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Gente de bem não explica tatuagem

Toda festa tem suas peculiaridades.

Nessa, os presentes pegam os telefones dos bolsos e das bolsas para falar com gente que não está lá, para twittar sobre cada tópico discutido em tempo real, para atualizar seus status no facebook ou para usar outras redes sociais. Muita previsibilidade e elaborações banais sobre tudo e nada, como esta anterior, aliás. No salão enorme, mas pequeno demais para tanta gente que, ao menos autodeclaradamente, brilha, admitem inconscientemente que prefeririam outras companhias. Pelo menos neste momento, ou em todos os outros que ocorram dentro dessa noite tão pobre de emoções.

As mulheres e os homens são bonitos, ou estão arrumados, o que costuma ser mais ou menos a mesma coisa nesse tipo de contexto.

Representantes do empresariado local e dos poderes municipal, estadual e federal fazem discursos mais longos que os temas merecem. Mas disso eles não podem ser culpados, porque os discursos são sempre assim. São palavras e palavras e palavras e sorrisos e aplausos protocolares que parecem não ter fim e que conseguem irritar, mesmo que em pequena escala, 298 pessoas que os assistem (dentre um número total de 316 espectadores). Os discursadores no entanto acham que estão fazendo um trabalho agradável, mas disso também não podem ser culpados, já que a autocrítica nunca é a qualidade mais presente ou evidente no comportamento de quem quer que seja.

Definição boba da ideia de guerra contra o ego: é mais comum declarar que deflagrar.

Esta e outras frases feitas de palavras ao vento certamente continuarão vindo, carregando pesadamente conceitos batidos, verdadeiros ou não, mas que continuam a ganhar resistência com o tempo, curtidos em seus próprios usos irrestritos.

Já na porta, uma dupla de tequileiros faz um show pirotécnico para servir uma bebida que é etilicamente próxima do conhaque, do uísque, da vodka e da cachaça, mas que é apresentada como uma porta de entrada a um terreno de diversão descontrolada, passional, intensa. As razões para que isso aconteça são tão obscuras quanto os filmes de cinema e peças de propaganda que inicialmente começaram a difundir a ideia. Eles, os tequileiros, são pagos para emular o México que é visto nos filmes, que por sua vez emula o México da literatura criada por quem não vive no país, que por sua vez tem pouco ou nada a ver com o México de verdade. Não que seja necessário incutir qualquer suposta autenticidade num show assim, visto que a fascinação com o fogo e a atenção que gritos chamam jamais serão temas exclusivamente mexicanos.

Realidade, ou: uma construção de cuja origem ninguém lembra por razões mais óbvias que as culpas e os arrependimentos.

Pastiche torto. Um baile de máscaras sem música ou dança. Natimorto, então.

Muitos andam com um certo ar blasè pelo evento, apesar de estarem bastante interessados em fazer novos amigos, desde que estes sejam influentes em certos círculos da cidade.

Agora, os discursos acabaram, e iniciou-se o aproveitamento dos pratos e bebidas da noite. Esta degustação é o motivo da presença de quase todos, com exceção de um dos membros do poder municipal, que vê na parceria com os empresários que aqui estão uma plataforma eleitoral interessante e proveitosa o bastante para tirar-lhe de casa nessa data, que coincide com o aniversário do filho mais novo dele.

Daquele jeito:

ninguém é perfeito.

Ouve-se ao longe uma moça vociferando contra a configuração da sociedade, e contra a falta de oportunidades e condições iguais para que todas as pessoas possam se desenvolver bem e através dos próprios esforços. Ela acabou de ser filmada para aparecer na coluna social de um programa local de televisão, destes que cobrem este tipo de evento. Ela descobriu hoje que passará a ganhar um salário maior no emprego devido a uma promoção. A hipocrisia dos outros a irrita, só um pouco menos que a evidente falta de alguém qualificado para discutir o tema agora. Dessa forma, e a despeito de já passar da meia noite, liga para uma grande amiga, que vem a ser também sua manicure, toda vez que a agenda de ambas permite. E a agenda de ambas sempre permite, toda quinta-feira às 19h30, com raras exceções, a R$ 15,00 a sessão.

