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Cartas de Camila | Bianca

Deisy Soares!

Camila tinha apenas 7 anos de idade quando sua mãe resolveu ir embora para a capital em busca de uma vida melhor para sua filha. A mãe de Camila, Dona Joana, sonhava em abrir um Café do outro lado da rua de sua casa. Imaginava o dia em que estaria preparando seus sonhos – ela adorava fazer sonhos de nata – enquanto sua filha a observava cuidadosamente, do balanço de madeira instalado no jardim.

Dona Joana foi, mas nunca mais voltou. Camila foi criada por sua avó materna, não chegou a conhecer seu pai, e estava sempre rodeada por tias. Camila vivia uma vida tranquila, mas sem uma mãe ou sonhos de nata.

Camila se sentia sozinha. Sua avó, já muito doente, não era a companhia mais estimulante. Suas tias fofoqueiras passavam o dia entre opiniões e julgamentos alheios. No meio de tantas pessoas e tantas lamúrias, ela não tinha ninguém que a escutasse. Assim então, Camila costumava ficar em seu quarto, escrevendo suas cartas. As cartas davam vozes aos seus sentimentos e aliviavam as dores do seu coração.

O seu tempo era dedicado aos outros, Camila não tinha vaidade, não sabia o que era cuidar de si. Tinha dores no peito, tinha um coração grande demais, tão grande que um dia ele parou de bater.

Dois anos se passaram desde a morte prematura da menina Camila, e os seus familiares ainda não conseguiam olhar para aquelas paredes do seu antigo quarto sem cair em desespero. Isso deixava tia Clarice incomodada e agitada. Foi então que em um dia morno de domingo ela resolveu fazer uma faxina naquele quarto.

Enquanto varria embaixo da cama e cantava uma melodia animada, Tia Clarice encontrou um pequeno baú, sem hesitar, abriu sem cuidado, encontrando cinco envelopes amassados. Ficou curiosa, pegou os envelopes, escolheu um aleatoriamente. Abriu.

Era uma carta de Camila para sua amiga mais próxima, Bianca.
Bianca era uma menina que tentava ser uma boa amiga, mas na maioria do  tempo esquecia de ao menos perguntar se Camila havia tido um bom dia.

“Oi Bianca,

Estava pensando nos últimos tempos, mastigando o quanto nós nos afastamos uma da outra, e sentindo uma nostalgia dolorida.

Sabe, lembro-me dos seus olhos perdidos e sinceros. Quando te encontrei, apavorada pelos corredores da escola. Você não sabia muito sobre o mundo e suas dores, era uma menina docemente ingênua.

Me apaixonei pela sua vontade em dedicar-se a ajudar outras pessoas, me impressionei com o nossa afinidade na busca pela melhor forma de ser indiferente às coisas negativas da vida. Não existia egoísmo, não existia orgulho, só existia garra. Éramos unidas.

Não sei o que aconteceu, ou em que momento eu te perdi, nem por que nós nos afastamos, mas sinto que se eu soubesse toda a decepção que ia acompanhar a nossa amizade, realmente não sei se eu teria te ajudado e feito tudo de novo.

Te amei, te amparei, até te ajudei a achar o seu caminho. Já fui como mãe, peguei na sua mão, te ensinei a dar um passo de cada vez, te ensinei a andar. Talvez seja simples perdoar pessoas “pequenas”, mas não sei se é possível perdoar alguém que já foi tão grande em minha vida.

Como Judas, a sua traição foi silenciosa, o punhal era afiado, matador, veio em golpes rápidos, acertando direto a minha jugular. Senti um gosto amargo, gosto de sangue que escorre no canto da boca e explode enquanto o coração pulsa rumo a um enfarto agudo. A morte do amor que estava ali. Um tipo de decepção, que deixa a cabeça tonta e sem rumo, arrancando o chão que estava sempre ali, firme, forte, intocável.

