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A Índia que descobriu a América

Não estava claro se ela tinha mais medo da água ou das pessoas ao redor, mas era nítido o choque que aquele passeio lhe causava. Ia agarrada ao corrimão, segurando seus vários metros de sari púrpura enrolados ao corpo, mas nem por isso suficientes para lhe aquecer do vento frio que já corta até os pensamentos que não deveriam existir. Se o balançar do barco não fosse assustador o suficiente, ainda estava cercada de ocidentais com suas roupas masculinizadas ou vulgares, expelindo palavras que ela não entendia. Via-as embaçadas à sua frente, como se não entendesse o que diziam por estar sem seus óculos, mas tinha certeza que aquelas palavras tinham algo de obsceno. O ocidente é sempre obsceno.

André Petrini

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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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Passo adiante

por Rafael

A vida muda, muda e minha força não se faz valer. Uma nova perspectiva e volto a ser o pequeno indefeso de anos atrás.

Dias, anos, em busca de ser, convicto de que chegaria a algum lugar, e agora obrigado a admitir que sempre estive a caminho de lugar algum. Pilotando uma transformação desnorteada, à deriva em um mar desconhecido.

Ainda que tenha gastado grande parte de minhas forças em negar, alegando uma convicção qualquer, tudo sempre escorreu com o tempo.

Escrevi uma vida inteira sem saber ao certo o porquê. Poucas vezes tive certeza de minhas linhas. Não sei ao certo por que me escondi tanto tempo atrás das letras. Talvez na esperança de que elas sobrevivessem à minha morte. Bobagem.

Nada é imortal, sequer as palavras escritas. Esse nosso-mundo-inteiro um dia será engolido pelo mesmo sol que nos aquece hoje. Todas nossas histórias e construções serão consumidas. Eu, você, nós. Tudo será nada. Sequer lembranças irão restar.

Certo disso, sigo com um coração envenenado pela indiferença. Já esquecido pelo mundo.

A vida segue como eu jamais houvesse existido: os carros continuam a rosnar uns para os outros, as pessoas continuam a se evitar, o sol continua a nascer e as estrelas a gritar, e apenas alguns a perceber.

Poucos têm tempo para ver a vida acontecer.

Talvez a vida tenha sido sempre isso: uma sucessão de eventos maravilhosos e desastrosos que engolem a gente a todo momento. Algumas vezes estamos mais sensíveis e nos deixamos contagiar.

Dificil-
mente
temos
tudo a
tempo.

O que tenho agora é uma visão noturna da minha janela. A mesma perspectiva dos últmos já-não-sei-quantos-anos. Muita coisa mudou, mas a madrugada continua a mesma.

O cheiro de tabaco sempre me visita. Jamais soube quem é o vizinho insone que fuma insistentemente em alguma outra janela de solidão.

Queria eu uma companhia agora. Pra tragar, beijar, apanhar. Uma interação que fosse. Algo ou alguém que reagisse às minhas pulsações. Meus gestos.

Em algum momento esqueci que a vida é a eterna transformação. E que quando nos esforçamos em negar isso, perpetuamos nosso sofrimento.

Sigo aqui, mergulhado em uma solidão que é mar para toda a tristeza que escorre pelos rios da alma, enquanto espero por algo que me convença a desprender do passado.

Afrouxar a corda que se ajusta em meu pescoço a cada certeza de que jamais conhecerei a verdade sobre o que não vivi.

Espero um retorno, uma chegada. Algo que devolva a força. Não uma qualquer, mas aquela que nos mantém em pé. De olhos no céu para perceber as estrelas gritarem, o sol se pôr e, com uma piscadela, deixar combinado que amanhã tem mais.

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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Um todo de mim

por Rafael

Quando a chuva começou a cair naquele sábado a tarde, todos se encolheram sob marquises e toldos para se proteger. Eu saí para me encontrar.

Voltava para casa depois de almoçar naquele buffet por quilo atrás da catedral. Não o caro, mas aquele com preço honesto, comida sem graça e gelatinas sem gosto ou mamão picado descongelado como sobremesa.

O almoço mais uma vez pesava, não por satisfazer, mas por ser quase recusado por um estômago mal tratado. Pouco me importei. Acabei me acostumando a conviver com desconfortos e seguir em frente, como viver fosse isso mesmo. Uma pena.

Por não ter pressa e já não haver mais o que molhar, me permiti prolongar o caminho até a rua dos ipês. Sempre adoramos aquelas flores, lembra? Fazíamos o caminho mais longo para voltar pra casa, pois o tempo nunca é pouco quando estamos plenos.

Passei por lá e tudo parecia parado no tempo. Inclusive eu, que pude sentir sua mão segurando a minha enquanto olhava aquelas árvores que gritavam todo um passado que me engolia.

Olhei para o chão e tudo o que via eram as cores vivas daquelas flores mortas. Bonito.

Um tapete de flores amarelas e roxas, molhadas, para eu passar. Ainda assim, mortas.

Sua mão já não segurava mais a minha.

