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Lembranças na janela

por Rafael

A chuva no vidro da janela não me deixa dormir. Me prende, me consome. Parece hipnotizar, como este passado que não me deixa seguir rumo a futuro qualquer. Gosto de olhar as gotas escorrendo, juntando umas com as outras e formando pequenos rios que escorrem em direções imprevisíveis até a borda, seguindo um caminho que já não acompanho mais.

Esqueço que por detrás delas existem dezenas de janelas de outros prédios, onde talvez alguém esteja a admirar suas próprias gotas.

O barulho da chuva sufoca o som provocado por pneus-desesperados sobre a água no asfalto. Sinto inveja de minha vó e suas histórias, com barulhos misteriosos que vinham de dentro da mata. Por aqui, os sons mais exóticos são os de pastilhas gastas a comer os discos de freio de um carro qualquer.

A chuva para e as gotas permanecem na janela. Algumas ainda escorrem, somam-se a outras e traçam um caminho até a base. Algumas permanecem imóveis, evaporando lentamente, refratando o alaranjado das luzes que vêm da rua.

Me aconchego no travesseiro com o leve e pleno sentimento proporcionado pelas gotas que me seduziram e escorregaram pelo vidro, levando um tanto de mim consigo.

Durmo leve por saber que minha alma cresce a cada pouco que se deixa levar com a chuva.

Agora, as gotas que ouço são as das calhas. Reminiscências da noite.

Pouco a pouco o sono vem e me encaminho a um dia que já não tarda a amanhecer.

Logo mais teremos sol.

Provavelmente nenhuma gota irá restar em meu vidro;
janelas e carros voltarão a ditar o som ao meu redor.

Enquanto eu-silenciosamente-desesperado olho para o céu em busca de nuvens que possam despejar suas gotas em minha janela novamente.

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Reminiscências

por Rafael

Vim escrever. Talvez por desencargo de consciência, talvez por necessidade. Talvez eu esteja fugindo do que realmente preciso fazer. Uma noite como uma outra qualquer, onde fiz o que de antemão senti uma certa-não-necessidade. Ainda assim,  executei. Por isso estou aqui: para metabolizar ou me convencer de que mereço dormir.

Pra dizer a verdade, hoje acordei querendo escrever pra você, ou sobre você. Verdade é que nunca sei o que realmente acontece quando você invade o hoje, sem se conformar com um ontem.

Como essas coisas que passam, ficam, voltam, nos desconfortam e nos jogam pra cima sem fornecer um chão para onde voltarmos. Um presente com reminiscências de passado. Como uma torneira mal fechada que eternamente insistirá em pingar.

Hoje enquanto ia trabalhar me deparei com um menino cego na esquina de casa. Passei.

Passei como centenas de histórias passaram ao lado dele, sem sequer repararem um no outro.

Na pressa-que-sempre-me-rege-os-dias passei, afinal de contas, um cego é uma pessoa como outra qualquer, com limitações a serem superadas. Ou tentei. Algo de mim enroscou naqueles olhos brancos.

Ignorei, segui rumo ao meu futuro com uma convicção que não durou meia quadra. Parei.

Como um menino cego estaria se sentindo ali, naquela esquina, com milhões de carros acelerando e freando ao seu redor, pessoas de passagem rumo a destinos quaisquer?

Parado ali, diante do cruzamento, aquele menino parecia tão vulnerável que seria minha obrigação lhe dar um braço a atravessar a rua. Me senti forte, necessário.

Mas ao reunir forças para dar um primeiro passo de retorno, me senti tão vulnerável quanto me sinto agora, com este cheiro de cigarro que entra pela janela do meu quarto. Não sei de qual apartamento vem, mas sei o quanto estou à deriva de meus pensamentos, embebido nestes resquícios de fumaça.

Direciono meus pensamentos e volto a tomar as rédeas do tempo. Como brincamos no Facebook, de nos bloquearmos numa eterna massagem egocêntrica, onde mostramos a nós mesmos quem manda em nossos relacionamentos. Convencidos de que decidimos como as coisas acontecem. Fora dali, frágeis.

