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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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Gelatina de morango e leite condensado

Férias em Bombas, Santa Catarina. Estava bom, mas agora não mais.

Mais que sol, só tomei cachaça nesse verão.

Não, pera. Elas não tão ligando o carro. Elas tão indo? E…las…tão……………………in…dem…bo…ra. E eu aqui sozinha olhando pra dois dos meus agora ex-dentes no chão. E eu ainda fui olhar preço de passagenzinha de ônibus pra elas virem pra esse inferno. Tomara que a polícia pare essa porra desse carro roubado daqui um minuto, ali perto daquele negócio em cima, sei lá o que é aquilo. Comércio, enfim. Ou elas podiam bater essa desgraça e morrer, também. Tinham que tomar tiro na cara, as duas, e aí sim bater e explodir. Deve ser difícil ver carro explodir. Carro não explode. Deve ser por isso que explode em filme de ação, porque é mentira. Mas aqui num tem Van Damme, num tem Dragão Branco, Entrevista com o Vampiro, Missão Impossível, Duro de Matar, Transformer, Crepúsculo, Dois Coelhos, Tropa de Elite, jogo voraz, Cidade de Deus, Harry Potter e a Casa do Caralho, nem porra nenhuma.

Acabou. Dentista é caro. Pior que caro: dói com anestesia, sem anestesia, sei lá o que eles usam na injeção. Deviam colocar mais daquele negócio que deixa a boca toda morta em toda anestesia. Micrograma, miligrama, grama, sei lá. Tinha que ter daquilo em quilo, litro. Dentista faz doer. Incomoda, morder a língua e tudo por dentro, e sangra, sangra. Algodão, cospe, água, jato de ar, barulho sinistro. Tô sem dinheiro nem pra voltar pra casa, quanto mais pra dentista. Piada de dentista é meio sem graça. Dentista é meio sem graça. Dentista é dentista, tanto faz. Deve até ter dentista engraçado, mas eles não precisam, porque dentista não é palhaço do Beto Carrero. Nem aí. Não ia voltar pra casa mesmo, nem pagar pra ir no dentista, nem nada. Nem sei que horas tem ônibus, nem quero saber.

Cadê minha filha? Isso eu queria saber.

Era mais legal olhar pros meus dentes fora da boca quando eu tinha cinco ou seis anos e eles caíam, um a um, empurrados pelos novos nascendo. Enrolar um dente de leite mole com fio dental e mexer de leve pros lados, puxar devagar, até a hora que ficar bom de arrancar. Isso é bom. Era bom. Era vida. Era morrer um pouco. Agora não tem nada bom. Tá tudo errado. Cheiro e gosto de sangue na boca cheia de saliva, pinga com limão e dor. Minha cara deve tá ficando preta do tanto de soco que levei do segurança. Um cara desse tamanho batendo em mulher. Num tem mãe não, oh?! Minha boca tá sangrando. Vou vomit…

Respira. Respira. Inaaaaaaaaala. Exaaaaaaaaaaala.

Inara, Inara, Inara, Inaraí…

Tem gente que rouba coisa pior que gelatina e leite condensado e fica solta. Acabou. Não vou fazer minha batida tradicional hoje, e eu juro que queria beber um pouco daquilo. Sem veneninho pra mim. Queria tomar um banho gelado. Não fico presa muito tempo não, pelo menos. Será que os funcionários desse mercado tomam banho na loja? Acho que esse segurança devia perguntar lá dentro, que ele tá fedendo mais que eu. Ó a sirene chegando. Vou apanhar mais um pouco e esperar a polícia sem bagunçar mais nada. Não consigo fugir.

Não tenho força pra lutar com esse Monstro.

Nem queria ter.

Não vou resistir, nunca mais. Pra nada.

Marco Antonio Santos

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Cartas de Camila | Bianca

Deisy Soares!

Camila tinha apenas 7 anos de idade quando sua mãe resolveu ir embora para a capital em busca de uma vida melhor para sua filha. A mãe de Camila, Dona Joana, sonhava em abrir um Café do outro lado da rua de sua casa. Imaginava o dia em que estaria preparando seus sonhos – ela adorava fazer sonhos de nata – enquanto sua filha a observava cuidadosamente, do balanço de madeira instalado no jardim.

Dona Joana foi, mas nunca mais voltou. Camila foi criada por sua avó materna, não chegou a conhecer seu pai, e estava sempre rodeada por tias. Camila vivia uma vida tranquila, mas sem uma mãe ou sonhos de nata.

Camila se sentia sozinha. Sua avó, já muito doente, não era a companhia mais estimulante. Suas tias fofoqueiras passavam o dia entre opiniões e julgamentos alheios. No meio de tantas pessoas e tantas lamúrias, ela não tinha ninguém que a escutasse. Assim então, Camila costumava ficar em seu quarto, escrevendo suas cartas. As cartas davam vozes aos seus sentimentos e aliviavam as dores do seu coração.

O seu tempo era dedicado aos outros, Camila não tinha vaidade, não sabia o que era cuidar de si. Tinha dores no peito, tinha um coração grande demais, tão grande que um dia ele parou de bater.

Dois anos se passaram desde a morte prematura da menina Camila, e os seus familiares ainda não conseguiam olhar para aquelas paredes do seu antigo quarto sem cair em desespero. Isso deixava tia Clarice incomodada e agitada. Foi então que em um dia morno de domingo ela resolveu fazer uma faxina naquele quarto.

Enquanto varria embaixo da cama e cantava uma melodia animada, Tia Clarice encontrou um pequeno baú, sem hesitar, abriu sem cuidado, encontrando cinco envelopes amassados. Ficou curiosa, pegou os envelopes, escolheu um aleatoriamente. Abriu.

Era uma carta de Camila para sua amiga mais próxima, Bianca.
Bianca era uma menina que tentava ser uma boa amiga, mas na maioria do  tempo esquecia de ao menos perguntar se Camila havia tido um bom dia.

“Oi Bianca,

Estava pensando nos últimos tempos, mastigando o quanto nós nos afastamos uma da outra, e sentindo uma nostalgia dolorida.