Passei pelos ipês, assim como o passado deveria ter-se-ido. Vim embora, subi as escadas e um cheiro de fritura aguçou ainda mais minha memória. Por um momento tive certeza de que o cheiro vinha do nosso apartamento. Seria bolinho de chuva.

Sua mão segurou a minha novamente e juntos subimos até o terceiro andar. Porta número 34. Levei a chave à fechadura, girei. Acho até que fechei os olhos enquanto abria a porta. Apertei sua mão, entrei e percebi: o cheiro não vinha dali.

O apartamento permanecia vazio. O cheiro por ali era do abandono que me consome. Da solidão que me afoga desde o dia em que você pegou aquele ônibus para voltar pra casa. Voltar pra mim. Aquele ônibus que nunca chegou. Que ficou naquela ribanceira. Com você. Com um todo de mim que já não encontro mais.

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Todos Querem ser Funcionários Públicos

Fernando não é um profissional. Não tem uma carreira ou colegas com quem reclamar do expediente que se arrasta pelo dia. Tem, sim, um emprego que sustenta mais aos seus patrões do que sua própria família, mas são tempos difíceis para todo mundo.

Como vem fazendo por estes 24 anos, pontualmente chega ao galpão às 7:10 e atravessa o portão estreito até chegar ao local de trabalho. Já na ante-sala, tira cuidadosamente o casaco de pele que herdara do pai e pendura-o sobre a cadeira com o mesmo cuidado desmedido que as mães devolvem suas crias ao ninho. Olha sobre a mesa à procura de recados enquanto esfrega uma mão na outra tentando aquecê-las. Não há nada; sem nomes ou orientações especiais. Serve um pouco de café da garrafa térmica que Lucy enviara, mas ele está mais fraco do que deveria, como acontece todas as segundas-feiras, quando sua esposa, ainda embriagada pelo amor intensivo que recebera durante todo o final de semana, coloca meia colher de pó a menos na garrafa. Mais uma daquelas atitudes bobinhas que tomamos inconscientemente, desejando resultados que nunca acontecerão. Lucy deseja em seu íntimo, sem saber, que Fernando volte para casa logo nos primeiros minutos da manhã, em busca de um café mais forte e encorpado para aguentar todo o stress do dia, e no minuto em que entrasse pela porta encontraria a mulher ainda cheia de amor, a lhe dar mais do que buscava, e ao sair, aí sim estaria preparado para enfrentar aquele dia com um sorriso no rosto. Mas isso nunca acontecera, e embora o ato continue semana a semana, o único efeito é a sonolência matinal de Fernando, que toma a primeira xícara, abre o jornal para olhar as fotos bonitas e exclama para si mesmo “Segunda-feira. Sensação física de quinta”.

Às 7:30 se prepara para começar as atividades do dia. Vai caminhando em direção à porta enquanto estrala os dedos da mão, e em seguida o pescoço. “Humm, este foi dos bons”. Antes de entrar, para em frente ao toca-discos que já está preparado com o Álbum Branco, lado A. Alinha a agulha para a primeira faixa, e sente o arrepio correr pelo seu corpo com o ruído do vinil à espera das primeiras notas. Veste o seu avental branco já marcado com o sangue e suor de seu trabalho, e continua a expectativa para a música, que logo começa. “Isis show times”, pensa tentando citar um filme que assistira há algum tempo com sua esposa. A verdade é que não sabia bem o que significava, mas a frase parecia ter sido pensada para este momento, e fazia com que Fernando se sentisse parte de uma sociedade que só existia em seu imaginário.

Por se tratar de um porão sem janelas, sua sala de trabalho é bastante escura e sem conforto. De um lado, uma mesa com suas ferramentas. Do outro, material de limpeza. Ao centro, a cadeira com seu próximo cliente, já amarrado e com silvertape na boca, que é utilizado também como etiqueta para identificar o nome do sujeito – sempre homem, afinal Fernando tem seus princípios e deixou claro desde o início que não bateria em mulheres. Não conseguiria, argumentou, e esta foi a única condição que impôs. Foi aceito, afinal torturadores não eram fáceis de encontrar antes da internet.

A etiqueta identifica o cliente como James, mas Fernando reconhece aquele rosto. Acabara de vê-lo estampado no jornal sob o nome de Luiz, um deputado que lutava há anos pela educação pública e a valorização dos professores. Parecia ser um bom homem sob uma nobre causa, mas se ali estava, era porque havia feito algo de errado, segundo a conclusão lógica de Fernando. Embora não conhecesse seu empregador, tinha a plena convicção de que aquele era um trabalho honesto e necessário. Estaria ajudando a combater ladrões, corruptos, sindicalistas vendidos, cozinheiros que não lavavam as mãos,  guardas de trânsito, enfermeiras insensíveis, e todo tipo de pessoa que precisasse de uma ajuda pra melhorar as próprias atitudes. Foi até o homem, tirou a fita com força e lhe deu dois tapas na face, uma lembrança de sua infância que trazia como ritual de trabalho. Quando criança, seu pai vinha pelo corredor em direção ao seu quarto com a lanterna fraca e o chamava para acordar. Como invariavelmente continuava com os olhos fechados fingindo ainda dormir, seu pai, um homem justo mas de poucos modos, lhe dava dois tapas na cabeça. “Pra acordar pra vida”, dizia. O terceiro vinha logo após se vestir. “Pra aprender a não começar o dia mentindo”.

