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Lágrimas no Paraíso

Poucas coisas poderiam estragar o paraíso de Maragogi, com suas águas em tons de verde-olhos-de-top-model, piscinas naturais com peixes de cores que parecem só existir ali, e o céu incansavelmente azul. É abduzida por este cenário que Cana Chorona vai morrendo sua vida, vertida em lágrimas a se arrastar pelas areias claras, implorando por um copo de bebida, um pedaço de peixe ou um afago para seu coração.

Chorona desde sempre, Dolores passou a ser a Cana há 11 anos, junto com a conta que abrira em todos os três botecos do vilarejo. Antes disso, trabalhava na vila dos pescadores consertando as redes que prendiam nos recifes ou fazendo artesanato que seria levado para venda na capital, à época ainda pouco desenvolvida no turismo. Seu marido levantava-se antes do sol e partia em uma pequena jangada, que após os dias de tempestade não comportava toda a sua sorte. Ganhara a embarcação aos 14 anos, como presente de seu pai. Se na época representava a liberdade contra o marasmo das areias de fogo, com o tempo passou a ser sua independência das cooperativas e locadoras de barcos que ficavam com grande parte do lucro dos pescadores. Após a desvalorização e o pescado valendo menos que chuveiro elétrico no deserto, o barquinho era suficiente para garantir o sustento sem conforto de sua esposa e filho. “O amor é todo luxo que nós precisa”, dizia afagando a cabeça do filho ainda novo, que não entendia por que eles não poderiam ter um ventilador igual a todas as casas da redondeza, para aliviar o calor de todo dia que chega e rouba a disposição de viver.

Foi na noite anterior aos seus 13 anos que o filho decidiu aproveitar a tempestade que se autoanunciava, para “pescar mais peixes do que tem no mar”, e surpreender a todos com o tamanho da sua ventura ainda tão novo, e que, com a ajuda de Iemanjá, haveria de ser suficiente para comprar um ventilador para a casa e um vestido de missa novo para sua mãe. Saiu ainda noite, com as estrelas encobertas, a lua tímida e os pássaros quietos. O vento agitava os coqueiros e bagunçava ainda mais seu cabelo opaco, mas jogava a água em sua face, molhando seus lábios rachados e revelando a sensação de aventura que bem conhecia de contos dos velhos pescadores.

O dia amanheceu cinza e por todos os cantos via-se gente arrumando os estragos da chuva nas casas e armazéns da região. A pequena igreja ficara totalmente destelhada, e a chuva acabou com os bancos recém adquiridos pelo Padre A., que todos começavam dizer, já contabilizava decepções demais na vida para ter que aguentar mais essa. Os moradores corriam em suas casas na tentativa de salvar uma cadeira aqui, uma muda de roupa lá, e foi por volta do meio-dia que Dolores percebeu um estranho silêncio pela vila, que embora aparentasse um cenário de guerra, estava manco de uma voz aguda de sotaque arrastado, que vinha dia após dia às 11:40 lhe perguntar se teriam pirão para acompanhar no almoço. Olhou pela porta o grupo de meninos que brincava na areia, mas eles não tinham visto seu filho naquela manhã. Saiu com passos cada vez mais apertados perguntando a quem encontrasse pelo caminho, mas a resposta era sempre a mesma. Voltando para casa, já num misto de desesperança e inquietude, resolveu passar pelo cais torcendo para perder a viagem, pois sabia muito bem que se encontrasse o que buscava, todo o resto estaria perdido. Seu coração de mãe desesperada lhe sufocava o peito a cada pulsada, como se tentasse fugir garganta acima e correr em busca do filho na frente do corpo, que lutava para arrastar os anos de má postura e noites na rede, de modo que Dolores teve que parar algumas vezes para respirar e só então continuar aquela maratona de 700 metros entre sua casa e o cais.