Sabe, lembro-me dos seus olhos perdidos e sinceros. Quando te encontrei, apavorada pelos corredores da escola. Você não sabia muito sobre o mundo e suas dores, era uma menina docemente ingênua.

Me apaixonei pela sua vontade em dedicar-se a ajudar outras pessoas, me impressionei com o nossa afinidade na busca pela melhor forma de ser indiferente às coisas negativas da vida. Não existia egoísmo, não existia orgulho, só existia garra. Éramos unidas.

Não sei o que aconteceu, ou em que momento eu te perdi, nem por que nós nos afastamos, mas sinto que se eu soubesse toda a decepção que ia acompanhar a nossa amizade, realmente não sei se eu teria te ajudado e feito tudo de novo.

Te amei, te amparei, até te ajudei a achar o seu caminho. Já fui como mãe, peguei na sua mão, te ensinei a dar um passo de cada vez, te ensinei a andar. Talvez seja simples perdoar pessoas “pequenas”, mas não sei se é possível perdoar alguém que já foi tão grande em minha vida.

Como Judas, a sua traição foi silenciosa, o punhal era afiado, matador, veio em golpes rápidos, acertando direto a minha jugular. Senti um gosto amargo, gosto de sangue que escorre no canto da boca e explode enquanto o coração pulsa rumo a um enfarto agudo. A morte do amor que estava ali. Um tipo de decepção, que deixa a cabeça tonta e sem rumo, arrancando o chão que estava sempre ali, firme, forte, intocável.

Eu já disse coisas desagradáveis sobre as suas atitudes, mas nunca te desejei nenhum mal. Infelizmente, pelas minhas costas, você plantou coisas ruins sobre mim para outras pessoas e não se importou com as minhas necessidades, querendo a minha desgraça, desejando para mim, coisas que eu jamais desejaria para você.

Será que fui eu que errei e não vi? Será que fui eu quem magoou e não notei? Será que fomos nós que nos esquecemos de o que é uma boa amizade?

Pensando em tudo isso chego a me sentir com o peito apertado, culpado, sem saber o que dizer. Será que fui eu ou será que foi você? No meio do caminho talvez fossemos nós que nos silenciamos diante de um momento de orgulho bobo, sem tentar parar para resolver isso de uma forma sensata. Demos brechas e ouvidos para as nossas inseguranças, deixando mesquinharias roerem o nosso laço.

Só espero que nossas dores passem, e passem logo. Que elas cicatrizem e se tornem marcas bonitas como as dos heróis de guerra. Pois se for para lutar, é melhor que o rumo seja a vitória.

Com saudades da minha querida Bianca.

Camila”

Tia Clarice fechou os olhos, sofrendo com a saudade e vontade de abraçar sua pequena sobrinha. Ninguém sabia dos sentimentos de Camila, ninguém nunca lembrou de perguntar sobre sua vida, ou sobre os seus dias.

Camila nunca disse para Bianca o que sentia, mas sorria, nas poucas vezes em que as duas se encontravam.

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Dórian

por Murilo

Não foi quando papai morreu que eu descobri que ninguém escapa da morte. Foi algumas semanas depois, quando morreu Dórian, meu peixinho imortal.

Ganhei Dórian de meu pai quando tinha quatro anos. “É um peixinho imortal, filha”, disse. O nome foi ele mesmo quem deu. Falou que era nome de um personagem de livro famoso, belo e imortal como o peixinho. De lá para cá, não posso dizer que tive momentos extraordinários com Dórian. Apesar de bonito, inteiro vermelho e com longas barbatanas, não deixava de ser um peixe, que nadava e comia e só. No entanto, posso dizer que ele sempre esteve lá.

Eu entrei para a primeira série, fiz amigas, odiei garotos, cresci, entrei para a quinta série, comecei a gostar de garotos, fiz inimigas, dei meu primeiro beijo, fui ao meu primeiro show, tive meu primeiro namorado, voltei a odiar alguns garotos, fui para a Disney, me formei depois da oitava série, e Dórian ainda estava lá. Quando eu contava às pessoas, elas não acreditavam. Um peixe ornamental daquela espécie vive em média três anos e pode chegar a, no máximo, oito, se bem cuidado. O meu já tinha mais de dez, e eu nem cuidava assim tão bem dele. “Ele deve ser mesmo imortal” eu pensava.

Dois anos depois, papai fez uma cirurgia complicada no coração e não sobreviveu. Por vários dias eu chorei e, depois disso, para que não cessasse meu pranto, foi Dórian que, em um dia frio, apareceu boiando no aquário. Só então minha mãe me contou toda a verdade.

Não havia existido apenas um Dórian, mas vários. Meu pai trocava o peixinho por outro muito parecido cada vez que parecia abatido, ou se simplesmente já tivesse vários meses de vida. Uma vez, ela contou, o peixe morreu de repente e papai saiu na madrugada atrás de outro, para que eu o encontrasse vívido e exuberante pela manhã. Era assim que ele cumpria o que havia dito, era assim que fazia de Dórian imortal.

Nos anos seguintes, não estava lá meu pai, mas estavam alguns homens tentando se passar por ele. Não foram poucos os namorados que minha mãe, bonita como era, trouxe para casa. Marcos, Fabrício, Daniel, eu nem me lembro.

O tempo vagou. Tomei meu primeiro porre, perdi a virgindade, comecei a fumar, passei no vestibular, beijei uma menina na faculdade, comecei a trabalhar, saí de casa, parei de fumar, me formei. E quem estava lá eram os namorados da minha mãe, constantemente substituídos, sempre gentis, querendo me agradar.

Hoje penso que seria melhor se ela tivesse continuado a trocar apenas o peixinho.

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Gente de bem não explica tatuagem

Toda festa tem suas peculiaridades.

Nessa, os presentes pegam os telefones dos bolsos e das bolsas para falar com gente que não está lá, para twittar sobre cada tópico discutido em tempo real, para atualizar seus status no facebook ou para usar outras redes sociais. Muita previsibilidade e elaborações banais sobre tudo e nada, como esta anterior, aliás. No salão enorme, mas pequeno demais para tanta gente que, ao menos autodeclaradamente, brilha, admitem inconscientemente que prefeririam outras companhias. Pelo menos neste momento, ou em todos os outros que ocorram dentro dessa noite tão pobre de emoções.