Serviçais servem serviçais que fingem não sê-los. Os serviçais que servem não conseguiriam garantir a estranheza dessa relação por causa da alta quantidade de trabalho para realizar. (A quantidade de atividades forçadas que alguém realiza é sempre inversamente proporcional ao tempo que se tem para refletir sobre a natureza delas, seja quem as pratica quem for). Mas os serviçais que estão sendo servidos sim, sabem que têm a quem se reportar em algum lugar, mas não gostam de pensar nisso. Em alguma instância, nem podem, pelo bem da continuidade de seus projetos pessoais de felicidade.

Um dos destaques positivos da noite é o sabor de um dos pratos. Trata-se de batata frita, mas com um molho de nome estrangeiro que ninguém conhece mas não tem desenvoltura para admitir. Muitos têm uma opinião bastante elaborada sobre a qualidade e o sabor deste molho, comparando-o ao original, (diz-se que) criado e servido num vilarejo na Itália. Lá, inclusive, ele parece ter algo a mais, talvez pela qualidade do terreno e dos tomates que são cultivados na região.

E a volta às obsessões, sempre as mesmas:

a penúltima linha, agitada.

A última linha, serena.

Marco Antonio Santos.

A parte um tem pouco a ver com esta, mas de qualquer forma está aqui: Gente de bem não fala esperanto

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Gente de bem não fala esperanto

Somos o fim da festa e, mais cedo, a alma dela. Somos a garça, o tigre, a serpente e as estrelas. A angústia infindável, o castelo de areia que desaba, a bolsa esquecida na cadeira do bar e a mochila no canto da balada. Somos a caminhada para dentro de um livro / dentro da noite veloz; o posto de gasolina que serve para abastecer veículos de bêbados e as contas bancárias dos frentistas que ganham o benefício do adicional noturno, ainda que este, somado ao salário de sempre, não supra todas as necessidades deles e de suas famílias. Somos a região metropolitana da cidade que nada fala, mas que se falasse pretender-se-ia grande.

Somos donos de cães e cães sem dono. Os jogos pobres de palavras. Até as palavras, sempre pobres. As repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições. E o que mais?

Os buracos negros. A terra e a tristeza e os sorrisos e as lágrimas negras (que) caem / saem / doem. Nós somos a rua e seus elos, as esquinas. Nos melhores dias somos o amanhecer. Nos piores, a noite em si, e em ré, fá, e notas de cítaras e harpas sem cordas. Somos as versões techno dos hits radiofônicos do momento, que serão tocados por 98% dos DJ’s na próxima temporada de formaturas, entre “YMCA” do Village People, “We Are The Champions” do Queen, “I’ve Got a Feeling” do Black Eyed Peas e outras canções menos emblemáticas. Somos as meninas dramatizando a letra de “Like a Virgin” da Madonna em algum momento de alguma dessas festas, na altura em que as garrafas de bebidas estão pela metade em quase todas as mesas do salão. Somos os meninos vomitando no banheiro ou fora dele porque beberam demais.

O bumbo, a caixa e qualquer som que eles produzam juntos.

Somos os três seriados de televisão em voga no momento, e todas as relações sociais que eles geram ou alimentam. Os interesses. A conta de água e o aluguel atrasado, o amigo que dorme bem no quarto ao lado, a dupla que anda pelas ruas falando de desembargadores num tom de voz presunçoso e engraçado. Os minutos gastos esperando atendimento da companhia telefônica, ao telefone, aliás. A lâmpada que economiza energia. O refrigerante que é sinônimo de alegria, quando não de felicidade. A felicidade (que não existe). O dedo médio (sempre em riste).

Somos o conhecimento ocidental – que não passa de uma rua sem saída – e o conhecimento oriental – ou: uma viela mal iluminada. Os conceitos vazios que não precedem explicações. A aula-show do cursinho pré-vestibular de algum endinheirado que acredita em perspectivas, e o mochilão pelo exterior que, tomara, alivie-o daquele tipo de culpa que só gente rica sente e jamais admite. Somos os atos dessas pessoas, sobretudo quando elas não conseguem expressar em palavras o porque de fazer o que fazem, seja lá o que for.

Nós somos os ricos e os pobres. Os diretores do banco e os ladrões que estouram o caixa eletrônico e são flagrados de máscara e jaquetas pesadas pela câmera de segurança. Uma dessas jaquetas em alguma lata de lixo cinco minutos depois do registro dessas imagens. A mãe de um dos ladrões perguntando onde está a jaqueta que ela deu de presente para ele.