Quando chegou ao local, as ondas ora rebatiam com brutalidade, ora voltavam a amaciar as areias com cuidado materno. O cenário também era de caos, e vários barcos estavam aos pedaços. Pescadores se desesperavam pela já certa perda que teriam na temporada, pois ainda que conseguissem reformar as embarcações, não seria feito a tempo de abastecer a cidade durante as abundantes cheias. Mas embora a maioria dos barcos estivesse despedaçado, ainda era possível distinguir cada um deles e fazer a contagem a que Dolores se apressou a fazer, sofrendo um tanto a mais a cada barco que encontrava e não distinguia as letras de seu nome na lateral, sinal daquela singela homenagem que seu marido lhe havia feito. Dois barcos a menos, e não havia recontagem que corrigisse a falta. Além do “Dolores da Saudade”, também faltava o barco do sr. H., um homem de meia idade que surgiu no povoado enquanto caminhava sem rumo. Falava pouco, mas era de bons modos, de forma que foi prontamente acolhido pelos outros pescadores. H. sumiu naquela noite de tempestade com seu barco, e só foi visto novamente 16 anos e alguns meses depois, quando reapareceu na cidade com o mesmo barco que todos lembravam (tirando por uma falha na pintura aqui e outra lá, como se é de se esperar depois de tanto tempo), contando uma história para justificar seu sumiço que poucos acreditaram, mas ninguém se sentiu no direito de questionar.

Nos dias seguintes ao temporal, partes do “Dolores da Saudade” foram aparecendo pelo litoral de Maceió e as notícias chegavam a Dolores como flagelos que descascam a pele e corroem a carne. “E o meu filhinho? Meu menino tava junto? Vocês deram um pirão pra ele? Deve de tá com fome, tadinho do meu menino. Ele tá bem? Cadê ele, ‘cê já vai trazer?” E corria olhar para fora da casa, a verificar se lhe esperava ali, como a fazer uma surpresa daquelas que aumenta a expectativa pra aumentar o sabor, mas ele não estava, e não esteve nos vários meses seguintes, aos quais bastava que alguém passasse perto de sua casa para que Dolores corresse derramada em lágrimas ao abraço fantasma do filho semi-vivo que sumia à primeira vista.

Os amigos, preocupados com a situação da mãe que se recusava a acreditar no destino do filho, providenciaram uma despedida simbólica, com flores e uma muda de roupa do garoto sobre uma jangada que seria entregue a Iemanjá, assim como o menino havia feito com a própria vida. Na noite depois da cerimônia, Dolores saiu correndo pelas areias e por toda parte se ouviam os uivos de sua tristeza, que se arrastou por todo o litoral e em outros estados também foi se conhecendo sua história. A caminhada durou vários meses sem nenhuma notícia para o marido, que se abatera em uma depressão mortal com a certeza de ter também perdido a esposa, e quando ela voltou para casa já não era mais a pessoa a quem amara. Os meses de caminhada pelo litoral a gritar pelo nome do filho sem se alimentar, tomando cachaça para matar a sede do corpo e do coração levaram consigo o olhar de esperança, a pele brilhante e os cabelos negros.

Os anos passaram sem que Cana Chorona percebesse. Morria seus dias andando sem rumo pelas praias, e não raro seu marido era chamado em cidades próximas para buscar a esposa caída, resmungando, babando, espantando os turistas que “estavam lá para curtir o paraíso e não para lembrar que a vida tem dessas”. Estes mesmos turistas que não eram capazes de enxergar além daquela imagem decadente, e nem teriam a obrigação de fazê-lo, alguns dirão. Turistas que, se entre um gole e outro de suas caipirinhas atribuem aquele descontrole à fraqueza humana, ao sistema político, ao desemprego, aos capitalistas, à peguiça, tão logo alguém venha tirá-la dali, voltam à paz de suas férias. E nunca, nestes 11 anos de sua morte lenta, houve sequer um passante que a visse e pudesse imaginar o sofrimento que lhe revirava o estômago como tubarões destraçalhando o pescado no oceano a lhe inabilitar à ação. Em tempo algum houve sequer uma pessoa que pudesse ver aquela imagem e imaginar que um filho, ao morrer, leva junto a vida de sua mãe.

escrito por André Petrini.

