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Sedução comum (só, sempre só)

por Rafael

a caixinha de madeira envernizada
guardada na segunda gaveta do
criado ao lado direito da cama
contém pilares pra realidade
silenciosamente frágil
e desesperada

dia
após
dia:

alguns comprimidos de Viagra
outros gramas de Cocaína.

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no centro do palco

por Rafael.

o tempo não hesita
em nos tornar

coadjuvantes

de nossos
próprios

de
fei
tos.

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Passo adiante

por Rafael

A vida muda, muda e minha força não se faz valer. Uma nova perspectiva e volto a ser o pequeno indefeso de anos atrás.

Dias, anos, em busca de ser, convicto de que chegaria a algum lugar, e agora obrigado a admitir que sempre estive a caminho de lugar algum. Pilotando uma transformação desnorteada, à deriva em um mar desconhecido.

Ainda que tenha gastado grande parte de minhas forças em negar, alegando uma convicção qualquer, tudo sempre escorreu com o tempo.

Escrevi uma vida inteira sem saber ao certo o porquê. Poucas vezes tive certeza de minhas linhas. Não sei ao certo por que me escondi tanto tempo atrás das letras. Talvez na esperança de que elas sobrevivessem à minha morte. Bobagem.

Nada é imortal, sequer as palavras escritas. Esse nosso-mundo-inteiro um dia será engolido pelo mesmo sol que nos aquece hoje. Todas nossas histórias e construções serão consumidas. Eu, você, nós. Tudo será nada. Sequer lembranças irão restar.

Certo disso, sigo com um coração envenenado pela indiferença. Já esquecido pelo mundo.

A vida segue como eu jamais houvesse existido: os carros continuam a rosnar uns para os outros, as pessoas continuam a se evitar, o sol continua a nascer e as estrelas a gritar, e apenas alguns a perceber.

Poucos têm tempo para ver a vida acontecer.

Talvez a vida tenha sido sempre isso: uma sucessão de eventos maravilhosos e desastrosos que engolem a gente a todo momento. Algumas vezes estamos mais sensíveis e nos deixamos contagiar.

Dificil-
mente
temos
tudo a
tempo.

O que tenho agora é uma visão noturna da minha janela. A mesma perspectiva dos últmos já-não-sei-quantos-anos. Muita coisa mudou, mas a madrugada continua a mesma.

O cheiro de tabaco sempre me visita. Jamais soube quem é o vizinho insone que fuma insistentemente em alguma outra janela de solidão.

Queria eu uma companhia agora. Pra tragar, beijar, apanhar. Uma interação que fosse. Algo ou alguém que reagisse às minhas pulsações. Meus gestos.

Em algum momento esqueci que a vida é a eterna transformação. E que quando nos esforçamos em negar isso, perpetuamos nosso sofrimento.

Sigo aqui, mergulhado em uma solidão que é mar para toda a tristeza que escorre pelos rios da alma, enquanto espero por algo que me convença a desprender do passado.

Afrouxar a corda que se ajusta em meu pescoço a cada certeza de que jamais conhecerei a verdade sobre o que não vivi.

Espero um retorno, uma chegada. Algo que devolva a força. Não uma qualquer, mas aquela que nos mantém em pé. De olhos no céu para perceber as estrelas gritarem, o sol se pôr e, com uma piscadela, deixar combinado que amanhã tem mais.

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paranoia

por Rafael

horas com o celular na mão, contando as vezes que Você fica online no whatsapp sem falar comigo.

hoje, 17, até agora.

fosse eu até o final destas linhas, 20.

quem tanto
a tem?

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Um todo de mim

por Rafael

Quando a chuva começou a cair naquele sábado a tarde, todos se encolheram sob marquises e toldos para se proteger. Eu saí para me encontrar.

Voltava para casa depois de almoçar naquele buffet por quilo atrás da catedral. Não o caro, mas aquele com preço honesto, comida sem graça e gelatinas sem gosto ou mamão picado descongelado como sobremesa.

O almoço mais uma vez pesava, não por satisfazer, mas por ser quase recusado por um estômago mal tratado. Pouco me importei. Acabei me acostumando a conviver com desconfortos e seguir em frente, como viver fosse isso mesmo. Uma pena.

