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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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Reino do medo

Filhas, freelas, pilhas, baterias, tomadas, adaptadores. Filas, milhas, cedilhas, centelhas, centeio, seus campos. Um mambo, uma bossa, as apostas, a amostra de produtos grátis. O táxi que não chega. A grande tradição grega. A Grécia, a Suécia, a Polinésia, a anestesia local, geral, do corpo, na alma.

O mal, a corda bamba, um samba torto, o extintor, o computador, a humanidade em geral. Os anos que passam, a raiva que dá origem às revoltas, a revolução que acontece e a grande, que não, a falta de pão, o caixão, o caixote e o prego que prega o corrimão. O skate e o cifrão. Os processos e seu ideário suspeito de otimização. As palavras e todos os campos de definição de termos, as termas, as saunas do centro, todos os que estão lá dentro, os cantos escuros, o chão preservado, a história de cada lugar. E essa calçada, vem de onde e é de quê? E que interesse que há?

A cifra, a tablatura, a partitura, a parte um e a parte dois. As outras que virão depois.

O relógio, o horário, o itinerário, o rito funerário, a viagem de férias, a praia, as estrelas e toda a matéria, o metrô que é só projeto, o teto e o chão. O primo e o irmão. A prisão que não desencadeia reação. Os tempos que morreram, os que morrem a cada momento e os outros, que morrerão (estes, ao relento).

O fugaz, o rei, a rainha, o nove de copas e o ás.

No reino do medo há falta de paz, que nele não passa de uma promessa furada, ou seja, daquelas mais comuns, que rapidamente ficam para trás.

Meu Deus: o Senhor sabe que eles amam a si próprios com intensidade maior que a do amor dos Seus! Os egos inflados, o que não é explicado, a falta de vontade de entender, a tevê, a piada do pavê, o desconforto, quem é absorvido e nunca descobre que está, assim, morto: há falta de paz.

Somos do mesmo que tudo? Areia, sangue, céu, neve, sonho, papel, o entrave, o sempre, o engov?

A busca pela saúde, os grãos da moda, as sempre-mais-longas-que-o-necessário discussões sobre as propriedades benéficas ou não do café, do vinho, do ovo, da margarina, da soja, das proteínas, da cerveja, das vitaminas do momento, os biquínis, as bermudas (ou as sungas?), e os ventos. A compreensão plena, a noite serena, algumas cenas, alguns poemas, as vidas pequenas e os planos banais.

A falta de paz, a falta de paz.

Os discursos corporativos e as paredes que com eles se estreitam. As outras paredes estreitas. Além, é claro, dos caminhos secretos, dos segredos, das nuances da vida, das chances perdidas, dos romances doídos, das perguntas vazias, das respostas vagas, do que é pouco interessante: desde o vídeo da infância até as discussões sobre os ou as amantes. As famílias felizes, os turistas perdidos e tudo o mais.

A falta de paz. A falta de paz.

Marco Antonio Santos

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Untitled S/T #1

Bernardo Staut

 

