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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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no centro do palco

por Rafael.

o tempo não hesita
em nos tornar

coadjuvantes

de nossos
próprios

de
fei
tos.

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Passo adiante

por Rafael

A vida muda, muda e minha força não se faz valer. Uma nova perspectiva e volto a ser o pequeno indefeso de anos atrás.

Dias, anos, em busca de ser, convicto de que chegaria a algum lugar, e agora obrigado a admitir que sempre estive a caminho de lugar algum. Pilotando uma transformação desnorteada, à deriva em um mar desconhecido.

Ainda que tenha gastado grande parte de minhas forças em negar, alegando uma convicção qualquer, tudo sempre escorreu com o tempo.

Escrevi uma vida inteira sem saber ao certo o porquê. Poucas vezes tive certeza de minhas linhas. Não sei ao certo por que me escondi tanto tempo atrás das letras. Talvez na esperança de que elas sobrevivessem à minha morte. Bobagem.

Nada é imortal, sequer as palavras escritas. Esse nosso-mundo-inteiro um dia será engolido pelo mesmo sol que nos aquece hoje. Todas nossas histórias e construções serão consumidas. Eu, você, nós. Tudo será nada. Sequer lembranças irão restar.

Certo disso, sigo com um coração envenenado pela indiferença. Já esquecido pelo mundo.

A vida segue como eu jamais houvesse existido: os carros continuam a rosnar uns para os outros, as pessoas continuam a se evitar, o sol continua a nascer e as estrelas a gritar, e apenas alguns a perceber.

Poucos têm tempo para ver a vida acontecer.

Talvez a vida tenha sido sempre isso: uma sucessão de eventos maravilhosos e desastrosos que engolem a gente a todo momento. Algumas vezes estamos mais sensíveis e nos deixamos contagiar.

Dificil-
mente
temos
tudo a
tempo.

O que tenho agora é uma visão noturna da minha janela. A mesma perspectiva dos últmos já-não-sei-quantos-anos. Muita coisa mudou, mas a madrugada continua a mesma.

O cheiro de tabaco sempre me visita. Jamais soube quem é o vizinho insone que fuma insistentemente em alguma outra janela de solidão.

Queria eu uma companhia agora. Pra tragar, beijar, apanhar. Uma interação que fosse. Algo ou alguém que reagisse às minhas pulsações. Meus gestos.

Em algum momento esqueci que a vida é a eterna transformação. E que quando nos esforçamos em negar isso, perpetuamos nosso sofrimento.

Sigo aqui, mergulhado em uma solidão que é mar para toda a tristeza que escorre pelos rios da alma, enquanto espero por algo que me convença a desprender do passado.

Afrouxar a corda que se ajusta em meu pescoço a cada certeza de que jamais conhecerei a verdade sobre o que não vivi.

Espero um retorno, uma chegada. Algo que devolva a força. Não uma qualquer, mas aquela que nos mantém em pé. De olhos no céu para perceber as estrelas gritarem, o sol se pôr e, com uma piscadela, deixar combinado que amanhã tem mais.

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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Um todo de mim

por Rafael

Quando a chuva começou a cair naquele sábado a tarde, todos se encolheram sob marquises e toldos para se proteger. Eu saí para me encontrar.

Voltava para casa depois de almoçar naquele buffet por quilo atrás da catedral. Não o caro, mas aquele com preço honesto, comida sem graça e gelatinas sem gosto ou mamão picado descongelado como sobremesa.

O almoço mais uma vez pesava, não por satisfazer, mas por ser quase recusado por um estômago mal tratado. Pouco me importei. Acabei me acostumando a conviver com desconfortos e seguir em frente, como viver fosse isso mesmo. Uma pena.

Por não ter pressa e já não haver mais o que molhar, me permiti prolongar o caminho até a rua dos ipês. Sempre adoramos aquelas flores, lembra? Fazíamos o caminho mais longo para voltar pra casa, pois o tempo nunca é pouco quando estamos plenos.

Passei por lá e tudo parecia parado no tempo. Inclusive eu, que pude sentir sua mão segurando a minha enquanto olhava aquelas árvores que gritavam todo um passado que me engolia.

Olhei para o chão e tudo o que via eram as cores vivas daquelas flores mortas. Bonito.

Um tapete de flores amarelas e roxas, molhadas, para eu passar. Ainda assim, mortas.

Sua mão já não segurava mais a minha.

Passei pelos ipês, assim como o passado deveria ter-se-ido. Vim embora, subi as escadas e um cheiro de fritura aguçou ainda mais minha memória. Por um momento tive certeza de que o cheiro vinha do nosso apartamento. Seria bolinho de chuva.

Sua mão segurou a minha novamente e juntos subimos até o terceiro andar. Porta número 34. Levei a chave à fechadura, girei. Acho até que fechei os olhos enquanto abria a porta. Apertei sua mão, entrei e percebi: o cheiro não vinha dali.