Por não ter pressa e já não haver mais o que molhar, me permiti prolongar o caminho até a rua dos ipês. Sempre adoramos aquelas flores, lembra? Fazíamos o caminho mais longo para voltar pra casa, pois o tempo nunca é pouco quando estamos plenos.

Passei por lá e tudo parecia parado no tempo. Inclusive eu, que pude sentir sua mão segurando a minha enquanto olhava aquelas árvores que gritavam todo um passado que me engolia.

Olhei para o chão e tudo o que via eram as cores vivas daquelas flores mortas. Bonito.

Um tapete de flores amarelas e roxas, molhadas, para eu passar. Ainda assim, mortas.

Sua mão já não segurava mais a minha.

Passei pelos ipês, assim como o passado deveria ter-se-ido. Vim embora, subi as escadas e um cheiro de fritura aguçou ainda mais minha memória. Por um momento tive certeza de que o cheiro vinha do nosso apartamento. Seria bolinho de chuva.

Sua mão segurou a minha novamente e juntos subimos até o terceiro andar. Porta número 34. Levei a chave à fechadura, girei. Acho até que fechei os olhos enquanto abria a porta. Apertei sua mão, entrei e percebi: o cheiro não vinha dali.

O apartamento permanecia vazio. O cheiro por ali era do abandono que me consome. Da solidão que me afoga desde o dia em que você pegou aquele ônibus para voltar pra casa. Voltar pra mim. Aquele ônibus que nunca chegou. Que ficou naquela ribanceira. Com você. Com um todo de mim que já não encontro mais.

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Em algum lugar algo nos espera

por Rafael

Após anos morando nas ruas, chego à conclusão de que pressa e vida pouco se dizem respeito. Durante anos corri atrás de prazos e metas para um futuro em que o mundo estaria ao meu alcance. Mas só agora, sentado à margem desta calçada, sinto que finalmente alcancei minha vida.

Aqui como, durmo e faço tudo o que vocês fazem em suas casas. Talvez com a diferença de que quando acordo querendo ir ao banheiro eu preciso andar dois quarteirões (até a praça).

Precisei de tempo e paciência para conseguir a paz que me permite estar. Dia após dia vaguei por quase todos os becos desta cidade.

Quando somos jovens, confundimos constantemente o medo de ficar, com  a vontade de estar em todos os lugares. E nos projetamos mundo afora, endurecendo a cada esquina. E era isso o que eu sentia: medo de estar só, comigo.

Fingia buscar algo ou alguém, quando apenas evitava olhar o espelho. Forjava uma eterna busca, quando no fundo estava em fuga.

Do que fugi primeiro?

Das primeiras fugas de minha vida, já nem lembro. Mas tenho silêncios e dores do dia em que me deparei com o pavor que me fez fechar a porta da casa que construí com minhas próprias mãos durante três anos. Nunca mais voltei.

Era tarde, era sol, 8 de agosto de 2010 e aniversário de quatro anos do casamento mais lindo desse mundo: meu e de Irene.

Era também dia dos pais, mas a data nunca me trouxe alegria, apenas a esperança de que no ano seguinte eu teria um pai. Jamais aconteceu.

Naquele domingo, mesmo sem um pai, eu estava feliz. Trabalhei normalmente no posto de gasolina, até as três da tarde. Completei o tanque de uma meia dúzia de famílias em festa. Coloquei vintão em carro de gente nova em busca de vidas inimagináveis, e às três e vinte já estava diante do portão preto de nossa casinha branca.

Trazia na mão uma flor pra Irene. Dessas que caem das árvores e nos encontram na rua.

Entrei. O silêncio da casa era comum nos dias em que Irene dormia depois do almoço. Mas a cama estava arrumada.

Sobre meu travesseiro solitário, um bilhete escrito em azul, com o típico garrancho de Irene: “Não me procure, por favor”.

Pouco entendi e saí procurando pela casa. Sala, banheiro e cozinha eram tudo além de nosso quarto. Nada.

Sobre o fogão, uma única panela. Na tampa, um novo bilhete, também em azul, aparado por uma colher: “Meu último feijão, pra você”.

A panela estava morna, o feijão estava fresco. Irene teria saído umas duas horas antes. Pra onde? Nunca poderia saber. Jamais iria contra as vontades de Irene.