Após os tapas de aquecimento, começam os socos que continuariam por várias horas. A mesa ao lado está cheia de facas e ferramentas de corte – todas muito enferrujadas –, mas Fernando usara-as em um único caso, com um cliente que insultou a memória de seu pai. Fora isso, se autointitulava um purista, e por isso usava apenas os próprios punhos. Com o tempo foi aprimorando a própria técnica, e agora dava nome a alguns dos seus golpes, que muitas vezes eram anunciados em voz alta antes de serem proferidos: “Fúria dos Marginalizados!”, e lá vinham 3 socos de direita e 3 de esquerda; “Injeção Letal”, e mais alguns murros em locais estratégicos. Uma singela tentativa de não cair na rotina do emprego, algo que, contraditoriamente, desejava com todas as suas forças.

Como era de se esperar, Lucy não suspeitava da natureza real de sua profissão. Quando, ainda no namoro, lhe perguntou o que fazia, Fernando respondeu de supetão que era funcionário público: um trabalho bastante entediante, mas que ajudava a sociedade. Foi o bastante para Lucy, e principalmente para seus pais, aceitarem o casamento que logo veio. Mas compelido pela facilidade com que sua mulher acreditara naquela mentira quase inocente, passou a desejar o cargo público como seu objetivo único e máximo. Sem êxito até o momento.

Fernando descobriu que a pior surra que poderia dar em alguém, mesmo que merecida, não seria tão dolorosa quanto se Lucy descobrisse a verdade, ainda que lhe contasse quantos bandidos tirou da rua, e realmente acreditou nisso até o exato momento em que viu Luiz sentado à sua frente. Um homem público acima de qualquer suspeita, era pouco provável que de fato merecesse estar ali, e estes pensamentos foram tomando forma em seu dia ao ponto que sentia que a cada soco que lançava, era voltado instantaneamente em sua face. Sem suas certezas, deixava de ser um agente transformador do mundo, um herói ao avesso, e era renegado à mera posição de torturador: uma profissão sem carteira registrada. Não se pode conviver com este tipo de dúvida.

– Como foi o trabalho, querido?, pergunta Lucy ao ver o marido chegar em casa.

– Ahhh – suspira cansado. Uma tortura.

André Petrini.

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Lembranças na janela

por Rafael

A chuva no vidro da janela não me deixa dormir. Me prende, me consome. Parece hipnotizar, como este passado que não me deixa seguir rumo a futuro qualquer. Gosto de olhar as gotas escorrendo, juntando umas com as outras e formando pequenos rios que escorrem em direções imprevisíveis até a borda, seguindo um caminho que já não acompanho mais.

Esqueço que por detrás delas existem dezenas de janelas de outros prédios, onde talvez alguém esteja a admirar suas próprias gotas.

O barulho da chuva sufoca o som provocado por pneus-desesperados sobre a água no asfalto. Sinto inveja de minha vó e suas histórias, com barulhos misteriosos que vinham de dentro da mata. Por aqui, os sons mais exóticos são os de pastilhas gastas a comer os discos de freio de um carro qualquer.

A chuva para e as gotas permanecem na janela. Algumas ainda escorrem, somam-se a outras e traçam um caminho até a base. Algumas permanecem imóveis, evaporando lentamente, refratando o alaranjado das luzes que vêm da rua.

Me aconchego no travesseiro com o leve e pleno sentimento proporcionado pelas gotas que me seduziram e escorregaram pelo vidro, levando um tanto de mim consigo.

Durmo leve por saber que minha alma cresce a cada pouco que se deixa levar com a chuva.

Agora, as gotas que ouço são as das calhas. Reminiscências da noite.

Pouco a pouco o sono vem e me encaminho a um dia que já não tarda a amanhecer.

Logo mais teremos sol.

Provavelmente nenhuma gota irá restar em meu vidro;
janelas e carros voltarão a ditar o som ao meu redor.

Enquanto eu-silenciosamente-desesperado olho para o céu em busca de nuvens que possam despejar suas gotas em minha janela novamente.

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Exercício de observação

por Rafael

De repente, como quem se descobre em um sonho, me via dentro de um aquário. Não. Não era bem isso. Aquários servem para assistirmos ao viver dos outros e não ao de nós mesmos. O lugar onde observamos nossa existência se chama espelho, ou, para os de maior criatividade, consciência.  Ilusões, talvez.

Verdade é que estive ali o tempo todo, perto de mim, prestes a me tocar. Num daqueles sonhos em que não conseguimos nos livrar de nossas limitações. Não me alcancei.

Gritei, e como gritei. Com todas as forças que jamais acreditei possuir, mas não era capaz de me escutar.

Peguei tudo o que tinha ao meu alcance e jogava em direção ao vidro, em direção a mim, em direção alguma. Como não soubesse o que estilhaçar, mutilava um tanto de tudo.

