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A extinção de um homem

Senhor luiz, um lugar – chamou Carla, a recepcionista da noite. É uma moça bonita, como um cartão de visitas daquele restaurante tradicional, que hoje está mais lotado do que a prudência aconselharia, mas não mais do que os outros da cidade. luiz, um lugar, ela volta a chamar quase impaciente, e até mesmo na dúvida se a anotação estaria correta, ou seria mais um 7 meio apressado, que se passa pelo 1 solitário. Não é o caso. Os casais à espera soltam risinhos abafados, provavelmente imaginando um rapaz jovem sem companhia para aquele 12 de junho, e portanto menos merecedor que eles daquele jantar, e principalmente, daquela mesa que comportaria tão bem um casal de apaixonados.

No canto levanto da cadeira e sigo Carla até minha mesa, com a consciência de que a saudade é tão grande que já não me cabe inteira, e que as pessoas descobrem isso desde o primeiro segundo em que me veem, e agora me olham com dó, enternecidas pelas décadas que me separam de você e fazem com que eu seja só saudade. Vinte e cinco anos sem você, e as pessoas continuam a me ver assim. Sou saudade. Sou amor. Sou seu, meu bem.

Hoje seria nosso aniversário de namoro, ou pelo menos do dia em que te beijei e comecei a viver por inteiro, sem saber que a vida por inteiro seria interrompida na metade. Nós tínhamos tantos planos, tantos desejos, tantos anos, e hoje temos uma distância intransponível entre nossos sentidos. Brincando com a verdade, digo que se eu morrer repentinamente vai ser de saudade da sua voz, porque afinal, como se mata a saudade da voz de alguém? A nossa foto ainda se mantém na cabeceira da cama, mas por mais que eu fale com ela, com você, meu amor, a resposta nunca me soa aos ouvidos acariciando meu cabelo como você fazia e me enchia de vontade de viver, simplesmente pra ter você ao meu lado. Por muitos anos o medo de esquecer sua voz me assombrou de tal forma que passei a te ouvir em todos lugares, o que só fez com que os dias passassem mais lentos, atrasando o meu retorno ao seus braços, me colocando na lista de extinção junto com o mico-leão-dourado e outros animais mais fofinhos do que eu. Já não tenho mais certeza se sua voz era como minha mente reproduz, mas sei que logo vou poder te abraçar de novo, e então poderei ser feliz por inteiro mais uma vez, mas prometo que vou deixar tudo certinho por aqui, como você me fez prometer naquele dia.

Nossa menininha já vai casar, e levá-la até o altar é a última coisa que eu posso pedir ao nosso bom Deus antes de te encontrar. Isso, e que o Brasil seja campeão dessa Copa! Mas eu sei que você não gosta de futebol, e hoje a noite é só nossa. Até deixei de assistir ao jogo de estréia com o pessoal do banco porque vir aqui, neste mesmo restaurante para pedir o seu prato preferido, lembrar do gosto da sua boca depois de tomar vinho, de voltar te segurando até o carro fingindo estar mais bêbado que você para que você não se sentisse mal, tudo isso mantém você aqui ao meu lado. Não como uma alma penada que ainda não achou seu lugar, mas como uma lembrança viva que faz o vazio do meu coração ser um pouco menos oco, porque o corpo morre, mas o amor vive enquanto as memórias forem doces. E você sempre foi puro açúcar. Feliz Dia dos Namorados. Eu to chegando.

André Petrini

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Quero ser astronauta

Eu sempre fui assim, meio gordinho. Na escola era difícil, porque ser criança é sempre difícil. Mesmo as loirinhas de olhos azuis devem sofrer na infância, por algum motivo. Cada um sofre pelo que pode, e eu me recusava a sofrer por ser gordinho. Me restava sofrer pelo mundo, que se desfalecia à minha frente.

Vi Luiza morrer junto com Felipe naquele acidente de trem, poucos dias após o nascimento de seu primeiro filho. A parte que restou dela foi perdendo o brilho a cada dia, e sempre que vejo a foto do batizado do Marcelinho, com seu olhar longe cheio de pesar, volto àquele momento e tenho vontade de ficar abraçado a ela chorando a perda do nosso amorzão. Todo mundo amava Felipe, e ele era grande o suficiente pra abraçar todas as crianças juntas, nos levantar e ainda jogar no sofá, já suado e morrendo de rir. Talvez por isso sua casa fosse tão acolhedora. Para mim, entrar lá era como estar abraçando Felipe, ouvindo suas gargalhadas, me aquecendo em seu corpo macio e já sentindo o cheiro do prato que tia Luiza preparava, colocando tanto tempero quanto tinha de amor. Viver era bom, e fazia a gente esquecer que tinha uns quilinhos a mais.

Depois do acidente, Luiza foi morar com seu filhinho em um apartamento tão pequeno, que cabia toda sua vontade de viver. Como não ganhava bem, o lugar ficou vazio pór vários anos, apenas com suas camas, uma pequena TV e o toca-discos empoeirado deixado por Felipe. A gente não tinha certeza, porque depois do acidente a tia Luiza ficou muito fechada, mas todo mundo sabia que ela passava várias noites sem dormir, agarrada ao bebê olhando pela janela, ouvindo o apito do trem, da batida, do telefone tocando no meio da tarde, do “venha até o hospital”, do “não conseguimos”, e por fim, do choro do Marcelinho que sentia a dor da mãe como se fosse sua, e chorava como a chamar seu pai pra acabar com aquela contrariedade toda.

Certa vez a tia ficou assim no meio da tarde, logo após o almoço, olhando o copo com suco igual ao que o amorzão gostava. Sofri segundos inacabáveis com ela, lembrando de cada um dos sucos que a vi preparando com amor pra ele, e de sua satisfação ao vê-lo tomar aquilo como quem recebe um abraço. O sorriso aberto, as costas da mão pra secar a boca e a gota de suor já escorrendo pelo rosto. “Que gostoso, amor”. Era sempre igual, mas estava sempre gostoso. Com os olhos inundados, perguntei se ela estava bem.

Sem que ela respondesse, entendi que às vezes o mundo é sofrido pra quem ama demais, e é preciso um lugar mais afastado, pra se depositar toda a dor do coração. Na Lua ninguém é gordinho. Na Lua o trem não pega ninguém.

 

Texto de André Petrini

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Maria Mole

Maria Aparecida. Maria Aparecida do Carmo Biscoito, disse seu pai orgulhoso ao segurar o bebê ainda banhado em sangue e dores, mas nem por isso lhe parecendo ser menos do que o bebê mais bonito do mundo. A mãe gostou do nome, e a parteira não teria coragem para contar seu presságio, que ademais, poderia ser só um desses pensamentos que se invertem com o vento e essa não era a hora pra falar de bobagens, mas ninguém se preocupou em perguntar àquela nova alma viva se o nome lhe cabia, se estaria satisfeita ou gostaria de trocar, como quem vai ao armazém reclamar dos ovos que chegaram podres, e o senhorio responderia “é claro, freguês. mil perdões. leve mais dois por minha conta, pra reparar o incômodo”, e tudo ficaria certo. A ninguém ocorreu de perguntar a Maria Aparecida se esse era o nome que queria, ou se já havia pensado em uma opção melhor do que uma homenagem à atriz da radionovela, lá ainda dentro da barriga de sua mãe onde tudo era feito de amor e líquidos e de onde era arrancada contra a sua vontade numa tarde de calor excessivo até para quem já vivia do lado de fora há tempos.