Comi o que pude do feijão ali, em pé, diante do fogão impecavelmente brilhoso.

Tapei a panela, virei as costas, andei até a porta da sala, saí e fechei. Sequer tranquei. Deixei as chaves por lá. A rua agora seria a minha casa.

Não poderia viver em um lugar que respirasse Irene. Sufocaria. Seria engolido pela morte daquelas paredes brancas.

Em três meses foram quatro cidades. Perambulando por ruas, endurecendo a cada esquina. Para que seguisse sem jamais contrariar Irene.

A dor da solidão me destruía a cada segundo. A cada lembrança de um passado que não resistiu, do pai que não veio.

Até que pude admitir que estava sozinho no mundo.

Uma vez li uma entrevista com uma escritora famosa que dizia que o ser humano é um ser solitário. Que cedo ou tarde se descobriria só, no mundo. Era eu.

Sou eu. Sem a pressa de ser.

Desde então, leio sempre os jornais do dia anterior, que pego no lixo. Sem problemas, pois a vida não tem pressa. As coisas de ontem ainda existem hoje. O tempo corre apenas pra quem foge do amanhã. Ou: “O tempo corre com a gente junto”, como dizia Irene.

Cuido dos carros que estacionam aqui na rua só quando preciso de algum trocado. Sinto é nojo daquela cara de medo que as madames me olham, sempre abraçando as bolsas, como aquelas merdas de couro e marcas valessem alguma coisa pra mim.

Já tive vergonha de pedir dinheiro por aí, mas não tenho mais. É uma atividade tão humilhante quanto a de todas as centenas de pessoas que passam aqui, diante do meu colchão, todos os dias. Com a diferença de que elas se sentem dignas por possuírem uma carteira assinada em troca do tédio diário e café morno na garrafa térmica.

Muitos têm pena de mim. Passam e me olham com piedade, virando o rosto se eu retribuo o olhar. Já não lembro do último sorriso que me dirigiram.  Sequer “bom dia” recebi essa semana. Nem ligo mais.

De lá pra cá, deixei de correr atrás de um tempo que não chegaria, pois somente com calma conseguimos viver no presente, sem atropelar os nossos sonhos.

Sim, gente. Morador de rua também sonha.

Já sonhei em reencontrar Irene numa esquina improvável qualquer, ter uma nova casinha, montar família, ser pai, levar meus filhos pra Disney, mas hoje não. Sou desses solitários, que gosta de se ouvir no silêncio entre os desesperos das ruas.

Nunca mais vi Irene, nem voltei na nossa antiga casa. Mas ainda lembro do gosto daquele último feijão e dos silêncios que inundaram tudo por lá. Lembranças.

Lembranças que chegam até mim neste dia dos pais de um ano que já não me importa qual é.

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Renúncia

por Rafael

Pode parecer tarde demais, ainda que eu duvide que o presente possa estar atrasado em relação a alguma coisa. Renunciar ao que dedicamos a vida inteira pode parecer desperdício de todo o passado, mas estas linhas são as últimas que escorrem de mim.

Gastei meus dias, um a um, buscando me encontrar através das palavras e o que tenho hoje são papéis e mais papéis rabiscados, além de um vazio cotidiano que não me preenche.

Dia após dia me escondi e reservei o melhor de mim às frases. Verbos guiavam sujeitos em uma busca desesperada pelo direito a um adjetivo qualquer.

Reservei minhas paixões mais violentas para os livros e aqui estou, diante de milhares de páginas desconexas, que já não me dizem respeito.

Algumas poucas pessoas tiveram acesso à minha intimidade, mas resisti. Resisti e blindei  possíveis cumplicidades.

Noites em claro buscando descrever o abstrato e acabei por sufocar minhas próprias paixões. Deixei para amanhã.

Trago na memória uma relação (não muito longa) de amores-não-vividos, que por muito tempo me bastaram, me convencendo de que bastaria que os descrevesse. Gozava nas entrelinhas.

Tudo passou. Os sequer-amores, as linhas, os verbos, os sujeitos. Restei.

Por isso me encerro-só nestas linhas, mas não para viver. Apenas para me entregar. Me retirar.