As mulheres e os homens são bonitos, ou estão arrumados, o que costuma ser mais ou menos a mesma coisa nesse tipo de contexto.

Representantes do empresariado local e dos poderes municipal, estadual e federal fazem discursos mais longos que os temas merecem. Mas disso eles não podem ser culpados, porque os discursos são sempre assim. São palavras e palavras e palavras e sorrisos e aplausos protocolares que parecem não ter fim e que conseguem irritar, mesmo que em pequena escala, 298 pessoas que os assistem (dentre um número total de 316 espectadores). Os discursadores no entanto acham que estão fazendo um trabalho agradável, mas disso também não podem ser culpados, já que a autocrítica nunca é a qualidade mais presente ou evidente no comportamento de quem quer que seja.

Definição boba da ideia de guerra contra o ego: é mais comum declarar que deflagrar.

Esta e outras frases feitas de palavras ao vento certamente continuarão vindo, carregando pesadamente conceitos batidos, verdadeiros ou não, mas que continuam a ganhar resistência com o tempo, curtidos em seus próprios usos irrestritos.

Já na porta, uma dupla de tequileiros faz um show pirotécnico para servir uma bebida que é etilicamente próxima do conhaque, do uísque, da vodka e da cachaça, mas que é apresentada como uma porta de entrada a um terreno de diversão descontrolada, passional, intensa. As razões para que isso aconteça são tão obscuras quanto os filmes de cinema e peças de propaganda que inicialmente começaram a difundir a ideia. Eles, os tequileiros, são pagos para emular o México que é visto nos filmes, que por sua vez emula o México da literatura criada por quem não vive no país, que por sua vez tem pouco ou nada a ver com o México de verdade. Não que seja necessário incutir qualquer suposta autenticidade num show assim, visto que a fascinação com o fogo e a atenção que gritos chamam jamais serão temas exclusivamente mexicanos.

Realidade, ou: uma construção de cuja origem ninguém lembra por razões mais óbvias que as culpas e os arrependimentos.

Pastiche torto. Um baile de máscaras sem música ou dança. Natimorto, então.

Muitos andam com um certo ar blasè pelo evento, apesar de estarem bastante interessados em fazer novos amigos, desde que estes sejam influentes em certos círculos da cidade.

Agora, os discursos acabaram, e iniciou-se o aproveitamento dos pratos e bebidas da noite. Esta degustação é o motivo da presença de quase todos, com exceção de um dos membros do poder municipal, que vê na parceria com os empresários que aqui estão uma plataforma eleitoral interessante e proveitosa o bastante para tirar-lhe de casa nessa data, que coincide com o aniversário do filho mais novo dele.

Daquele jeito:

ninguém é perfeito.

Ouve-se ao longe uma moça vociferando contra a configuração da sociedade, e contra a falta de oportunidades e condições iguais para que todas as pessoas possam se desenvolver bem e através dos próprios esforços. Ela acabou de ser filmada para aparecer na coluna social de um programa local de televisão, destes que cobrem este tipo de evento. Ela descobriu hoje que passará a ganhar um salário maior no emprego devido a uma promoção. A hipocrisia dos outros a irrita, só um pouco menos que a evidente falta de alguém qualificado para discutir o tema agora. Dessa forma, e a despeito de já passar da meia noite, liga para uma grande amiga, que vem a ser também sua manicure, toda vez que a agenda de ambas permite. E a agenda de ambas sempre permite, toda quinta-feira às 19h30, com raras exceções, a R$ 15,00 a sessão.

Serviçais servem serviçais que fingem não sê-los. Os serviçais que servem não conseguiriam garantir a estranheza dessa relação por causa da alta quantidade de trabalho para realizar. (A quantidade de atividades forçadas que alguém realiza é sempre inversamente proporcional ao tempo que se tem para refletir sobre a natureza delas, seja quem as pratica quem for). Mas os serviçais que estão sendo servidos sim, sabem que têm a quem se reportar em algum lugar, mas não gostam de pensar nisso. Em alguma instância, nem podem, pelo bem da continuidade de seus projetos pessoais de felicidade.

Um dos destaques positivos da noite é o sabor de um dos pratos. Trata-se de batata frita, mas com um molho de nome estrangeiro que ninguém conhece mas não tem desenvoltura para admitir. Muitos têm uma opinião bastante elaborada sobre a qualidade e o sabor deste molho, comparando-o ao original, (diz-se que) criado e servido num vilarejo na Itália. Lá, inclusive, ele parece ter algo a mais, talvez pela qualidade do terreno e dos tomates que são cultivados na região.

E a volta às obsessões, sempre as mesmas:

a penúltima linha, agitada.

A última linha, serena.

Marco Antonio Santos.

A parte um tem pouco a ver com esta, mas de qualquer forma está aqui: Gente de bem não fala esperanto

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Gente de bem não fala esperanto

Somos o fim da festa e, mais cedo, a alma dela. Somos a garça, o tigre, a serpente e as estrelas. A angústia infindável, o castelo de areia que desaba, a bolsa esquecida na cadeira do bar e a mochila no canto da balada. Somos a caminhada para dentro de um livro / dentro da noite veloz; o posto de gasolina que serve para abastecer veículos de bêbados e as contas bancárias dos frentistas que ganham o benefício do adicional noturno, ainda que este, somado ao salário de sempre, não supra todas as necessidades deles e de suas famílias. Somos a região metropolitana da cidade que nada fala, mas que se falasse pretender-se-ia grande.

Somos donos de cães e cães sem dono. Os jogos pobres de palavras. Até as palavras, sempre pobres. As repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições. E o que mais?