Maria Aparecida não gostava de ser uma homenagem, não gostava da ideia de “aparecer” cada vez que falasse seu nome, não gostava de ter sobrenome de comida, não gostava desse calor todo, não gostava de chegar ao mundo com tantas decisões já tomadas por ela, e por isso chorou. Chorou por anos sem parar com toda a intensidade de seus pulmões, que ganhavam mais força à medida que cresciam. O caso ficou famoso na cidade e Maria Aparecida gostou menos ainda de ter virado um caso, um algo ao invés de um alguém. Por muitos anos seus pais tentaram soluções que vinham de todos os lados, e gastaram pequenas fortunas em busca dos médicos da capital, que haveriam de ser mais espertos que os do interior, e acabar com a aflição que corroía seus ouvidos já há quase uma década.

Foi em uma das idas à cidade que Maria Aparecida viu Ayrton pela primeira vez, enquanto saía do consultório daquele médico velhinho, e gostou. Gostou tanto que não sentiu mais o choro subir garganta acima e jorrar pelos olhos embaçados. Limpou a vista desacreditando no que sentia, mas o calor continuou a subir por todo seu corpo. Gostava do que via, e de repente não lembrava mais de chorar.

Os pais chamavam os amigos e comemoravam a vitória frente ao jugo de lágrimas, mas Maria Aparecida precisava desesperadamente encontrar um jeito de voltar à cidade em busca de seu já eterno amor. Tentou chorar, mas não conseguiu. Era como se já tivesse usado o estoque de lamentações de sua vida inteira, e quem sabe até de suas próximas gerações. Decidiu, então, sorrir. Comeu um pedaço do doce que sua mãe preparava na cozinha, sorriu, e gostou.

Texto de André Petrini

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Todos Querem ser Funcionários Públicos

Fernando não é um profissional. Não tem uma carreira ou colegas com quem reclamar do expediente que se arrasta pelo dia. Tem, sim, um emprego que sustenta mais aos seus patrões do que sua própria família, mas são tempos difíceis para todo mundo.

Como vem fazendo por estes 24 anos, pontualmente chega ao galpão às 7:10 e atravessa o portão estreito até chegar ao local de trabalho. Já na ante-sala, tira cuidadosamente o casaco de pele que herdara do pai e pendura-o sobre a cadeira com o mesmo cuidado desmedido que as mães devolvem suas crias ao ninho. Olha sobre a mesa à procura de recados enquanto esfrega uma mão na outra tentando aquecê-las. Não há nada; sem nomes ou orientações especiais. Serve um pouco de café da garrafa térmica que Lucy enviara, mas ele está mais fraco do que deveria, como acontece todas as segundas-feiras, quando sua esposa, ainda embriagada pelo amor intensivo que recebera durante todo o final de semana, coloca meia colher de pó a menos na garrafa. Mais uma daquelas atitudes bobinhas que tomamos inconscientemente, desejando resultados que nunca acontecerão. Lucy deseja em seu íntimo, sem saber, que Fernando volte para casa logo nos primeiros minutos da manhã, em busca de um café mais forte e encorpado para aguentar todo o stress do dia, e no minuto em que entrasse pela porta encontraria a mulher ainda cheia de amor, a lhe dar mais do que buscava, e ao sair, aí sim estaria preparado para enfrentar aquele dia com um sorriso no rosto. Mas isso nunca acontecera, e embora o ato continue semana a semana, o único efeito é a sonolência matinal de Fernando, que toma a primeira xícara, abre o jornal para olhar as fotos bonitas e exclama para si mesmo “Segunda-feira. Sensação física de quinta”.

Às 7:30 se prepara para começar as atividades do dia. Vai caminhando em direção à porta enquanto estrala os dedos da mão, e em seguida o pescoço. “Humm, este foi dos bons”. Antes de entrar, para em frente ao toca-discos que já está preparado com o Álbum Branco, lado A. Alinha a agulha para a primeira faixa, e sente o arrepio correr pelo seu corpo com o ruído do vinil à espera das primeiras notas. Veste o seu avental branco já marcado com o sangue e suor de seu trabalho, e continua a expectativa para a música, que logo começa. “Isis show times”, pensa tentando citar um filme que assistira há algum tempo com sua esposa. A verdade é que não sabia bem o que significava, mas a frase parecia ter sido pensada para este momento, e fazia com que Fernando se sentisse parte de uma sociedade que só existia em seu imaginário.

Por se tratar de um porão sem janelas, sua sala de trabalho é bastante escura e sem conforto. De um lado, uma mesa com suas ferramentas. Do outro, material de limpeza. Ao centro, a cadeira com seu próximo cliente, já amarrado e com silvertape na boca, que é utilizado também como etiqueta para identificar o nome do sujeito – sempre homem, afinal Fernando tem seus princípios e deixou claro desde o início que não bateria em mulheres. Não conseguiria, argumentou, e esta foi a única condição que impôs. Foi aceito, afinal torturadores não eram fáceis de encontrar antes da internet.

A etiqueta identifica o cliente como James, mas Fernando reconhece aquele rosto. Acabara de vê-lo estampado no jornal sob o nome de Luiz, um deputado que lutava há anos pela educação pública e a valorização dos professores. Parecia ser um bom homem sob uma nobre causa, mas se ali estava, era porque havia feito algo de errado, segundo a conclusão lógica de Fernando. Embora não conhecesse seu empregador, tinha a plena convicção de que aquele era um trabalho honesto e necessário. Estaria ajudando a combater ladrões, corruptos, sindicalistas vendidos, cozinheiros que não lavavam as mãos,  guardas de trânsito, enfermeiras insensíveis, e todo tipo de pessoa que precisasse de uma ajuda pra melhorar as próprias atitudes. Foi até o homem, tirou a fita com força e lhe deu dois tapas na face, uma lembrança de sua infância que trazia como ritual de trabalho. Quando criança, seu pai vinha pelo corredor em direção ao seu quarto com a lanterna fraca e o chamava para acordar. Como invariavelmente continuava com os olhos fechados fingindo ainda dormir, seu pai, um homem justo mas de poucos modos, lhe dava dois tapas na cabeça. “Pra acordar pra vida”, dizia. O terceiro vinha logo após se vestir. “Pra aprender a não começar o dia mentindo”.