Já não possuo forças, sequer vontades de outrora.

Tento me convencer da sinceridade que apliquei em minhas opções, que me trouxeram a este não-lugar.

Deixei um pouco (mas muito pouco) de mim em cada interação, em cada palavra. Sei que jamais terei certeza de possíveis acertos em minhas decisões. As escolhas simplesmente são, acontecem. Nós é que as classificamos como certas ou erradas de acordo com os frutos colhidos.

Por isso, aqui me encerro. Já sem muito ao que me entregar, já sem me reconhecer nestas linhas que me sequestram de minha própria existência.

Às dores e sequer-amores que me consumiram, a eterna gratidão. Foram os sentimentos que mais tiveram de mim.

Ainda assim, se tornaram linhas escritas. Ficando em um passado que, ai, jamais alcançará o amanhã.

Assim como eu, que me encerro no vazio deste ponto final.

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Porém

Rafael

“A alguma coisa devemos nos dedicar nessa vida, para não ficarmos tão passivos, à deriva de um mar que, no fundo, não se importa conosco”. H. escreveu estas palavras em um guardanapo, dobrou e guardou no bolso-interno-esquerdo de sua jaqueta jeans.

Sem saber se algum dia entregaria à moça que almoçava à sua frente, se ela existiria além daquela mesa, sequer se ele mesmo voltaria a olhar aquele papel rabiscado, empurrou o prato meio vazio, levantou e foi embora sem olhar para trás.

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Noites de nós

Rafael

Andar a essas horas na rua é um quase-não-existir. Próximo à meia-noite, as ruas são um vazio que nos engole.

A uma hora dessas temos medo de encontrar, de dar de cara com alguém, ao dobrar uma esquina. Sensação lamentável a de ter medo de encontrar o outro, se deparar com o desconhecido.

Saudade dos tempos em que o medo que sentíamos era do vazio, do escuro, das coisas que não existem fora da nossa cabeça. Uma simples lâmpada acesa no final do corredor era o suficiente para garantir que as ameaças ficassem aprisionadas no longescuro.

Mas hoje não. São lâmpadas, infinitas delas acesas, iluminando meu caminho até em casa, tingindo de alaranjado todo um universo vazio que me preenche de angústia com a eminência do encontrar.

À noite não confiamos em ninguém. À noite somos todos suspeitos.

Cruzamos com desconhecidos olhando de lado, disfarçando um certo não-se-importar. Cinco passos à frente, uma olhada por cima do ombro para garantir que o estranho, o outro, vai mesmo se desfazer na noite profunda.

É quase engraçado pensar que posso gerar aquele frio na barriga de alguém que dá de cara comigo ao dobrar uma esquina despretensiosa. E pensar que durante o dia passo invisível por dez, cem, milhares de pessoas naquele mesmo dobrar-de-esquina. Sequer me perceberão.

São infinitas histórias que perambulam por aí. Encolhidas à noite, se esforçando ao máximo para não interagir com as demais, também retraídas, que correm escondidas até o conforto de sua solidão-lar, onde pretendem não encontrar ninguém, para mais uma noite apagar todas as luzes e sonhar com o que retraiu dentro de si o dia todo.

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É preciso burilar-se

por Rafael

Uma vez mais me encerro em meu quarto para escrever uma das já não sei quantas cartas-que-jamais-lhe-entregarei, pois qualquer coisa é melhor do que ficar calada.

Tenho todas elas guardadas na primeira gaveta ao lado da minha cama. A parte mais organizada do meu quarto. Talvez da minha vida.

Ainda hoje revirei sua biblioteca e os papéis que você tanto escrevia. Tento me encontrar nas suas linhas (tão tortas). Sei, mas tento me esquecer, que muitas delas não foram escritas pensando em mim, mas ignoro, pois só eu chego a elas. São minhas.

Em que momento nos perdemos destas linhas? Onde a vida começou a desfiar?

Vivemos à espera de um marco, um triunfo, uma derrocada que sinalize um fim que insistimos em esconder. Blindamos nosso presente ignorando que ele se esvai a cada momento e é substituído por outro agora que, ai, passou.

Quanto de mim já se foi? Quanto ainda me resta? Não nos preocupamos com isso porque temos o conforto de que no final tudo dará certo, sem levar em conta que, no fundo, o que existe é o caminho até lá. Por onde tenho andado?

