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Um paradoxo suicida

Não morri dessa vida porque há muito pela frente ainda.

Comprei sapatos novos, mandei encerar meu carro, renovei a matrícula das crianças na escola.

Que sentido tem viver? Ou, pergunta quase igual: e o contrário, vale o quê?

Ninguém sabe

(e acho que nunca vai saber).

Até entrei num consórcio para conseguir a minha casa, que há de ser só minha e de quem eu quiser lá dentro.

Mais uma solução, ou mais um lamento?

 

Marco Antonio Santos

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Mas, tarde da noite

A casa tem três quartos, uma cozinha pequena, um quintal grande e uma parede com pintura tão gasta quanto as palavras. Essas paredes não falam, e é melhor que seja assim, porque senão iam ter aberto um berreiro pra expulsar os atuais locatários, quando de um aniversário que terminou com uma viatura de polícia na porta por causa do barulho, seis meses atrás. Hoje é a última noite desse time, pelo menos ali.

Festa de despedida: todo mundo parece feliz, mas é só bebida.

Todo mundo parece meio igual no escuro, de forma que Aldinei demora um pouco para distinguir Zélia entre os 62 presentes. Ele a procura há dez minutos, perambulando por todos os cômodos, enquanto finge que procura, na verdade, pelos donos da festa, para agradecer pelo convite, desejar boa sorte na nova empreitada deles, ou outra bobagem desse tipo. Todo mundo sabe do caso de Zélia com Paulo, menos Aldinei. Uma pena. Mas ele vai encontrar o amor verdadeiro. Não hoje, claro. Daqui um ano e pouco, numa aula de ioga. Está escrito. Ele encontra Zélia chorando num canto de um quarto, e dá um oi meio tímido, esquisito. Aldinei jamais terá o prazer de conhecer um bom método para começar uma conversa interessante com alguém que está chorando.

Todas as malas estão feitas, e todos os móveis foram hoje mais cedo num caminhão de mudanças da empresa que fez o melhor preço dentre as consultadas. A falta de geladeira na festa é compensada por gelo e caixas térmicas, que muitos trouxeram de casa. Um monte de gente não trouxe nem gelo, nem caixas térmicas, nem bebida, e foram orientados a comprar alguma coisa num posto de gasolina 24h a algumas quadras da casa. Há também quem não beba. Mas estes costumam se virar bem. Alguém pegou um batom e resolveu escrever numa parede. A imobiliária vai citar isso no relatório de vistoria de entrega do imóvel.

Quadros: nunca tiveram.

Flores: dois arranjos artificiais, que estão indo para o novo endereço em alguma caixa.

Tapete: um, que ficava na sala, e que hoje fede a urina. A peça foi doada pela mãe de um dos três locatários. A história da urina aconteceu há cinco semanas, mas não é engraçada.

O ambiente. O clima. Há sofrimento, alegria, tristeza, sensações de culpa por motivos variados. Saudade, curiosamente ou não, quase não há. Música alta. Duas pessoas vão começar a considerar o suicídio a partir de hoje, mas só uma delas, uma moça, vai de fato tirar a própria vida, daqui seis anos, já sem lembrar de nada desse evento. Ela vai pular na frente de um ônibus. Bem feio. Uma enfermeira vai descer do coletivo, só para constatar o óbito, tão óbvio. Triste, triste.

Oito casais se formarão até o fim da noite. Por fim de convenção, digamos que um relacionamento sério dura mais que dezesseis semanas. Nesse parâmetro, apenas dois desses novos pares terão sucesso. Três casais vão se separar hoje, ou em decorrência dos eventos de hoje. Uma moça vai alegar que o namorado dela gasta muito tempo com pessoas “nada a ver”, seja lá o que isso significar. As fotos de hoje deles juntos, no entanto, estão saindo todas muito bonitas.

Uma das meninas que está na casa passou o dia procurando emprego em restaurantes do centro. A experiência profissional dela se resume a uns dias na cozinha de uma ONG, mas ela foi bem instruída pela mãe nos truques da culinária barata e saborosa. Ela cozinha melhor que conversa. Sendo assim, não soube expressar que vagas a interessavam. Ofereceram a ela funções de assistente de cozinha e caixa, sendo que a atividade de caixa pagava ligeiramente melhor. Um cara ficou de ligar para ela até daqui quatro dias, se os chefes dele gostarem do currículo. Faltam 26 minutos para ela ver e se interessar por um cara meio esquisito, que cantava numa banda emo chamada Fullminant Heart Atack, fundada em 2011, já alguns anos depois do estouro do fenômeno ultraconfessional da música adolescente. A música que o grupo produzia não passava de um simulacro, quando não pura cópia, de tendências rítmicas e melódicas de grupos que fizeram relativo sucesso em círculos restritos. Esse jovem, autonomeado Jay, ainda que Jonas seja, merece um espaço maior, mas não hoje. A moça não é lá tão interessante assim, apesar de que se esforça bastante para parecer. Ela desce a escadaria e mistura vodka com alguma coisa num copo de plástico, momentos antes de lembrar que está sozinha e sem muito o que fazer. Acontece, sobretudo quando a noite é perfeita para a busca do amor.

Aldinei decide ir embora, mas não vai.

Um grupo conversa de forma animada e pretensiosa sobre os “rumos das coisas, tipo arte, e… sei lá, saca?” no quintal. A conversa não leva ninguém a lugar algum, e serve mais para que estes jovens exibam supostos conhecimentos aos pares. O momento é mais interessante que importante. Um deles acaba de ver a primeira namoradinha por acaso, num ônibus, apesar de que a expressão namoro não tenha muito a ver com relacionamentos entre crianças de sete anos. Ele se pergunta agora pra onde ela foi, onde mora, o que fazia ali, e esse tipo de coisa. Se tivesse perguntado diretamente pra ela não estaria com o assunto na cabeça. Mas que seja, e que fosse. Ela mora no lugar de sempre, a propósito.

A festa segue sem grandes sobressaltos, numa fiel representação da vida.

Marco Antonio Santos

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