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Autobiografia de um Eu lírico

da Carol

Meu nome, hoje, é Miranda. Surgi num ônibus lotado do entardecer. Fazia frio e não havia banco vago para me sentar, mas certamente eu estava melhor que a mulher ao meu lado – vestia salto e saia, e senti por suas pernas. Não me entendam mal, gosto muito de usar saia (quando não faz frio), mas não de salto alto. Também não gosto de usar brincos grandes, já que tocamos no assunto.

Já fui várias mulheres e ainda hoje me desafio em novas experiências para descobrir qual delas sou eu, e do que realmente gosto. Estive em festas com luzes que apagam e se acendem, onde não conhecia ninguém a não ser as amigas que estavam comigo, vestidas no estilo mulherão, que, segundo percebi, nada tem a ver comigo. Todos dançavam músicas que não escuto se tenho opção de escolher, mas por birra comigo mesma aguentei várias vezes até o nascer do sol. Conheci homens mais concretos que abstratos, debatendo (logo comigo!) carros, marcas e coisas tocáveis. Desconfiei ter um tino emocional, pois aquela racionalidade me entediava.

Precisei fazer isso algumas vezes, de salto alto e brincos compridos, e ouvir muito sobre carros e marcas, para descobrir que nada daquilo me fazia bem.

Mas se vou a um boteco sem muito luxo, desses em que todos são amigos de gole, íntimos na desgraça e nas comemorações, sinto algo um pouco diferente, e muito mais agradável. Parece conforto, ainda que precise levantar-me para pegar meu copo e o dono do bar não tenha receio de ralhar comigo porque não apaguei a luz do banheiro, ou porque estou falando muito alto (se, porém, eu fico muito tempo sem aparecer, ele esquece que é ranzinza, pergunta por onde eu estive e me cumprimenta como a uma velha amiga). Eu me sinto à vontade e vou logo pegar meu copo, porque ali não tem garçom.

Meu corpo me agrada e, sem muita paranoia, caminharia nua por aí se decretássemos o fim das roupas, mas nem sempre foi assim. Por muito tempo usei calças compridas, até descobrir que não gostar das pernas de fora me era uma afronta. Como poderia ser o máximo de mim se inventava problemas com meu corpo? Hoje, basta um sol tímido para pôr as pernas em liberdade. Nem meu narizinho adunco me incomoda, e já não me preocupo em perder peso ou com as molinhas do meu cabelo. Este é o suporte que minha alma tem. Que sorte a minha, ter um corpo para mantê-la segura, sem explodir-se por aí.

Sei também que gosto de engrossar os cílios e de sair com a boca bem vermelha, mas ao mesmo tempo sinto um prazer imenso em esfregar os olhos em liberdade, e sugar o mundo e mordê-lo e beijá-lo sem que isso me manche as bochechas. Por isso, às vezes, mantenho a cara limpa.

Que palavras me fazem bem eu sempre soube. Gosto do seu efeito quando se juntam, e algumas frases são realmente orgasmáticas. Ouvi Chico cantando a alguns metros de distância um verso que dizia assim: “Prometo te querer até o amor cair doente”. A canção parecia já ser famosa, porque o público cantava junto. Eu não a conhecia. Tão linda que o mundo parou de girar. Chorei até ele se despedir.

Diariamente eu descubro algo novo sobre mim, e sempre que isso acontece eu ressurjo mais forte. Percebi que viver se torna menos sofrido a cada vez que reconheço nova característica. Há pouco me tornei vegetariana, mas demorei a admitir que não precisava de carne, afinal. O caminho a nós mesmos é tortuoso e nos traímos todo o tempo. Finjo não perceber que o trabalho no escritório de contabilidade me faz mal, me reprime a liberdade e tolha a expressão do que sinto. Das oito às dezoito, meu tamanho diminui, mas volto lá todos os dias. Não me conheço por completo, ou teria coragem para não retornar.

