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Eis que os novos ventos nos levaram a novos mares. Agora o “blog dos dois copinhos” tem um novo endereço e um novo layout. Mais bonito, mais ousado, mais gostoso de ler e compartilhar. Não viu ainda? Seja sensato, visita lá: www.obscenidadedigital.com

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O curumim que matou a lua

postado por Carolina

Na imensidão da floresta um curumim brincava e pulava e ria à solta como riem as crianças indígenas. Com o arco e a flecha nas mãos, praticava a pontaria acertando possíveis alvos que encontrasse pelo caminho, de pedras a folhas, num sensível treinamento para tornar-se, algum dia, um dos caçadores de confiança na tribo.

Eis que então avista a lua – branca, pura, crua, nua. Tão limpa que lhe ofusca os olhos. É Jaci, rainha da escuridão e mãe de todos os frutos, que ilumina a terra durante as noites e renova os espíritos para a vida no próximo dia. Brilha tanto, e mais que tudo, que comove o curumim. Desesperado por tamanha beleza, agarra-se ao arco em busca dum consolo concreto para encanto sem igual, e cego de amor atira uma flecha rumo ao céu.

A ponta da lança sobe percorrendo uma linha oval acima das árvores, e sobe alta, tão elevada quanto a força luminosa que a lua exerce sobre a terra. Desafiando a gravidade, a flecha sobe mais e mais; ao chegar ao topo, toca a superfície globosa e branca do satélite. O contato entre a ponta afiada da lança e a face lunar ocasiona um enorme estrondo, e logo pedaços brancos escorrem do céu aos pés da criança.

Sem querer, sem intencionar, e em pleno estado de terror, o curumim se dá conta de que sua flecha havia acertado a lua.

Quase sem fôlego pelo assombro, o curumim recolhe os restos da lua que encontra pelo chão e corre até a aldeia, com a terrível sensação de culpa que deve atormentar a alma dos piores assassinos. Sabia que seria responsabilizado pelo crime com a pena mais grave da aldeia, mas isso não lhe preocupava. Ele matara a lua. Com as mãos na flecha, tirou a vida e a luz daquela que era a mais sublime entre as deusas.

Ao chegar à aldeia, o curumim interrompe aos prantos o sono do pajé da tribo. Tão logo cruza com os olhos da criança, o ancião se dá conta de que algo grave aconteceu. Senta-se a seu lado pronto a ouvir a história, e fecha os olhos em reflexão quando escuta a inconsolável verdade: a lua estava despedaçada.

O pajé recorre a seus conhecimentos mais antigos e se dirige ao centro da aldeia, onde posiciona a si e ao curumim ao redor da fogueira. Sobre ela, despeja os restos da lua e a flecha responsável pelo acidente. Entre a fé e a aflição, dançam em torno das chamas, proferindo de olhos cerrados e com toda a esperança que há no mundo um hino mágico indígena, em homenagem à deusa que dá luz à escuridão. A melodia atrai outros habitantes da tribo, que se emocionam com a dança infeliz e juntam-se ao pajé e ao curumim para entoarem, juntos, a canção que faria a lua retornar.

O canto ressoa por toda a floresta, e pouco a pouco a leveza das chamas orienta a fumaça para cima, como se bailassem junto à tribo. Finalmente, quando as labaredas parecem atingir o topo do mundo, o curumim se atreve a olhar. Ergue a cabeça e seu gesto é então repetido por toda a roda; era um milagre. Jaci estava outra vez posicionada em meio ao céu.

A lua voltara, mais brilhante e cheia do que nunca. A canção mágica a salvou. Tudo estava bem outra vez.

A poucos quilômetros da aldeia, um grupo de pesquisadores sai em busca do balão branco e luminoso que deixaram flutuar sobre a floresta por algumas horas. Adentrando a mata, localizam pelo chão os resquícios brancos do material, um arco de madeira e pequenos pingos de luz espalhados no caminho, que jamais descobririam ser as lágrimas de amor de uma criança. Aparentemente, alguém havia acertado com uma flecha o balão de pesquisa.

Ao alto, uma lua cheia sorria, inabalada. Próximo dali, um garoto trocava a noite de sono por contemplar o céu. Na desesperada certeza de ter matado a lua que tanto amava, o curumim não pôde ver que ela nunca deixara de estar ali.

 

*Inspirado numa história em quadrinhos do Papa Capim que li quando criança e da qual jamais me esqueci.