Após os tapas de aquecimento, começam os socos que continuariam por várias horas. A mesa ao lado está cheia de facas e ferramentas de corte – todas muito enferrujadas –, mas Fernando usara-as em um único caso, com um cliente que insultou a memória de seu pai. Fora isso, se autointitulava um purista, e por isso usava apenas os próprios punhos. Com o tempo foi aprimorando a própria técnica, e agora dava nome a alguns dos seus golpes, que muitas vezes eram anunciados em voz alta antes de serem proferidos: “Fúria dos Marginalizados!”, e lá vinham 3 socos de direita e 3 de esquerda; “Injeção Letal”, e mais alguns murros em locais estratégicos. Uma singela tentativa de não cair na rotina do emprego, algo que, contraditoriamente, desejava com todas as suas forças.

Como era de se esperar, Lucy não suspeitava da natureza real de sua profissão. Quando, ainda no namoro, lhe perguntou o que fazia, Fernando respondeu de supetão que era funcionário público: um trabalho bastante entediante, mas que ajudava a sociedade. Foi o bastante para Lucy, e principalmente para seus pais, aceitarem o casamento que logo veio. Mas compelido pela facilidade com que sua mulher acreditara naquela mentira quase inocente, passou a desejar o cargo público como seu objetivo único e máximo. Sem êxito até o momento.

Fernando descobriu que a pior surra que poderia dar em alguém, mesmo que merecida, não seria tão dolorosa quanto se Lucy descobrisse a verdade, ainda que lhe contasse quantos bandidos tirou da rua, e realmente acreditou nisso até o exato momento em que viu Luiz sentado à sua frente. Um homem público acima de qualquer suspeita, era pouco provável que de fato merecesse estar ali, e estes pensamentos foram tomando forma em seu dia ao ponto que sentia que a cada soco que lançava, era voltado instantaneamente em sua face. Sem suas certezas, deixava de ser um agente transformador do mundo, um herói ao avesso, e era renegado à mera posição de torturador: uma profissão sem carteira registrada. Não se pode conviver com este tipo de dúvida.

– Como foi o trabalho, querido?, pergunta Lucy ao ver o marido chegar em casa.

– Ahhh – suspira cansado. Uma tortura.

André Petrini.

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Lágrimas no Paraíso

Poucas coisas poderiam estragar o paraíso de Maragogi, com suas águas em tons de verde-olhos-de-top-model, piscinas naturais com peixes de cores que parecem só existir ali, e o céu incansavelmente azul. É abduzida por este cenário que Cana Chorona vai morrendo sua vida, vertida em lágrimas a se arrastar pelas areias claras, implorando por um copo de bebida, um pedaço de peixe ou um afago para seu coração.

Chorona desde sempre, Dolores passou a ser a Cana há 11 anos, junto com a conta que abrira em todos os três botecos do vilarejo. Antes disso, trabalhava na vila dos pescadores consertando as redes que prendiam nos recifes ou fazendo artesanato que seria levado para venda na capital, à época ainda pouco desenvolvida no turismo. Seu marido levantava-se antes do sol e partia em uma pequena jangada, que após os dias de tempestade não comportava toda a sua sorte. Ganhara a embarcação aos 14 anos, como presente de seu pai. Se na época representava a liberdade contra o marasmo das areias de fogo, com o tempo passou a ser sua independência das cooperativas e locadoras de barcos que ficavam com grande parte do lucro dos pescadores. Após a desvalorização e o pescado valendo menos que chuveiro elétrico no deserto, o barquinho era suficiente para garantir o sustento sem conforto de sua esposa e filho. “O amor é todo luxo que nós precisa”, dizia afagando a cabeça do filho ainda novo, que não entendia por que eles não poderiam ter um ventilador igual a todas as casas da redondeza, para aliviar o calor de todo dia que chega e rouba a disposição de viver.

Foi na noite anterior aos seus 13 anos que o filho decidiu aproveitar a tempestade que se autoanunciava, para “pescar mais peixes do que tem no mar”, e surpreender a todos com o tamanho da sua ventura ainda tão novo, e que, com a ajuda de Iemanjá, haveria de ser suficiente para comprar um ventilador para a casa e um vestido de missa novo para sua mãe. Saiu ainda noite, com as estrelas encobertas, a lua tímida e os pássaros quietos. O vento agitava os coqueiros e bagunçava ainda mais seu cabelo opaco, mas jogava a água em sua face, molhando seus lábios rachados e revelando a sensação de aventura que bem conhecia de contos dos velhos pescadores.

O dia amanheceu cinza e por todos os cantos via-se gente arrumando os estragos da chuva nas casas e armazéns da região. A pequena igreja ficara totalmente destelhada, e a chuva acabou com os bancos recém adquiridos pelo Padre A., que todos começavam dizer, já contabilizava decepções demais na vida para ter que aguentar mais essa. Os moradores corriam em suas casas na tentativa de salvar uma cadeira aqui, uma muda de roupa lá, e foi por volta do meio-dia que Dolores percebeu um estranho silêncio pela vila, que embora aparentasse um cenário de guerra, estava manco de uma voz aguda de sotaque arrastado, que vinha dia após dia às 11:40 lhe perguntar se teriam pirão para acompanhar no almoço. Olhou pela porta o grupo de meninos que brincava na areia, mas eles não tinham visto seu filho naquela manhã. Saiu com passos cada vez mais apertados perguntando a quem encontrasse pelo caminho, mas a resposta era sempre a mesma. Voltando para casa, já num misto de desesperança e inquietude, resolveu passar pelo cais torcendo para perder a viagem, pois sabia muito bem que se encontrasse o que buscava, todo o resto estaria perdido. Seu coração de mãe desesperada lhe sufocava o peito a cada pulsada, como se tentasse fugir garganta acima e correr em busca do filho na frente do corpo, que lutava para arrastar os anos de má postura e noites na rede, de modo que Dolores teve que parar algumas vezes para respirar e só então continuar aquela maratona de 700 metros entre sua casa e o cais.

Quando chegou ao local, as ondas ora rebatiam com brutalidade, ora voltavam a amaciar as areias com cuidado materno. O cenário também era de caos, e vários barcos estavam aos pedaços. Pescadores se desesperavam pela já certa perda que teriam na temporada, pois ainda que conseguissem reformar as embarcações, não seria feito a tempo de abastecer a cidade durante as abundantes cheias. Mas embora a maioria dos barcos estivesse despedaçado, ainda era possível distinguir cada um deles e fazer a contagem a que Dolores se apressou a fazer, sofrendo um tanto a mais a cada barco que encontrava e não distinguia as letras de seu nome na lateral, sinal daquela singela homenagem que seu marido lhe havia feito. Dois barcos a menos, e não havia recontagem que corrigisse a falta. Além do “Dolores da Saudade”, também faltava o barco do sr. H., um homem de meia idade que surgiu no povoado enquanto caminhava sem rumo. Falava pouco, mas era de bons modos, de forma que foi prontamente acolhido pelos outros pescadores. H. sumiu naquela noite de tempestade com seu barco, e só foi visto novamente 16 anos e alguns meses depois, quando reapareceu na cidade com o mesmo barco que todos lembravam (tirando por uma falha na pintura aqui e outra lá, como se é de se esperar depois de tanto tempo), contando uma história para justificar seu sumiço que poucos acreditaram, mas ninguém se sentiu no direito de questionar.