Os buracos negros. A terra e a tristeza e os sorrisos e as lágrimas negras (que) caem / saem / doem. Nós somos a rua e seus elos, as esquinas. Nos melhores dias somos o amanhecer. Nos piores, a noite em si, e em ré, fá, e notas de cítaras e harpas sem cordas. Somos as versões techno dos hits radiofônicos do momento, que serão tocados por 98% dos DJ’s na próxima temporada de formaturas, entre “YMCA” do Village People, “We Are The Champions” do Queen, “I’ve Got a Feeling” do Black Eyed Peas e outras canções menos emblemáticas. Somos as meninas dramatizando a letra de “Like a Virgin” da Madonna em algum momento de alguma dessas festas, na altura em que as garrafas de bebidas estão pela metade em quase todas as mesas do salão. Somos os meninos vomitando no banheiro ou fora dele porque beberam demais.

O bumbo, a caixa e qualquer som que eles produzam juntos.

Somos os três seriados de televisão em voga no momento, e todas as relações sociais que eles geram ou alimentam. Os interesses. A conta de água e o aluguel atrasado, o amigo que dorme bem no quarto ao lado, a dupla que anda pelas ruas falando de desembargadores num tom de voz presunçoso e engraçado. Os minutos gastos esperando atendimento da companhia telefônica, ao telefone, aliás. A lâmpada que economiza energia. O refrigerante que é sinônimo de alegria, quando não de felicidade. A felicidade (que não existe). O dedo médio (sempre em riste).

Somos o conhecimento ocidental – que não passa de uma rua sem saída – e o conhecimento oriental – ou: uma viela mal iluminada. Os conceitos vazios que não precedem explicações. A aula-show do cursinho pré-vestibular de algum endinheirado que acredita em perspectivas, e o mochilão pelo exterior que, tomara, alivie-o daquele tipo de culpa que só gente rica sente e jamais admite. Somos os atos dessas pessoas, sobretudo quando elas não conseguem expressar em palavras o porque de fazer o que fazem, seja lá o que for.

Nós somos os ricos e os pobres. Os diretores do banco e os ladrões que estouram o caixa eletrônico e são flagrados de máscara e jaquetas pesadas pela câmera de segurança. Uma dessas jaquetas em alguma lata de lixo cinco minutos depois do registro dessas imagens. A mãe de um dos ladrões perguntando onde está a jaqueta que ela deu de presente para ele.

A saudade e a consciência, que apenas tenta impedir os desavisados de sentir saudade de quem não merece, ou merece, ou… (somos até este julgamento).

A raiva que passa e a raiva que fica. A indiferença, o desprezo, a pachorra, o pastiche.

A derrapada da moto, o capacete do motoboy, a pizza cuja entrega atrasou, o cuspe do pizzaiolo. A fanfarra, o som, o chapéu panamá da turista, a guitarra nova, o mal estar na cultura e fora dela, os hotéis, motéis, quartéis, generais, viscondes, brigadeiros, beijinhos, marechais e decibeis.

A memória. A ultradocumentação das banalidades e a satisfação dos egos dos que praticam esta atitude em nome da exposição da própria (sic) subjetividade.

Os sentidos que guiam pessoas para o caminho das ilusões. A respiração de alguém a quem se queira bem, vivida durante um abraço demorado. Alguém que você ama e alguém que esta pessoa ama mais que a você, que não merece amor. Somos tudo o que amamos e deixamos para trás.

Tanto faz. E muito mais. O brilho do sol. O fundo do mar. O horizonte misterioso. O pote de ouro no fim do arco-íris. O fim do mundo. O homem bem sucedido. A mulher forte. Todos os jovens cheios de planos e potencialidades. As pessoas andando no shopping. As vidas tristes. O silêncio do suicida. A calada da noite. As horas gastas olhando para o teto. Isso tudo mais todas as outras imagens comuns, sempre evitáveis mas raramente evitadas.

Os discursos empolados.

A penúltima linha, cansada.

A última linha, resoluta.

Marco Antonio Santos

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Fraturas

por Murilo

Desculpe-me, Cidinha, por quebrar a sua bacia. Eu espero sinceramente que a senhora se recupere logo da fratura, mas por enquanto tudo que posso fazer é pedir perdão. Talvez você, aí com o quadril todo engessado, acredite que foi um acidente (como aquela vez em que a Paulinha quebrou o braço). Afinal, escorregões acontecem, não é mesmo? Mas a verdade é que o chão da área de serviço estava muito liso naquele dia, mais do que o normal, e foi por isso que você caiu. E sabe, dona Cidinha, o chão não estaria tão liso se não fosse pelo lubrificante WD-40 que eu passei ali na noite anterior.

Calma, Cidinha, não foi nada premeditado, sabe. Com tantos anos de seu bom serviço, por que eu haveria de tramar tal armadilha para a senhora? Não, tudo não passou de um infortúnio, as coisas foram acontecendo. Mas você deve estar se perguntando por que diabos alguém passaria WD-40 no chão. Bem, dona Cidinha, a culpa não foi minha, e sim de uma barata. Isso mesmo, uma maldita barata que apareceu ali na lavanderia naquela noite.

O bicho me provocou, zanzando entre os armários e eletrodomésticos, furtivo em cada quina (e isso me lembra de como foi engraçada aquela vez que eu estava com a Paulinha e ela viu uma barata, mas essa é outra historia). Enfim, para matar o inseto, ocorreu-me pegar o inseticida mais próximo. Sem titubear eu peguei a lata e jorrei o aerossol por tudo. Só quando vi que a barata não morria, é que percebi que o spray não era inseticida coisa nenhuma, mas sim o fatídico lubrificante. Perdão, Cidinha, eu realmente me confundi.

Fosse eu um personagem da Clarice Lispector (que, aliás, a Paulinha tanto gostava), escreveria um livro inteiro sobre minhas introspecções ao matar a barata. Mas não. Eu sou bem menos interessante. A minha única epifania foi perceber que lambuzar o chão com lubrificante foi uma péssima ideia, e a única coisa que consegui escrever foi essa carta de retratação.