Busquei com todas as forças me entender em meio àquele aquário que jamais foi uma redoma, assim como eu, que jamais havia sido sincero com meu próprio existir.

Podia tocar o vidro, e tocava. Era um cristal fino, como tudo o que limita nossas vidas. Sentia o calor do meu corpo, que se escorava nos limites, sempre pelos cantos, guiado pelos medos-de-sempre.

Medos que só são visíveis aqui de fora, para quem assiste. Lá dentro, blindamos nossos temores com falsas cascas que fingem ser nossos-sólidos-pilares.

Guiado por desejos não vividos eu existia lá dentro. Eram eles quem ditavam minhas escolhas. O mundo lá dentro era limitado pelas inevitáveis estradas que sempre me levariam a destinos certos.

Além delas, campos. Campos indefinidos, que sempre me seduziram.

Aqui fora eu gritava, esbravejava, batia no vidro com todas as minhas forças. Os campos eram o meu caminho e eu sempre soube disso. Aqui e lá.

Por medo, parei.

Acordei.

Parei de bater no vidro, parei de andar pelos campos. O caminho agora me guia e eu me esforço em segui-lo.

Sóis, chuvas, amores, perdões.

Todos levam consigo um pedaço de mim.

Mas eu me recomponho, me reinvento, me sigo, me guio, me observo, me desespero.

Estou vivendo.

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Reminiscências

por Rafael

Vim escrever. Talvez por desencargo de consciência, talvez por necessidade. Talvez eu esteja fugindo do que realmente preciso fazer. Uma noite como uma outra qualquer, onde fiz o que de antemão senti uma certa-não-necessidade. Ainda assim,  executei. Por isso estou aqui: para metabolizar ou me convencer de que mereço dormir.

Pra dizer a verdade, hoje acordei querendo escrever pra você, ou sobre você. Verdade é que nunca sei o que realmente acontece quando você invade o hoje, sem se conformar com um ontem.

Como essas coisas que passam, ficam, voltam, nos desconfortam e nos jogam pra cima sem fornecer um chão para onde voltarmos. Um presente com reminiscências de passado. Como uma torneira mal fechada que eternamente insistirá em pingar.

Hoje enquanto ia trabalhar me deparei com um menino cego na esquina de casa. Passei.

Passei como centenas de histórias passaram ao lado dele, sem sequer repararem um no outro.

Na pressa-que-sempre-me-rege-os-dias passei, afinal de contas, um cego é uma pessoa como outra qualquer, com limitações a serem superadas. Ou tentei. Algo de mim enroscou naqueles olhos brancos.

Ignorei, segui rumo ao meu futuro com uma convicção que não durou meia quadra. Parei.

Como um menino cego estaria se sentindo ali, naquela esquina, com milhões de carros acelerando e freando ao seu redor, pessoas de passagem rumo a destinos quaisquer?

Parado ali, diante do cruzamento, aquele menino parecia tão vulnerável que seria minha obrigação lhe dar um braço a atravessar a rua. Me senti forte, necessário.

Mas ao reunir forças para dar um primeiro passo de retorno, me senti tão vulnerável quanto me sinto agora, com este cheiro de cigarro que entra pela janela do meu quarto. Não sei de qual apartamento vem, mas sei o quanto estou à deriva de meus pensamentos, embebido nestes resquícios de fumaça.

Direciono meus pensamentos e volto a tomar as rédeas do tempo. Como brincamos no Facebook, de nos bloquearmos numa eterna massagem egocêntrica, onde mostramos a nós mesmos quem manda em nossos relacionamentos. Convencidos de que decidimos como as coisas acontecem. Fora dali, frágeis.

Finalmente volto. Primeiro, segundo passo e, como recebesse um aval divino, o menino desanda-a-andar. Corre como quem sabe o que faz. Atravessa a rua e rouba os pilares do meu instante.

Não vi para onde foi, muito menos onde fiquei.

Milhões de carros acelerando e freando ao meu redor, pessoas de passagem rumo a destinos quaisquer. Me encolhi.

Segundos depois, segui meus passos. Os olhos brancos se foram. Ninguém percebeu o quando eu precisava de um braço a me auxiliar.

O dia seguiu, como todos sempre seguem, nós é que paramos. Assim como a fumaça do cigarro, que sequer sombra chega a fazer na penumbra-do-meu-quarto.

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A inadimplência no mundo do ioga

Marcelo apanhou do namorado de uma ex-aluna sua, quando era instrutor de uma auto-escola picareta da zona leste da cidade. O episódio rendeu sua demissão, ainda que ele nem sequer tenha tocado nas belas e sempre expostas coxas da moça, a quem hoje se refere como “vadia mentirosa”, em curiosa coincidência com o trecho de uma letra de rap. O cara que bateu nele alegou “assédio” para justificar a agressão, perpetrada com a ajuda morna, desinteressada e casual de outro fortão qualquer. A auto-escola alegou “constrangimento de aluna” para afastá-lo do cargo. De qualquer forma, ele não guardava nenhum carinho em especial pela função a que se submetia para sobreviver, já que é só isso que se faz quando se está sob o manto de baixas perspectivas, daquelas que não fazem ninguém desafiar o horizonte e que são as mais recorrentes.