Nos dias seguintes ao temporal, partes do “Dolores da Saudade” foram aparecendo pelo litoral de Maceió e as notícias chegavam a Dolores como flagelos que descascam a pele e corroem a carne. “E o meu filhinho? Meu menino tava junto? Vocês deram um pirão pra ele? Deve de tá com fome, tadinho do meu menino. Ele tá bem? Cadê ele, ‘cê já vai trazer?” E corria olhar para fora da casa, a verificar se lhe esperava ali, como a fazer uma surpresa daquelas que aumenta a expectativa pra aumentar o sabor, mas ele não estava, e não esteve nos vários meses seguintes, aos quais bastava que alguém passasse perto de sua casa para que Dolores corresse derramada em lágrimas ao abraço fantasma do filho semi-vivo que sumia à primeira vista.

Os amigos, preocupados com a situação da mãe que se recusava a acreditar no destino do filho, providenciaram uma despedida simbólica, com flores e uma muda de roupa do garoto sobre uma jangada que seria entregue a Iemanjá, assim como o menino havia feito com a própria vida. Na noite depois da cerimônia, Dolores saiu correndo pelas areias e por toda parte se ouviam os uivos de sua tristeza, que se arrastou por todo o litoral e em outros estados também foi se conhecendo sua história. A caminhada durou vários meses sem nenhuma notícia para o marido, que se abatera em uma depressão mortal com a certeza de ter também perdido a esposa, e quando ela voltou para casa já não era mais a pessoa a quem amara. Os meses de caminhada pelo litoral a gritar pelo nome do filho sem se alimentar, tomando cachaça para matar a sede do corpo e do coração levaram consigo o olhar de esperança, a pele brilhante e os cabelos negros.

Os anos passaram sem que Cana Chorona percebesse. Morria seus dias andando sem rumo pelas praias, e não raro seu marido era chamado em cidades próximas para buscar a esposa caída, resmungando, babando, espantando os turistas que “estavam lá para curtir o paraíso e não para lembrar que a vida tem dessas”. Estes mesmos turistas que não eram capazes de enxergar além daquela imagem decadente, e nem teriam a obrigação de fazê-lo, alguns dirão. Turistas que, se entre um gole e outro de suas caipirinhas atribuem aquele descontrole à fraqueza humana, ao sistema político, ao desemprego, aos capitalistas, à peguiça, tão logo alguém venha tirá-la dali, voltam à paz de suas férias. E nunca, nestes 11 anos de sua morte lenta, houve sequer um passante que a visse e pudesse imaginar o sofrimento que lhe revirava o estômago como tubarões destraçalhando o pescado no oceano a lhe inabilitar à ação. Em tempo algum houve sequer uma pessoa que pudesse ver aquela imagem e imaginar que um filho, ao morrer, leva junto a vida de sua mãe.

escrito por André Petrini.

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A inadimplência no mundo do ioga

Marcelo apanhou do namorado de uma ex-aluna sua, quando era instrutor de uma auto-escola picareta da zona leste da cidade. O episódio rendeu sua demissão, ainda que ele nem sequer tenha tocado nas belas e sempre expostas coxas da moça, a quem hoje se refere como “vadia mentirosa”, em curiosa coincidência com o trecho de uma letra de rap. O cara que bateu nele alegou “assédio” para justificar a agressão, perpetrada com a ajuda morna, desinteressada e casual de outro fortão qualquer. A auto-escola alegou “constrangimento de aluna” para afastá-lo do cargo. De qualquer forma, ele não guardava nenhum carinho em especial pela função a que se submetia para sobreviver, já que é só isso que se faz quando se está sob o manto de baixas perspectivas, daquelas que não fazem ninguém desafiar o horizonte e que são as mais recorrentes.

Ele agora tinha uma causa a que se dedicar. Mas, antes disso, alguns fatos.

Os três primeiros: ele não ouve rap, não gosta de fortões de qualquer natureza e não constrangeu ninguém.

O quarto, importante e especial o bastante para merecer parágrafo próprio: ele jurou vingança, ou, em outras palavras, jurou que seria guiado por aquela força que determina as ações de quem vive baseado em sentimentos tortos, injustos e quase sempre tão vivos quanto qualquer árvore velha ou luz de estrela. Não que ele tenha pensado através destes últimos termos. Longe dele.

Hoje, trabalha como motorista de ônibus, profissão correlata com a anterior. De certa forma, ninguém consegue ir embora de quem é e de onde veio.

Enquanto terminava alguns telefonemas com duas pessoas que o ajudariam a dar cabo de seu plano violento para cima daquele “playboy filha da puta que não sabe com quem mexeu” e que agora “tá tão fodido que nem consegue imaginar o tamanho do sofrimento que vai ter que aguentar”, assistia ao noticiário local das sete e poucos da noite na tevê aguardando Eduardo, com quem divide apartamento e contas.

Com o parceiro já em casa, começou uma conversa desnecessária que, no final, acabou saindo mais fácil que esconder o nervosismo do momento:

– Teu professor ligou.

– Ah, é? O do ioga?

– E você tem outro?

– …e aê? Quê que ele queria?

– Ele perguntou se você pode pagar ele amanhã.

– Tá.

– Ele não ligou no teu celular porque disse que tava sem crédito.

– Ah, beleza. Já falo com ele. Vou ver se ele tá online daqui a pouco.

– Mas fala mesmo, que ele tava meio puto.

– Tá. Já vejo isso. Só vou tomar banho.

– Tá.

– Cê tem 100 pila pra me emprestar pra amanhã cedo? Eu pego no banco na hora do almoço.

– Pior que num tenho, cara. Tô meio quebradão aí, que tô pra pagar umas parada.

– Ah, beleza. E o cara lá? Cê vai processar mesmo?

– Que cara?

– O cara lá…da mina lá…

– Ah…não sei. Vou ver aí.

– Mas veja mesmo, cara. Foda esse lance aê.

– Pior que é… mas foda-se esse cara e essa mina, e aquela merda de auto-escola. Eu tô é torcendo praquela merda pegar fogo, e praquela idiota morrer e praquele cara ser atropelado…

– Você que sabe. Se fosse comigo, cê tá ligado, né? Uma vez… – e saiu andando até o quarto para buscar roupas para depois do banho. Roupas de dormir, já que o termo pijama nunca seria o mais adequado para descrever como se veste este rapaz, tão peculiar e sempre dando a impressão de que só traja peças ganhadas, de forma que é normal que pareça desconfortável no próprio corpo.

– Se fosse comigo, porra nenhuma – disse Marcelo num sussurro, como se quisesse mesmo que o outro o ouvisse.

A casa ouviu o barulho do chuveiro elétrico por 16 minutos. Ao sair do banho, Eduardo perguntou ao colega, que ainda estava estático no sofá de dois lugares, esparramado:

– Você prefere a iluminação de uma avenida ou a iluminação de um corredor de shopping?

– Sei lá.

– Tava pensando nisso – e foi para a cozinha preparar alguma coisa para comer.