São sempre tantos por quês, que nos damos ao luxo de achar normal o fato de que algumas perguntas não possuem mesmo respostas.

Hoje passei em frente ao seu trabalho e pensei em entrar. Ir direto à sua sala, sem me identificar a seguranças, secretárias, a ninguém. Pular a catraca e correr até a última porta do corredor.

Abriria a porta sem me importar com mais nada. Contaria o quanto eu sofri, cresci, me iludi, caí, reconstruí e só então pude perceber que você jamais sairia de dentro de mim.

Assim como diariamente me espremo até caber nas suas entrelinhas. Me vejo (e odeio isso) regar minhas letras com lembranças de você.

Escrevi isso e sorri. É quase um ódio o que sinto ao perceber o quanto meu corpo reage sem pensar, como fosse um motim. Há coisas que guardo comigo e finjo esquecer, escondendo de mim mesma.

Há dias em que me sinto fraca e sem razão para existir, como as flores que não cheiram. Como pode tudo estar tão fora do nosso controle? Já não me preocupo com os motivos pelos quais você se foi. A pergunta agora é “Quando você começou a ir?”

Hoje, entre seus papéis, uma folha em branco, com uma única frase no meio, me dizia: “é preciso burilar-se”, com a nota de rodapé mais bonita do mundo. Era o seu nome desenhado dentro de um córrego que corria para fora do papel.

Te vi como um rio. Indo, escorrendo, sempre tão independente do que lhe possa aguardar na próxima queda. Um rio jamais deixa de escorrer por temer sua foz.

Quando finalmente consegui sair daquele rio, que sequer cheguei a mergulhar, me vi envolvida pela fumaça dos cigarros já sem vida no cinzeiro. Era como o nevoeiro do seu rio ao amanhecer.

Escrever pra você é minha maneira de burilar-me, de fortalecer o meu caminho. Já não tenho nada a lhe esconder. Amontoo estas cartas que me acompanham há quatro anos, desde aquele dia que era vencido pela escuridão e seu caixão entrava no forno que lhe levaria às cinzas que hoje adubam nosso jardim. Ele está lindo, aliás.

As begônias estão como as de Macondo, como as imaginamos-um-dia-juntos, como quando enxergávamos o mesmo horizonte, sempre tão distante.

As cartas compõem meu testamento, que pretendo queimar comigo, com sua biblioteca, com esta casa que grita seu nome a noite inteira, e assim nos tornaremos uma coisa só, adubando este jardim. Pois é preciso burilar-se.

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Portas são para o quê

Por Rômulo

Daqueles momentos que mudam uma vida. Tudo faz sentido de um jeito estranho, tudo se encaixa e se explica automaticamente. Um momento intenso, solitário mas compartilhado.

Falemos, Luisa, sobre portas. Ignorar portas não significa nem que elas estarão fechadas e nem que elas estarão abertas: é uma questão de deixar que elas cumpram a sua função. Portas, diz um poeta, são pra conter ou deixar passar. Quando se quer passar, basta girar a maçaneta ou apenas escancarar (no caso de a porta estar apenas encostada). Essas são as portas ignoradas. As portas que apenas estão ali, destrancadas ou até encostadas, pois acreditamos que algo em algum momento pode entrar, algo que faça sentido e tenha um significado.

A porta que reservo pra você é uma dessas. É uma porta enorme, de um tamanho até meio desproporcional. Veja, essa porta nada mais é do que uma construção – ela tem o tamanho do seu tamanho dentro de mim –, e esse tamanho no momento é indiferente. O mais importante agora, Luisa, é que você saiba que essa porta está sendo ignorada. Quando quiser passar, fique à vontade. Se quiser nunca mais entrar, está permitido também. É uma conclusão meio melancólica, eu sei, mas quem foi que disse que melancolia é ruim? Sempre entendi melancolia como um conceito relacionado à mudança, à desconstrução, e azar o seu se quiser ir procurar no dicionário só pra me contradizer (o que seria bem a sua cara).