O apartamento permanecia vazio. O cheiro por ali era do abandono que me consome. Da solidão que me afoga desde o dia em que você pegou aquele ônibus para voltar pra casa. Voltar pra mim. Aquele ônibus que nunca chegou. Que ficou naquela ribanceira. Com você. Com um todo de mim que já não encontro mais.

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Tetos não-familiares

por Rômulo

A pouca luz que entrava pela janela mostrava uma textura listrada naquele teto que era, pelo jeito, de gesso – bem diferente dos dois ou três tetos que conhecia de cor. Luisa tentou contar de cabeça a quantidade de tetos não-familiares a que foi apresentada nos últimos dez meses mas não conseguiu: eram muitos. Preferiu lembrar-se dos três.

O primeiro teto que de que Luisa se lembrava era o do quarto em que viveu até os doze anos, o ano em que sua mãe morreu. O forro era de madeira, mas a cor verdadeira sempre foi uma incógnita, pois ele era inteiro pintado de um rosa bem suave, assim como o resto do cômodo todo. Lá ela tinha o conforto do aconchego, do carinho, do abraço apertado que dona Maria Luisa lhe dava toda noite antes de ajeitar a coberta da filha, do “dorme bem, te amo” que a mãe dizia antes de dar um beijo na testa da menina e fechar a porta do quarto. Esse teto, tinha certeza, estaria para sempre em sua memória. Lembrar da mãe lhe trazia um sentimento nem de dor nem de alegria, uma pureza que inundava o coração e transbordava pelos olhos.

Havia também um teto todo colorido, cheio daquelas estrelinhas adesivas que brilham no escuro. A esse Luisa se acostumou durante os dois anos que viveu na Argentina, na casa da tia que a acolheu tão carinhosamente quando sua mãe faleceu. Era o teto de um quarto que, apesar de bastante grande, não oferecia lá muita privacidade, uma vez que o dividia com suas duas primas mais novas. Foi uma adolescência complicada, sem um cantinho onde ela pudesse ficar totalmente sozinha, mas ela nunca reclamou. A tia havia sido muito boa com ela e essa divisão de quarto, ela sabia, era coisa passageira. Quando voltou ao Brasil, seis anos mais tarde, Luisa até sentiu falta das estrelinhas, por algum tempo. Tinha se apegado à posição de algumas constelações que ela mesma tinha inventado, a partir da disposição aleatória dos astros de papel brilhante.

Até que chegamos ao outro teto que Luisa conhecia de cor, o terceiro deles. Era o do quarto de Renan. Desde que ele a deixara, ela tentava, sem sucesso, encontrar em vários cômodos diferentes o conforto que sentia quando olhava para o teto de madeira crua, de um marrom-quase-bege-de-tão-clarinho, quando os dois acordavam, se abraçavam e, mirando sempre o teto, contavam um para o outro os sonhos que tiveram, os planos para o dia, os sonhos que ainda tinham, os planos para a vida. Também era muito confortável, de um jeito diferente. Trazia o alento do porvir, da vontade de viver aquele amor até quando se tornassem dois velhinhos, acordando abraçados.

Hoje nenhum desses três tetos existem na vida de Luisa. Esse teto (pelo jeito, de gesso) que ela fitava, sem pressa, enquanto divagava, nem de longe abraçava sua alma do jeito que os outros três faziam. Mas era o que havia para hoje e, do que se há para hoje, nunca se deve reclamar. Segue a busca por um teto que volte a lhe confortar. Mais uma noite, mais um teto não familiar.

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É preciso burilar-se

por Rafael

Uma vez mais me encerro em meu quarto para escrever uma das já não sei quantas cartas-que-jamais-lhe-entregarei, pois qualquer coisa é melhor do que ficar calada.

Tenho todas elas guardadas na primeira gaveta ao lado da minha cama. A parte mais organizada do meu quarto. Talvez da minha vida.

Ainda hoje revirei sua biblioteca e os papéis que você tanto escrevia. Tento me encontrar nas suas linhas (tão tortas). Sei, mas tento me esquecer, que muitas delas não foram escritas pensando em mim, mas ignoro, pois só eu chego a elas. São minhas.

Em que momento nos perdemos destas linhas? Onde a vida começou a desfiar?

Vivemos à espera de um marco, um triunfo, uma derrocada que sinalize um fim que insistimos em esconder. Blindamos nosso presente ignorando que ele se esvai a cada momento e é substituído por outro agora que, ai, passou.

Quanto de mim já se foi? Quanto ainda me resta? Não nos preocupamos com isso porque temos o conforto de que no final tudo dará certo, sem levar em conta que, no fundo, o que existe é o caminho até lá. Por onde tenho andado?

São sempre tantos por quês, que nos damos ao luxo de achar normal o fato de que algumas perguntas não possuem mesmo respostas.

Hoje passei em frente ao seu trabalho e pensei em entrar. Ir direto à sua sala, sem me identificar a seguranças, secretárias, a ninguém. Pular a catraca e correr até a última porta do corredor.