E então você chega à porta do conhecimento que diz que você não precisa fazer nada, tudo acontece por si só, como o moto perpétuo infinito universo que se refaz a cada segundo, e você como parte disso precisa fazer o quê? Aliás, não só faz parte, mas pense no fim do fim do fim disso que chamaram corpo e que no fim é formado por exatamente a mesma coisa que tudo e todos e todos os pensamentos traumas problemas bênçãos e milagres, tudo que um dia você leu ouviu falou ou fez, ou fizeram ou vão fazer, e é exatamente isso e só isso que forma você. E na música que toca por traz de tudo isso, você como um da orquestra, tocando devagar ou rápido, errado ou certo, mas ao mesmo tempo o que vibra de você é o que faz o maestro que guia, e também o teatro e a própria música, a vibração. E vão-se anos e anos e sessenta mil milênios e você vai continuar fazendo a mesma coisa, só com um nome diverso. Até o momento que algum dos músicos de fraque ou alguém da plateia que antes dormia em alguma parte monótona acorda, levanta e grita para todos “eu sou a música, pode parar tudo”. Todos se voltam para vê-lo, mas ele não está mais lá… Pra que ficar pra ver a mesma música? Ele saiu para cantar nas ruas provavelmente, ou simplesmente pulou do segundo balcão ou camarote que estava, caindo de cabeça no contrabaixo que não parava nunca de emanar a vibração mais baixa, mais inaudível, aquela para poucos. Ninguém dá muita bola, mas talvez um vá lá para procurar o corpo, que já se dissolveu no som e virou outra tábua da antiga casa. Só resta uma mancha da queda, não de sangue ou carne, mas um borrão, um estilhaço, um pouquinho de poeira. Para lembrar esse ouvinte que esqueceu das regras o ser coloca uma pedra por ali, que mais tarde será empilhada com outras, formando talvez um novo camarote. E teatros após teatros, pó sobre pó, a música toca, alguns dançam, alguns se emocionam, e no fim ninguém sabe bem quem é o compositor, mas que escolha tem? Quem escolhia as músicas já saiu de férias faz tempo e a programação já está em cartaz.

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Lágrimas no Paraíso

Poucas coisas poderiam estragar o paraíso de Maragogi, com suas águas em tons de verde-olhos-de-top-model, piscinas naturais com peixes de cores que parecem só existir ali, e o céu incansavelmente azul. É abduzida por este cenário que Cana Chorona vai morrendo sua vida, vertida em lágrimas a se arrastar pelas areias claras, implorando por um copo de bebida, um pedaço de peixe ou um afago para seu coração.

Chorona desde sempre, Dolores passou a ser a Cana há 11 anos, junto com a conta que abrira em todos os três botecos do vilarejo. Antes disso, trabalhava na vila dos pescadores consertando as redes que prendiam nos recifes ou fazendo artesanato que seria levado para venda na capital, à época ainda pouco desenvolvida no turismo. Seu marido levantava-se antes do sol e partia em uma pequena jangada, que após os dias de tempestade não comportava toda a sua sorte. Ganhara a embarcação aos 14 anos, como presente de seu pai. Se na época representava a liberdade contra o marasmo das areias de fogo, com o tempo passou a ser sua independência das cooperativas e locadoras de barcos que ficavam com grande parte do lucro dos pescadores. Após a desvalorização e o pescado valendo menos que chuveiro elétrico no deserto, o barquinho era suficiente para garantir o sustento sem conforto de sua esposa e filho. “O amor é todo luxo que nós precisa”, dizia afagando a cabeça do filho ainda novo, que não entendia por que eles não poderiam ter um ventilador igual a todas as casas da redondeza, para aliviar o calor de todo dia que chega e rouba a disposição de viver.

Foi na noite anterior aos seus 13 anos que o filho decidiu aproveitar a tempestade que se autoanunciava, para “pescar mais peixes do que tem no mar”, e surpreender a todos com o tamanho da sua ventura ainda tão novo, e que, com a ajuda de Iemanjá, haveria de ser suficiente para comprar um ventilador para a casa e um vestido de missa novo para sua mãe. Saiu ainda noite, com as estrelas encobertas, a lua tímida e os pássaros quietos. O vento agitava os coqueiros e bagunçava ainda mais seu cabelo opaco, mas jogava a água em sua face, molhando seus lábios rachados e revelando a sensação de aventura que bem conhecia de contos dos velhos pescadores.