Eu já disse coisas desagradáveis sobre as suas atitudes, mas nunca te desejei nenhum mal. Infelizmente, pelas minhas costas, você plantou coisas ruins sobre mim para outras pessoas e não se importou com as minhas necessidades, querendo a minha desgraça, desejando para mim, coisas que eu jamais desejaria para você.

Será que fui eu que errei e não vi? Será que fui eu quem magoou e não notei? Será que fomos nós que nos esquecemos de o que é uma boa amizade?

Pensando em tudo isso chego a me sentir com o peito apertado, culpado, sem saber o que dizer. Será que fui eu ou será que foi você? No meio do caminho talvez fossemos nós que nos silenciamos diante de um momento de orgulho bobo, sem tentar parar para resolver isso de uma forma sensata. Demos brechas e ouvidos para as nossas inseguranças, deixando mesquinharias roerem o nosso laço.

Só espero que nossas dores passem, e passem logo. Que elas cicatrizem e se tornem marcas bonitas como as dos heróis de guerra. Pois se for para lutar, é melhor que o rumo seja a vitória.

Com saudades da minha querida Bianca.

Camila”

Tia Clarice fechou os olhos, sofrendo com a saudade e vontade de abraçar sua pequena sobrinha. Ninguém sabia dos sentimentos de Camila, ninguém nunca lembrou de perguntar sobre sua vida, ou sobre os seus dias.

Camila nunca disse para Bianca o que sentia, mas sorria, nas poucas vezes em que as duas se encontravam.

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Para que não pense que não me importo

por Marília

Deu vontade de te escrever. Posso, Lucas? Até imagino sua cara rindo da minha quando te faço essas perguntas que não cabem um não. Depois da nossa conversa de ontem de 140 caracteres e uns ais a mais me lembrei da Dona Ruth e da Brida. Calma, já chego lá. Na 6ª série comprei um livro da Dona Ruth, a senhora corcunda que vinha da cidade grande com sua feira de usados e enchia o pátio da escola de curiosidades. Em meio a Drummonds, Bandeiras, Lobatos e rotos Alencares, comprei Brida, do Paulo Coelho. Viu, como sou sincera contigo? Te entrego de bandeja uma história para você bolar suas infinitas piadas de mau gosto que tanto me fazem rir de mim.

Em uma passagem do livro, Brida falava ao telefone e nesse momento – isso acontecia com frequência quando estava ao telefone – ela entrou numa espécie de transe, no qual muitos sentimentos e possíveis fatos chegaram a sua mente ou espírito ou sei lá em que não-lugar dela. E tudo isso pra dizer que, muitas vezes, quando estou conversando com você sinto um pouco disso, desse transe. Muitas coisas vêm à minha cabeça e fico com vontade de escrever depois que falo contigo, mesmo rapidamente. Achei engraçado você, logo você, fazer eu me lembrar de Brida.

Mas deixe Brida de lado, até porque não tenho mais o que falar dela. Você queria tanto que eu falasse da gente, então vai lá. Tenho me perguntado: do que aconteceu o que foi presente? Porque o passado é tanto. É por isso que fui embora e não fiquei em sua casa como me pediu naquela tarde, Lucas. Não posso chegar assim na sua vida e achar que o mundo para naquele instante e como numa opção de análise do tempo eu clicasse em ocultar. É difícil equilibrar o ser verdadeiro com você mesmo e com os outros, porque as perguntas sempre chegam e as perguntas são bem piores que as respostas, chegam na hora errada e com uma carga de interpretações, sensações e conclusões cruéis.

Lucas, você tem que descobrir como irá seguir suas vontades em contraponto ao que elas podem causar às pessoas próximas ou a você mesmo. Verdades são tão bonitas, eu sei. As piores são saborosas e humanas e te jogam na cara o que é estar em frente a uma pessoa de fato. Uma pessoa que é mais do que você vê, nadinha linear e que nunca poderá prever o fim por mais que tente. Nossa, e como tentam! Buscar certezas é algo tão desumano. Por isso, me calo tanto.