Ele agora tinha uma causa a que se dedicar. Mas, antes disso, alguns fatos.

Os três primeiros: ele não ouve rap, não gosta de fortões de qualquer natureza e não constrangeu ninguém.

O quarto, importante e especial o bastante para merecer parágrafo próprio: ele jurou vingança, ou, em outras palavras, jurou que seria guiado por aquela força que determina as ações de quem vive baseado em sentimentos tortos, injustos e quase sempre tão vivos quanto qualquer árvore velha ou luz de estrela. Não que ele tenha pensado através destes últimos termos. Longe dele.

Hoje, trabalha como motorista de ônibus, profissão correlata com a anterior. De certa forma, ninguém consegue ir embora de quem é e de onde veio.

Enquanto terminava alguns telefonemas com duas pessoas que o ajudariam a dar cabo de seu plano violento para cima daquele “playboy filha da puta que não sabe com quem mexeu” e que agora “tá tão fodido que nem consegue imaginar o tamanho do sofrimento que vai ter que aguentar”, assistia ao noticiário local das sete e poucos da noite na tevê aguardando Eduardo, com quem divide apartamento e contas.

Com o parceiro já em casa, começou uma conversa desnecessária que, no final, acabou saindo mais fácil que esconder o nervosismo do momento:

– Teu professor ligou.

– Ah, é? O do ioga?

– E você tem outro?

– …e aê? Quê que ele queria?

– Ele perguntou se você pode pagar ele amanhã.

– Tá.

– Ele não ligou no teu celular porque disse que tava sem crédito.

– Ah, beleza. Já falo com ele. Vou ver se ele tá online daqui a pouco.

– Mas fala mesmo, que ele tava meio puto.

– Tá. Já vejo isso. Só vou tomar banho.

– Tá.

– Cê tem 100 pila pra me emprestar pra amanhã cedo? Eu pego no banco na hora do almoço.

– Pior que num tenho, cara. Tô meio quebradão aí, que tô pra pagar umas parada.

– Ah, beleza. E o cara lá? Cê vai processar mesmo?

– Que cara?

– O cara lá…da mina lá…

– Ah…não sei. Vou ver aí.

– Mas veja mesmo, cara. Foda esse lance aê.

– Pior que é… mas foda-se esse cara e essa mina, e aquela merda de auto-escola. Eu tô é torcendo praquela merda pegar fogo, e praquela idiota morrer e praquele cara ser atropelado…

– Você que sabe. Se fosse comigo, cê tá ligado, né? Uma vez… – e saiu andando até o quarto para buscar roupas para depois do banho. Roupas de dormir, já que o termo pijama nunca seria o mais adequado para descrever como se veste este rapaz, tão peculiar e sempre dando a impressão de que só traja peças ganhadas, de forma que é normal que pareça desconfortável no próprio corpo.

– Se fosse comigo, porra nenhuma – disse Marcelo num sussurro, como se quisesse mesmo que o outro o ouvisse.

A casa ouviu o barulho do chuveiro elétrico por 16 minutos. Ao sair do banho, Eduardo perguntou ao colega, que ainda estava estático no sofá de dois lugares, esparramado:

– Você prefere a iluminação de uma avenida ou a iluminação de um corredor de shopping?

– Sei lá.

– Tava pensando nisso – e foi para a cozinha preparar alguma coisa para comer.

– Acho que de uma avenida, se tiver tudo certinho. Depende de que avenida e de que tipo de luz, também – ao sussurrar novamente, repetiu um comportamento estranho e até suspeito demais para aquela hora.

– E você prefere frio ou calor?

– Que que isso tem a ver com a outra pergunta?

– Sei lá…você gosta mais de blast beats ou de breakdowns? E gosta mais de batata ou de estudar?

Marcelo avisou que estava saindo, e que talvez não voltasse hoje. Se acontecesse qualquer coisa, que Eduardo resolvesse e não ligasse para falar.

A comunicação é difícil, e é uma pena que a telepatia não seja tão comumente praticada.

Descendo as escadas do terceiro andar, onde mora, até o térreo, olhou atentamente para os pés, para conferir se havia amarrado os cadarços dos tênis corretamente, já que precisaria correr daqui a pouco. Conferiu também se estava com o dinheiro que usaria para pagar os colegas de orgia sanguinária em mãos, e se a foto e o endereço da futura vítima estavam no bolso direito da calça, dentro da carteira que se encontrava então pouco acima das chaves de casa e do carro. As chaves o incomodavam um pouco por dentro da calça, devido à fricção causada pelo movimento. Mas este não era um problema inadministrável. Como não são também inadministráveis a maioria dos problemas na vida, que costumam ser carregados incomodamente, sabendo o vivente ou não das possibilidades de solucioná-los, ainda que nunca sem peso e quase nunca sem dor.

Tudo pronto.

Ao menos, tudo que fosse necessário para que a ideia se concretizasse perfeitamente, sem chances de dar errado por algum deslize ou falta de atenção ao longo do trajeto, físico e mental.