A senhora também deve estar se perguntando que tipo de idiota confunde uma lata de inseticida com uma de WD-40. Bem, acontece que eu estava bêbado. Isso mesmo, completamente embriagado. No estado em que eu cheguei em casa, Cidinha, eu não conseguiria diferenciar uma laranja de um limão, não conseguiria diferenciar uma privada de um bidê, e provavelmente já havia demorado vários minutos para conseguir diferenciar a chave do portão da chave da porta (sem falar das chaves do apê da Paulinha, que ainda guardo não sei por que). Enfim, fosse um desodorante ou um laquê de vovozinha, eu teria feito o mesmo, mas infelizmente a primeira lata que encontrei foi de um lubrificante. Bêbado é mesmo uma desgraça. No fim das contas, não matei a barata, mas quase matei a senhora no dia seguinte.

Como eu disse, dona Cidinha, as coisas foram acontecendo. Não é muito usual que eu chegue em casa tão regado de cachaça, sabe, mas é que aquele dia havia sido difícil para mim. Eu tive que beber muito para, como se diz, afogar as mágoas. A realidade às vezes é dura demais, mais dura que o piso da área de serviço.

Acontece que naquele dia eu havia encontrado a Paulinha, lembra dela? Eu ficaria muito feliz em revê-la e toda essa confusão teria sido evitada, se não fosse a maneira que a vi. Ela estava nos braços de outro cara, Cidinha. Disse que era seu mais novo namorado, e já lhe chamava demeu amor”.

Cidinha, desculpe-me por quebrar a sua bacia. Mas, cá entre nós, isso tem conserto e logo a senhora se recupera. Sabe, difícil mesmo vai ser consertar essa outra coisa quebrada aqui dentro de mim.

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Oh, o seu time campeão, sua escola na avenida

Foi bom que ela tenha morrido no começo do mês, porque aí pudemos depositar algum dinheiro numa conta de banco de um dos membros da família dela, o que pode não ter gerado conforto nenhum, mas claro que ajudou. Veja, querida, você sabe disso melhor que eu mas não custa repetir: toda ajuda nessa hora é válida, ainda que ela seja exclusivamente financeira.

O dinheiro não foi muito. Coisa em torno de R$ 300. Não pude me dar o luxo de fugir do meu orçamento mensal dessa vez (a viagem de férias e a classe média: tema pra uma outra hora menos triste), e é por isso, suponho, que fogões e geladeiras são feitos para durar pelo menos mais de um mês, assim como carros e televisões. E já que falo de suposições digo mais. Acredito que esses produtos poderiam durar mais tempo, talvez vidas inteiras, mas isso é especulação somada à uma vontade boba e pessoal. A propósito, um dos meus casais de avós gostava de falar sobre a “eternidade” do amor deles, como se existisse mesmo sentimento que resista a tudo, sem guardar relação qualquer com as conveniências da vida, ou sem que esteja influenciado pelas ondas que ela propaga e é. Nunca acreditei neles quando falavam disso, mas não costumo acreditar nas palavras de muitas pessoas. Pelas pessoas e pelas palavras, que valem menos que as pessoas e menos que dinheiro, e menos até que o conforto de sentar numa boa poltrona, ainda que você sente numa delas para ler palavras num livro ou numa revista ou num almanaque ou num site, ou para ouvir palavras numa conversa com alguém de que gosta.

O que importa é que estou sempre atento às palavras, mas estou ainda mais atento ao fato de que elas não valem muito, se é que chegam a valer alguma coisa em alguma instância da sensatez. Aliás, sensatez é uma bela palavra, não?! Não sei. Eu acho. E prefiro a palavra ao ato.

Funerais custam caro. Já viu? Sim, pois se as empresas funerárias fazem, na verdade, um dos trabalhos do diabo sobre a terra, nada mais justo que cobrar muito por isso. Não deve ser fácil viver cada hora maldita tendo que se reportar ao inferno. Cada um dos minutos deve ser difícil. Cada um dos segundos, e até os intervalos entre eles. Em alguns momentos, sempre tão fugidios quanto o vento, deve ser insuportável trabalhar nesse negócio.

Ninguém paga uma empresa funerária para cavar um buraco, tapá-lo ou para escolher flores adequadas, nem nada disso. Paga-se pelo tempo dos profissionais da obra. Poucos querem se preocupar com a morte num tempo como o nosso, tão feliz, esperançoso e tão cheio de palavras que acalentam os corações cansados e enganam os desavisados. As palavras, de novo. E outros funerais, que hão de vir e vão.

Paga-se caro nestes casos, também, por causa de métodos comerciais estranhos que algumas empresas do segmento praticam, mas isso é tema pra outra hora, durante um café, quando desconfiarei de tudo que você disser e espero que você faça o mesmo quanto às minhas palavras. Uma hora de investigação policial dedicada e cuidadosa, empreendida por policiais que tenham bons hábitos de sono e alimentação, e que estejam contentes com os próprios salários e estilos de vida deve resolver o caso das funerárias, mas nós temos muito o que dizer um ao outro sem precisar nos preocupar com esse tipo de tema, mesmo que passemos por ele por acidente em alguma altura da nossa conversa animada e ansiosa.

Quanto a ela, a morta, era isso. O que você acha? Existe mesmo outro lugar além daqui? E pode dizer o que quiser, mesmo que eu duvide.

Não vou te visitar nessa semana. Talvez nem nesse mês, na verdade, mas podemos conversar pra descobrir quando poderemos nos atualizar um sobre as atividades do outro. Inventemos um dia fatídico e feliz para nós, afinal.

Saudades de você – mas não devia admitir, acho.

Do seu (com medo da formalidade excessiva, pelo momento pesado demais pros meus ombros tão cansados de carregar o peso do mundo e das dores).

Daniel.

Marco Antonio,

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Forte e sem açúcar

Já fazia muito tempo desde que Dona Alice pedira, com a voz baixa e suave, um cafezinho à aniversariante e ainda não o recebera. Pessoas sentaram-se à mesa com ela, comeram, beberam, experimentaram as famosas sobremesas da anfitriã, levantaram-se, outra rodada de pessoas seguiu o mesmo fluxo, e Alice continuava com a sensação de garganta seca e cabeça pesada. É como quando você acorda esperando que o dia seja maravilhoso e ele não é, simplesmente porque você esperava que fosse. Parte das coisas boas da vida está no inesperado e, a essa altura, nem o melhor café do mundo vai superar o amargor daquela demora. Depois de tantas artrites, Alice achava uma falta de caridade fazer um ser humano passar tanto tempo esperando por um simples café. Preto, forte e sem açúcar, como havia sido a vida inteira.