O dia amanheceu cinza e por todos os cantos via-se gente arrumando os estragos da chuva nas casas e armazéns da região. A pequena igreja ficara totalmente destelhada, e a chuva acabou com os bancos recém adquiridos pelo Padre A., que todos começavam dizer, já contabilizava decepções demais na vida para ter que aguentar mais essa. Os moradores corriam em suas casas na tentativa de salvar uma cadeira aqui, uma muda de roupa lá, e foi por volta do meio-dia que Dolores percebeu um estranho silêncio pela vila, que embora aparentasse um cenário de guerra, estava manco de uma voz aguda de sotaque arrastado, que vinha dia após dia às 11:40 lhe perguntar se teriam pirão para acompanhar no almoço. Olhou pela porta o grupo de meninos que brincava na areia, mas eles não tinham visto seu filho naquela manhã. Saiu com passos cada vez mais apertados perguntando a quem encontrasse pelo caminho, mas a resposta era sempre a mesma. Voltando para casa, já num misto de desesperança e inquietude, resolveu passar pelo cais torcendo para perder a viagem, pois sabia muito bem que se encontrasse o que buscava, todo o resto estaria perdido. Seu coração de mãe desesperada lhe sufocava o peito a cada pulsada, como se tentasse fugir garganta acima e correr em busca do filho na frente do corpo, que lutava para arrastar os anos de má postura e noites na rede, de modo que Dolores teve que parar algumas vezes para respirar e só então continuar aquela maratona de 700 metros entre sua casa e o cais.

Quando chegou ao local, as ondas ora rebatiam com brutalidade, ora voltavam a amaciar as areias com cuidado materno. O cenário também era de caos, e vários barcos estavam aos pedaços. Pescadores se desesperavam pela já certa perda que teriam na temporada, pois ainda que conseguissem reformar as embarcações, não seria feito a tempo de abastecer a cidade durante as abundantes cheias. Mas embora a maioria dos barcos estivesse despedaçado, ainda era possível distinguir cada um deles e fazer a contagem a que Dolores se apressou a fazer, sofrendo um tanto a mais a cada barco que encontrava e não distinguia as letras de seu nome na lateral, sinal daquela singela homenagem que seu marido lhe havia feito. Dois barcos a menos, e não havia recontagem que corrigisse a falta. Além do “Dolores da Saudade”, também faltava o barco do sr. H., um homem de meia idade que surgiu no povoado enquanto caminhava sem rumo. Falava pouco, mas era de bons modos, de forma que foi prontamente acolhido pelos outros pescadores. H. sumiu naquela noite de tempestade com seu barco, e só foi visto novamente 16 anos e alguns meses depois, quando reapareceu na cidade com o mesmo barco que todos lembravam (tirando por uma falha na pintura aqui e outra lá, como se é de se esperar depois de tanto tempo), contando uma história para justificar seu sumiço que poucos acreditaram, mas ninguém se sentiu no direito de questionar.

Nos dias seguintes ao temporal, partes do “Dolores da Saudade” foram aparecendo pelo litoral de Maceió e as notícias chegavam a Dolores como flagelos que descascam a pele e corroem a carne. “E o meu filhinho? Meu menino tava junto? Vocês deram um pirão pra ele? Deve de tá com fome, tadinho do meu menino. Ele tá bem? Cadê ele, ‘cê já vai trazer?” E corria olhar para fora da casa, a verificar se lhe esperava ali, como a fazer uma surpresa daquelas que aumenta a expectativa pra aumentar o sabor, mas ele não estava, e não esteve nos vários meses seguintes, aos quais bastava que alguém passasse perto de sua casa para que Dolores corresse derramada em lágrimas ao abraço fantasma do filho semi-vivo que sumia à primeira vista.

Os amigos, preocupados com a situação da mãe que se recusava a acreditar no destino do filho, providenciaram uma despedida simbólica, com flores e uma muda de roupa do garoto sobre uma jangada que seria entregue a Iemanjá, assim como o menino havia feito com a própria vida. Na noite depois da cerimônia, Dolores saiu correndo pelas areias e por toda parte se ouviam os uivos de sua tristeza, que se arrastou por todo o litoral e em outros estados também foi se conhecendo sua história. A caminhada durou vários meses sem nenhuma notícia para o marido, que se abatera em uma depressão mortal com a certeza de ter também perdido a esposa, e quando ela voltou para casa já não era mais a pessoa a quem amara. Os meses de caminhada pelo litoral a gritar pelo nome do filho sem se alimentar, tomando cachaça para matar a sede do corpo e do coração levaram consigo o olhar de esperança, a pele brilhante e os cabelos negros.