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Até amanhecer, até morrer

 

O motoboy da pizzaria chegou e ficou olhando para as minhas pernas. Foi estranho, porque não costumo dar confiança para vagabundo, mas dele eu gostei. Ele também gostou do meu shortinho, então acho que tudo bem. Marido viajando, solidão, uma pizza média que comprei para jantar hoje e para sobrar para o café de amanhã. Sei lá. E ele foi tão fofo, com aquele papo de “desculpa a demora, mas juro que acabou de sair do forno”, enquanto apontava para a caixa de comida com a cabeça. “Imagina”, respondi, querendo mesmo que ele imaginasse o que quisesse. “É no cartão, né?”, disse ele, tirando a maquininha daquela caixa enorme que eles carregam na moto. “É sim. Pode ser crédito, né?”, “pode”, “tá. Pizza, vinho com esse frio…hmmmmm”. “Pois é. É bom, né?”. “Aham”. Ele parecia fingir desinteresse, mas tudo bem, porque, no fim, quem sou eu? Que fosse. “E você, trabalha até que horas?”, perguntei. “Até uma meia noite e meia…o cartão não passou. Vou tentar de novo. Desculpa”. “Imagina, desculpa eu…passa esse outro aqui, por favor. Dei o cartão errado”. Um ônibus passou na rua, cheio de gente, ou seja, completamente “repleto de homens vazios”, como diria o Vinícius de Moraes sobre os bares. “Arrisquei um “e vai fazer o que depois do trabalho?”, e ouvi um “Vou dormir, cuidar do meu filho. Minha mulher pediu pra eu levar fralda, que pra amanhã de manhã já não vai ter. Bebê é isso, né?”. “Ah, legal, tem que cuidar mesmo…”. “Ééé”. “Tá bom…brigada, tchau”.

 

Parece que todo mundo está sempre ocupado demais quando é para fazer algo que gere alguma emoção. Ninguém me acompanha. Parece até, pensando assim, que o tempo existe mesmo e que ele é sempre muito curto.

 

Marco Antonio Santos

 

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Ilha

por Jadson André, autor convidado

“Mais uma vez eles vão celebrar. Vão dançar a noite toda com suas roupas brancas e taças de champanhe”, diz o pescador para a garota ao lado. Na linha do horizonte há algumas luzes, apenas pontos opacos. Vêm das praias do sul, abarrotadas. Aquela ilha isolada, cortada do continente, é fronteira final do Atlântico. Alto-mar está ali na frente deles.

As nuvens se acumulam em volta da ilha quase deserta. Deságuam no oceano. Incrivelmente formam um círculo ao redor e somente ela não recebe a chuva. É açoitada com o vento que leva os mosquitos noturnos, leva também as cortinas de areia fina, quase virgem.

A ilha está obscurecida pelo manto da noite costeira. Raios iluminam as nuvens que ganham tons metálicos. Flashs que dão ar festivo à noite do casal ermitão. A garota não sabe o que é uma festa de réveillon, nunca deixou a ilha, embora acariciasse a ideia certas vezes. Assistia de longe os fogos quando criança, mas à medida que se aproximava da maioridade, abandonara esse costume de fim de ano. Na ausência de calendário, os dias não eram iguais, mas eram sempre os mesmos.

A casa de madeira fica depois do córrego cor de cobre. Sem luz elétrica, água se puxa pela bomba mecânica, alavancando-a freneticamente. Aparelho tão velho que o gosto de metal enferrujado é intruso na água. Ela não sabe a diferença, nunca provou outra se não aquela. Há dois anos a mãe morrera. Estava sentada na rede quando simplesmente parou de respirar. O pai desapareceu em alto-mar dias antes. Se lembrava da voz, do contorno dos ombros dele, embora não conseguisse formar o rosto em sua mente.

Depois das perdas, estava resignada a solidão. O pescador chegara há dois dias em um barco de fibra, movido por motor a diesel. Era o primeiro a aportar na praia deserta em anos. Contornar a ilha era inútil para os navios e os barcos pequenos não se arriscavam entrar naquela faixa de mar. A turbulência acontecia em volta, a espreita como um leão preso em coleira de aço. A ilha mantinha-se intacta.