Uma pena que precisemos tanto de dinheiro. Ninguém sabe quem realmente é, ou não fariam coisas que não gostam de fazer por causa do salário no fim do mês ou do faturamento anual. Tantas árvores e cachoeiras, e nós pensando em dinheiro.

Ninguém se conhece o suficiente.

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O outono levou o meu amor

postado por André Petrini. 

Essa nossa vida gosta mesmo de um romance, né moço? Lembro como se fosse ontem da última viagem que fiz com o meu velhinho. Era um mês de maio bonito, com as folhas caindo para anunciar o outono, e nós achamos que conhecer Buenos Aires seria uma boa comemoração para os nossos 58 anos de casados. Sabe, o Bernardo, o meu velhinho, conseguia fazer até mesmo uma ida à panificadora ficar mais interessante, e sugeriu que fôssemos em segredo, sem contar a ninguém. “Igual fazíamos naquela época…”, ele disse. E eu aceitei. Eu sempre aceitava.

A verdade é que “naquele tempo” ainda tínhamos alguém de quem fugir, mas depois que envelhecemos acabamos sendo a família um do outro. Nossos poucos amigos se foram antes de nós, não tínhamos irmãos e nunca conseguimos ter filhos. Não que não tivéssemos tentado, porque com a energia que ele tinha ficávamos dias e dias sem sair do quarto. Também éramos muito saudáveis (ele comia um limão todos os dias em jejum, pra renovar as vitaminas) mas aconteceu de nunca acontecer. Sabe como é a vida, não adianta ficar forçando as coisas, né? Um dia, quando ele percebeu que aquilo estava me deixando deprimida, voltou mais cedo do trabalho com um buquê de rosas brancas, uma caixa do meu chocolate preferido, e falou que o nosso amor era igual àquele chocolate: tão grande e tão gostoso, que provavelmente deveríamos guardar só pra nós dois. Devia mesmo ser verdade, e eu acreditei. Eu sempre acreditava.

Que que eu tava falando mesmo? Ah sim… nosso vôo fez uma conexão no Uruguai – é conexão que se fala, né? – e o vôo para Buenos Aires atrasou por causa de uma bendita chuva. Eu estava cansada do vôo anterior, e aquelas cadeiras duras do aeroporto estavam me matando! Ele falou que eu não precisava me preocupar, que era pra eu ficar ali esperando enquanto ele ia descobrir o que estava acontecendo. E eu fiquei. Eu sempre ficava.

É incrível, moço. Você passa 50, 60 anos ao lado de uma pessoa, ela sai por 5 minutos pra ir ao banheiro e você já sente saudades. É como se o amor fosse tão urgente, que todo o resto pudesse esperar. E enquanto meu Bernardinho tentava descobrir quando que a gente ia sair daquele aeroporto-país, eu fiquei ali esperando, tentando confortar os meus 75 anos naquela cadeira mais dura que rapadura amanhecida. Ele jurou que não levou mais de 10 minutinhos, mas pra mim demorou mais tempo que a viagem inteira. No início eu achei que ele tivesse parado pra tomar uma água, ou não estivesse entendendo o que as pessoas estavam falando, porque lá embaixo só o Brasil que fala português. Os vizinhos todos falam um espanhol indígena meio arrastado. Mas ele começou a demorar mais, e mais, e você sabe como é a imaginação. A gente sempre pensa no pior. Comecei a imaginar que ele tivesse passado mal, caído em cima das garrafas de whisky caro, tido um ataque do coração, ou valha-me Deus o que mais poderia ter acontecido. Tinha um casal novinho, novinho sentado ao meu lado esperando o mesmo vôo, e percebeu a minha preocupação. Eles tentaram me acalmar, falando que se tivesse acontecido alguma coisa com ele teriam avisado no microfone. É por isso que essa juventude de hoje está estragada, eles acham que está sempre tudo bem. Mas o meu velho poderia ter morrido e eu nem ficaria sabendo, moço! Não era pra ficar preocupada? É o homem da minha vida, eu me preocupei. Eu sempre me preocupava.