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Ao diabo um segundo na Terra

por Murilo

Tac Tic. Voltei no disco do tempo. E tal qual em disco da Xuxa, vi os sinais do tinhoso.

O respeitoso senhor fitar os seios da mãe amamentando no ônibus, desejando estar no lugar do bebê. A moça conferir, de soslaio, o volume do melhor amigo de seu namorado. O irmão mais velho passar a perna no caçula. O caçula dedurar para os pais, aumentando a história toda.  O tio olhar para a sobrinha que já pegou no colo há 15 anos, com vontade de pegá-la novamente. A menina trendsetter espalhar a novidade do falecimento de sua amiga, e ficar secretamente feliz por ter sido uma das primeiras a saber. O pai duvidar das capacidades de sua filha. O psiquiatra zombar, internamente, das lamúrias de seu paciente. O funcionário desejar a morte do chefe. O chefe, no carro, desejar a morte do mendigo na rua. O gordo de dieta não resistir a um bolinho. O padre olhar, incrédulo, para a hóstia em suas mãos. O pastor olhar, crédulo, para o dinheiro nas suas. O garçom cuspir no sanduíche. Boça se vingar ao seu modo. O jovem, nem tão jovem, falsificar sua carteirinha de estudante. A casa de shows cobrar o dobro para compensar o prejuízo com essas carteirinhas. A garota invejar o corpo, a roupa, o trabalho e a vida da outra. O caipira fitar a égua e planejar o barranqueio. O policial descer o sarrafo no manifestante. O manifestante quebrar tudo que pode. O opressor contar uma piada racista. O oprimido gargalhar. A velha funcionária pública jogar paciência enquanto se acaba a paciência na fila de atendimento. O velho funcionário ficar até mais tarde no trabalho para acessar pornografia. O rapaz tirar a aliança antes de entrar na balada. O garoto ignorar o post que fala sobre as crianças da África e curtir um meme qualquer. A garota engajada que postou sobre crianças na África desligar o Macbook e pega sua bolsa Louis Vuitton para ir ao shopping. O chefe defender o talento da estagiária, mesmo que só interessado em sua bunda. E todos os funcionários saberem disso, e todos compreenderem.

Um segundo de podridão humana. Um segundo como outro qualquer.

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2.463 km de tempo para pensar

postado por Carolina

mas, olha, eu sei que eu falei tudo aquilo. Disse que quero ser a única coisa que não lhe dá trabalho. Que eu to aqui pra ser a parte boa da sua vida, um refúgio permanentemente agradável no meio de tantas situações com que você precisa lidar. E entendo que há coisas demais na cabeça e sei que, no meio disso, consigo te deixar bem sem fazer muito esforço nem calcular fórmulas elaboradas. Você é um cara tão descomplicado que basta eu ser eu mesma, naturalmente, pedindo pra você me lembrar como se pronuncia chimichurri toda vez que vejo o tempero no seu armário ou pôr um rock pra tocar para inverter seu mau humor e fazê-lo rir junto comigo. Acontece que às vezes a gente vai brigar, como agora. Eu vou te chatear mais vezes e você ainda vai me deixar triste em outras ocasiões porque somos duas pessoas diferentes interagindo em muitos momentos. Olha, quando eu voltar da viagem a gente conversa. Você não precisa me esperar se escolher o sossego verdadeiro de não ter a mim por perto, nem a mulher nenhuma que te demande qualquer esforço ou faça gastar uma energia que você quer reter para outras coisas. Isso seria a tranquilidade plena e talvez seja exatamente o que você precisa agora. Mas confesso: eu quero acreditar que você tem a coragem que imaginei, e que não tem medo de viver coisas novas como sempre me mostrou. No fundo, o que mais gosto em ti é a incapacidade de resistir a uma pequena encrenca.

 

Meu táxi chegou. Não, pode deixar que carrego a mala. Fica bem, tá.

