Gente de bem não fala esperanto

Somos o fim da festa e, mais cedo, a alma dela. Somos a garça, o tigre, a serpente e as estrelas. A angústia infindável, o castelo de areia que desaba, a bolsa esquecida na cadeira do bar e a mochila no canto da balada. Somos a caminhada para dentro de um livro / dentro da noite veloz; o posto de gasolina que serve para abastecer veículos de bêbados e as contas bancárias dos frentistas que ganham o benefício do adicional noturno, ainda que este, somado ao salário de sempre, não supra todas as necessidades deles e de suas famílias. Somos a região metropolitana da cidade que nada fala, mas que se falasse pretender-se-ia grande.

Somos donos de cães e cães sem dono. Os jogos pobres de palavras. Até as palavras, sempre pobres. As repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições, as repetições. E o que mais?

Os buracos negros. A terra e a tristeza e os sorrisos e as lágrimas negras (que) caem / saem / doem. Nós somos a rua e seus elos, as esquinas. Nos melhores dias somos o amanhecer. Nos piores, a noite em si, e em ré, fá, e notas de cítaras e harpas sem cordas. Somos as versões techno dos hits radiofônicos do momento, que serão tocados por 98% dos DJ’s na próxima temporada de formaturas, entre “YMCA” do Village People, “We Are The Champions” do Queen, “I’ve Got a Feeling” do Black Eyed Peas e outras canções menos emblemáticas. Somos as meninas dramatizando a letra de “Like a Virgin” da Madonna em algum momento de alguma dessas festas, na altura em que as garrafas de bebidas estão pela metade em quase todas as mesas do salão. Somos os meninos vomitando no banheiro ou fora dele porque beberam demais.

O bumbo, a caixa e qualquer som que eles produzam juntos.

Somos os três seriados de televisão em voga no momento, e todas as relações sociais que eles geram ou alimentam. Os interesses. A conta de água e o aluguel atrasado, o amigo que dorme bem no quarto ao lado, a dupla que anda pelas ruas falando de desembargadores num tom de voz presunçoso e engraçado. Os minutos gastos esperando atendimento da companhia telefônica, ao telefone, aliás. A lâmpada que economiza energia. O refrigerante que é sinônimo de alegria, quando não de felicidade. A felicidade (que não existe). O dedo médio (sempre em riste).

Somos o conhecimento ocidental – que não passa de uma rua sem saída – e o conhecimento oriental – ou: uma viela mal iluminada. Os conceitos vazios que não precedem explicações. A aula-show do cursinho pré-vestibular de algum endinheirado que acredita em perspectivas, e o mochilão pelo exterior que, tomara, alivie-o daquele tipo de culpa que só gente rica sente e jamais admite. Somos os atos dessas pessoas, sobretudo quando elas não conseguem expressar em palavras o porque de fazer o que fazem, seja lá o que for.

Nós somos os ricos e os pobres. Os diretores do banco e os ladrões que estouram o caixa eletrônico e são flagrados de máscara e jaquetas pesadas pela câmera de segurança. Uma dessas jaquetas em alguma lata de lixo cinco minutos depois do registro dessas imagens. A mãe de um dos ladrões perguntando onde está a jaqueta que ela deu de presente para ele.

A saudade e a consciência, que apenas tenta impedir os desavisados de sentir saudade de quem não merece, ou merece, ou… (somos até este julgamento).

A raiva que passa e a raiva que fica. A indiferença, o desprezo, a pachorra, o pastiche.

A derrapada da moto, o capacete do motoboy, a pizza cuja entrega atrasou, o cuspe do pizzaiolo. A fanfarra, o som, o chapéu panamá da turista, a guitarra nova, o mal estar na cultura e fora dela, os hotéis, motéis, quartéis, generais, viscondes, brigadeiros, beijinhos, marechais e decibeis.

A memória. A ultradocumentação das banalidades e a satisfação dos egos dos que praticam esta atitude em nome da exposição da própria (sic) subjetividade.

Os sentidos que guiam pessoas para o caminho das ilusões. A respiração de alguém a quem se queira bem, vivida durante um abraço demorado. Alguém que você ama e alguém que esta pessoa ama mais que a você, que não merece amor. Somos tudo o que amamos e deixamos para trás.

Tanto faz. E muito mais. O brilho do sol. O fundo do mar. O horizonte misterioso. O pote de ouro no fim do arco-íris. O fim do mundo. O homem bem sucedido. A mulher forte. Todos os jovens cheios de planos e potencialidades. As pessoas andando no shopping. As vidas tristes. O silêncio do suicida. A calada da noite. As horas gastas olhando para o teto. Isso tudo mais todas as outras imagens comuns, sempre evitáveis mas raramente evitadas.

Os discursos empolados.

A penúltima linha, cansada.

A última linha, resoluta.

Marco Antonio Santos

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