Depois disso vi ao longe um homem de cabelos brancos, óculos antigo, jaqueta marrom, calça social, olhando para todos os lados sorrindo e andando meio arqueado, com as mãos cruzadas pra trás – ele dizia que era porque o coração dele era muito grande, então tinha que balancear o peso com as mãos. Aiai meu velhinho… – você tem um lenço aí, moço? Obrigada. As cataratas dificultaram um pouco pra ter certeza que era ele, mas era. E quando eu tive certeza, não sabia se ficava mais aliviada por ele estar bem ou brava pela demora, até que ele chegou dizendo “Amorzinho, o avião vai atrasar mais um pouco, mas está tudo bem. Eu trouxe um chocolatinho pra te deixar mais feliz.”. Acho que eu vou precisar do lenço de novo, moço. Agradecida. Tem como não se emocionar com um homem que depois de tantas rugas ainda te chama de amorzinho e traz chocolate pra ver você sorrir? Eu me emociono. Eu sempre me emocionei.

Algumas semanas depois de voltarmos da viagem o coração dele parou mesmo, e eu entreguei meu velhinho pra Nossa Senhora cuidar até eu chegar lá. Eu fiquei meses sem sair de casa, e estes 3 últimos anos duraram mais que uma vida, até que eu percebi que teria que reaprender a viver. Sabe, tudo de novo? Reaprender a pegar as cartas, a ir comprar pão, a sair na rua sozinha, a ligar a televisão no horário da novela, e a comprar o meu chocolatinho. E a cada vez que eu fazia isso, podia jurar que escutava ele falando “Parabéns, amorzinho” no meu ouvido, como ele sempre fazia. A verdade é que a gente nem percebe o quanto depende de uma pessoa. O meu Bernardinho me ensinou a ver a vida de um jeito mais encantador, mesmo depois de não estar mais aqui. E é por isso que eu estou indo levar as cinzas dele pra jogar em Paris, a cidade mais romântica do mundo. Ele merece, né? Ele sempre mereceu.


Ô moço, agora é você quem está precisando do lenço. Toma aqui. Obrigada, viu?

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Anos míopes

por André Petrini.

Shangai, 11 de maio de 2209.

Alice,
hoje faz 8 anos, 5 meses e 13 dias que completei 30 anos e me privaram de te ver crescer, para vir a este lado do mundo pagar os anos míopes de intolerância e escravidão que nossa raça impôs a estes povos, hoje mais amargos que chá de Xia Ku Cao. Você está completando 10 anos, e gostaria de te contar como era o mundo antes de virar este caos.

Tenho certeza que na escola você aprende sobre este período pela ótica oriental, mas saiba que nem tudo era ignorância, e o racismo não era aceito por todos. Pelo contrário, muitos de nós, como o seu avô e bisavô, tentavam ao seu próprio modo trazer um pouco de dignidade e respeito aos que geralmente não tinham isso garantido pela sociedade. Você com certeza já ouviu sua avó falando do Sr. Lee, um chinês muito magro que chegou à nossa casa em busca de abrigo, fugindo de uma fábrica escravocrata.

Nós nunca soubemos seu nome verdadeiro porque, hoje entendo isso na pele, quando se é submetido a regimes de ódio em período integral, tende-se a desconfiar até mesmo de quem te estende a mão. Sempre o chamamos de Lee porque foi uma das poucas palavras que meus pais compreendiam de seu dialeto, e nos anos seguintes ele nunca fez questão de dizer seu nome verdadeiro. Provavelmente um jeito de não nos colocar em perigo caso alguém descobrisse seu paradeiro.

Sr. Lee chegou à nossa casa faminto, doente, vestindo trapos e muito assustado. Nos primeiros dias mal conseguia mastigar e era impossível dizer a cor de seus olhos, e até mesmo se ainda os tinha, tamanho era seu receio de olhar em nossa direção. A ponta de seus dedos já não tinha mais as impressões digitais, suas costas eram profundamente marcadas pelo couro do açoite, e sua perna direita era curvada para dentro, resultado de uma fratura não tratada. Eu ainda era criança, e às vezes ficava intrigado espiando aquele homem de tamanha magreza que tinha seus ossos cobertos apenas pela fina camada de pele, parecendo um esqueleto vestindo pele humana.