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O melhor lugar do mundo é dentro de uma mulher

Por toda vida escolhi minhas mulheres sabendo que algo tão efêmero quanto a beleza não deveria ser a primeira coisa a ser desejada. Sempre preferi as inteligentes, carinhosas, engraçadas, às lindas. Mas não naquele 19 de dezembro, quando saí de casa pensando que pouco importaria se a dama envelhecesse feia, enrugada e sofrendo a gravidade empurrando-a para o centro da terra, pois muito antes disso meu amor fugaz já teria desaparecido no mar das paixões afogadas, e eu mal poderia me lembrar do rosto ou da cor daqueles olhos que haveriam de se fechar enquanto os lábios me beijassem como se a vida toda dependesse disso. Aquela noite eu teria a mulher mais linda do mundo, e foi assim que conheci Diana.

A noite deveria estar quente, como geralmente é naquela época do ano, mas tínhamos uma chuva fina caindo do lado de fora, o que fazia com que as moças entrassem na festa enxugando suas grossas capas de chuva e corressem para o banheiro conferir se os penteados continuavam inteiros.  Foi seguindo este mesmo roteiro que vi minha Diana entrar pela porta, vestida de sua elegância com passos suaves, caminhando em direção ao lavatório sem olhar para os lados, ou sequer imaginando que meus olhos a seguiam entorpecidos, enquanto eu tentava lembrar se em algum momento já havia encontrado outra menina que iluminasse meu ser daquela forma, e a conclusão foi que não. Nunca encontrara, e nem encontraria depois daquele dia, quando Diana me petrificou de desejo e intenções. Não foi amor, como nunca poderia amar alguém apenas pela sua forma física. Era mais forte do que isso. Era um desejo que crescia fazendo todo o meu corpo latejar. Eu desejava conhecê-la, ouvir sua voz, sentir seu perfume, tocar seus dedos finos de unhas claras, beijar sua pele branca, saber onde estudava, qual seria sua profissão, seu disco preferido, o que achava do comunismo, e até mesmo o nome de sua cachorrinha. Era, no fundo, um instinto de auto-preservação que desejava conseguir amá-la acima de tudo, evitando toda a frustração com outras mulheres que haveriam de passar pela minha vida e seriam reduzidas a imagens imperfeitas de Diana.

Quando enfim consegui levá-la até o centro da sala para envolver seu quadril em minhas mãos e dançar sentindo o seu coração disparado tanto quanto o meu, suas mãos geladas e o perfume que nunca esqueci, sabia que aqueles seriam os últimos lábios que eu desejaria em toda minha vida. Ela tremia enquanto eu beijava seu pescoço lentamente e voltava para sua boca com desejo vibrante, fazendo-a ser tomada por uma expressão sonhadora e adorável.

Quatro dias depois, exaustos de paixão, lutávamos para deixar a quitinete que nos abrigava desde aquela noite, para voltar à vida infeliz e monocromática que nos aguardava do lado de fora. Resistindo ao impulso de arrastá-la para mais várias semanas esparramada sobre a cama, compreendi que os bebês levam 9 meses para nascer porque não há lugar melhor no mundo para se estar, senão dentro de uma mulher, mas Diana não era minha, e nem seria justo que fosse. Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, andando pelas ruas alegrando cada pessoa que a encontrasse e fosse contagiada pela sua presença, e ai que sorte de quem recebesse ao menos um olhar seu. Mas cada uma dessas pessoas iria para suas casas e fantasiaria uma história de amor com a mulher mais linda do mundo. Histórias que durariam dias, semanas, meses ou anos, mas nenhuma delas poderia ser eterna porque Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, para que outra pessoa pudesse encontrá-la e dar um pouco de sentido à sua existência. Não prendam a minha Diana. Ela deve ser livre.

André Petrini.

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Dórian

por Murilo

Não foi quando papai morreu que eu descobri que ninguém escapa da morte. Foi algumas semanas depois, quando morreu Dórian, meu peixinho imortal.