Abriria a porta sem me importar com mais nada. Contaria o quanto eu sofri, cresci, me iludi, caí, reconstruí e só então pude perceber que você jamais sairia de dentro de mim.

Assim como diariamente me espremo até caber nas suas entrelinhas. Me vejo (e odeio isso) regar minhas letras com lembranças de você.

Escrevi isso e sorri. É quase um ódio o que sinto ao perceber o quanto meu corpo reage sem pensar, como fosse um motim. Há coisas que guardo comigo e finjo esquecer, escondendo de mim mesma.

Há dias em que me sinto fraca e sem razão para existir, como as flores que não cheiram. Como pode tudo estar tão fora do nosso controle? Já não me preocupo com os motivos pelos quais você se foi. A pergunta agora é “Quando você começou a ir?”

Hoje, entre seus papéis, uma folha em branco, com uma única frase no meio, me dizia: “é preciso burilar-se”, com a nota de rodapé mais bonita do mundo. Era o seu nome desenhado dentro de um córrego que corria para fora do papel.

Te vi como um rio. Indo, escorrendo, sempre tão independente do que lhe possa aguardar na próxima queda. Um rio jamais deixa de escorrer por temer sua foz.

Quando finalmente consegui sair daquele rio, que sequer cheguei a mergulhar, me vi envolvida pela fumaça dos cigarros já sem vida no cinzeiro. Era como o nevoeiro do seu rio ao amanhecer.

Escrever pra você é minha maneira de burilar-me, de fortalecer o meu caminho. Já não tenho nada a lhe esconder. Amontoo estas cartas que me acompanham há quatro anos, desde aquele dia que era vencido pela escuridão e seu caixão entrava no forno que lhe levaria às cinzas que hoje adubam nosso jardim. Ele está lindo, aliás.

As begônias estão como as de Macondo, como as imaginamos-um-dia-juntos, como quando enxergávamos o mesmo horizonte, sempre tão distante.

As cartas compõem meu testamento, que pretendo queimar comigo, com sua biblioteca, com esta casa que grita seu nome a noite inteira, e assim nos tornaremos uma coisa só, adubando este jardim. Pois é preciso burilar-se.

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Portas são para o quê

Por Rômulo

Daqueles momentos que mudam uma vida. Tudo faz sentido de um jeito estranho, tudo se encaixa e se explica automaticamente. Um momento intenso, solitário mas compartilhado.

Falemos, Luisa, sobre portas. Ignorar portas não significa nem que elas estarão fechadas e nem que elas estarão abertas: é uma questão de deixar que elas cumpram a sua função. Portas, diz um poeta, são pra conter ou deixar passar. Quando se quer passar, basta girar a maçaneta ou apenas escancarar (no caso de a porta estar apenas encostada). Essas são as portas ignoradas. As portas que apenas estão ali, destrancadas ou até encostadas, pois acreditamos que algo em algum momento pode entrar, algo que faça sentido e tenha um significado.

A porta que reservo pra você é uma dessas. É uma porta enorme, de um tamanho até meio desproporcional. Veja, essa porta nada mais é do que uma construção – ela tem o tamanho do seu tamanho dentro de mim –, e esse tamanho no momento é indiferente. O mais importante agora, Luisa, é que você saiba que essa porta está sendo ignorada. Quando quiser passar, fique à vontade. Se quiser nunca mais entrar, está permitido também. É uma conclusão meio melancólica, eu sei, mas quem foi que disse que melancolia é ruim? Sempre entendi melancolia como um conceito relacionado à mudança, à desconstrução, e azar o seu se quiser ir procurar no dicionário só pra me contradizer (o que seria bem a sua cara).

Confesso que chorei. Mas foi um choro tão saudável que você se surpreenderia. Foi um choro de melancolia aos meus moldes. Me bateu um arrepio, me bateu uma dor (que eu achei exagero, verdade) e uma alegria que nem sei de quê. E, com isso tudo, sinto que cresci.

Não te cobro mais,
pelo menos não deveria.
Não te ligo mais,
pelo menos não deveria.
Nem espero nada,
ou, pelo menos, (tenho a impressão de que) não deveria.

Vai com Deus (nunca escrevo Deus com maiúscula, mas você gosta que eu sei). E não esqueça que essa porta sempre vai estar ali, encostada.

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Entre as estrelas

por Rafael

Eram 18 horas de mais uma quinta-feira, daquelas que não se diferenciam em nada das outras quintas. Ventura estava na rua, saindo de seu emprego burocrático. No peito, um único sentimento: mais um dia vencido. Mal sabia ele que, na verdade, era um a menos.

Saiu na rua com as mesmas mãos nos bolsos e cabeça baixa de sempre. Não precisava olhar para frente, pois o trajeto até sua casa contaria com o mesmo roteiro de sempre: passaria no mesmo mercado de sempre e compraria a mesma cerveja de sempre, que, como sempre, não beberia até o final e jogaria o resto no mesmo terreno baldio de sempre. Caminha por estas oito quadras todos os dias.