É um fato bem conhecido para essa senhora, de que quando se chega a certa idade e ela fica aparente em sua pessoa, o velho vira também um ponto turístico, tal qual as pirâmides, as torres e os monumentos. As pessoas olham, admiram e ficam se perguntando como aquilo, depois de tantos anos, continua de pé. Alice, que já não se levanta com a mesma facilidade de sua juventude, aproveita a curiosidade alheia para lembrar e se felicitar com a própria vida, como quem relê continuamente o mesmo livro porque já não há mais tempo para começar um novo.

– 97 anos. Eu acho que é isso. Deve ser 96 ou 97… Não lembro se já fiz aniversário esse ano. Isso, foi 1915. Você é bom pra fazer conta de cabeça, heim? Sabia que eu era professora? Me aposentei aos 43, sem nunca ter uma falta e nenhum aluno reprovado. Depois eu fui dar aula de piano, pra ocupar a cabeça, sabe? Mas foi aí que eu me encontrei. Passava o dia inteiro ouvindo e tocando os meus queridinhos. Você conhece Strauss? Ahhh, então eu vou pedir pro meu filho gravar um disco pra você. É maravilhoso.  Eu ouço todo dia, antes das minhas orações. Meu filho? Tem 55, o meu menino. Só tive um, sabe? Pra poder educar direito, e ensinar tudo com bastante cuidado. Agora eu tô morando com ele, porque ele é medico e insistiu que era pra poder cuidar de mim. Assim é bom, né? Ainda tenho umas coisas pra ensinar pra ele, e posso ficar perto dos pequenos. Ele é tão atrapalhado, que é capaz de qualquer dia fazer miojo na panela de pressão hahaha. Ainda bem que tem o moço que cozinha pra gente lá. E o meu café, heim? Ainda não trouxeram. A sua esposa está aqui? Ela não é ciumenta? Ah, que bom… tem muita mulher ciumenta hoje em dia. Sabe, eu fui casada por 52 anos, 1 mês, 14 dias, 6 horas e 28 minutos e desejo que vocês sejam tão felizes quanto eu fui. É fácil, viu? Só precisa ter paciência, porque ninguém é perfeito. E estar com alguém que goste de ler. Você gosta de ler? Que bom! Eu conheci o meu velhinho numa praça, num dia lindo e ensolarado. Como todo bom romance, né? Eu estava lendo Dom Quixote quando ele sentou ao meu lado e falou a minha parte preferida do livro: “Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade”. E aí eu fiquei toda apaixonada, porque quando você encontra alguém que gosta do mesmo livro que você, é como se tivesse reencontrado um amigo de infância depois de muito tempo. Por mais que ele não saiba da sua vida hoje, vocês continuam compartilhando uma história. E depois disso eu compartilhei uma vida inteira com aquele homem que fez a minha história ser um sonho. Ahhh, chegou meu cafezinho! Nossa, não deu nem uma xícara! É por isso que eu te disse, moço: só precisa ter paciência, porque senão você nunca chega no felizes para sempre. E se é pra parar o livro no meio, é melhor nem começar.

André Petrini

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a ética secreta dos garçons

Meio dia e quatro. Depois do badalo atrasado no sino da igreja vazia, passamos a ouvir a conversa de um casal. Eles trocam palavras e ideias sobre eternidade, amor, vida, itinerários de ônibus, shows recentemente cancelados na cidade, interpretação de sonhos, felicidade e outros conceitos tão etéreos quanto a neblina. A praça voltou a ser bem vista pela população depois da reforma que a prefeitura realizou no lugar: os bancos estão intactos, as flores ainda não foram pisoteadas e nem as placas de trânsito atropeladas por gente bêbada ou drogada.

Os donos de comércio dos arredores estão felizes com a lucratividade das próprias atividades, algumas ilícitas. Os preços que eles praticam são em geral baixos, mas isso não abala a saúde de seus negócios, já que não é só de coxinhas, pastéis e sanduíches que eles vivem.

Dois mendigos passam por ali, assim como um carrinheiro, quatro catadores de latinhas e três pessoas que estão procurando crack para comprar. Uma criança de oito anos de idade está vendendo a pedra maldita em uma das esquinas, mas ainda não foi avistada pelos possíveis clientes.

A energia do ambiente é estranha, e mais emprega força sobre os transeuntes do que é gerada pela somatória das forças deles (eis um mistério do meio dia).

Os jovens do casal falam, pausam, pensam. Falam de novo. Mais falam e falam de novo que pausam e pensam.

Meio dia e onze. O tempo passa e foge para além de onde as almas alcançam. Sabe-se que estes minutos são preciosos como diamantes, como o casal, também como os mendigos, os catadores de latinhas, os comerciantes, os viciados em crack, a criança que está vendendo o produto, os motoristas de ônibus, seus colegas cobradores e os passageiros.

O que explica este cenário?

Prefiro responder esta pergunta com outras perguntas.

 

Marco, o Antonio.

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Carne e sangue, osso e sonho

Ela entrou num ônibus rumo à residência de um casal de amigos que moram na zona norte de Curitiba. A viagem partiria do centro e seria mais uma vez rápida e tranquila, não fosse o que foi.

Era uma tarde quente de sábado, e lá ia a jovem para essa reunião na qual fariam, os três, coisas que amigos fazem, como rir de bobagens e entrecortar momentos descontraídos com conversas sobre vida, morte e tudo que acontece entre nosso começo e nosso fim.