– Acho que de uma avenida, se tiver tudo certinho. Depende de que avenida e de que tipo de luz, também – ao sussurrar novamente, repetiu um comportamento estranho e até suspeito demais para aquela hora.

– E você prefere frio ou calor?

– Que que isso tem a ver com a outra pergunta?

– Sei lá…você gosta mais de blast beats ou de breakdowns? E gosta mais de batata ou de estudar?

Marcelo avisou que estava saindo, e que talvez não voltasse hoje. Se acontecesse qualquer coisa, que Eduardo resolvesse e não ligasse para falar.

A comunicação é difícil, e é uma pena que a telepatia não seja tão comumente praticada.

Descendo as escadas do terceiro andar, onde mora, até o térreo, olhou atentamente para os pés, para conferir se havia amarrado os cadarços dos tênis corretamente, já que precisaria correr daqui a pouco. Conferiu também se estava com o dinheiro que usaria para pagar os colegas de orgia sanguinária em mãos, e se a foto e o endereço da futura vítima estavam no bolso direito da calça, dentro da carteira que se encontrava então pouco acima das chaves de casa e do carro. As chaves o incomodavam um pouco por dentro da calça, devido à fricção causada pelo movimento. Mas este não era um problema inadministrável. Como não são também inadministráveis a maioria dos problemas na vida, que costumam ser carregados incomodamente, sabendo o vivente ou não das possibilidades de solucioná-los, ainda que nunca sem peso e quase nunca sem dor.

Tudo pronto.

Ao menos, tudo que fosse necessário para que a ideia se concretizasse perfeitamente, sem chances de dar errado por algum deslize ou falta de atenção ao longo do trajeto, físico e mental.

Funcionou.

Marco Antonio Santos

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O melhor lugar do mundo é dentro de uma mulher

Por toda vida escolhi minhas mulheres sabendo que algo tão efêmero quanto a beleza não deveria ser a primeira coisa a ser desejada. Sempre preferi as inteligentes, carinhosas, engraçadas, às lindas. Mas não naquele 19 de dezembro, quando saí de casa pensando que pouco importaria se a dama envelhecesse feia, enrugada e sofrendo a gravidade empurrando-a para o centro da terra, pois muito antes disso meu amor fugaz já teria desaparecido no mar das paixões afogadas, e eu mal poderia me lembrar do rosto ou da cor daqueles olhos que haveriam de se fechar enquanto os lábios me beijassem como se a vida toda dependesse disso. Aquela noite eu teria a mulher mais linda do mundo, e foi assim que conheci Diana.

A noite deveria estar quente, como geralmente é naquela época do ano, mas tínhamos uma chuva fina caindo do lado de fora, o que fazia com que as moças entrassem na festa enxugando suas grossas capas de chuva e corressem para o banheiro conferir se os penteados continuavam inteiros.  Foi seguindo este mesmo roteiro que vi minha Diana entrar pela porta, vestida de sua elegância com passos suaves, caminhando em direção ao lavatório sem olhar para os lados, ou sequer imaginando que meus olhos a seguiam entorpecidos, enquanto eu tentava lembrar se em algum momento já havia encontrado outra menina que iluminasse meu ser daquela forma, e a conclusão foi que não. Nunca encontrara, e nem encontraria depois daquele dia, quando Diana me petrificou de desejo e intenções. Não foi amor, como nunca poderia amar alguém apenas pela sua forma física. Era mais forte do que isso. Era um desejo que crescia fazendo todo o meu corpo latejar. Eu desejava conhecê-la, ouvir sua voz, sentir seu perfume, tocar seus dedos finos de unhas claras, beijar sua pele branca, saber onde estudava, qual seria sua profissão, seu disco preferido, o que achava do comunismo, e até mesmo o nome de sua cachorrinha. Era, no fundo, um instinto de auto-preservação que desejava conseguir amá-la acima de tudo, evitando toda a frustração com outras mulheres que haveriam de passar pela minha vida e seriam reduzidas a imagens imperfeitas de Diana.

Quando enfim consegui levá-la até o centro da sala para envolver seu quadril em minhas mãos e dançar sentindo o seu coração disparado tanto quanto o meu, suas mãos geladas e o perfume que nunca esqueci, sabia que aqueles seriam os últimos lábios que eu desejaria em toda minha vida. Ela tremia enquanto eu beijava seu pescoço lentamente e voltava para sua boca com desejo vibrante, fazendo-a ser tomada por uma expressão sonhadora e adorável.

Quatro dias depois, exaustos de paixão, lutávamos para deixar a quitinete que nos abrigava desde aquela noite, para voltar à vida infeliz e monocromática que nos aguardava do lado de fora. Resistindo ao impulso de arrastá-la para mais várias semanas esparramada sobre a cama, compreendi que os bebês levam 9 meses para nascer porque não há lugar melhor no mundo para se estar, senão dentro de uma mulher, mas Diana não era minha, e nem seria justo que fosse. Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, andando pelas ruas alegrando cada pessoa que a encontrasse e fosse contagiada pela sua presença, e ai que sorte de quem recebesse ao menos um olhar seu. Mas cada uma dessas pessoas iria para suas casas e fantasiaria uma história de amor com a mulher mais linda do mundo. Histórias que durariam dias, semanas, meses ou anos, mas nenhuma delas poderia ser eterna porque Diana era patrimônio do mundo e deveria ser livre, para que outra pessoa pudesse encontrá-la e dar um pouco de sentido à sua existência. Não prendam a minha Diana. Ela deve ser livre.

André Petrini.

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Dórian

por Murilo

Não foi quando papai morreu que eu descobri que ninguém escapa da morte. Foi algumas semanas depois, quando morreu Dórian, meu peixinho imortal.

Ganhei Dórian de meu pai quando tinha quatro anos. “É um peixinho imortal, filha”, disse. O nome foi ele mesmo quem deu. Falou que era nome de um personagem de livro famoso, belo e imortal como o peixinho. De lá para cá, não posso dizer que tive momentos extraordinários com Dórian. Apesar de bonito, inteiro vermelho e com longas barbatanas, não deixava de ser um peixe, que nadava e comia e só. No entanto, posso dizer que ele sempre esteve lá.

Eu entrei para a primeira série, fiz amigas, odiei garotos, cresci, entrei para a quinta série, comecei a gostar de garotos, fiz inimigas, dei meu primeiro beijo, fui ao meu primeiro show, tive meu primeiro namorado, voltei a odiar alguns garotos, fui para a Disney, me formei depois da oitava série, e Dórian ainda estava lá. Quando eu contava às pessoas, elas não acreditavam. Um peixe ornamental daquela espécie vive em média três anos e pode chegar a, no máximo, oito, se bem cuidado. O meu já tinha mais de dez, e eu nem cuidava assim tão bem dele. “Ele deve ser mesmo imortal” eu pensava.

Dois anos depois, papai fez uma cirurgia complicada no coração e não sobreviveu. Por vários dias eu chorei e, depois disso, para que não cessasse meu pranto, foi Dórian que, em um dia frio, apareceu boiando no aquário. Só então minha mãe me contou toda a verdade.