Os anos passaram sem que Cana Chorona percebesse. Morria seus dias andando sem rumo pelas praias, e não raro seu marido era chamado em cidades próximas para buscar a esposa caída, resmungando, babando, espantando os turistas que “estavam lá para curtir o paraíso e não para lembrar que a vida tem dessas”. Estes mesmos turistas que não eram capazes de enxergar além daquela imagem decadente, e nem teriam a obrigação de fazê-lo, alguns dirão. Turistas que, se entre um gole e outro de suas caipirinhas atribuem aquele descontrole à fraqueza humana, ao sistema político, ao desemprego, aos capitalistas, à peguiça, tão logo alguém venha tirá-la dali, voltam à paz de suas férias. E nunca, nestes 11 anos de sua morte lenta, houve sequer um passante que a visse e pudesse imaginar o sofrimento que lhe revirava o estômago como tubarões destraçalhando o pescado no oceano a lhe inabilitar à ação. Em tempo algum houve sequer uma pessoa que pudesse ver aquela imagem e imaginar que um filho, ao morrer, leva junto a vida de sua mãe.

escrito por André Petrini.

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Dórian

por Murilo

Não foi quando papai morreu que eu descobri que ninguém escapa da morte. Foi algumas semanas depois, quando morreu Dórian, meu peixinho imortal.

Ganhei Dórian de meu pai quando tinha quatro anos. “É um peixinho imortal, filha”, disse. O nome foi ele mesmo quem deu. Falou que era nome de um personagem de livro famoso, belo e imortal como o peixinho. De lá para cá, não posso dizer que tive momentos extraordinários com Dórian. Apesar de bonito, inteiro vermelho e com longas barbatanas, não deixava de ser um peixe, que nadava e comia e só. No entanto, posso dizer que ele sempre esteve lá.

Eu entrei para a primeira série, fiz amigas, odiei garotos, cresci, entrei para a quinta série, comecei a gostar de garotos, fiz inimigas, dei meu primeiro beijo, fui ao meu primeiro show, tive meu primeiro namorado, voltei a odiar alguns garotos, fui para a Disney, me formei depois da oitava série, e Dórian ainda estava lá. Quando eu contava às pessoas, elas não acreditavam. Um peixe ornamental daquela espécie vive em média três anos e pode chegar a, no máximo, oito, se bem cuidado. O meu já tinha mais de dez, e eu nem cuidava assim tão bem dele. “Ele deve ser mesmo imortal” eu pensava.

Dois anos depois, papai fez uma cirurgia complicada no coração e não sobreviveu. Por vários dias eu chorei e, depois disso, para que não cessasse meu pranto, foi Dórian que, em um dia frio, apareceu boiando no aquário. Só então minha mãe me contou toda a verdade.

Não havia existido apenas um Dórian, mas vários. Meu pai trocava o peixinho por outro muito parecido cada vez que parecia abatido, ou se simplesmente já tivesse vários meses de vida. Uma vez, ela contou, o peixe morreu de repente e papai saiu na madrugada atrás de outro, para que eu o encontrasse vívido e exuberante pela manhã. Era assim que ele cumpria o que havia dito, era assim que fazia de Dórian imortal.

Nos anos seguintes, não estava lá meu pai, mas estavam alguns homens tentando se passar por ele. Não foram poucos os namorados que minha mãe, bonita como era, trouxe para casa. Marcos, Fabrício, Daniel, eu nem me lembro.

O tempo vagou. Tomei meu primeiro porre, perdi a virgindade, comecei a fumar, passei no vestibular, beijei uma menina na faculdade, comecei a trabalhar, saí de casa, parei de fumar, me formei. E quem estava lá eram os namorados da minha mãe, constantemente substituídos, sempre gentis, querendo me agradar.

Hoje penso que seria melhor se ela tivesse continuado a trocar apenas o peixinho.