Quando Lee se recuperou, meu pai conseguiu um emprego para ele na empresa que trabalhava, e os dois passaram a ir e voltar do trabalho juntos, formando a amizade que você com certeza já ouviu falar. Até hoje me lembro da felicidade estampada em seu rosto quando voltou para casa com o primeiro salário, e quis guardar tudo com medo de ser escravizado novamente. Levou um bom tempo até que conseguisse usar o dinheiro para comprar alguma coisa que não fosse extremamente necessária à sua sobrevivência, e quando o fez, foi para trazer uma bola de futebol nova para mim. Dizia, em sua mistura de mandarim aportuguesado, que agradando o filho se agrada ao pai.

Aqueles foram bons anos para a sociedade de uma forma geral, mas nós não sabíamos a que custo isso estava sendo executado. É difícil dizer como passou despercebido pela maior parte de nós o fato de que nossos povos escravizavam seus semelhantes do outro lado do mundo, em busca de recursos naturais e mão de obra barata. Nunca fora tão fácil comprar roupas, sapatos, eletrônicos, carros, e até apartamentos novos, e ninguém fazia questão de perguntar quem pagava pela diferença.

O resto você já deve ter ouvido falar. Um grupo de chineses escravos conseguiu se comunicar com outro grupo, que se comunicou com outro grupo, e explodiram três fábricas que juntas, concentravam 75% da produção mundial de energia. Alguns grupos de negros, judeus, homossexuais e indianos se juntaram aos chineses e deram o golpe dos até então marginalizados. Com o resto do mundo enfraquecido, a Revolta foi rápida. Mas ao contrário das Guerras anteriores, a única opção que nos foi dada era a de submissão, e a partir de então, todo homem com 30 anos ou mais seria levado para trabalho forçado em suas fábricas. Vivendo tanto tempo escondidos da sociedade, com condições mínimas de sobrevivência, não entendiam como o dinheiro lhes poderia ser mais útil do que limpar a honra dos anos que lhes foram roubados.

Alice querida, não tenho mais muito tempo para continuar a carta, mas apesar de tudo isso não quero que sinta raiva deles. Pelo contrário, peço que seja gentil e amorosa com todos que estão ao seu redor e lembre que se esta carta pode chegar até você, é porque a família do Sr. Lee é grata ao seu avô. Se não o tivéssemos acolhido quando bateu em nossa porta, talvez hoje eu não pudesse te dar os parabéns mais este ano. A nossa distância é grande agora, mas isso é para nos encontramos em tempos melhores, onde a felicidade é plena e constante para todos os povos, porque só assim vale a pena ser feliz.

Feliz aniversário.

Beijos, papai.

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Delírios de um daltônico

escrito por André Petrini

Semana passada, em uma noite quente como abraço de mãe, acordei sobressaltado por uma questão que me manteve acordado por horas: qual é a cor do infinito? A princípio o pensamento me encheu de culpa, por estar considerando banalidades enquanto sacolinhas plásticas, carregadas de más intenções, destruíam o meio ambiente na calada da noite. Mas que se danem as sacolinhas. Neste momento o que destrói o meu ambiente é a dúvida daquilo que nunca me perguntei. Qual é mesmo a cor do infinito?

Ainda sentado na cama, começo a notar um som de tambores que parece estar ali já há algum tempo, mas só agora me conquista a atenção. Ao passo que o som vai aumentando, consigo distinguir notas dos foles irlandeses, e agora os passos ordenados de várias pessoas em ritmo de marcha militarista, se aproximando cada vez mais da minha janela. Olho para o lado a procurar minha mulher, que não está em seu lugar. Nem poderia, já que estou em uma cama de solteiro. Mas tenho certeza que quando acordei, ela estava ali. A cama de casal, não a Marci… sinceramente não me lembro se Marcela ainda estava lá quando acordei.