Perdera o prazer de realizar o seu trabalho há cerca de quatro anos; uma semana depois que começou a lidar com as planilhas. Era um trabalho como outro qualquer, daqueles que fazem parar o relógio.

Eu poderia dizer que o tédio reinava, mas não, era uma quinta-feira como outra qualquer: Ventura passou no mesmo mercado de sempre e comprou a mesma cerveja de sempre. Mas, desta vez, talvez por tédio, talvez por distração, tomou tudo. Virou a lata e entornou a cerveja boca a dentro. Sem querer olhou o céu e lá estavam as estrelas. Milhares delas.

As estrelas sempre estiveram ali, sempre observaram o seu tédio, silenciosamente. Ventura parou, chegou a babar um pouco da cerveja já meio quente mas não se importou, até sorriu. Ficou parado, olhando para o céu que estava ali para todos, mas era percebido só por ele-só.

Ventura decidiu continuar seu caminho, pois a vida continuava, mas não pôde tirar os olhos daquelas estrelas, que já não estavam tão distantes quanto antes. Estava entre elas.

Dobrou por esquinas que jamais havia passado e, ao retornar seus olhos para o chão, não reconheceu nada ao seu redor. O espanto e o medo que deveriam surgir, desta vez, deram lugar à curiosidade. Ventura se viu instigado e feliz em meio ao novo.

Era a rua paralela à da sua casa. Um universo que sempre existiu, mas Ventura não possuía olhos para nada que não fizesse parte de sua rotina dura e cinza. Deixara de re-conhecer as cores-novas-de-novos-universos desde que Mariana deixou de conduzi-lo pelas mãos, transmitindo uma segurança capaz de fazê-lo explorar o desconhecido de olhos fechados.

Pela primeira vez, desde a partida de Mariana, Ventura sentia o prazer de conhecer, de descobrir o novo, ou até mesmo de inventá-lo. Voltou a sorrir sozinho, até cantarolava músicas que jamais teria coragem de cantar fora de sua casa cinza. Estava sozinho, mas com o mundo, com o novo, com as estrelas. Só ele sabia e isso bastava.

Nenhum detalhe passava despercebido. Nas casas, pais iam chegando, uns abraçando seus filhos, alguns já com uma cerveja em mãos, relaxando o dia burocrático que certamente haviam tido. Ventura contemplava tudo. Era uma estrela.

Percebia que, para o amor, não seriam necessárias duas pessoas. Não sempre.

“Vocês assistem a isso todos os dias?”, perguntava às estrelas, que brilhavam como resposta, “Em dias nublados a vida de vocês deve ser um tédio daqueles!” e elas continuavam lá, brilhando com aparente indiferença.

Ventura teve certeza de que jamais retornaria das estrelas e queria saber de Mariana, para lhe dizer que a entendia. “Se ela ao menos soubesse que eu enxerguei”.

E assim Ventura foi, flutuando sem rumo por ruas desconhecidas, até que se deparou com a esquina da própria casa.

Foi como cair de outra galáxia ali, na mesma rua. A queda não doeu, mas  lhe custou as cores da percepção. Ali ele não podia olhar para as estrelas.

Colocou as mesmas mãos nos bolsos, baixou a cabeça e caminhou rumo à sua casa, como sempre, pois amanhã, às oito da manhã, começaria mais uma sexta-feira, provavelmente igual às demais.

As estrelas continuaremos aqui, todos os dias, mais próximas do que Ventura possa imaginar. O novo estará sempre o acompanhando, pois está dentro de si, mas seu coração está arisco desde que Mariana deixou de lhe guiar. Um coração quando está à caça de seu velho amor é cego para as novas coisas, que envelhecem sem que sequer cheguemos a tocá-las.

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Reminiscências

por Rafael

Vim escrever. Talvez por desencargo de consciência, talvez por necessidade. Talvez eu esteja fugindo do que realmente preciso fazer. Uma noite como uma outra qualquer, onde fiz o que de antemão senti uma certa-não-necessidade. Ainda assim,  executei. Por isso estou aqui: para metabolizar ou me convencer de que mereço dormir.

Pra dizer a verdade, hoje acordei querendo escrever pra você, ou sobre você. Verdade é que nunca sei o que realmente acontece quando você invade o hoje, sem se conformar com um ontem.

Como essas coisas que passam, ficam, voltam, nos desconfortam e nos jogam pra cima sem fornecer um chão para onde voltarmos. Um presente com reminiscências de passado. Como uma torneira mal fechada que eternamente insistirá em pingar.

Hoje enquanto ia trabalhar me deparei com um menino cego na esquina de casa. Passei.

Passei como centenas de histórias passaram ao lado dele, sem sequer repararem um no outro.

Na pressa-que-sempre-me-rege-os-dias passei, afinal de contas, um cego é uma pessoa como outra qualquer, com limitações a serem superadas. Ou tentei. Algo de mim enroscou naqueles olhos brancos.