Resolveu descer do ônibus três quadras antes de onde normalmente faria, para caminhar um pouco, esticar as pernas e aproveitar o efeito do vento ameno que batia naquele dia de tanto calor. Mas havia um problema na área do gramadão de uma esquina, que antecede, no sentido do trajeto que ela estava percorrendo, três quadras de futebol de areia e pequenas lojas que se sustentam devido à quase autossuficiência comercial que pairava sobre aquela vizinhança, como se um manto de prosperidade tivesse se instaurado ali, a despeito de explicações lógicas e a favor da felicidade de quem residia naquele pedaço mágico do mundo.

Haviam 27 homens de idades variadas empunhando facas na área logo a frente, e eles não estavam poupando ninguém que passava por ali de sua violência, tão imensa quanto as intenções dos que amam ou o desespero de quem não o faz. A cena era bizarra, porque eles não praticavam sequer o esforço de correr atrás de suas vítimas, preferindo, ao invés disso, que elas viessem a eles enquanto sorriam descompromissadamente. O sol se escondeu atrás das nuvens para não presenciar aquele fato tão estranho e, em decorrência disso, o lugar passou a emanar uma energia de medo, ansiedade e principalmente histeria, curiosamente silenciosa. Todo mundo que estava ao lado da moça precisava passar para lá, mas o preço para que isso acontecesse estava bastante claro e não era nada justo. A ameaça era evidente e todo mundo ia ter que sangrar para atingir aquele objetivo. O que sempre pareceu simples havia agora se tornado inalcançável, e uma força estranha impelia ao fracasso todos que ousavam tentar o sucesso naquela empreitada.

Ela congelou. Viu uma senhora de 60 anos ser esfaqueada por entre as costelas do lado esquerdo do corpo e resolveu ligar para os amigos, já que lhe ocorreu que a mera presença deles resolveria a situação. Parecia óbvio que eles saberiam como tirá-la daquela, como já souberam outras vezes em outras circunstâncias, e como haveriam de saber em tantas outras no futuro.

Mas a tremedeira nas mãos a impedia de acertar as teclas do número desejado no telefone. Resolveu desafiar o bom senso e começou a correr para lá, tentando se esquivar dos possíveis algozes como podia, num grande jogo de damas, já que a relação entre o jogo de xadrez e a morte já foi uma analogia melhor explorada em outras situações. Não foi atingida, mas quando chegou à última linha de seus potenciais assassinos, não teve forças para finalmente passar para a área segura que eles escondiam por detrás de olhares hipnóticos e determinados. Voltou ao ponto de partida, ainda muito nervosa. Encarou os homens mais uma vez.

Acordou e se viu flagrando formas ambulantes pelo quarto.

Aquelas paredes já somam mais de 50 anos de idade, e nunca haviam parecido tão ameaçadoras quanto pareceram naquela madrugada. As cortinas azuis escondiam uma noite enorme do lado de fora, e um inegável espírito de desamparo do lado de dentro. Ela voltou a dormir, depois de certo esforço. Jamais compreenderá plenamente o que se passou naqueles momentos eternos dentro do universo paralelo em que os sonhos existem e nos acontecem.

 

Marco Antonio.

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Obesidade digital

Por Heitor, leitor um tanto quanto desatento

34 abas abertas. níveis caóticos de consumo de informação nunca foram tão comuns. não sei o que comi ontem, o que vesti ontem. Agora, fantasiado de mendigo moderno, estudo a era de ouro do rádio, confiro redes sociais, wikipedia.com, brasilescola.com, americanmusichistory.com, anotherunreliablesource.com. a internet me abarrota de todo tipo de conhecimento. Gatinhos manhosos invadem a tela do computador fazendo as mais graciosas peripécias. Eles são bonitinhos e pedem carinho e atenção. Eles amam a internet e são correspondidos. As pessoas não. Elas competem com os gatinhos, mas são feias, estranhas

e a carência delas beira o ridículo. Sei disso, mas não consigo deixar de simpatizar. Com ambos. Também sou um ser humano, carente, ridículo. sei o que é viver atrás da tela, em cativeiro, a cabeça ligada por fiação sinistra à grande rede. Mas nada de alarmismos, até porque não duro 5min lá fora. bate um desconforto nauseante, e o retorno é certo. As 34 abas tão ali, me encarando, pedindo um reencontro, pedindo meus neurônios.

Eu aceito.

os olhos abertos, vibrando em tantas cores, secos de atenção ininterrupta, opacos, estáticos, maravilhados com o movimento; ouvidos semi-atentos, impregnados do som que disputa espaço com o pensamento, fixação compulsória, conexão eterna. O estudo que já não rendia mais. Tinha começado na dinastia carolíngia e agora me flagrava vendo as novidades da aviação agrícola australiana: desafios e propostas para um futuro melhor. Via design, humor pateta, crítica social, natureza, significado dos sonhos, receitas  de comida de microondas, pesquisa bibliográfica, tumblrs da sociedade racional, amigos no foursquare, maiores existencialistas do séc. 13, redes sociais, redes de pesca, redes de supermercado, das grandes corporações às grandes favelas, jogos de poker do homem neolítico e seus desdobramentos, o sono inominável pela falta de vocabulário. Fim dos neurônios.

puxei o plugue da tomada pra reiniciar o sistema. Sobrou energia, mas faltou atenção. com tanto conteúdo inútil é inevitável ter o cérebro entupido feito carótida pelo pior conteúdo da pior qualidade.

sou a criança que se deleita no café da manhã com aquela margarina de plástico sem nome. E continuo.

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Por uma vaga no seu coração

escrito por Murilo.

Felipe não imaginaria que sua entrevista de seleção para aquela empresa seria tão difícil. Era um cara confiante e competente, que já passara por duas empresas e sempre fora muito bem. No entanto, daquela vez a situação foi diferente. Ao entrar na sala, apaixonou-se imediatamente pela moça do RH.  Isabel – pode chamar de Bel – era absurdamente linda. Foi amor à primeira (entre)vista.

“Oi Felipe, tudo bom?” – cumprimentou com beijinho de bochecha estalado.