Confesso que chorei. Mas foi um choro tão saudável que você se surpreenderia. Foi um choro de melancolia aos meus moldes. Me bateu um arrepio, me bateu uma dor (que eu achei exagero, verdade) e uma alegria que nem sei de quê. E, com isso tudo, sinto que cresci.

Não te cobro mais,
pelo menos não deveria.
Não te ligo mais,
pelo menos não deveria.
Nem espero nada,
ou, pelo menos, (tenho a impressão de que) não deveria.

Vai com Deus (nunca escrevo Deus com maiúscula, mas você gosta que eu sei). E não esqueça que essa porta sempre vai estar ali, encostada.

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Entre as estrelas

por Rafael

Eram 18 horas de mais uma quinta-feira, daquelas que não se diferenciam em nada das outras quintas. Ventura estava na rua, saindo de seu emprego burocrático. No peito, um único sentimento: mais um dia vencido. Mal sabia ele que, na verdade, era um a menos.

Saiu na rua com as mesmas mãos nos bolsos e cabeça baixa de sempre. Não precisava olhar para frente, pois o trajeto até sua casa contaria com o mesmo roteiro de sempre: passaria no mesmo mercado de sempre e compraria a mesma cerveja de sempre, que, como sempre, não beberia até o final e jogaria o resto no mesmo terreno baldio de sempre. Caminha por estas oito quadras todos os dias.

Perdera o prazer de realizar o seu trabalho há cerca de quatro anos; uma semana depois que começou a lidar com as planilhas. Era um trabalho como outro qualquer, daqueles que fazem parar o relógio.

Eu poderia dizer que o tédio reinava, mas não, era uma quinta-feira como outra qualquer: Ventura passou no mesmo mercado de sempre e comprou a mesma cerveja de sempre. Mas, desta vez, talvez por tédio, talvez por distração, tomou tudo. Virou a lata e entornou a cerveja boca a dentro. Sem querer olhou o céu e lá estavam as estrelas. Milhares delas.

As estrelas sempre estiveram ali, sempre observaram o seu tédio, silenciosamente. Ventura parou, chegou a babar um pouco da cerveja já meio quente mas não se importou, até sorriu. Ficou parado, olhando para o céu que estava ali para todos, mas era percebido só por ele-só.

Ventura decidiu continuar seu caminho, pois a vida continuava, mas não pôde tirar os olhos daquelas estrelas, que já não estavam tão distantes quanto antes. Estava entre elas.

Dobrou por esquinas que jamais havia passado e, ao retornar seus olhos para o chão, não reconheceu nada ao seu redor. O espanto e o medo que deveriam surgir, desta vez, deram lugar à curiosidade. Ventura se viu instigado e feliz em meio ao novo.

Era a rua paralela à da sua casa. Um universo que sempre existiu, mas Ventura não possuía olhos para nada que não fizesse parte de sua rotina dura e cinza. Deixara de re-conhecer as cores-novas-de-novos-universos desde que Mariana deixou de conduzi-lo pelas mãos, transmitindo uma segurança capaz de fazê-lo explorar o desconhecido de olhos fechados.

Pela primeira vez, desde a partida de Mariana, Ventura sentia o prazer de conhecer, de descobrir o novo, ou até mesmo de inventá-lo. Voltou a sorrir sozinho, até cantarolava músicas que jamais teria coragem de cantar fora de sua casa cinza. Estava sozinho, mas com o mundo, com o novo, com as estrelas. Só ele sabia e isso bastava.

Nenhum detalhe passava despercebido. Nas casas, pais iam chegando, uns abraçando seus filhos, alguns já com uma cerveja em mãos, relaxando o dia burocrático que certamente haviam tido. Ventura contemplava tudo. Era uma estrela.

Percebia que, para o amor, não seriam necessárias duas pessoas. Não sempre.

“Vocês assistem a isso todos os dias?”, perguntava às estrelas, que brilhavam como resposta, “Em dias nublados a vida de vocês deve ser um tédio daqueles!” e elas continuavam lá, brilhando com aparente indiferença.

Ventura teve certeza de que jamais retornaria das estrelas e queria saber de Mariana, para lhe dizer que a entendia. “Se ela ao menos soubesse que eu enxerguei”.

E assim Ventura foi, flutuando sem rumo por ruas desconhecidas, até que se deparou com a esquina da própria casa.