Não havia existido apenas um Dórian, mas vários. Meu pai trocava o peixinho por outro muito parecido cada vez que parecia abatido, ou se simplesmente já tivesse vários meses de vida. Uma vez, ela contou, o peixe morreu de repente e papai saiu na madrugada atrás de outro, para que eu o encontrasse vívido e exuberante pela manhã. Era assim que ele cumpria o que havia dito, era assim que fazia de Dórian imortal.

Nos anos seguintes, não estava lá meu pai, mas estavam alguns homens tentando se passar por ele. Não foram poucos os namorados que minha mãe, bonita como era, trouxe para casa. Marcos, Fabrício, Daniel, eu nem me lembro.

O tempo vagou. Tomei meu primeiro porre, perdi a virgindade, comecei a fumar, passei no vestibular, beijei uma menina na faculdade, comecei a trabalhar, saí de casa, parei de fumar, me formei. E quem estava lá eram os namorados da minha mãe, constantemente substituídos, sempre gentis, querendo me agradar.

Hoje penso que seria melhor se ela tivesse continuado a trocar apenas o peixinho.

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Oh, o seu time campeão, sua escola na avenida

Foi bom que ela tenha morrido no começo do mês, porque aí pudemos depositar algum dinheiro numa conta de banco de um dos membros da família dela, o que pode não ter gerado conforto nenhum, mas claro que ajudou. Veja, querida, você sabe disso melhor que eu mas não custa repetir: toda ajuda nessa hora é válida, ainda que ela seja exclusivamente financeira.

O dinheiro não foi muito. Coisa em torno de R$ 300. Não pude me dar o luxo de fugir do meu orçamento mensal dessa vez (a viagem de férias e a classe média: tema pra uma outra hora menos triste), e é por isso, suponho, que fogões e geladeiras são feitos para durar pelo menos mais de um mês, assim como carros e televisões. E já que falo de suposições digo mais. Acredito que esses produtos poderiam durar mais tempo, talvez vidas inteiras, mas isso é especulação somada à uma vontade boba e pessoal. A propósito, um dos meus casais de avós gostava de falar sobre a “eternidade” do amor deles, como se existisse mesmo sentimento que resista a tudo, sem guardar relação qualquer com as conveniências da vida, ou sem que esteja influenciado pelas ondas que ela propaga e é. Nunca acreditei neles quando falavam disso, mas não costumo acreditar nas palavras de muitas pessoas. Pelas pessoas e pelas palavras, que valem menos que as pessoas e menos que dinheiro, e menos até que o conforto de sentar numa boa poltrona, ainda que você sente numa delas para ler palavras num livro ou numa revista ou num almanaque ou num site, ou para ouvir palavras numa conversa com alguém de que gosta.

O que importa é que estou sempre atento às palavras, mas estou ainda mais atento ao fato de que elas não valem muito, se é que chegam a valer alguma coisa em alguma instância da sensatez. Aliás, sensatez é uma bela palavra, não?! Não sei. Eu acho. E prefiro a palavra ao ato.

Funerais custam caro. Já viu? Sim, pois se as empresas funerárias fazem, na verdade, um dos trabalhos do diabo sobre a terra, nada mais justo que cobrar muito por isso. Não deve ser fácil viver cada hora maldita tendo que se reportar ao inferno. Cada um dos minutos deve ser difícil. Cada um dos segundos, e até os intervalos entre eles. Em alguns momentos, sempre tão fugidios quanto o vento, deve ser insuportável trabalhar nesse negócio.

Ninguém paga uma empresa funerária para cavar um buraco, tapá-lo ou para escolher flores adequadas, nem nada disso. Paga-se pelo tempo dos profissionais da obra. Poucos querem se preocupar com a morte num tempo como o nosso, tão feliz, esperançoso e tão cheio de palavras que acalentam os corações cansados e enganam os desavisados. As palavras, de novo. E outros funerais, que hão de vir e vão.

Paga-se caro nestes casos, também, por causa de métodos comerciais estranhos que algumas empresas do segmento praticam, mas isso é tema pra outra hora, durante um café, quando desconfiarei de tudo que você disser e espero que você faça o mesmo quanto às minhas palavras. Uma hora de investigação policial dedicada e cuidadosa, empreendida por policiais que tenham bons hábitos de sono e alimentação, e que estejam contentes com os próprios salários e estilos de vida deve resolver o caso das funerárias, mas nós temos muito o que dizer um ao outro sem precisar nos preocupar com esse tipo de tema, mesmo que passemos por ele por acidente em alguma altura da nossa conversa animada e ansiosa.

Quanto a ela, a morta, era isso. O que você acha? Existe mesmo outro lugar além daqui? E pode dizer o que quiser, mesmo que eu duvide.

Não vou te visitar nessa semana. Talvez nem nesse mês, na verdade, mas podemos conversar pra descobrir quando poderemos nos atualizar um sobre as atividades do outro. Inventemos um dia fatídico e feliz para nós, afinal.

Saudades de você – mas não devia admitir, acho.

Do seu (com medo da formalidade excessiva, pelo momento pesado demais pros meus ombros tão cansados de carregar o peso do mundo e das dores).

Daniel.

Marco Antonio,

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Forte e sem açúcar

Já fazia muito tempo desde que Dona Alice pedira, com a voz baixa e suave, um cafezinho à aniversariante e ainda não o recebera. Pessoas sentaram-se à mesa com ela, comeram, beberam, experimentaram as famosas sobremesas da anfitriã, levantaram-se, outra rodada de pessoas seguiu o mesmo fluxo, e Alice continuava com a sensação de garganta seca e cabeça pesada. É como quando você acorda esperando que o dia seja maravilhoso e ele não é, simplesmente porque você esperava que fosse. Parte das coisas boas da vida está no inesperado e, a essa altura, nem o melhor café do mundo vai superar o amargor daquela demora. Depois de tantas artrites, Alice achava uma falta de caridade fazer um ser humano passar tanto tempo esperando por um simples café. Preto, forte e sem açúcar, como havia sido a vida inteira.

É um fato bem conhecido para essa senhora, de que quando se chega a certa idade e ela fica aparente em sua pessoa, o velho vira também um ponto turístico, tal qual as pirâmides, as torres e os monumentos. As pessoas olham, admiram e ficam se perguntando como aquilo, depois de tantos anos, continua de pé. Alice, que já não se levanta com a mesma facilidade de sua juventude, aproveita a curiosidade alheia para lembrar e se felicitar com a própria vida, como quem relê continuamente o mesmo livro porque já não há mais tempo para começar um novo.