Funcionou.

Marco Antonio Santos

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Ao diabo um segundo na Terra

por Murilo

Tac Tic. Voltei no disco do tempo. E tal qual em disco da Xuxa, vi os sinais do tinhoso.

O respeitoso senhor fitar os seios da mãe amamentando no ônibus, desejando estar no lugar do bebê. A moça conferir, de soslaio, o volume do melhor amigo de seu namorado. O irmão mais velho passar a perna no caçula. O caçula dedurar para os pais, aumentando a história toda.  O tio olhar para a sobrinha que já pegou no colo há 15 anos, com vontade de pegá-la novamente. A menina trendsetter espalhar a novidade do falecimento de sua amiga, e ficar secretamente feliz por ter sido uma das primeiras a saber. O pai duvidar das capacidades de sua filha. O psiquiatra zombar, internamente, das lamúrias de seu paciente. O funcionário desejar a morte do chefe. O chefe, no carro, desejar a morte do mendigo na rua. O gordo de dieta não resistir a um bolinho. O padre olhar, incrédulo, para a hóstia em suas mãos. O pastor olhar, crédulo, para o dinheiro nas suas. O garçom cuspir no sanduíche. Boça se vingar ao seu modo. O jovem, nem tão jovem, falsificar sua carteirinha de estudante. A casa de shows cobrar o dobro para compensar o prejuízo com essas carteirinhas. A garota invejar o corpo, a roupa, o trabalho e a vida da outra. O caipira fitar a égua e planejar o barranqueio. O policial descer o sarrafo no manifestante. O manifestante quebrar tudo que pode. O opressor contar uma piada racista. O oprimido gargalhar. A velha funcionária pública jogar paciência enquanto se acaba a paciência na fila de atendimento. O velho funcionário ficar até mais tarde no trabalho para acessar pornografia. O rapaz tirar a aliança antes de entrar na balada. O garoto ignorar o post que fala sobre as crianças da África e curtir um meme qualquer. A garota engajada que postou sobre crianças na África desligar o Macbook e pega sua bolsa Louis Vuitton para ir ao shopping. O chefe defender o talento da estagiária, mesmo que só interessado em sua bunda. E todos os funcionários saberem disso, e todos compreenderem.

Um segundo de podridão humana. Um segundo como outro qualquer.

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Cúmplices

por Rafael

No mesmo instante, sem saberem, H. e M. sorriram juntos, ainda que sem alterarem suas expressões, pois sabiam que agora, apesar de tudo, ainda lhes restava a cumplicidade de ignorarem-se com a mesma intensidade e dores:

Caminhando de peitos abertos, indo de encontro ao infinito por desconhecerem suas intensidades, vão e vêm, um de encontro ao outro, e com o fio de cumplicidade que ainda lhes resta, olham-se nos olhos e desviam seus olhares, ignorando as existências de um e de outro. Seus ombros passam a menos de um metro um do outro. Inconscientemente levam suas mãos esquerdas ao meio e quase se tocam. Dois centímetros e algumas lembranças de distância, passaram. Seguiram seus caminhos, certos de um dia retornarem. E assim seguem rumo ao sempre, pois a realidade, no fundo, é um tanto de nossos desejos, e isso nos satisfaz.

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O melhor lugar do mundo é dentro de uma mulher

Por toda vida escolhi minhas mulheres sabendo que algo tão efêmero quanto a beleza não deveria ser a primeira coisa a ser desejada. Sempre preferi as inteligentes, carinhosas, engraçadas, às lindas. Mas não naquele 19 de dezembro, quando saí de casa pensando que pouco importaria se a dama envelhecesse feia, enrugada e sofrendo a gravidade empurrando-a para o centro da terra, pois muito antes disso meu amor fugaz já teria desaparecido no mar das paixões afogadas, e eu mal poderia me lembrar do rosto ou da cor daqueles olhos que haveriam de se fechar enquanto os lábios me beijassem como se a vida toda dependesse disso. Aquela noite eu teria a mulher mais linda do mundo, e foi assim que conheci Diana.

A noite deveria estar quente, como geralmente é naquela época do ano, mas tínhamos uma chuva fina caindo do lado de fora, o que fazia com que as moças entrassem na festa enxugando suas grossas capas de chuva e corressem para o banheiro conferir se os penteados continuavam inteiros.  Foi seguindo este mesmo roteiro que vi minha Diana entrar pela porta, vestida de sua elegância com passos suaves, caminhando em direção ao lavatório sem olhar para os lados, ou sequer imaginando que meus olhos a seguiam entorpecidos, enquanto eu tentava lembrar se em algum momento já havia encontrado outra menina que iluminasse meu ser daquela forma, e a conclusão foi que não. Nunca encontrara, e nem encontraria depois daquele dia, quando Diana me petrificou de desejo e intenções. Não foi amor, como nunca poderia amar alguém apenas pela sua forma física. Era mais forte do que isso. Era um desejo que crescia fazendo todo o meu corpo latejar. Eu desejava conhecê-la, ouvir sua voz, sentir seu perfume, tocar seus dedos finos de unhas claras, beijar sua pele branca, saber onde estudava, qual seria sua profissão, seu disco preferido, o que achava do comunismo, e até mesmo o nome de sua cachorrinha. Era, no fundo, um instinto de auto-preservação que desejava conseguir amá-la acima de tudo, evitando toda a frustração com outras mulheres que haveriam de passar pela minha vida e seriam reduzidas a imagens imperfeitas de Diana.