Antes que eu pudesse ficar pensando sobre o paradeiro do outro lado da cama, as baterias, foles, gaitas e botas explodiram em versão Sapucaí, até que dois homens muito magros e ágeis entraram correndo em meu quarto, dançando ao passo da música, me pegaram pelos braços e me vestiram com uma roupa muito colorida. Aquilo estava ficando cada vez mais estranho. A roupa era muito mais colorida do que deveria ser e se estou correto, cada membro era representado por uma cor, mas a cada passo que eu dava as cores se embaralhavam, mudando de lugar. Percebi que a roupa dos dois homenzinhos também fazia isso, com a diferença que permaneciam em escalas de cinza, então se eu tinha o braço direito em amarelo e o esquerdo em vermelho, para eles um era 70% preto e outro 30% branco.

Os dois continuavam me puxando pelos braços, correndo por todos os cômodos da casa, dando 3 voltas no quarto, 2 na sala, 8 na cozinha – só agora percebo que eles talvez estivessem com fome -, 1 volta no banheiro, e mais 2 no quarto que agora tinha um berço de madeira no lugar da cama de solteiro. Eu já estava ficando tonto, mas queria muito ver o rosto do bebê que chorava naquele espaço apertado. Na primeira volta passamos perto, mas o móbile pendurado ao teto ficou bem na minha frente, e só consegui enxergar aquelas duas mãozinhas levantadas. Na segunda ficamos um pouco mais afastados, mas tive a nítida impressão de que o pequeno tinha uma câmera nas mãos, e posava para uma foto que ele mesmo batia e sim! Era sim uma câmera, porque logo depois teve um flash.

Quando a câmera abriu o obturador, houve um estrondo que fez a banda lá fora se calar. O flash inundou o ambiente com uma luz branca que cegava tanto, que meus olhos pareciam ter dado voltas ao redor do próprio eixo, e agora olhavam para dentro da minha cabeça. E o que eu via dentro da minha cabeça? Toda esta cena se passando em câmera muitíssimo lenta, mas ao invés de minha casa, estou em um infinito branco, onde todo o ambiente e todos os móveis são brancos. Na hora pensei que aquilo parecia o Mar de Leite do Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira, e instantaneamente todo o chão começou a desmoronar, me fazendo cair, indo em direção ao céu. Era como voar, mas eu estava caindo. Era como cair, mas eu estava indo para cima. Entende?

O que eu sei, é que tudo aquilo durou mais tempo que uma partida de futebol que vai para os pênaltis. Quando eu finalmente parei de cair, dei de cabeça com um navio, também branco, navegando pelo mar de leite sem fim. Embarquei com a ajuda de alguns passageiros – foram precisos muitos deles, porque todos tinham uma das mãos ocupadas segurando seus bilhetes-, até que subi, me sequei e instantaneamente um bilhete apareceu na minha mão. Assustado, joguei para fora do navio, mas antes que fosse levado pela correnteza, reapareceu colado em minha mão. Todo meu esforço em soltá-lo foi em vão, porque quanto mais eu puxava mais ele se grudava, como naqueles truques de mágica. Derrotado por um pedaço de papel, resolvi perguntar o destino daquela navegação a um dos passageiros que assistira deleitado à minha cena patética. “Vamos pro infinito, ué”, disse apontando para o ticket em minha mão. Conferi, era verdade. Falta muito pra chegar?, perguntei. “Já chegou desde sempre”.

E lá estava eu, no meio do infinito branco, decepcionado por não receber uma resposta filosófica, ou mesmo ter encontrado um caleidoscópio mágico que criasse cores em vending machines de 1 nickel. Percebendo a minha cara de criança que ganha roupa no Natal, ele me deu um tapa na cabeça e falou “Ô besta, acorda! Pra encontrar o infinito, não basta olhar pra dentro”. Assim, pegou meus olhos e os desvirou, mostrando o mundo de antes, mas agora diferentemente igual.

E então, acha que eu devo parar de tomar refrigerante Diet, dr.?

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