Finalmente volto. Primeiro, segundo passo e, como recebesse um aval divino, o menino desanda-a-andar. Corre como quem sabe o que faz. Atravessa a rua e rouba os pilares do meu instante.

Não vi para onde foi, muito menos onde fiquei.

Milhões de carros acelerando e freando ao meu redor, pessoas de passagem rumo a destinos quaisquer. Me encolhi.

Segundos depois, segui meus passos. Os olhos brancos se foram. Ninguém percebeu o quando eu precisava de um braço a me auxiliar.

O dia seguiu, como todos sempre seguem, nós é que paramos. Assim como a fumaça do cigarro, que sequer sombra chega a fazer na penumbra-do-meu-quarto.

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Lágrima

por Rafael

Sonhei que estava em uma biblioteca enorme com você. Era em Curitiba mesmo, acho. Lá estariam todos os livros que não lemos, mas que estivemos neles, de alguma maneira.

Lembro que em algum momento nos separamos, pois eu precisava encontrar o livro da minha vida. Algo que vinha buscando há tempos.

Você ficou, pois sabia onde estava o que procurava.

Eu desci, subi escadas e cheguei a um campo aberto. Veja só!, uma biblioteca com prateleiras sob o céu, que poderia chover e anoitecer sem perigo de comprometer todas aquelas infinitas páginas. Estranhei, mas logo compreendi que para desintegrar algumas páginas de nossos livros seriam necessários mais do que umidades e sopros sem endereços certos.

Segui pelos corredores, que eram desertos, mas sentia a companhia dos fantasmas que habitavam aquelas imponentes páginas ao meu redor.

Me maravilha essa nossa capacidade de escutar o silêncio.

Enquanto observava todos aqueles livros, sem diferenciar um do outro, me lembrava de capítulos pelos quais passamos. Vivíamos como estas páginas, tão bem escritas. Queria eu ter a capacidade de viver com tanta habilidade quanto aquelas linhas, tão retas, indestrutíveis diante da ação do quando e do onde.

Deixamos de viver nossos capítulos, pois ainda  era cedo para fazer algo, e agora esperamos um quando que seja tarde demais.

Nosso único esforço é esperar.

Esqueça esse relógio. Nosso tempo só existe fora deste quando. Quase sempre.

Entre as prateleiras ao vento, passei a me sentir vulnerável e  já começava a ir embora a partir de meus dedos.

Quando percebi, braços e pernas esparramavam-se pelo ar, junto às folhas secas de algumas árvores próximas. Como podem estas páginas empoeiradas (de outros restos) nas prateleiras serem imunes ao tempo?

Corri de volta até você, para dizer o que havia encontrado, ou para encontrar.

As prateleiras pareciam se mover, me colocando em um labirinto onde seria meu próprio Minotauro.

O vento uivava e minha roupa agitava feito bandeira ao meu redor.

Subi, desci escadas e te encontrei sentada ao fundo de uma enorme sala abarrotada de livros. Sobre uma pequena cadeira, folheava as páginas da sua própria vida. Só então pude perceber que não havia me encontrado.

Tentei voltar e percebi que o vento já havia me levado, um tanto para cada lado, à deriva em um mar invisível, onde sequer me afogaria.

Me afligem os silêncios que atormentam com a certeza de que jamais consegui conduzir a minha vida como as linhas daqueles tão-nossos-livros.

Morria tão lentamente, camada a camada, que sequer percebi. Talvez até tenha desejado acelerar o tempo que ainda estaria por vir. Corroí. Me entreguei ao vento.

Agora aqui, diante destas linhas, tão mais retas que meus dias, me sinto esgotado ao revisitar estas lembranças que me chegam em pedaços desconectados, que não me deixam estar em um só lugar.

É como tivesse vivido pequenas mortes cotidianas. Me nego a perceber o pouco a pouco como morri.

Ao lembrar do sonho, sinto reanimar a fina casca que bate e faz eco-no-oco-do-meu-peito. Os olhos reagem, mas seguro. Seguro porque só acredito em minhas lágrimas enquanto não as choro.

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