marco Antonio

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Até que ultrapassou a linha do horizonte

por Rafael

Tobias passou o dia inteiro com Dalila, que pulava e se equilibrava entre seus pensamentos, um a um. Desde que acordou não havia estado só. Dalila estivera sempre ali, prestes a cair para dentro de seu corpo.

Não era saudade, não era rancor, era apenas uma destas lembranças que parecem prestes a nos revelar algo, mas sequer indicam alguma direção.

Tobias passou o dia entre a curiosidade e a apreensão, como fosse ele o responsável pelo equilíbrio de Dalila. E talvez fosse mesmo. Não soube de qualquer possível explicação para a estranheza daquela terça-feira, desde as 8:40 da manhã, quando finalmente travou em definitivo o despertador e se pôs em pé, até aquelas 8:37 da noite, quando viu Dalila do outro lado da rua, onde tomava um copo de cerveja iluminada pelo alaranjado da luz dos postes da rua.

Era um bar daqueles pequenos, onde se pega o que se quer lá dentro e consome lá fora, com ou sem chuva. Estavam ali, agora, separados por uma rua, três anos e algumas mentiras.

O fato é que Tobias viu Dalila e sentiu que ela caia de seus pensamentos, mas não pra dentro de si.

Tobias retornou um tempo não cronológico e se viu no sonho que teve com Dalila na noite anterior. Um sonho daqueles que nos causam um desconforto, que só não classificamos como pesadelo pois não é exatamente medo o que sentimos.

Era uma cachoeira, uma cachoeira enorme, de uma água barrenta. Lá estavam Tobias e alguns amigos, que nadavam à beira do precipício para onde as águas se lançavam. Era um dia escuro, pouco após a chuva. As águas pareciam carregar o peso de outros lugares.

Os que se aventuravam no rio saltavam de uma pedra, a cerca de vinte ou cinquenta metros (nada é constante nos sonhos) da grande queda. A corredeira os levava até que se agarravam no galho da árvore arcada sobre o vão que bebia toda aquela água.

Tobias sentiu o frio na barriga de todas as duas ou quinze vezes que se lançou naquelas águas e confiou sua vida ao esforço de seus braços e daquela árvore que balançava seu corpo no vazio a cada investida.

Até que voltou à pedra-plataforma. Desta vez era Dalila, e apenas ela o aguardava lá, pois queria também esta sensação de lançar-se a um futuro incerto, confiando apenas em suas próprias forças para dar conta de uma vida.

O desconforto que preencheu Tobias foi como se já houvesse existido, como ocupasse um espaço que já fora seu.

Apenas disse que sim com a cabeça, indicando o caminho.

Dalila mergulhou em um salto lindo, onde brilhou, como o sol abrisse um único vão entre as pesadas nuvens para iluminar Dalila, que curvou seu corpo no ar e perfurou a água, que a absorveu contornando toda a sua existência, primeiro os dedos das mãos, acolhendo os braços, engolindo suas curvas, suas tão brancas pernas, deixando por último os (tão admirados por Tobias) pés de Dalila. Pouca água espirrou deste mergulho. Ela permaneceu em outro mundo por um tempo impossível de se precisar.

Até que emergiu a poucos metros da imensa queda d’água. Seu braço esquerdo esticado a poucos centímetros da árvore envergada sobre o rio, emoldurados pela linha da queda eminente (que fazia as vezes de horizonte) e das margens, no último momento antes da eterna descida, formaram a fotografia que manteve Tobias no extremo desconforto, materializado pela imagem da Dalila ali, onde tomava um copo de cerveja iluminada pelo alaranjado da luz dos postes da rua.

Após reviver seu sonho durante alguns minutos eternos, Tobias retornou a si, onde se sentia mais leve ao perceber que as razões do seu espinhoso desconforto haviam sido transformadas. Sabia agora que não caberia a ele o auxílio para que Dalila alcançasse o galho que lhe possibilitaria balançar os pés sobre o precipício.

Tobias sentia que já não seria a questão de perdoar, pois já havia perdoado Dalila. O que está em jogo é que, com o perdão, excluiu o espaço de Dalila em sua vida. Dalila deixou de existir. O que sentiu Tobias já não era desconforto, mas ainda é cedo para ser definido. Mas é algo leve e sincero, como o balançar do galho de uma árvore, que sempre estará de acordo com o vento que passa por si.

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