De manhã o pescador suicida esticava as redes ao longo de dois quilômetros. Antes do crepúsculo as recolhia com peixes prateados. A garota o recebera apreensiva, mas agora já se aquecia com a presença humana. Ele a olhava sem pretensões. Na noite da virada a convidou para ir à praia. Olhavam as estrelas por uma abertura nas nuvens. O jogo dos raios continuava e a encenação da chuva, em círculos, também.

Ele descrevia como era a passagem do ano no continente. Ela olhava fixamente para a arrebentação. Pupilas acostumadas à escuridão tocavam conscientemente as espumas brancas e a areia rígida, refletida em cobalto. Sonhava todas as noites com o duende Kobold que morava em cavernas da Alemanha, das quais tinha ouvido falar. Atravessaria o oceano em diagonal e viria sufocá-la na cama. Acordou da distração para ouvir outra parte das descrições do pescador. Pensou em interrompê-lo e pedir que a levasse embora dali. Hesitou. Talvez amanhã, talvez o próximo pescador, no próximo ano. Haveria outras chances de deixar a ilha.

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A Índia que descobriu a América

Não estava claro se ela tinha mais medo da água ou das pessoas ao redor, mas era nítido o choque que aquele passeio lhe causava. Ia agarrada ao corrimão, segurando seus vários metros de sari púrpura enrolados ao corpo, mas nem por isso suficientes para lhe aquecer do vento frio que já corta até os pensamentos que não deveriam existir. Se o balançar do barco não fosse assustador o suficiente, ainda estava cercada de ocidentais com suas roupas masculinizadas ou vulgares, expelindo palavras que ela não entendia. Via-as embaçadas à sua frente, como se não entendesse o que diziam por estar sem seus óculos, mas tinha certeza que aquelas palavras tinham algo de obsceno. O ocidente é sempre obsceno.

André Petrini

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Sedução comum (só, sempre só)

por Rafael

a caixinha de madeira envernizada
guardada na segunda gaveta do
criado ao lado direito da cama
contém pilares pra realidade
silenciosamente frágil
e desesperada

dia
após
dia:

alguns comprimidos de Viagra
outros gramas de Cocaína.

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Storytelling Precoce

por Murilo

Eu tinha um amigo, o Felipe, que sofria desta doença rara chamada “Storytelling Precoce”. Desde pequeno, coitado. Certa vez ele foi obrigado a cumprir o velho clichê escolar chamado redação de minhas férias. Não lembro bem, mas foi algo como:

“Nas minhas férias eu fui para a praia, vi um homem ser queimado por águas-vivas e uma mulher tão gorda que não cabia na sombra do guarda-sol.”

A professora disse que aquilo não era uma redação, era só uma frase. Ela ainda não sabia que Felipe era assim, um cara tão sucinto. E esse problema persistiu com o tempo. Quando ele contava piada, por exemplo, era um desastre. Contava piada de português sem se dar ao trabalho de imitar o sotaque do portuga, contava piada do Joãozinho sem imitar a voz aguda do menino, e era comum entregar os finais logo no começo. Com o tempo, teve que se adaptar a sempre contar as mais curtas.

“Soy paraguayo y estoy aquí para matar-te.”
“Para quê?”
“Paraguayo.”

Felipe era engraçado. Ao seu modo, mas engraçado. Acredito que o mais curioso era o fato de sempre ter histórias incríveis, extraordinárias, mas não saber como contá-las. Quando perguntavam sobre suas diversas viagens, por exemplo:

“E aí, como foi sua viagem para a Romênia?”
“Foi massa. Fui preso.”
“Como é que é?”
“É. Tava transando com duas romenas em um local público. Daí me pegaram.”
“Caaara! Mas conta! Como foi isso?”
“Foi assim.”

E o que renderia horas de papo acabava se reduzindo a alguns efêmeros segundos de alegria.

Para se aproximar das garotas ele também tinha dificuldades. Os assuntos acabavam muito rápido. Sorte que um dia encontrou a mulher perfeita para seu caso. Não surda, mas que falava pra cacete, o que dá quase no mesmo. E ele encontrou também um pequeno talento: escrever microcontos.

“Naquela noite, ela reclamou até que o carpaccio estava cru.”

“Overdose de Prozac. E morreram felizes para sempre.”

“Deixei-te flores sem saber que enfeitariam o túmulo do nosso amor.”

Foram tantos. Não me surpreenderia se hoje ele lançasse um livro inteiro.

Felipe era um cara legal. Fui aprendendo a conviver com ele. Com o tempo, acho que ficamos até mais parecidos.

É, foi assim.

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