Foi como cair de outra galáxia ali, na mesma rua. A queda não doeu, mas  lhe custou as cores da percepção. Ali ele não podia olhar para as estrelas.

Colocou as mesmas mãos nos bolsos, baixou a cabeça e caminhou rumo à sua casa, como sempre, pois amanhã, às oito da manhã, começaria mais uma sexta-feira, provavelmente igual às demais.

As estrelas continuaremos aqui, todos os dias, mais próximas do que Ventura possa imaginar. O novo estará sempre o acompanhando, pois está dentro de si, mas seu coração está arisco desde que Mariana deixou de lhe guiar. Um coração quando está à caça de seu velho amor é cego para as novas coisas, que envelhecem sem que sequer cheguemos a tocá-las.

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Saudade

por Rafael

No dia em que a neve caiu em Curitiba, todos se perderam a olhar para o céu, inclusive as distâncias. Não havia estranhos, não havia frio. Todos compartilhavam o breve e hipnotizante momento.

Eram umas sete da manhã, não lembro ao certo, mas eu dormia. Aos poucos despertava do profundo sono num daqueles resgates em que a realidade parece nos puxar de nosso inconsciente. Eram gritos e vivas vindos de todos os lados, cada vez mais próximos. Aos poucos despertei.

Era a neve.

Pelo canto da cortina ao lado da cama, aqui do terceiro andar pude ver os levíssimos flocos, mais leves que o ar, pairando como houvessem escapado de alguma máquina de fazer algodões-doces.

Famílias inteiras corriam, desciam, subiam escadas, tiravam fotos. Crianças-com-caras-de-sono aprendiam que era extremamente empolgante ver a neve apesar do vento gelado.

Ninguém se importava com o frio. Todas as janelas dos apartamentos aqui em frente estavam abertas. De nome, não saberia apontar nenhum vizinho, mas todos extremamente sorridentes com as mãos para fora na esperança de pegar um floco que fosse.

A vizinha da janela da frente pela primeira vez me deu bom dia. Provavelmente ela já tenha me visto antes, devido à minha despreocupação em fechar a cortina do quarto. Deve saber das minhas manias e companhias. Confesso que já tentei vigiar a intimidade dela, mas sua cortina está sempre fechada. A não ser que neve.

No apartamento de cima, uma senhora de cabeça branca se apoia no parapeito, com os vidros fechados, com um olhar perdido, impossível saber aonde chega. A eternidade daquele olhar ainda me intriga. Um contentamento contido. Estéril e apático, como quem nasceu para ser-só.

Impossível descrevê-lo sem elementos daquela história por detrás da janela.

Essa nossa necessidade de compreender o outro me parece com nossos esforços em definir o desconhecido. Assim como chamamos de mar o que no fundo é apenas a sua superfície, apenas o que vemos. Tão passível da ação dos ventos.

Nunca mais vi alguém naquela janela. As cortinas sempre fechadas, dia e noite, me remetem sempre àquela manhã. Há dias em que fecho os olhos e sinto aquela sensação novamente. A vontade de compreender o que a velhinha via. Sei que minha projeção é vã. Sei que a realidade às vezes é apenas algo do nosso desejo.

Nessa madrugada fria de hoje, não tão gelada quanto aquela manhã, olho as mesmas janelas todas-apagadas-de-cortinas-fechadas e sinto uma saudade.

Saudade da cumplicidade que nunca mais tive por aqui. Mudo o foco do meu olhar e me enxergo no reflexo do vidro. Atrás de mim, um quarto como nunca antes bagunçado, que me engole mais e mais.

Sinto meu corpo preenchido por uma melancolia de tempos que não saberia precisar. Um preenchimento que nada-diz.

“A melancolia é um sorriso triste. Ainda assim, um sorriso”. Já não lembro onde foi parar o pedaço de papel engordurado em que escrevi, mas é algo que me conforta ainda hoje. Um conforto que me permite ignorar o mundo de dores que nos espreita além das nossas janelas. Assim como ignoro o fato de que adoramos um céu com estrelas de outras eras.

A tal da neve em Curitiba durou poucos minutos. Alguns sabedores vieram com seus saberes a dizer que aquilo não era neve, mas chuva congelada. Não sei.