A saudade e a consciência, que apenas tenta impedir os desavisados de sentir saudade de quem não merece, ou merece, ou… (somos até este julgamento).

A raiva que passa e a raiva que fica. A indiferença, o desprezo, a pachorra, o pastiche.

A derrapada da moto, o capacete do motoboy, a pizza cuja entrega atrasou, o cuspe do pizzaiolo. A fanfarra, o som, o chapéu panamá da turista, a guitarra nova, o mal estar na cultura e fora dela, os hotéis, motéis, quartéis, generais, viscondes, brigadeiros, beijinhos, marechais e decibeis.

A memória. A ultradocumentação das banalidades e a satisfação dos egos dos que praticam esta atitude em nome da exposição da própria (sic) subjetividade.

Os sentidos que guiam pessoas para o caminho das ilusões. A respiração de alguém a quem se queira bem, vivida durante um abraço demorado. Alguém que você ama e alguém que esta pessoa ama mais que a você, que não merece amor. Somos tudo o que amamos e deixamos para trás.

Tanto faz. E muito mais. O brilho do sol. O fundo do mar. O horizonte misterioso. O pote de ouro no fim do arco-íris. O fim do mundo. O homem bem sucedido. A mulher forte. Todos os jovens cheios de planos e potencialidades. As pessoas andando no shopping. As vidas tristes. O silêncio do suicida. A calada da noite. As horas gastas olhando para o teto. Isso tudo mais todas as outras imagens comuns, sempre evitáveis mas raramente evitadas.

Os discursos empolados.

A penúltima linha, cansada.

A última linha, resoluta.

Marco Antonio Santos

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Mas, tarde da noite

A casa tem três quartos, uma cozinha pequena, um quintal grande e uma parede com pintura tão gasta quanto as palavras. Essas paredes não falam, e é melhor que seja assim, porque senão iam ter aberto um berreiro pra expulsar os atuais locatários, quando de um aniversário que terminou com uma viatura de polícia na porta por causa do barulho, seis meses atrás. Hoje é a última noite desse time, pelo menos ali.

Festa de despedida: todo mundo parece feliz, mas é só bebida.

Todo mundo parece meio igual no escuro, de forma que Aldinei demora um pouco para distinguir Zélia entre os 62 presentes. Ele a procura há dez minutos, perambulando por todos os cômodos, enquanto finge que procura, na verdade, pelos donos da festa, para agradecer pelo convite, desejar boa sorte na nova empreitada deles, ou outra bobagem desse tipo. Todo mundo sabe do caso de Zélia com Paulo, menos Aldinei. Uma pena. Mas ele vai encontrar o amor verdadeiro. Não hoje, claro. Daqui um ano e pouco, numa aula de ioga. Está escrito. Ele encontra Zélia chorando num canto de um quarto, e dá um oi meio tímido, esquisito. Aldinei jamais terá o prazer de conhecer um bom método para começar uma conversa interessante com alguém que está chorando.

Todas as malas estão feitas, e todos os móveis foram hoje mais cedo num caminhão de mudanças da empresa que fez o melhor preço dentre as consultadas. A falta de geladeira na festa é compensada por gelo e caixas térmicas, que muitos trouxeram de casa. Um monte de gente não trouxe nem gelo, nem caixas térmicas, nem bebida, e foram orientados a comprar alguma coisa num posto de gasolina 24h a algumas quadras da casa. Há também quem não beba. Mas estes costumam se virar bem. Alguém pegou um batom e resolveu escrever numa parede. A imobiliária vai citar isso no relatório de vistoria de entrega do imóvel.

Quadros: nunca tiveram.

Flores: dois arranjos artificiais, que estão indo para o novo endereço em alguma caixa.

Tapete: um, que ficava na sala, e que hoje fede a urina. A peça foi doada pela mãe de um dos três locatários. A história da urina aconteceu há cinco semanas, mas não é engraçada.

O ambiente. O clima. Há sofrimento, alegria, tristeza, sensações de culpa por motivos variados. Saudade, curiosamente ou não, quase não há. Música alta. Duas pessoas vão começar a considerar o suicídio a partir de hoje, mas só uma delas, uma moça, vai de fato tirar a própria vida, daqui seis anos, já sem lembrar de nada desse evento. Ela vai pular na frente de um ônibus. Bem feio. Uma enfermeira vai descer do coletivo, só para constatar o óbito, tão óbvio. Triste, triste.