Quando enfim consegui levá-la até o centro da sala para envolver seu quadril em minhas mãos e dançar sentindo o seu coração disparado tanto quanto o meu, suas mãos geladas e o perfume que nunca esqueci, sabia que aqueles seriam os últimos lábios que eu desejaria em toda minha vida. Ela tremia enquanto eu beijava seu pescoço lentamente e voltava para sua boca com desejo vibrante, fazendo-a ser tomada por uma expressão sonhadora e adorável.

Quatro dias depois, exaustos de paixão, lutávamos para deixar a quitinete que nos abrigava desde aquela noite, para voltar à vida infeliz e monocromática que nos aguardava do lado de fora. Resistindo ao impulso de arrastá-la para mais várias semanas esparramada sobre a cama, compreendi que os bebês levam 9 meses para nascer porque não há lugar melhor no mundo para se estar, senão dentro de uma mulher, mas Diana não era minha, e nem seria justo que fosse. Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, andando pelas ruas alegrando cada pessoa que a encontrasse e fosse contagiada pela sua presença, e ai que sorte de quem recebesse ao menos um olhar seu. Mas cada uma dessas pessoas iria para suas casas e fantasiaria uma história de amor com a mulher mais linda do mundo. Histórias que durariam dias, semanas, meses ou anos, mas nenhuma delas poderia ser eterna porque Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, para que outra pessoa pudesse encontrá-la e dar um pouco de sentido à sua existência. Não prendam a minha Diana. Ela deve ser livre.

André Petrini.

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Dórian

por Murilo

Não foi quando papai morreu que eu descobri que ninguém escapa da morte. Foi algumas semanas depois, quando morreu Dórian, meu peixinho imortal.

Ganhei Dórian de meu pai quando tinha quatro anos. “É um peixinho imortal, filha”, disse. O nome foi ele mesmo quem deu. Falou que era nome de um personagem de livro famoso, belo e imortal como o peixinho. De lá para cá, não posso dizer que tive momentos extraordinários com Dórian. Apesar de bonito, inteiro vermelho e com longas barbatanas, não deixava de ser um peixe, que nadava e comia e só. No entanto, posso dizer que ele sempre esteve lá.

Eu entrei para a primeira série, fiz amigas, odiei garotos, cresci, entrei para a quinta série, comecei a gostar de garotos, fiz inimigas, dei meu primeiro beijo, fui ao meu primeiro show, tive meu primeiro namorado, voltei a odiar alguns garotos, fui para a Disney, me formei depois da oitava série, e Dórian ainda estava lá. Quando eu contava às pessoas, elas não acreditavam. Um peixe ornamental daquela espécie vive em média três anos e pode chegar a, no máximo, oito, se bem cuidado. O meu já tinha mais de dez, e eu nem cuidava assim tão bem dele. “Ele deve ser mesmo imortal” eu pensava.

Dois anos depois, papai fez uma cirurgia complicada no coração e não sobreviveu. Por vários dias eu chorei e, depois disso, para que não cessasse meu pranto, foi Dórian que, em um dia frio, apareceu boiando no aquário. Só então minha mãe me contou toda a verdade.

Não havia existido apenas um Dórian, mas vários. Meu pai trocava o peixinho por outro muito parecido cada vez que parecia abatido, ou se simplesmente já tivesse vários meses de vida. Uma vez, ela contou, o peixe morreu de repente e papai saiu na madrugada atrás de outro, para que eu o encontrasse vívido e exuberante pela manhã. Era assim que ele cumpria o que havia dito, era assim que fazia de Dórian imortal.

Nos anos seguintes, não estava lá meu pai, mas estavam alguns homens tentando se passar por ele. Não foram poucos os namorados que minha mãe, bonita como era, trouxe para casa. Marcos, Fabrício, Daniel, eu nem me lembro.

O tempo vagou. Tomei meu primeiro porre, perdi a virgindade, comecei a fumar, passei no vestibular, beijei uma menina na faculdade, comecei a trabalhar, saí de casa, parei de fumar, me formei. E quem estava lá eram os namorados da minha mãe, constantemente substituídos, sempre gentis, querendo me agradar.

Hoje penso que seria melhor se ela tivesse continuado a trocar apenas o peixinho.

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Gente de bem não explica tatuagem

Toda festa tem suas peculiaridades.

Nessa, os presentes pegam os telefones dos bolsos e das bolsas para falar com gente que não está lá, para twittar sobre cada tópico discutido em tempo real, para atualizar seus status no facebook ou para usar outras redes sociais. Muita previsibilidade e elaborações banais sobre tudo e nada, como esta anterior, aliás. No salão enorme, mas pequeno demais para tanta gente que, ao menos autodeclaradamente, brilha, admitem inconscientemente que prefeririam outras companhias. Pelo menos neste momento, ou em todos os outros que ocorram dentro dessa noite tão pobre de emoções.