– 97 anos. Eu acho que é isso. Deve ser 96 ou 97… Não lembro se já fiz aniversário esse ano. Isso, foi 1915. Você é bom pra fazer conta de cabeça, heim? Sabia que eu era professora? Me aposentei aos 43, sem nunca ter uma falta e nenhum aluno reprovado. Depois eu fui dar aula de piano, pra ocupar a cabeça, sabe? Mas foi aí que eu me encontrei. Passava o dia inteiro ouvindo e tocando os meus queridinhos. Você conhece Strauss? Ahhh, então eu vou pedir pro meu filho gravar um disco pra você. É maravilhoso.  Eu ouço todo dia, antes das minhas orações. Meu filho? Tem 55, o meu menino. Só tive um, sabe? Pra poder educar direito, e ensinar tudo com bastante cuidado. Agora eu tô morando com ele, porque ele é medico e insistiu que era pra poder cuidar de mim. Assim é bom, né? Ainda tenho umas coisas pra ensinar pra ele, e posso ficar perto dos pequenos. Ele é tão atrapalhado, que é capaz de qualquer dia fazer miojo na panela de pressão hahaha. Ainda bem que tem o moço que cozinha pra gente lá. E o meu café, heim? Ainda não trouxeram. A sua esposa está aqui? Ela não é ciumenta? Ah, que bom… tem muita mulher ciumenta hoje em dia. Sabe, eu fui casada por 52 anos, 1 mês, 14 dias, 6 horas e 28 minutos e desejo que vocês sejam tão felizes quanto eu fui. É fácil, viu? Só precisa ter paciência, porque ninguém é perfeito. E estar com alguém que goste de ler. Você gosta de ler? Que bom! Eu conheci o meu velhinho numa praça, num dia lindo e ensolarado. Como todo bom romance, né? Eu estava lendo Dom Quixote quando ele sentou ao meu lado e falou a minha parte preferida do livro: “Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade”. E aí eu fiquei toda apaixonada, porque quando você encontra alguém que gosta do mesmo livro que você, é como se tivesse reencontrado um amigo de infância depois de muito tempo. Por mais que ele não saiba da sua vida hoje, vocês continuam compartilhando uma história. E depois disso eu compartilhei uma vida inteira com aquele homem que fez a minha história ser um sonho. Ahhh, chegou meu cafezinho! Nossa, não deu nem uma xícara! É por isso que eu te disse, moço: só precisa ter paciência, porque senão você nunca chega no felizes para sempre. E se é pra parar o livro no meio, é melhor nem começar.

André Petrini

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mel gibson

Escorre dos telhados pras paredes, inunda os vãos entre as pedras das calçadas, alaga becos distantes e avenidas movimentadas com a mesma vontade, encharca as roupas de transeuntes, faz os que ainda não saíram de casa pensarem se precisam mesmo fazê-lo, manda fechar vidros de carros, ônibus e táxis. Em fúria, abafa as vozes usando a própria e, em paz, traz a noite mais cedo quando quer.

marco antonio

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a disputa

Odeio errar.

Não erro, pra não odiar.”,

pensou a senhora, nesse formato gráfico e com essa pontuação. Ela era agora dada a pensar em e através de versos, e cometeu ou um raciocínio de hipocrisia, ou de sátira ou ainda de completo desprendimento às picuinhas da vida, sendo esta última a hipótese mais provável, já que a ideia de desapego a agradava mais que tudo naqueles dias.

Mas quem vê de fora costuma não saber de nada”,

pensou um senhor, vizinho de porta dela, de forma alheia ao que se passava no apartamento ao lado.

 

marco antonio

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a ética secreta dos garçons

Meio dia e quatro. Depois do badalo atrasado no sino da igreja vazia, passamos a ouvir a conversa de um casal. Eles trocam palavras e ideias sobre eternidade, amor, vida, itinerários de ônibus, shows recentemente cancelados na cidade, interpretação de sonhos, felicidade e outros conceitos tão etéreos quanto a neblina. A praça voltou a ser bem vista pela população depois da reforma que a prefeitura realizou no lugar: os bancos estão intactos, as flores ainda não foram pisoteadas e nem as placas de trânsito atropeladas por gente bêbada ou drogada.

Os donos de comércio dos arredores estão felizes com a lucratividade das próprias atividades, algumas ilícitas. Os preços que eles praticam são em geral baixos, mas isso não abala a saúde de seus negócios, já que não é só de coxinhas, pastéis e sanduíches que eles vivem.

Dois mendigos passam por ali, assim como um carrinheiro, quatro catadores de latinhas e três pessoas que estão procurando crack para comprar. Uma criança de oito anos de idade está vendendo a pedra maldita em uma das esquinas, mas ainda não foi avistada pelos possíveis clientes.

A energia do ambiente é estranha, e mais emprega força sobre os transeuntes do que é gerada pela somatória das forças deles (eis um mistério do meio dia).

Os jovens do casal falam, pausam, pensam. Falam de novo. Mais falam e falam de novo que pausam e pensam.

Meio dia e onze. O tempo passa e foge para além de onde as almas alcançam. Sabe-se que estes minutos são preciosos como diamantes, como o casal, também como os mendigos, os catadores de latinhas, os comerciantes, os viciados em crack, a criança que está vendendo o produto, os motoristas de ônibus, seus colegas cobradores e os passageiros.

O que explica este cenário?

Prefiro responder esta pergunta com outras perguntas.

 

Marco, o Antonio.

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Carne e sangue, osso e sonho

Ela entrou num ônibus rumo à residência de um casal de amigos que moram na zona norte de Curitiba. A viagem partiria do centro e seria mais uma vez rápida e tranquila, não fosse o que foi.

Era uma tarde quente de sábado, e lá ia a jovem para essa reunião na qual fariam, os três, coisas que amigos fazem, como rir de bobagens e entrecortar momentos descontraídos com conversas sobre vida, morte e tudo que acontece entre nosso começo e nosso fim.

Resolveu descer do ônibus três quadras antes de onde normalmente faria, para caminhar um pouco, esticar as pernas e aproveitar o efeito do vento ameno que batia naquele dia de tanto calor. Mas havia um problema na área do gramadão de uma esquina, que antecede, no sentido do trajeto que ela estava percorrendo, três quadras de futebol de areia e pequenas lojas que se sustentam devido à quase autossuficiência comercial que pairava sobre aquela vizinhança, como se um manto de prosperidade tivesse se instaurado ali, a despeito de explicações lógicas e a favor da felicidade de quem residia naquele pedaço mágico do mundo.

Haviam 27 homens de idades variadas empunhando facas na área logo a frente, e eles não estavam poupando ninguém que passava por ali de sua violência, tão imensa quanto as intenções dos que amam ou o desespero de quem não o faz. A cena era bizarra, porque eles não praticavam sequer o esforço de correr atrás de suas vítimas, preferindo, ao invés disso, que elas viessem a eles enquanto sorriam descompromissadamente. O sol se escondeu atrás das nuvens para não presenciar aquele fato tão estranho e, em decorrência disso, o lugar passou a emanar uma energia de medo, ansiedade e principalmente histeria, curiosamente silenciosa. Todo mundo que estava ao lado da moça precisava passar para lá, mas o preço para que isso acontecesse estava bastante claro e não era nada justo. A ameaça era evidente e todo mundo ia ter que sangrar para atingir aquele objetivo. O que sempre pareceu simples havia agora se tornado inalcançável, e uma força estranha impelia ao fracasso todos que ousavam tentar o sucesso naquela empreitada.