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Carne e sangue, osso e sonho

Ela entrou num ônibus rumo à residência de um casal de amigos que moram na zona norte de Curitiba. A viagem partiria do centro e seria mais uma vez rápida e tranquila, não fosse o que foi.

Era uma tarde quente de sábado, e lá ia a jovem para essa reunião na qual fariam, os três, coisas que amigos fazem, como rir de bobagens e entrecortar momentos descontraídos com conversas sobre vida, morte e tudo que acontece entre nosso começo e nosso fim.

Resolveu descer do ônibus três quadras antes de onde normalmente faria, para caminhar um pouco, esticar as pernas e aproveitar o efeito do vento ameno que batia naquele dia de tanto calor. Mas havia um problema na área do gramadão de uma esquina, que antecede, no sentido do trajeto que ela estava percorrendo, três quadras de futebol de areia e pequenas lojas que se sustentam devido à quase autossuficiência comercial que pairava sobre aquela vizinhança, como se um manto de prosperidade tivesse se instaurado ali, a despeito de explicações lógicas e a favor da felicidade de quem residia naquele pedaço mágico do mundo.

Haviam 27 homens de idades variadas empunhando facas na área logo a frente, e eles não estavam poupando ninguém que passava por ali de sua violência, tão imensa quanto as intenções dos que amam ou o desespero de quem não o faz. A cena era bizarra, porque eles não praticavam sequer o esforço de correr atrás de suas vítimas, preferindo, ao invés disso, que elas viessem a eles enquanto sorriam descompromissadamente. O sol se escondeu atrás das nuvens para não presenciar aquele fato tão estranho e, em decorrência disso, o lugar passou a emanar uma energia de medo, ansiedade e principalmente histeria, curiosamente silenciosa. Todo mundo que estava ao lado da moça precisava passar para lá, mas o preço para que isso acontecesse estava bastante claro e não era nada justo. A ameaça era evidente e todo mundo ia ter que sangrar para atingir aquele objetivo. O que sempre pareceu simples havia agora se tornado inalcançável, e uma força estranha impelia ao fracasso todos que ousavam tentar o sucesso naquela empreitada.

Ela congelou. Viu uma senhora de 60 anos ser esfaqueada por entre as costelas do lado esquerdo do corpo e resolveu ligar para os amigos, já que lhe ocorreu que a mera presença deles resolveria a situação. Parecia óbvio que eles saberiam como tirá-la daquela, como já souberam outras vezes em outras circunstâncias, e como haveriam de saber em tantas outras no futuro.

Mas a tremedeira nas mãos a impedia de acertar as teclas do número desejado no telefone. Resolveu desafiar o bom senso e começou a correr para lá, tentando se esquivar dos possíveis algozes como podia, num grande jogo de damas, já que a relação entre o jogo de xadrez e a morte já foi uma analogia melhor explorada em outras situações. Não foi atingida, mas quando chegou à última linha de seus potenciais assassinos, não teve forças para finalmente passar para a área segura que eles escondiam por detrás de olhares hipnóticos e determinados. Voltou ao ponto de partida, ainda muito nervosa. Encarou os homens mais uma vez.

Acordou e se viu flagrando formas ambulantes pelo quarto.

Aquelas paredes já somam mais de 50 anos de idade, e nunca haviam parecido tão ameaçadoras quanto pareceram naquela madrugada. As cortinas azuis escondiam uma noite enorme do lado de fora, e um inegável espírito de desamparo do lado de dentro. Ela voltou a dormir, depois de certo esforço. Jamais compreenderá plenamente o que se passou naqueles momentos eternos dentro do universo paralelo em que os sonhos existem e nos acontecem.

 

Marco Antonio.

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À sombra de Paulo Coelho

escrito por André Petrini.