Ignorei, segui rumo ao meu futuro com uma convicção que não durou meia quadra. Parei.

Como um menino cego estaria se sentindo ali, naquela esquina, com milhões de carros acelerando e freando ao seu redor, pessoas de passagem rumo a destinos quaisquer?

Parado ali, diante do cruzamento, aquele menino parecia tão vulnerável que seria minha obrigação lhe dar um braço a atravessar a rua. Me senti forte, necessário.

Mas ao reunir forças para dar um primeiro passo de retorno, me senti tão vulnerável quanto me sinto agora, com este cheiro de cigarro que entra pela janela do meu quarto. Não sei de qual apartamento vem, mas sei o quanto estou à deriva de meus pensamentos, embebido nestes resquícios de fumaça.

Direciono meus pensamentos e volto a tomar as rédeas do tempo. Como brincamos no Facebook, de nos bloquearmos numa eterna massagem egocêntrica, onde mostramos a nós mesmos quem manda em nossos relacionamentos. Convencidos de que decidimos como as coisas acontecem. Fora dali, frágeis.

Finalmente volto. Primeiro, segundo passo e, como recebesse um aval divino, o menino desanda-a-andar. Corre como quem sabe o que faz. Atravessa a rua e rouba os pilares do meu instante.

Não vi para onde foi, muito menos onde fiquei.

Milhões de carros acelerando e freando ao meu redor, pessoas de passagem rumo a destinos quaisquer. Me encolhi.

Segundos depois, segui meus passos. Os olhos brancos se foram. Ninguém percebeu o quando eu precisava de um braço a me auxiliar.

O dia seguiu, como todos sempre seguem, nós é que paramos. Assim como a fumaça do cigarro, que sequer sombra chega a fazer na penumbra-do-meu-quarto.

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Minhas tardes com Maurício

por Rafael

Maurício seria um menino qualquer, com suas inconsequências, brigas com as irmãs mais velhas, preguiça de estudar e a relutância em tomar banho, não fosse um único e isolado fato: minha carência por um irmão.

Foi ele quem despertou pela primeira vez o amor por um amigo em mim. Obviamente, à época não percebi isso, e lamento com todas as forças destes mundos em que vivo. Foi Maurício quem encontrou em mim aquela vontade de querer estar sempre junto, querer bem, querer cuidar, querer ser. Era com ele que eu me sentia bem, que fugia de todo o vazio do meu quarto.

Eu queria ter ele em meus braços, embalá-lo, tirar uma foto como tiram todas as crianças, em algum momento, com seus irmãos mais novos no colo, ainda bebês.

Era com Maurício que eu subia no pé de manga, no pé de pitanga, no telhado, que sempre quebraria, correria sobre o muro, e viveria tardes em que nada além do quintal entre as duas casas existiria. A não ser quando quebramos o cano da caixa d’água do vizinho e inundamos um mundo inteirinho. Tivemos que nos esconder de todos, atrás da casa. Nunca ninguém nos achou lá, onde ficamos até que a água chegou ao pescoço, nos obrigando a ficar de castigo.

Maurício morou nos fundos da casa da minha tia por um tempo que eu nunca soube medir.

Foram dias em que tudo o que eu fazia, se não fosse com ele, quereria que fosse. Sempre que fosse a algum lugar longe dele, pedia pra leva-lo junto. E seria assim pra sempre, claro que seria, não fossem esses detalhes são irreversíveis no percurso do tempo, tal e qual as pedras de uma ribanceira para o endereço da foz de um rio qualquer.

Jamais soube o verdadeiro motivo, e isso era detalhe de bastidores, que jamais chegam aos ouvidos das crianças, mas Maurício passou a não estar mais em minhas tardes.

Diariamente, depois da escola eu corria até a casa dele para encontra-la fechada, sempre fechada. Todos os dias acordava com a esperança renovada, de que chegaria lá e o encontraria para que pudéssemos viver o que sempre vivíamos, com a intensidade que transforma todos os universos em um estádio de futebol de cinco por três metros. Era esse sentimento que eu queria recuperar.

Hoje sei que aquilo que se sucedia às janelas da casa de Maurício fechada era uma espécie de tristeza. Mas nada muito extremo, pois era uma criança ainda descobrindo a parte sem felicidade de uma vida.

Foram esses dias que me ensinaram a me encontrar em cima de uma árvore. Sempre buscando subir o mais alto possível, eu provava a mim mesmo o quanto eu era bom. Como um barão das árvores, aprendia novos truques, novos movimentos, para subir cada vez mais alto, até que não houvessem mais galhos para, no dia seguinte, mostrar a Maurício o novo lugar a que poderíamos ir juntos. Mas ele nunca mais voltou.