Ganhei Dórian de meu pai quando tinha quatro anos. “É um peixinho imortal, filha”, disse. O nome foi ele mesmo quem deu. Falou que era nome de um personagem de livro famoso, belo e imortal como o peixinho. De lá para cá, não posso dizer que tive momentos extraordinários com Dórian. Apesar de bonito, inteiro vermelho e com longas barbatanas, não deixava de ser um peixe, que nadava e comia e só. No entanto, posso dizer que ele sempre esteve lá.

Eu entrei para a primeira série, fiz amigas, odiei garotos, cresci, entrei para a quinta série, comecei a gostar de garotos, fiz inimigas, dei meu primeiro beijo, fui ao meu primeiro show, tive meu primeiro namorado, voltei a odiar alguns garotos, fui para a Disney, me formei depois da oitava série, e Dórian ainda estava lá. Quando eu contava às pessoas, elas não acreditavam. Um peixe ornamental daquela espécie vive em média três anos e pode chegar a, no máximo, oito, se bem cuidado. O meu já tinha mais de dez, e eu nem cuidava assim tão bem dele. “Ele deve ser mesmo imortal” eu pensava.

Dois anos depois, papai fez uma cirurgia complicada no coração e não sobreviveu. Por vários dias eu chorei e, depois disso, para que não cessasse meu pranto, foi Dórian que, em um dia frio, apareceu boiando no aquário. Só então minha mãe me contou toda a verdade.

Não havia existido apenas um Dórian, mas vários. Meu pai trocava o peixinho por outro muito parecido cada vez que parecia abatido, ou se simplesmente já tivesse vários meses de vida. Uma vez, ela contou, o peixe morreu de repente e papai saiu na madrugada atrás de outro, para que eu o encontrasse vívido e exuberante pela manhã. Era assim que ele cumpria o que havia dito, era assim que fazia de Dórian imortal.

Nos anos seguintes, não estava lá meu pai, mas estavam alguns homens tentando se passar por ele. Não foram poucos os namorados que minha mãe, bonita como era, trouxe para casa. Marcos, Fabrício, Daniel, eu nem me lembro.

O tempo vagou. Tomei meu primeiro porre, perdi a virgindade, comecei a fumar, passei no vestibular, beijei uma menina na faculdade, comecei a trabalhar, saí de casa, parei de fumar, me formei. E quem estava lá eram os namorados da minha mãe, constantemente substituídos, sempre gentis, querendo me agradar.

Hoje penso que seria melhor se ela tivesse continuado a trocar apenas o peixinho.

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Gente de bem não explica tatuagem

Toda festa tem suas peculiaridades.

Nessa, os presentes pegam os telefones dos bolsos e das bolsas para falar com gente que não está lá, para twittar sobre cada tópico discutido em tempo real, para atualizar seus status no facebook ou para usar outras redes sociais. Muita previsibilidade e elaborações banais sobre tudo e nada, como esta anterior, aliás. No salão enorme, mas pequeno demais para tanta gente que, ao menos autodeclaradamente, brilha, admitem inconscientemente que prefeririam outras companhias. Pelo menos neste momento, ou em todos os outros que ocorram dentro dessa noite tão pobre de emoções.

As mulheres e os homens são bonitos, ou estão arrumados, o que costuma ser mais ou menos a mesma coisa nesse tipo de contexto.

Representantes do empresariado local e dos poderes municipal, estadual e federal fazem discursos mais longos que os temas merecem. Mas disso eles não podem ser culpados, porque os discursos são sempre assim. São palavras e palavras e palavras e sorrisos e aplausos protocolares que parecem não ter fim e que conseguem irritar, mesmo que em pequena escala, 298 pessoas que os assistem (dentre um número total de 316 espectadores). Os discursadores no entanto acham que estão fazendo um trabalho agradável, mas disso também não podem ser culpados, já que a autocrítica nunca é a qualidade mais presente ou evidente no comportamento de quem quer que seja.

Definição boba da ideia de guerra contra o ego: é mais comum declarar que deflagrar.