Oito casais se formarão até o fim da noite. Por fim de convenção, digamos que um relacionamento sério dura mais que dezesseis semanas. Nesse parâmetro, apenas dois desses novos pares terão sucesso. Três casais vão se separar hoje, ou em decorrência dos eventos de hoje. Uma moça vai alegar que o namorado dela gasta muito tempo com pessoas “nada a ver”, seja lá o que isso significar. As fotos de hoje deles juntos, no entanto, estão saindo todas muito bonitas.

Uma das meninas que está na casa passou o dia procurando emprego em restaurantes do centro. A experiência profissional dela se resume a uns dias na cozinha de uma ONG, mas ela foi bem instruída pela mãe nos truques da culinária barata e saborosa. Ela cozinha melhor que conversa. Sendo assim, não soube expressar que vagas a interessavam. Ofereceram a ela funções de assistente de cozinha e caixa, sendo que a atividade de caixa pagava ligeiramente melhor. Um cara ficou de ligar para ela até daqui quatro dias, se os chefes dele gostarem do currículo. Faltam 26 minutos para ela ver e se interessar por um cara meio esquisito, que cantava numa banda emo chamada Fullminant Heart Atack, fundada em 2011, já alguns anos depois do estouro do fenômeno ultraconfessional da música adolescente. A música que o grupo produzia não passava de um simulacro, quando não pura cópia, de tendências rítmicas e melódicas de grupos que fizeram relativo sucesso em círculos restritos. Esse jovem, autonomeado Jay, ainda que Jonas seja, merece um espaço maior, mas não hoje. A moça não é lá tão interessante assim, apesar de que se esforça bastante para parecer. Ela desce a escadaria e mistura vodka com alguma coisa num copo de plástico, momentos antes de lembrar que está sozinha e sem muito o que fazer. Acontece, sobretudo quando a noite é perfeita para a busca do amor.

Aldinei decide ir embora, mas não vai.

Um grupo conversa de forma animada e pretensiosa sobre os “rumos das coisas, tipo arte, e… sei lá, saca?” no quintal. A conversa não leva ninguém a lugar algum, e serve mais para que estes jovens exibam supostos conhecimentos aos pares. O momento é mais interessante que importante. Um deles acaba de ver a primeira namoradinha por acaso, num ônibus, apesar de que a expressão namoro não tenha muito a ver com relacionamentos entre crianças de sete anos. Ele se pergunta agora pra onde ela foi, onde mora, o que fazia ali, e esse tipo de coisa. Se tivesse perguntado diretamente pra ela não estaria com o assunto na cabeça. Mas que seja, e que fosse. Ela mora no lugar de sempre, a propósito.

A festa segue sem grandes sobressaltos, numa fiel representação da vida.

Marco Antonio Santos

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Festa de despedida:

todo mundo parecia feliz,
mas era só bebida.

marco antonio.

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Acorde

Marco Antonio Santos

– É meio simples, na real. É dó na sexta corda, mi na terceira, lá na segunda e dó de novo, mas na primeira. 

E é isso. E daí muda, e vira esse outro aqui. Tá vendo o desenho?

(pausa de quatro segundos e alguns milésimos)

Oh. Tá prestando atenção?

– Tô sim.

– Tá o que? Prestando atenção aqui ou na TV?

– Nos dois.

– Não dá, cara. Se você quiser ver TV eu paro de mostrar isso aqui.

– Tá.

Eu tô com a cabeça meio voando, na verdade. Sabe o futebol?

– De terça?

– É.

– O que que tem?

– Então. Diz que essa semana não vai ter.

– Ah, beleza. Eu não ia poder jogar, também.

– Pois é. Acho que foi por isso que cancelaram. Mas sei lá.

– Tá.

Naquela manhã, todos os assuntos foram amenos.

Durante a tarde, gastei alguns minutos tentando formular uma piada ou um conceito. Já não lembro do raciocínio completo, por duas razões. Primeiro, porque não anotei a anedota. Segundo, porque quando terminei de pensar, percebi que ela não era tão legal assim.

De qualquer forma, era mais ou menos assim que a coisa ia.