As mulheres e os homens são bonitos, ou estão arrumados, o que costuma ser mais ou menos a mesma coisa nesse tipo de contexto.

Representantes do empresariado local e dos poderes municipal, estadual e federal fazem discursos mais longos que os temas merecem. Mas disso eles não podem ser culpados, porque os discursos são sempre assim. São palavras e palavras e palavras e sorrisos e aplausos protocolares que parecem não ter fim e que conseguem irritar, mesmo que em pequena escala, 298 pessoas que os assistem (dentre um número total de 316 espectadores). Os discursadores no entanto acham que estão fazendo um trabalho agradável, mas disso também não podem ser culpados, já que a autocrítica nunca é a qualidade mais presente ou evidente no comportamento de quem quer que seja.

Definição boba da ideia de guerra contra o ego: é mais comum declarar que deflagrar.

Esta e outras frases feitas de palavras ao vento certamente continuarão vindo, carregando pesadamente conceitos batidos, verdadeiros ou não, mas que continuam a ganhar resistência com o tempo, curtidos em seus próprios usos irrestritos.

Já na porta, uma dupla de tequileiros faz um show pirotécnico para servir uma bebida que é etilicamente próxima do conhaque, do uísque, da vodka e da cachaça, mas que é apresentada como uma porta de entrada a um terreno de diversão descontrolada, passional, intensa. As razões para que isso aconteça são tão obscuras quanto os filmes de cinema e peças de propaganda que inicialmente começaram a difundir a ideia. Eles, os tequileiros, são pagos para emular o México que é visto nos filmes, que por sua vez emula o México da literatura criada por quem não vive no país, que por sua vez tem pouco ou nada a ver com o México de verdade. Não que seja necessário incutir qualquer suposta autenticidade num show assim, visto que a fascinação com o fogo e a atenção que gritos chamam jamais serão temas exclusivamente mexicanos.

Realidade, ou: uma construção de cuja origem ninguém lembra por razões mais óbvias que as culpas e os arrependimentos.

Pastiche torto. Um baile de máscaras sem música ou dança. Natimorto, então.

Muitos andam com um certo ar blasè pelo evento, apesar de estarem bastante interessados em fazer novos amigos, desde que estes sejam influentes em certos círculos da cidade.

Agora, os discursos acabaram, e iniciou-se o aproveitamento dos pratos e bebidas da noite. Esta degustação é o motivo da presença de quase todos, com exceção de um dos membros do poder municipal, que vê na parceria com os empresários que aqui estão uma plataforma eleitoral interessante e proveitosa o bastante para tirar-lhe de casa nessa data, que coincide com o aniversário do filho mais novo dele.

Daquele jeito:

ninguém é perfeito.

Ouve-se ao longe uma moça vociferando contra a configuração da sociedade, e contra a falta de oportunidades e condições iguais para que todas as pessoas possam se desenvolver bem e através dos próprios esforços. Ela acabou de ser filmada para aparecer na coluna social de um programa local de televisão, destes que cobrem este tipo de evento. Ela descobriu hoje que passará a ganhar um salário maior no emprego devido a uma promoção. A hipocrisia dos outros a irrita, só um pouco menos que a evidente falta de alguém qualificado para discutir o tema agora. Dessa forma, e a despeito de já passar da meia noite, liga para uma grande amiga, que vem a ser também sua manicure, toda vez que a agenda de ambas permite. E a agenda de ambas sempre permite, toda quinta-feira às 19h30, com raras exceções, a R$ 15,00 a sessão.

Serviçais servem serviçais que fingem não sê-los. Os serviçais que servem não conseguiriam garantir a estranheza dessa relação por causa da alta quantidade de trabalho para realizar. (A quantidade de atividades forçadas que alguém realiza é sempre inversamente proporcional ao tempo que se tem para refletir sobre a natureza delas, seja quem as pratica quem for). Mas os serviçais que estão sendo servidos sim, sabem que têm a quem se reportar em algum lugar, mas não gostam de pensar nisso. Em alguma instância, nem podem, pelo bem da continuidade de seus projetos pessoais de felicidade.

Um dos destaques positivos da noite é o sabor de um dos pratos. Trata-se de batata frita, mas com um molho de nome estrangeiro que ninguém conhece mas não tem desenvoltura para admitir. Muitos têm uma opinião bastante elaborada sobre a qualidade e o sabor deste molho, comparando-o ao original, (diz-se que) criado e servido num vilarejo na Itália. Lá, inclusive, ele parece ter algo a mais, talvez pela qualidade do terreno e dos tomates que são cultivados na região.

E a volta às obsessões, sempre as mesmas:

a penúltima linha, agitada.

A última linha, serena.

Marco Antonio Santos.

A parte um tem pouco a ver com esta, mas de qualquer forma está aqui: Gente de bem não fala esperanto

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