Esta e outras frases feitas de palavras ao vento certamente continuarão vindo, carregando pesadamente conceitos batidos, verdadeiros ou não, mas que continuam a ganhar resistência com o tempo, curtidos em seus próprios usos irrestritos.

Já na porta, uma dupla de tequileiros faz um show pirotécnico para servir uma bebida que é etilicamente próxima do conhaque, do uísque, da vodka e da cachaça, mas que é apresentada como uma porta de entrada a um terreno de diversão descontrolada, passional, intensa. As razões para que isso aconteça são tão obscuras quanto os filmes de cinema e peças de propaganda que inicialmente começaram a difundir a ideia. Eles, os tequileiros, são pagos para emular o México que é visto nos filmes, que por sua vez emula o México da literatura criada por quem não vive no país, que por sua vez tem pouco ou nada a ver com o México de verdade. Não que seja necessário incutir qualquer suposta autenticidade num show assim, visto que a fascinação com o fogo e a atenção que gritos chamam jamais serão temas exclusivamente mexicanos.

Realidade, ou: uma construção de cuja origem ninguém lembra por razões mais óbvias que as culpas e os arrependimentos.

Pastiche torto. Um baile de máscaras sem música ou dança. Natimorto, então.

Muitos andam com um certo ar blasè pelo evento, apesar de estarem bastante interessados em fazer novos amigos, desde que estes sejam influentes em certos círculos da cidade.

Agora, os discursos acabaram, e iniciou-se o aproveitamento dos pratos e bebidas da noite. Esta degustação é o motivo da presença de quase todos, com exceção de um dos membros do poder municipal, que vê na parceria com os empresários que aqui estão uma plataforma eleitoral interessante e proveitosa o bastante para tirar-lhe de casa nessa data, que coincide com o aniversário do filho mais novo dele.

Daquele jeito:

ninguém é perfeito.

Ouve-se ao longe uma moça vociferando contra a configuração da sociedade, e contra a falta de oportunidades e condições iguais para que todas as pessoas possam se desenvolver bem e através dos próprios esforços. Ela acabou de ser filmada para aparecer na coluna social de um programa local de televisão, destes que cobrem este tipo de evento. Ela descobriu hoje que passará a ganhar um salário maior no emprego devido a uma promoção. A hipocrisia dos outros a irrita, só um pouco menos que a evidente falta de alguém qualificado para discutir o tema agora. Dessa forma, e a despeito de já passar da meia noite, liga para uma grande amiga, que vem a ser também sua manicure, toda vez que a agenda de ambas permite. E a agenda de ambas sempre permite, toda quinta-feira às 19h30, com raras exceções, a R$ 15,00 a sessão.

Serviçais servem serviçais que fingem não sê-los. Os serviçais que servem não conseguiriam garantir a estranheza dessa relação por causa da alta quantidade de trabalho para realizar. (A quantidade de atividades forçadas que alguém realiza é sempre inversamente proporcional ao tempo que se tem para refletir sobre a natureza delas, seja quem as pratica quem for). Mas os serviçais que estão sendo servidos sim, sabem que têm a quem se reportar em algum lugar, mas não gostam de pensar nisso. Em alguma instância, nem podem, pelo bem da continuidade de seus projetos pessoais de felicidade.

Um dos destaques positivos da noite é o sabor de um dos pratos. Trata-se de batata frita, mas com um molho de nome estrangeiro que ninguém conhece mas não tem desenvoltura para admitir. Muitos têm uma opinião bastante elaborada sobre a qualidade e o sabor deste molho, comparando-o ao original, (diz-se que) criado e servido num vilarejo na Itália. Lá, inclusive, ele parece ter algo a mais, talvez pela qualidade do terreno e dos tomates que são cultivados na região.

E a volta às obsessões, sempre as mesmas:

a penúltima linha, agitada.

A última linha, serena.

Marco Antonio Santos.

A parte um tem pouco a ver com esta, mas de qualquer forma está aqui: Gente de bem não fala esperanto

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