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Gente de bem não fala esperanto

Somos o fim da festa e, mais cedo, a alma dela. Somos a garça, o tigre, a serpente e as estrelas. A angústia infindável, o castelo de areia que desaba, a bolsa esquecida na cadeira do bar e a mochila no canto da balada. Somos a caminhada para dentro de um livro / dentro da noite veloz; o posto de gasolina que serve para abastecer veículos de bêbados e as contas bancárias dos frentistas que ganham o benefício do adicional noturno, ainda que este, somado ao salário de sempre, não supra todas as necessidades deles e de suas famílias. Somos a região metropolitana da cidade que nada fala, mas que se falasse pretender-se-ia grande.

Somos donos de cães e cães sem dono. Os jogos pobres de palavras. Até as palavras, sempre pobres. As repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições. E o que mais?

Os buracos negros. A terra e a tristeza e os sorrisos e as lágrimas negras (que) caem / saem / doem. Nós somos a rua e seus elos, as esquinas. Nos melhores dias somos o amanhecer. Nos piores, a noite em si, e em ré, fá, e notas de cítaras e harpas sem cordas. Somos as versões techno dos hits radiofônicos do momento, que serão tocados por 98% dos DJ’s na próxima temporada de formaturas, entre “YMCA” do Village People, “We Are The Champions” do Queen, “I’ve Got a Feeling” do Black Eyed Peas e outras canções menos emblemáticas. Somos as meninas dramatizando a letra de “Like a Virgin” da Madonna em algum momento de alguma dessas festas, na altura em que as garrafas de bebidas estão pela metade em quase todas as mesas do salão. Somos os meninos vomitando no banheiro ou fora dele porque beberam demais.

O bumbo, a caixa e qualquer som que eles produzam juntos.

Somos os três seriados de televisão em voga no momento, e todas as relações sociais que eles geram ou alimentam. Os interesses. A conta de água e o aluguel atrasado, o amigo que dorme bem no quarto ao lado, a dupla que anda pelas ruas falando de desembargadores num tom de voz presunçoso e engraçado. Os minutos gastos esperando atendimento da companhia telefônica, ao telefone, aliás. A lâmpada que economiza energia. O refrigerante que é sinônimo de alegria, quando não de felicidade. A felicidade (que não existe). O dedo médio (sempre em riste).

Somos o conhecimento ocidental – que não passa de uma rua sem saída – e o conhecimento oriental – ou: uma viela mal iluminada. Os conceitos vazios que não precedem explicações. A aula-show do cursinho pré-vestibular de algum endinheirado que acredita em perspectivas, e o mochilão pelo exterior que, tomara, alivie-o daquele tipo de culpa que só gente rica sente e jamais admite. Somos os atos dessas pessoas, sobretudo quando elas não conseguem expressar em palavras o porque de fazer o que fazem, seja lá o que for.

Nós somos os ricos e os pobres. Os diretores do banco e os ladrões que estouram o caixa eletrônico e são flagrados de máscara e jaquetas pesadas pela câmera de segurança. Uma dessas jaquetas em alguma lata de lixo cinco minutos depois do registro dessas imagens. A mãe de um dos ladrões perguntando onde está a jaqueta que ela deu de presente para ele.

A saudade e a consciência, que apenas tenta impedir os desavisados de sentir saudade de quem não merece, ou merece, ou… (somos até este julgamento).

A raiva que passa e a raiva que fica. A indiferença, o desprezo, a pachorra, o pastiche.

A derrapada da moto, o capacete do motoboy, a pizza cuja entrega atrasou, o cuspe do pizzaiolo. A fanfarra, o som, o chapéu panamá da turista, a guitarra nova, o mal estar na cultura e fora dela, os hotéis, motéis, quartéis, generais, viscondes, brigadeiros, beijinhos, marechais e decibeis.

A memória. A ultradocumentação das banalidades e a satisfação dos egos dos que praticam esta atitude em nome da exposição da própria (sic) subjetividade.

Os sentidos que guiam pessoas para o caminho das ilusões. A respiração de alguém a quem se queira bem, vivida durante um abraço demorado. Alguém que você ama e alguém que esta pessoa ama mais que a você, que não merece amor. Somos tudo o que amamos e deixamos para trás.

Tanto faz. E muito mais. O brilho do sol. O fundo do mar. O horizonte misterioso. O pote de ouro no fim do arco-íris. O fim do mundo. O homem bem sucedido. A mulher forte. Todos os jovens cheios de planos e potencialidades. As pessoas andando no shopping. As vidas tristes. O silêncio do suicida. A calada da noite. As horas gastas olhando para o teto. Isso tudo mais todas as outras imagens comuns, sempre evitáveis mas raramente evitadas.

Os discursos empolados.

A penúltima linha, cansada.

A última linha, resoluta.

Marco Antonio Santos

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Até que ultrapassou a linha do horizonte

por Rafael

Tobias passou o dia inteiro com Dalila, que pulava e se equilibrava entre seus pensamentos, um a um. Desde que acordou não havia estado só. Dalila estivera sempre ali, prestes a cair para dentro de seu corpo.

Não era saudade, não era rancor, era apenas uma destas lembranças que parecem prestes a nos revelar algo, mas sequer indicam alguma direção.