Logo a neve e aquilo tudo passaram. Pouco a pouco todos baixaram seus olhares e voltaram a seus cotidianos cinzas engrenados até hoje, com pequenos lapsos de cores, quase sempre invisíveis para nossos olhos tão pequenos e apressados.

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Lembranças na janela

por Rafael

A chuva no vidro da janela não me deixa dormir. Me prende, me consome. Parece hipnotizar, como este passado que não me deixa seguir rumo a futuro qualquer. Gosto de olhar as gotas escorrendo, juntando umas com as outras e formando pequenos rios que escorrem em direções imprevisíveis até a borda, seguindo um caminho que já não acompanho mais.

Esqueço que por detrás delas existem dezenas de janelas de outros prédios, onde talvez alguém esteja a admirar suas próprias gotas.

O barulho da chuva sufoca o som provocado por pneus-desesperados sobre a água no asfalto. Sinto inveja de minha vó e suas histórias, com barulhos misteriosos que vinham de dentro da mata. Por aqui, os sons mais exóticos são os de pastilhas gastas a comer os discos de freio de um carro qualquer.

A chuva para e as gotas permanecem na janela. Algumas ainda escorrem, somam-se a outras e traçam um caminho até a base. Algumas permanecem imóveis, evaporando lentamente, refratando o alaranjado das luzes que vêm da rua.

Me aconchego no travesseiro com o leve e pleno sentimento proporcionado pelas gotas que me seduziram e escorregaram pelo vidro, levando um tanto de mim consigo.

Durmo leve por saber que minha alma cresce a cada pouco que se deixa levar com a chuva.

Agora, as gotas que ouço são as das calhas. Reminiscências da noite.

Pouco a pouco o sono vem e me encaminho a um dia que já não tarda a amanhecer.

Logo mais teremos sol.

Provavelmente nenhuma gota irá restar em meu vidro;
janelas e carros voltarão a ditar o som ao meu redor.

Enquanto eu-silenciosamente-desesperado olho para o céu em busca de nuvens que possam despejar suas gotas em minha janela novamente.

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Exercício de observação

por Rafael

De repente, como quem se descobre em um sonho, me via dentro de um aquário. Não. Não era bem isso. Aquários servem para assistirmos ao viver dos outros e não ao de nós mesmos. O lugar onde observamos nossa existência se chama espelho, ou, para os de maior criatividade, consciência.  Ilusões, talvez.

Verdade é que estive ali o tempo todo, perto de mim, prestes a me tocar. Num daqueles sonhos em que não conseguimos nos livrar de nossas limitações. Não me alcancei.

Gritei, e como gritei. Com todas as forças que jamais acreditei possuir, mas não era capaz de me escutar.

Peguei tudo o que tinha ao meu alcance e jogava em direção ao vidro, em direção a mim, em direção alguma. Como não soubesse o que estilhaçar, mutilava um tanto de tudo.

Busquei com todas as forças me entender em meio àquele aquário que jamais foi uma redoma, assim como eu, que jamais havia sido sincero com meu próprio existir.

Podia tocar o vidro, e tocava. Era um cristal fino, como tudo o que limita nossas vidas. Sentia o calor do meu corpo, que se escorava nos limites, sempre pelos cantos, guiado pelos medos-de-sempre.

Medos que só são visíveis aqui de fora, para quem assiste. Lá dentro, blindamos nossos temores com falsas cascas que fingem ser nossos-sólidos-pilares.

Guiado por desejos não vividos eu existia lá dentro. Eram eles quem ditavam minhas escolhas. O mundo lá dentro era limitado pelas inevitáveis estradas que sempre me levariam a destinos certos.

Além delas, campos. Campos indefinidos, que sempre me seduziram.

Aqui fora eu gritava, esbravejava, batia no vidro com todas as minhas forças. Os campos eram o meu caminho e eu sempre soube disso. Aqui e lá.

Por medo, parei.

Acordei.

Parei de bater no vidro, parei de andar pelos campos. O caminho agora me guia e eu me esforço em segui-lo.

Sóis, chuvas, amores, perdões.

Todos levam consigo um pedaço de mim.

Mas eu me recomponho, me reinvento, me sigo, me guio, me observo, me desespero.

Estou vivendo.

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