Era alguma coisa sobre o trajeto profissional de um cara dentro de uma empresa. Tipo ascensão e queda. Nessa empresa as pessoas trabalham de terno e gravata, ou tailleur, essas coisas. O que eles produzem ou vendem não importa. O cara é um funcionário médio, e nem é do alto escalão nem nada, mas é escolhido pela diretoria pra virar o novo presidente da companhia, por alguma razão que ninguém tem muita certeza, e ninguém também tem coragem de perguntar mais abertamente. Aí fica aquele burburinho pelos corredores. Aquele clima desagradável, e tal. Agora, o cara em si nem percebe, porque ele é meio desligadão, e não tem tato ou habilidades sociais tão bem desenvolvidas pra se ligar nesse tipo de coisa. O cara é um pária. Todos os outros funcionários ficam desconfiados, porque o cara nem era tão bom assim nas coisinhas que fazia, e obviamente não tem preparo à altura de um cargo tão alto. E tem também o grande lance, que na verdade é o grande lance de todas as atividades humanas, que é a questão do ego. Os de alguns dos que também queriam aquele cargo, mais especificamente. Eles ficam meio de birra com o cara, e sei lá mais o que. Inveja. É coisa de idiota. Mas existe. Todo mundo sabe. No primeiro dia de trabalho do novo presidente como presidente, e não só mais como “o rapaz que senta ali”, ele chega mais ou menos uma hora e quinze atrasado. Até telefonam pra ele, e tudo, mas ele diz que está preso no trânsito. É mentira. Ele estava dormindo. Sabe quando alguém telefona pra você de manhã, e você quer fingir que já estava desperto há muito tempo, e fala com a voz firme, e esse tipo de coisa? Então. É assim que ele faz. Mas todo mundo no escritório fica esperando o cara numa atitude estranha, ferina. Quando ele chega, começa a pedir desculpas pro pessoal, dando aqueles sorrisinhos de canto de boca, que não convencem ninguém, e que nunca fizeram ninguém parecer especialmente agradável ou simpático. Mas ele dá. E os funcionários se olham de forma estranha, como se reprovassem o novo chefe em silêncio, e até o volume dos “bom dia” é baixinho, e um cara que é um pouco mais próximo do novo presidente resolve lançar um “Bom dia não. É boa tarde, né, meu camarada?”. O novo presidente parece meio embaraçado, meio ofendido. Completamente perdido. É estranho.

O fato é que eu tenho que trabalhar um pouco melhor isso. A brincadeira tratava da inadequação do sujeito num ambiente que já era um tanto hostil antes, e agora vai ficar muito mais. Até a moça que, entre outras coisas, faz o cafezinho na empresa faz questão de desprezar a autoridade do cara. Ela finge que não é informada sobre as reuniões entre ele e a diretoria, pra fazer ele parecer irresponsável quando não serve nada pros convidados. A brincadeira não era nem sobre as situações. Era sobre o clima nesse lugar.

Existem ideias que movem, e outras ideias que param.

Essa moveu meus pensamentos por alguns minutos.

Mas ideias mais bobas que esta já moveram muitas horas da minha vida em outros tempos e em outras circunstâncias.

Durante a tarde os assuntos também foram amenos.

Houve certa confusão quanto à nossa decisão sobre o que almoçar. Não tínhamos muito dinheiro, como quase nunca temos, mas estávamos tentados a comer fora. Depois de uma conversa, evitamos este equívoco e cozinhamos um espaguete com molho vermelho (do jeito mais genérico possível), com uma salada de tomates e alface para acompanhar, e uns bifes de alguma carne barata. Acho que era patinho, ou alguma coisa assim. Não faz tanta diferença. Tomamos caipirinha e umas cervejas. Sempre temos dinheiro para o que não presta.