Felipe era um homem médio. Crescera assim, e a média era seu único meio de viver. “Na medida; nem para mais, nem para menos”, dizia sempre. A verdade é que não sabia ser diferente, e havia sido assim desde quando podia se lembrar. Precisamente, desde o dia 28 de junho de 1982,  quando recebeu seu primeiro boletim escolar, com nota 6 em todas as matérias. Hoje, preso numa idade entre a juventude e a velhice, tem seu 1,70m de altura, 69,4 Kg, faz parte da Classe Média (a antiga, não a nova, como ele bem gosta de ressaltar) e seu time nunca foi além da 5ª posição no Campeonato Brasileiro.  Tudo isso faria de Felipe Silva de Oliveira a pessoa mais desinteressante do mundo, não fosse um detalhe que ele pretende mudar em breve: é o ghostwriter que escreve todos os livros do Paulo Coelho.

Sua insatisfação não vinha das gozações que recebia pontualmente às 9:45 dos colegas, ou fato de trabalhar em uma cadeira já muito velha enquanto seu “patrão” tinha a Cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras. “Faz parte da profissão que eu escolhi”, afirmava para si mesmo. Mas em uma quinta-feira daquelas que se mostram perfeitamente ordinárias até que algo acontece e muda todo o rumo do nosso dia – às vezes até da vida -, enquanto escrevia um novo livro, foi tomado por uma raiva que chicoteou em seu corpo, fazendo-o cair de rosto na velha máquina de escrever.

Ficou ali por alguns instantes, se apoiou na mesa e foi levantando a cabeça lentamente, como a evitar as indesejáveis vertigens que nos acometem em movimentos súbitos. Olhou novamente para a folha ainda presa à máquina, fitando as últimas palavras que escrevera, e a cólera aumentava a cada sílaba que compunha a frase “viu sua esposa partir, achando ser para nunca mais, sem imaginar que a encontraria no ano seguinte, em suas férias pelo Casaquistão”. Arrancou a folha com brutalidade e a amassou o máximo que pode, para depois colocar na boca e engolir aquele trecho de ódio impresso.

“Eu nunca saí de Campinas. Eu nunca tirei férias. Eu nunca tive uma esposa. Eu nunca sequer amei alguém.”. Aqueles pensamentos colocaram a miséria de sua vida diante de si, e decidiu que estava na hora de conquistar tudo que havia dado para o mago. “A começar pelos livros, que são todos meus. MEUS! O único que ele tentou escrever, fracassou exemplarmente. E agora o mundo precisa saber.”, foram os pensamentos que o começaram a projetar a repercussão que isso teria. Já podia ver as manchetes nos jornais ao redor do globo vociferando “Revelado o ghostwriter de maior sucesso da história”,  e nas revistas de fofoca sairiam entrevistas: “Conheça o homem que escreveu os livros de Paulo Coelho”. “E os royalties, imagine os royalties, Felipe!”, exclamou animado.

Se havia uma forma de fazer esta revelação, deveria ser em uma carta aberta à imprensa. Mas desta vez, assinada, contaminada por suas impressões digitais, e marcada com o sangue de seu dedo polegar, se fosse necessário. Não era mais tempo de se esconder. Recolocou o papel na máquina e começou a escrever. Dirigia-se a todos aqueles que liam, haviam lido e pretendiam ler algum dos livros daquele senhor que eles acreditavam ser também um belo escritor. Pedia desculpas primeiro por tê-los enganado, permitindo que depositassem sua admiração e fé em outrem, e ainda, pela baixa qualidade a que submetia seus textos. Agora, livre das amarras do salário, prometia explorar seu potencial criativo para lhes presentear com uma obra de arte libertadora e intelectual, ao contrário da filosofia de Biscoito Chinês a que estavam acostumados.

Continuou escrevendo aos fãs do Coelho, que antes de tudo, eram SEUS fãs,  afirmando que o caráter de auto-ajuda das obras não passava de psicologia barata que ajudava a rentabilizar a indústria literária, porque ele, o próprio autor daquelas palavras, vivia uma  existência sem sentido, à sombra de outra pessoa, e se as palavras pudessem fazer qualquer sentido, haveriam de ter começado por ele.