Tobias passou o dia entre a curiosidade e a apreensão, como fosse ele o responsável pelo equilíbrio de Dalila. E talvez fosse mesmo. Não soube de qualquer possível explicação para a estranheza daquela terça-feira, desde as 8:40 da manhã, quando finalmente travou em definitivo o despertador e se pôs em pé, até aquelas 8:37 da noite, quando viu Dalila do outro lado da rua, onde tomava um copo de cerveja iluminada pelo alaranjado da luz dos postes da rua.

Era um bar daqueles pequenos, onde se pega o que se quer lá dentro e consome lá fora, com ou sem chuva. Estavam ali, agora, separados por uma rua, três anos e algumas mentiras.

O fato é que Tobias viu Dalila e sentiu que ela caia de seus pensamentos, mas não pra dentro de si.

Tobias retornou um tempo não cronológico e se viu no sonho que teve com Dalila na noite anterior. Um sonho daqueles que nos causam um desconforto, que só não classificamos como pesadelo pois não é exatamente medo o que sentimos.

Era uma cachoeira, uma cachoeira enorme, de uma água barrenta. Lá estavam Tobias e alguns amigos, que nadavam à beira do precipício para onde as águas se lançavam. Era um dia escuro, pouco após a chuva. As águas pareciam carregar o peso de outros lugares.

Os que se aventuravam no rio saltavam de uma pedra, a cerca de vinte ou cinquenta metros (nada é constante nos sonhos) da grande queda. A corredeira os levava até que se agarravam no galho da árvore arcada sobre o vão que bebia toda aquela água.

Tobias sentiu o frio na barriga de todas as duas ou quinze vezes que se lançou naquelas águas e confiou sua vida ao esforço de seus braços e daquela árvore que balançava seu corpo no vazio a cada investida.

Até que voltou à pedra-plataforma. Desta vez era Dalila, e apenas ela o aguardava lá, pois queria também esta sensação de lançar-se a um futuro incerto, confiando apenas em suas próprias forças para dar conta de uma vida.

O desconforto que preencheu Tobias foi como se já houvesse existido, como ocupasse um espaço que já fora seu.

Apenas disse que sim com a cabeça, indicando o caminho.

Dalila mergulhou em um salto lindo, onde brilhou, como o sol abrisse um único vão entre as pesadas nuvens para iluminar Dalila, que curvou seu corpo no ar e perfurou a água, que a absorveu contornando toda a sua existência, primeiro os dedos das mãos, acolhendo os braços, engolindo suas curvas, suas tão brancas pernas, deixando por último os (tão admirados por Tobias) pés de Dalila. Pouca água espirrou deste mergulho. Ela permaneceu em outro mundo por um tempo impossível de se precisar.

Até que emergiu a poucos metros da imensa queda d’água. Seu braço esquerdo esticado a poucos centímetros da árvore envergada sobre o rio, emoldurados pela linha da queda eminente (que fazia as vezes de horizonte) e das margens, no último momento antes da eterna descida, formaram a fotografia que manteve Tobias no extremo desconforto, materializado pela imagem da Dalila ali, onde tomava um copo de cerveja iluminada pelo alaranjado da luz dos postes da rua.

Após reviver seu sonho durante alguns minutos eternos, Tobias retornou a si, onde se sentia mais leve ao perceber que as razões do seu espinhoso desconforto haviam sido transformadas. Sabia agora que não caberia a ele o auxílio para que Dalila alcançasse o galho que lhe possibilitaria balançar os pés sobre o precipício.

Tobias sentia que já não seria a questão de perdoar, pois já havia perdoado Dalila. O que está em jogo é que, com o perdão, excluiu o espaço de Dalila em sua vida. Dalila deixou de existir. O que sentiu Tobias já não era desconforto, mas ainda é cedo para ser definido. Mas é algo leve e sincero, como o balançar do galho de uma árvore, que sempre estará de acordo com o vento que passa por si.

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Oh, o seu time campeão, sua escola na avenida

Foi bom que ela tenha morrido no começo do mês, porque aí pudemos depositar algum dinheiro numa conta de banco de um dos membros da família dela, o que pode não ter gerado conforto nenhum, mas claro que ajudou. Veja, querida, você sabe disso melhor que eu mas não custa repetir: toda ajuda nessa hora é válida, ainda que ela seja exclusivamente financeira.

O dinheiro não foi muito. Coisa em torno de R$ 300. Não pude me dar o luxo de fugir do meu orçamento mensal dessa vez (a viagem de férias e a classe média: tema pra uma outra hora menos triste), e é por isso, suponho, que fogões e geladeiras são feitos para durar pelo menos mais de um mês, assim como carros e televisões. E já que falo de suposições digo mais. Acredito que esses produtos poderiam durar mais tempo, talvez vidas inteiras, mas isso é especulação somada à uma vontade boba e pessoal. A propósito, um dos meus casais de avós gostava de falar sobre a “eternidade” do amor deles, como se existisse mesmo sentimento que resista a tudo, sem guardar relação qualquer com as conveniências da vida, ou sem que esteja influenciado pelas ondas que ela propaga e é. Nunca acreditei neles quando falavam disso, mas não costumo acreditar nas palavras de muitas pessoas. Pelas pessoas e pelas palavras, que valem menos que as pessoas e menos que dinheiro, e menos até que o conforto de sentar numa boa poltrona, ainda que você sente numa delas para ler palavras num livro ou numa revista ou num almanaque ou num site, ou para ouvir palavras numa conversa com alguém de que gosta.