Saímos à noite. Fomos a um bar, depois para outro, e depois para outro, mas por este terceiro apenas passamos para buscar um casal de amigos. A noite prometia, ou pelo menos parecia que sim. A verdade é que me esforço para pensar que elas sempre prometem. Acho uma pena que quase nunca cumpram. Os assuntos eram amenos, mais uma vez, mas naquele momento e naquele contexto fazia sentido não falar de coisas sérias. A gente queria se divertir. Estávamos todos bêbados. Entramos numa balada. Dançamos. Bebemos mais. Alguém chorou no balcão. Acho que fui eu, de forma disfarçada, enquanto olhava para o chão fingindo que estava procurando alguma coisa, escondendo os olhos e pensando, pensando, pensando. Ou talvez tenha acontecido em uma das vezes em que fui ao banheiro, aí tranquei a porta, olhei para a pessoa no espelho, não gostei do que vi e comecei a pensar, pensar, pensar. Enfim. Não tenho certeza de que era eu chorando. E como não tenho certeza se fui eu, não me estendo sobre o tema. Alguém passou mal. Não lembro se era algum dos meus amigos. Acho que não. O casal brigou em alguma altura, e voltaram a se entender pouco depois. Alguém perdeu o telefone celular na pista de dança. Não fez diferença alguma para mim. Na hora de ir embora, me postei na fila para pagar minha conta e reparei que dois homens começaram a brigar ali por perto. Todo mundo virou para acompanhar. Aproveitei a brecha e cheguei antes de todos à área dos caixas. (acho até que vi seus olhos). O cara com quem divido casa e contas me avisou de que estava saindo também, então o esperei do lado de fora. Não vi o casal de amigos em mais nenhum momento naquela noite.

Voltamos para casa. Este foi um sábado qualquer. Ou sexta. De sexta pra sábado, ou de sábado pra domingo. Tudo é anestesia e ilusão. Ou não. Talvez eu esteja sendo injusto, porque afinal de contas este é o tipo de risco que a gente sempre corre, o tempo inteiro. Sobretudo quando falamos. Porque tendemos a achar o que pensamos correto, então não gastamos muito tempo com julgamentos morais sobre nossos próprios pensamentos. Não precisamos arcar com as consequências do que pensamos. Mas precisamos arcar com as consequências do que falamos. Sei lá. Não sei por que toquei no assunto. A gente sempre corre o risco de parecer bobo. A gente sempre corre o risco de parecer limitado. A gente sempre corre o risco de ser atropelado, se não prestarmos atenção na hora de atravessar a rua, ou se estivermos trocando de música no nosso aparelho de mp3 no momento errado. Agora é só assim que se ouve música. Mp3 player, telefone celular, esse tipo de coisa. Uma hora dessas vou me deter a pensar melhor sobre essa coisa de ouvir música de forma personalizada, nesse modo em que escolhemos nossas listas de reprodução e desprezamos a grande gama de informação que…enfim. Vou pensar nisso, e nas consequências positivas e negativas disso. Mas outro dia. Ou outro mês. Tenho que começar pensando se faz algum sentido gastar tempo e energia com isso. Ou com qualquer coisa.

Meu companheiro de casa arranjou um emprego novo. Ele começa em breve. Vai ganhar mais dinheiro que no emprego anterior, fazendo uma coisa que já sabe fazer muito bem. Parece bom. Espero que seja. A namorada dele vai voltar a morar aqui. Ele parece feliz com isso, apesar de ela ser meio louca. Claro que não posso afirmar isso, mas ele parece feliz mesmo. E ela parece louca mesmo. A minha namorada não vai voltar a morar aqui. As contas têm vindo mais caras nos últimos meses. Isso é pensar de forma utilitarista. Mas eu não preciso pedir desculpas pelo que penso. Talvez precise pedir desculpas por compartilhar o que eu penso. Nesse caso, aqui está o pedido: desculpa.

Que seja.

Admito a hipótese de que a vida seja, de fato, uma experiência alucinante. Só acho uma pena que este feliz acidente não tenha ocorrido com a minha. Acho que um meteoro vai cair aqui, mas não tenho certeza do motivo de pensar assim. Talvez eu apenas queira que ele caia. Ou que seja uma turbina de avião, que nem naquele filme do rapaz que é sonâmbulo e está dormindo num parque lindo quando uma turbina de avião cai no quarto dele, e depois ele começa a conversar com um coelho enorme que tem uma voz muito assustadora e que fala pra ele que o mundo está para acabar, e o jovem sabe que é verdade, de alguma forma. Está aí. Eu apenas acho que um meteoro vai cair aqui.

Não consegui ensinar a música pro cara que mora comigo. Ele não mostrou muita vontade de aprender, de qualquer forma. O que é curioso, já que ficou me enchendo o saco durante vários dias para que eu gastasse algumas horas mostrando os movimentos tanto da mão esquerda quanto da mão direita. De qualquer forma, ele gosta dessa progressão de acordes. Eu também. Mas sou suspeito.

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