Com currículo em mão e caneta na outra, sentou-se do outro lado da mesa e cruzou as pernas. Seria uma situação corriqueira e passaria despercebida não fossem dois fatores. Primeiro, a fina meia-calça que revelava a forma e a cor das maravilhosas pernas de Isabel. Segundo, o tampo de vidro transparente da mesa, que permitia que tudo aquilo fosse visto. Felipe não só fitou o cruzar de pernas, como se esqueceu, por um breve momento, o que estava fazendo ali. Se você já viu uma mulher assim, deve saber como é. Mais ou menos como uma voadora no peito. Com uma incredulidade, digna de um ateu, você ao mesmo tempo agradece a Deus por colocar tanta perfeição em um só lugar. Uma situação contraditória, enfim.

“Muito bem, Felipe. O seu currículo parece muito adequado, mas eu gostaria de saber um pouco mais sobre você e suas experiências.”

Bel perguntou sobre seus empregos anteriores, sobre seu plano de carreira, seus sonhos, seus pontos fortes e fracos, seu salário e, enfim, tudo o que normalmente se pergunta em entrevistas do tipo. Felipe havia aprendido a importância do contato visual, mas naquela ocasião isso realmente o desconcentrava. Afinal, era difícil não se perder nos grandes olhos azuis da moça. Apesar disso, o rapaz foi bem na entrevista. Ao fim, contudo, algo muito o incomodava. Nesse momento, ele tomou coragem, levantou-se e disse a verdade.

“Isabel, tem mais uma coisa que eu gostaria de dizer.”

“Pois diga.”

“Você me perguntou por que eu queria trabalhar aqui, e agora eu digo: é porque você trabalha aqui. Você me perguntou se eu sou casado, e agora eu posso dizer que pretendo ser em breve, pois acabei de encontrar a mulher da minha vida. Um sonho meu? Viajar pelo mundo só se for ao seu lado.”

“Como é?” – pergunta, confusa.

“Eu disse que trabalho bem em equipe, mas posso fazer coisas muito melhores a dois. Eu disse que minha pretensão salarial era de quatro mil, mas vou precisar de pelo menos seis, pois quero comprar para você os melhores presentes e te levar ao mais incríveis lugares.”

Ela estática, sem saber como reagir. Ele continua.

“Eu demorei a responder algumas perguntas porque fiquei vidrado nos seus olhos, não conseguia me concentrar. Bel, essa vaga era tudo que eu queria antes de entrar por essa porta, mas agora tudo que eu quero é você.”

Surpreendida e atordoada, ela apenas segue com o protocolo, como que no modo automático.

“Felipe, conforme conversamos, entraremos em contato para agendar uma entrevista com o psicólogo.”

“Você sabe que eu não vou passar. Eu estou louco, e você saber por quem.” – responde ele, saindo da sala.

Estarrecida, ela volta para a cadeira e senta. Olha para o currículo sobre a mesa. Circula o número do telefone. Sorri.

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Carta ao Capitão

escrito por André Petrini.

Terra/Continente Infra, 2169
Ao Capitão Aureliano Buenanoche.

Excelentíssimo Capitão, em vista da minha grande admiração pelo seu trabalho à frente do nosso Planeta-Nave, venho, por meio desta, fazer uma solicitação de máxima importância para a conclusão dos nossos objetivos de evolução constante. Entendo que alguns hábitos estão arraigados em nossos cotidianos de tal forma que se tornam quase automáticos, mas acredito que se pararmos para uma análise rápida e racional, perceberemos que eles nem sempre fazem sentido. Isto posto, gostaria de sugerir a revisão de um hábito, uma convenção – e se me permite, quase uma praga, a qual estamos acostumados a chamar de “horário comercial”. Não a sua existência em si, pois sei de sua importância em nossos sistemas comerciais tanto intra quanto extraplanetários, mas minha crítica refere-se exclusivamente ao período em que esse flagelo se realiza. Afinal, após séculos de evolução, ainda somos obrigados a iniciar nossas obrigações diárias às 8 horas da manhã e não há uma alma sequer, nesta ou em qualquer galáxia, que faça isso com bom gosto.

Veja bem, Capitão, longe de mim querer contestar qualquer decisão em sua maneira de comandar nossa nave, mas em vista de sua linhagem de Capitães, Coronéis, Padres e Políticos que vêm nos direcionando rumo às galáxias mais pacíficas, tenho certeza que compreende a necessidade de uma tripulação que trabalhe com um sorriso no rosto. Nós, meros humanos da Terra, obviamente temos muito a aprender com a inteligência de nossos vizinhos Budnianos, com a sabedoria milenar dos Schaefs, a alegria constante dos Marcolóculos, o silêncio lendário dos Scouts, a doçura dos Slonks, a perseverança dos Graes e a amizade dos Kaltows, mas se tem uma coisa que aprendemos nos anos de convivência com estes planetas-irmãos, foi que a união nos leva a galáxias mais distantes. E sinceramente, sr. Buenanoche, não há união que resista à interrupção contínua e diária do sono em horas tão prematuras.

Sei que nesses anos aprendemos muito e nossa morada já não padece das falácias pelas quais nossos ancestrais passaram, dentre as quais reverencio a recente inovação que não permite o acúmulo de calorias pela ingestão de bacon, a qual considero um passo importante rumo à felicidade plena da humanidade. Além disso, a completa extinção das calças saruel, sandálias Crocs, esmaltes vermelhos, reality shows, torcidas organizadas, funcionários públicos, professores de ginástica laboral, agentes de trânsito e tantos outros exemplos que não cabem nestas linhas, mostraram uma grande consciência e respeito de sua família pelos povos dos 3 continentes. Óbvio, a maioria destes itens ainda é encontrado nos mercados ilegais, mas a simples criminalização dos aplausos ao final da ginástica, já indica o pensamento que deveria ser adotado contra as corporações que nos forçam o despertar em horários impróprios.

Aureliano, meu amigo, sei que não deve receber muitas cartas e é um grande infortúnio que receba uma com tal pedido. Sei também que estamos em desvantagem em relação aos planetas que têm mais de 24 horas em seus dias, mas depois de tantos anos cruzando os oceanos em busca de profecias e invenções para o progresso do mundo, meu propósito não é o de diminuir o trabalho, mas o de aumentar o tempo para sonhar.

Do seu amigo de gerações,
Melquíades

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