O que importa é que estou sempre atento às palavras, mas estou ainda mais atento ao fato de que elas não valem muito, se é que chegam a valer alguma coisa em alguma instância da sensatez. Aliás, sensatez é uma bela palavra, não?! Não sei. Eu acho. E prefiro a palavra ao ato.

Funerais custam caro. Já viu? Sim, pois se as empresas funerárias fazem, na verdade, um dos trabalhos do diabo sobre a terra, nada mais justo que cobrar muito por isso. Não deve ser fácil viver cada hora maldita tendo que se reportar ao inferno. Cada um dos minutos deve ser difícil. Cada um dos segundos, e até os intervalos entre eles. Em alguns momentos, sempre tão fugidios quanto o vento, deve ser insuportável trabalhar nesse negócio.

Ninguém paga uma empresa funerária para cavar um buraco, tapá-lo ou para escolher flores adequadas, nem nada disso. Paga-se pelo tempo dos profissionais da obra. Poucos querem se preocupar com a morte num tempo como o nosso, tão feliz, esperançoso e tão cheio de palavras que acalentam os corações cansados e enganam os desavisados. As palavras, de novo. E outros funerais, que hão de vir e vão.

Paga-se caro nestes casos, também, por causa de métodos comerciais estranhos que algumas empresas do segmento praticam, mas isso é tema pra outra hora, durante um café, quando desconfiarei de tudo que você disser e espero que você faça o mesmo quanto às minhas palavras. Uma hora de investigação policial dedicada e cuidadosa, empreendida por policiais que tenham bons hábitos de sono e alimentação, e que estejam contentes com os próprios salários e estilos de vida deve resolver o caso das funerárias, mas nós temos muito o que dizer um ao outro sem precisar nos preocupar com esse tipo de tema, mesmo que passemos por ele por acidente em alguma altura da nossa conversa animada e ansiosa.

Quanto a ela, a morta, era isso. O que você acha? Existe mesmo outro lugar além daqui? E pode dizer o que quiser, mesmo que eu duvide.

Não vou te visitar nessa semana. Talvez nem nesse mês, na verdade, mas podemos conversar pra descobrir quando poderemos nos atualizar um sobre as atividades do outro. Inventemos um dia fatídico e feliz para nós, afinal.

Saudades de você – mas não devia admitir, acho.

Do seu (com medo da formalidade excessiva, pelo momento pesado demais pros meus ombros tão cansados de carregar o peso do mundo e das dores).

Daniel.

Marco Antonio,

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saudades…

postado por Saul

Sobre o trilho de trem ela observa a paisagem e sons que aquele cenário emana. Calma. Simone está calma. Pensa em como é boa àquela sensação, talvez seja o momento, ou porque ali tem tudo que almejava. Solidão. Completa solidão, só interrompida por ruído e tremor crescentes. O ruído remete a sua infância. Passava três ansiosos meses esperando por ele. Ao acordar escutava o ruído crescendo, assim como sua ansiedade, corria em direção a estação, a qual residia próxima, e aguardava vagão por vagão. Com olhos atentos – tão atentos que observavam todas as pessoas e suas expressões, dando uma história pra cada uma delas – para não perder nenhum momento que poderia olhar para ele. Seu pai era viajante. Regressava a cada três meses, permanecia em casa duas semanas depois iniciava mais uma jornada. Simone decorou todos os trejeitos de seu pai, quando estava com saudades ela fechava os olhos e desenhava na escuridão todos os movimentos dele, o jeito exagerado de dar risada, a pressa em comer e o olhar de carinho com um sorriso maroto que era o que mais gostava de recordar e desenhar em sua mente.

 Agora ali sentindo novamente saudades de seu pai – percebendo a solidão, já não queria mais ficar só –, saudade de todos. Será que eles também estavam sentindo saudades dela. Seu marido, filhos e netos, seus funcionários, tratados como se pertencessem à família, todas as pessoas próximas. O tremor foi aumentando e a contagiando de alguma forma inexplicável. Corpo mexendo-se involuntariamente, jogando pra fora todos os temores da vida, preenchendo com uma felicidade imensa. Ela estava liberta de qualquer compromisso e obrigação, sempre quis fugir de tudo, mas adiou para fazer as obrigações impostas por todos, agora era livre. Ruído e tremores intensos. Ela não quis abandonar a liberdade e não se moveu. Em seu rosto manifestou um sorriso sincero. 

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