A carta estava pronta e assinada. Bastava revisar e enviar suas cópias para os principais jornais, que todo o resto seria feito pela própria mídia. Relia o texto, absorto pela sua vitória iminente, tomado pelo sabor de sua vingança, deliciado a cada frase que se aproximava do final. Mas ao terminar, algo estava muito errado. Não podia acreditar naquilo. Esfregava os olhos para ter certeza que não era uma imagem retida, uma miragem ou algo que o valha. Não era. Ali estava, assinado à caneta no final de sua carta de alforria: Paulo Coelho. Como poderia? Tinha certeza de ter assinado seu nome completo.  “’Felipe Silva de Oliveira’, onde está?”. Mas não estava.

Sentou mais uma vez desesperado, amassando também a carta, atordoado pela constatação de que, com o passar dos anos,  havia cedido não só suas palavras, mas também sua personalidade ao velho que tanto desprezava. Tornara-se sua sombra. Desolado, sentado em seu cubículo chorando, rasgou a carta ao meio e comeu uma das metades. Felipe ainda era um homem médio. Crescera assim, e a média era seu único meio de viver.

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Uma de outras coisas que não farão sentido em pouco tempo

Por Marcos Antonios

Série “…derrotas em que ninguém perde nada de valor”, parte dois. A parte um se chama “Cotidiano nº3”, e está aqui.

Tatuagens com motivos japoneses estão na moda nesse bimestre. Gabriel adora tatuagens.

No estúdio. “Que tipo de desenho você quer?” (João, dono do lugar). “Letras japonesas. Quero escrever uma mensagem. Vai ser uma declaração sobre a minha personalidade”. “Legal. Já sabe o que você quer exatamente?”. “Sei. Vai ser “O rio parece parado quando o peixe corre na mesma velocidade da água”. “É bonito”. “É meio filosófico, né?” (um cliente qualquer, ouvindo a conversa dos outros, como toda pessoa sensata). “Meio abstrato” (João novamente). “É! Tipo isso”. “Tá…sei lá. Mas quem faz letras japonesas aqui é o Paulo, que foi almoçar. Espera um pouquinho?”.

Paulo foi almoçar depois do horário previsto, já que João o segurou mais que o necessário durante a manhã sob a alegação de que precisava “falar de umas coisas”. Os assuntos eram menores, e poderiam ser tratados mais tarde sem nenhum prejuízo. Dessa forma, o tatuador se viu no direito de executar um plano de vingança: demorou para voltar ao trabalho, para dar uma lição no chefe. No entanto esta acabou sendo uma lição em que, depois da qual, nem o aluno guardou algum ensinamento importante, e nem o ego do professor saiu tão massageado a ponto de amenizar a sensação de nada que ele sentiu ao aplicá-la. Conflitos em microuniversos.

Paulo chega do almoço. João não dirige a ele sequer um olhar de desaprovação, porque até seu melhor funcionário tem o direito de cometer erros. O que Paulo não notou é que seu plano foi frustrado pela sua própria competência e, não sabendo disso, entrou na loja, tomou um copo de água e concentrou-se no pedido do novo cliente. Riscou um esboço para tornar mais claro o projeto, colocou um preço nele e marcou a sessão para daqui duas semanas. “Uma sessão dá pra fazer ela inteira”. A tatuagem que Gabriel quer não tem em si nada de especial ou interessante esteticamente, mas há de se respeitar algumas das bobagens das pessoas que ajudam a pagar suas contas. Gabriel tem um peixe em mente, e nesse universo fantasioso o peixe corre, preferindo fazer isso a nadar. Não faz sentido. Mas a vida não faz sentido, de qualquer forma. Paulo pensa que o acaso deveria conceder esta licença, a poética, apenas para portadores habilitados.

Atualização:

O tempo tem seus caprichos (poucos compreendem os motivos). São 10h do dia combinado para a realização da tatuagem e Gabriel está pensando em telefonar no estúdio para cancelar o pedido, “ pra poder pensar melhor”. A desculpa parece boa o bastante.

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