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A Índia que descobriu a América

Não estava claro se ela tinha mais medo da água ou das pessoas ao redor, mas era nítido o choque que aquele passeio lhe causava. Ia agarrada ao corrimão, segurando seus vários metros de sari púrpura enrolados ao corpo, mas nem por isso suficientes para lhe aquecer do vento frio que já corta até os pensamentos que não deveriam existir. Se o balançar do barco não fosse assustador o suficiente, ainda estava cercada de ocidentais com suas roupas masculinizadas ou vulgares, expelindo palavras que ela não entendia. Via-as embaçadas à sua frente, como se não entendesse o que diziam por estar sem seus óculos, mas tinha certeza que aquelas palavras tinham algo de obsceno. O ocidente é sempre obsceno.

André Petrini

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Noites de nós

Rafael

Andar a essas horas na rua é um quase-não-existir. Próximo à meia-noite, as ruas são um vazio que nos engole.

A uma hora dessas temos medo de encontrar, de dar de cara com alguém, ao dobrar uma esquina. Sensação lamentável a de ter medo de encontrar o outro, se deparar com o desconhecido.

Saudade dos tempos em que o medo que sentíamos era do vazio, do escuro, das coisas que não existem fora da nossa cabeça. Uma simples lâmpada acesa no final do corredor era o suficiente para garantir que as ameaças ficassem aprisionadas no longescuro.

Mas hoje não. São lâmpadas, infinitas delas acesas, iluminando meu caminho até em casa, tingindo de alaranjado todo um universo vazio que me preenche de angústia com a eminência do encontrar.

À noite não confiamos em ninguém. À noite somos todos suspeitos.

Cruzamos com desconhecidos olhando de lado, disfarçando um certo não-se-importar. Cinco passos à frente, uma olhada por cima do ombro para garantir que o estranho, o outro, vai mesmo se desfazer na noite profunda.

É quase engraçado pensar que posso gerar aquele frio na barriga de alguém que dá de cara comigo ao dobrar uma esquina despretensiosa. E pensar que durante o dia passo invisível por dez, cem, milhares de pessoas naquele mesmo dobrar-de-esquina. Sequer me perceberão.

São infinitas histórias que perambulam por aí. Encolhidas à noite, se esforçando ao máximo para não interagir com as demais, também retraídas, que correm escondidas até o conforto de sua solidão-lar, onde pretendem não encontrar ninguém, para mais uma noite apagar todas as luzes e sonhar com o que retraiu dentro de si o dia todo.

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Reino do medo

Filhas, freelas, pilhas, baterias, tomadas, adaptadores. Filas, milhas, cedilhas, centelhas, centeio, seus campos. Um mambo, uma bossa, as apostas, a amostra de produtos grátis. O táxi que não chega. A grande tradição grega. A Grécia, a Suécia, a Polinésia, a anestesia local, geral, do corpo, na alma.

O mal, a corda bamba, um samba torto, o extintor, o computador, a humanidade em geral. Os anos que passam, a raiva que dá origem às revoltas, a revolução que acontece e a grande, que não, a falta de pão, o caixão, o caixote e o prego que prega o corrimão. O skate e o cifrão. Os processos e seu ideário suspeito de otimização. As palavras e todos os campos de definição de termos, as termas, as saunas do centro, todos os que estão lá dentro, os cantos escuros, o chão preservado, a história de cada lugar. E essa calçada, vem de onde e é de quê? E que interesse que há?

A cifra, a tablatura, a partitura, a parte um e a parte dois. As outras que virão depois.

O relógio, o horário, o itinerário, o rito funerário, a viagem de férias, a praia, as estrelas e toda a matéria, o metrô que é só projeto, o teto e o chão. O primo e o irmão. A prisão que não desencadeia reação. Os tempos que morreram, os que morrem a cada momento e os outros, que morrerão (estes, ao relento).

O fugaz, o rei, a rainha, o nove de copas e o ás.

No reino do medo há falta de paz, que nele não passa de uma promessa furada, ou seja, daquelas mais comuns, que rapidamente ficam para trás.

Meu Deus: o Senhor sabe que eles amam a si próprios com intensidade maior que a do amor dos Seus! Os egos inflados, o que não é explicado, a falta de vontade de entender, a tevê, a piada do pavê, o desconforto, quem é absorvido e nunca descobre que está, assim, morto: há falta de paz.

Somos do mesmo que tudo? Areia, sangue, céu, neve, sonho, papel, o entrave, o sempre, o engov?

A busca pela saúde, os grãos da moda, as sempre-mais-longas-que-o-necessário discussões sobre as propriedades benéficas ou não do café, do vinho, do ovo, da margarina, da soja, das proteínas, da cerveja, das vitaminas do momento, os biquínis, as bermudas (ou as sungas?), e os ventos. A compreensão plena, a noite serena, algumas cenas, alguns poemas, as vidas pequenas e os planos banais.

A falta de paz, a falta de paz.

Os discursos corporativos e as paredes que com eles se estreitam. As outras paredes estreitas. Além, é claro, dos caminhos secretos, dos segredos, das nuances da vida, das chances perdidas, dos romances doídos, das perguntas vazias, das respostas vagas, do que é pouco interessante: desde o vídeo da infância até as discussões sobre os ou as amantes. As famílias felizes, os turistas perdidos e tudo o mais.

A falta de paz. A falta de paz.

Marco Antonio Santos

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Como quem já sofreu o bastante na vida

Participação mais que especial da nossa cofundadora Marcela Requião

 

Como quem já sofreu o bastante na vida, chegou.

E sem pedir nada, ganhou muito mais do que jamais teve.

Ao ser convidada a entrar, acanhou-se e chorou. Brincadeiras não fazem parte de seu dia-adia há muito tempo e a risada dos outros lhe causa estranheza, um incômodo que começa a se transformar em conforto.

Este conforto. Uma blusa esquecida, uma cama quentinha, e, agora, um convite para entrar.

Assim como outros em sua presença, não soube como reagir. Mas passou a observar, a aconchegar-se num espaço que não era seu e esperar por aqueles em quem não confiava.

Simples gestos assustadores mudaram de significado.

E diante de briga recua, mas manifesta a inusitada reação de bater o pé como quem diz “odeio quando fazem isso comigo”. E surpresa: hoje ela pode falar.

Não mais fugir. Não mais se submeter por medo. Entendeu que isto nada tem a ver com respeito. Ainda menos com amor.

Fica. Primeiro em corpo e agora em olhar.

Em uma casa ocupada é mais uma. E onde precisavam de calma, trouxe gentileza. Sem saber que este era o recôndito segredo dos que ali habitavam, a transmite com tanta docilidade, que jamais deixará de ali pertencer.

A Dora (nada) Aventureira passou a ser aDorada. Minha Dora dourada.

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Amor

Medo e fascínio. Tal qual o ódio, que é, no entanto, algo completamente diferente.

Marco Antonio

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