Ela congelou. Viu uma senhora de 60 anos ser esfaqueada por entre as costelas do lado esquerdo do corpo e resolveu ligar para os amigos, já que lhe ocorreu que a mera presença deles resolveria a situação. Parecia óbvio que eles saberiam como tirá-la daquela, como já souberam outras vezes em outras circunstâncias, e como haveriam de saber em tantas outras no futuro.

Mas a tremedeira nas mãos a impedia de acertar as teclas do número desejado no telefone. Resolveu desafiar o bom senso e começou a correr para lá, tentando se esquivar dos possíveis algozes como podia, num grande jogo de damas, já que a relação entre o jogo de xadrez e a morte já foi uma analogia melhor explorada em outras situações. Não foi atingida, mas quando chegou à última linha de seus potenciais assassinos, não teve forças para finalmente passar para a área segura que eles escondiam por detrás de olhares hipnóticos e determinados. Voltou ao ponto de partida, ainda muito nervosa. Encarou os homens mais uma vez.

Acordou e se viu flagrando formas ambulantes pelo quarto.

Aquelas paredes já somam mais de 50 anos de idade, e nunca haviam parecido tão ameaçadoras quanto pareceram naquela madrugada. As cortinas azuis escondiam uma noite enorme do lado de fora, e um inegável espírito de desamparo do lado de dentro. Ela voltou a dormir, depois de certo esforço. Jamais compreenderá plenamente o que se passou naqueles momentos eternos dentro do universo paralelo em que os sonhos existem e nos acontecem.

 

Marco Antonio.

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Mas, tarde da noite

A casa tem três quartos, uma cozinha pequena, um quintal grande e uma parede com pintura tão gasta quanto as palavras. Essas paredes não falam, e é melhor que seja assim, porque senão iam ter aberto um berreiro pra expulsar os atuais locatários, quando de um aniversário que terminou com uma viatura de polícia na porta por causa do barulho, seis meses atrás. Hoje é a última noite desse time, pelo menos ali.

Festa de despedida: todo mundo parece feliz, mas é só bebida.

Todo mundo parece meio igual no escuro, de forma que Aldinei demora um pouco para distinguir Zélia entre os 62 presentes. Ele a procura há dez minutos, perambulando por todos os cômodos, enquanto finge que procura, na verdade, pelos donos da festa, para agradecer pelo convite, desejar boa sorte na nova empreitada deles, ou outra bobagem desse tipo. Todo mundo sabe do caso de Zélia com Paulo, menos Aldinei. Uma pena. Mas ele vai encontrar o amor verdadeiro. Não hoje, claro. Daqui um ano e pouco, numa aula de ioga. Está escrito. Ele encontra Zélia chorando num canto de um quarto, e dá um oi meio tímido, esquisito. Aldinei jamais terá o prazer de conhecer um bom método para começar uma conversa interessante com alguém que está chorando.

Todas as malas estão feitas, e todos os móveis foram hoje mais cedo num caminhão de mudanças da empresa que fez o melhor preço dentre as consultadas. A falta de geladeira na festa é compensada por gelo e caixas térmicas, que muitos trouxeram de casa. Um monte de gente não trouxe nem gelo, nem caixas térmicas, nem bebida, e foram orientados a comprar alguma coisa num posto de gasolina 24h a algumas quadras da casa. Há também quem não beba. Mas estes costumam se virar bem. Alguém pegou um batom e resolveu escrever numa parede. A imobiliária vai citar isso no relatório de vistoria de entrega do imóvel.

Quadros: nunca tiveram.

Flores: dois arranjos artificiais, que estão indo para o novo endereço em alguma caixa.

Tapete: um, que ficava na sala, e que hoje fede a urina. A peça foi doada pela mãe de um dos três locatários. A história da urina aconteceu há cinco semanas, mas não é engraçada.

O ambiente. O clima. Há sofrimento, alegria, tristeza, sensações de culpa por motivos variados. Saudade, curiosamente ou não, quase não há. Música alta. Duas pessoas vão começar a considerar o suicídio a partir de hoje, mas só uma delas, uma moça, vai de fato tirar a própria vida, daqui seis anos, já sem lembrar de nada desse evento. Ela vai pular na frente de um ônibus. Bem feio. Uma enfermeira vai descer do coletivo, só para constatar o óbito, tão óbvio. Triste, triste.

Oito casais se formarão até o fim da noite. Por fim de convenção, digamos que um relacionamento sério dura mais que dezesseis semanas. Nesse parâmetro, apenas dois desses novos pares terão sucesso. Três casais vão se separar hoje, ou em decorrência dos eventos de hoje. Uma moça vai alegar que o namorado dela gasta muito tempo com pessoas “nada a ver”, seja lá o que isso significar. As fotos de hoje deles juntos, no entanto, estão saindo todas muito bonitas.

Uma das meninas que está na casa passou o dia procurando emprego em restaurantes do centro. A experiência profissional dela se resume a uns dias na cozinha de uma ONG, mas ela foi bem instruída pela mãe nos truques da culinária barata e saborosa. Ela cozinha melhor que conversa. Sendo assim, não soube expressar que vagas a interessavam. Ofereceram a ela funções de assistente de cozinha e caixa, sendo que a atividade de caixa pagava ligeiramente melhor. Um cara ficou de ligar para ela até daqui quatro dias, se os chefes dele gostarem do currículo. Faltam 26 minutos para ela ver e se interessar por um cara meio esquisito, que cantava numa banda emo chamada Fullminant Heart Atack, fundada em 2011, já alguns anos depois do estouro do fenômeno ultraconfessional da música adolescente. A música que o grupo produzia não passava de um simulacro, quando não pura cópia, de tendências rítmicas e melódicas de grupos que fizeram relativo sucesso em círculos restritos. Esse jovem, autonomeado Jay, ainda que Jonas seja, merece um espaço maior, mas não hoje. A moça não é lá tão interessante assim, apesar de que se esforça bastante para parecer. Ela desce a escadaria e mistura vodka com alguma coisa num copo de plástico, momentos antes de lembrar que está sozinha e sem muito o que fazer. Acontece, sobretudo quando a noite é perfeita para a busca do amor.

Aldinei decide ir embora, mas não vai.

Um grupo conversa de forma animada e pretensiosa sobre os “rumos das coisas, tipo arte, e… sei lá, saca?” no quintal. A conversa não leva ninguém a lugar algum, e serve mais para que estes jovens exibam supostos conhecimentos aos pares. O momento é mais interessante que importante. Um deles acaba de ver a primeira namoradinha por acaso, num ônibus, apesar de que a expressão namoro não tenha muito a ver com relacionamentos entre crianças de sete anos. Ele se pergunta agora pra onde ela foi, onde mora, o que fazia ali, e esse tipo de coisa. Se tivesse perguntado diretamente pra ela não estaria com o assunto na cabeça. Mas que seja, e que fosse. Ela mora no lugar de sempre, a propósito.

A festa segue sem grandes sobressaltos, numa fiel representação da vida.

Marco Antonio Santos

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