Como deveriam ser os dias

por Carolina

O sol me acorda por uma fresta na cortina.

Com um feixe de luz a definir, em parte do meu rosto, uma grossa linha calor solar, decido que hoje trocaria o pensar pelo sentir. Em vez de deliberar meus passos e gestos a partir de impulsos racionais do cérebro, descolados das batidas emocionais do coração e carregados das preocupações cotidianas, eu faria o que tivesse vontade (não vos alarmais, forças divinas, eu não intenciono causar mal a ninguém nem penso ser este o sentido de “liberdade”). Está definida a última definição do dia; seguirei hoje aquela coisa invisível que não se pode ver e que está sempre oculto por dentro da gente, doida pra saltar afora, sempre à espera de quando deixaremos de lado esses pensamentos todos e nos voltaremos para o que importa de verdade.

A mente esvaziada de banalidades, aquelas tantas besteiras inúteis, as contas a pagar e que horas são, e ainda preciso entregar aquele relatório, maldito relatório, odeio relatórios, odeio sobretudo entregá-los a meu detestável chefe, logo cede espaço a uma sensível percepção do ambiente. Meu olhar recai sobre a garrafa térmica vermelha que Verônica deixou à mesa antes de sair. O gole me desce quente e reconfortante pela garganta, sem o peso do hábito ou a busca racional por cafeína. Eu caminho lentamente para fora da casa e sento à grama para ouvir o disco do Boldrin.

Ainda inspirado pelo sol, vejo a velha Barra Forte esquecida ao lado do carro. Quantas vezes o bagageiro já conduziu amigos embriagados à sóbria segurança de seus lares, ou uma Verônica de perna quebrada como um peso extra na garupa. Por meses não conseguiu caminhar depois do tombo que levou no casamento da irmã. Quero tocá-la e meus dedos escorregam suaves pela bicicleta, como um músico que dedilha o piano há muito abandonado ao canto da sala. Não sinto vontade de dirigir, embora faça isso todos os dias, e num impulso afetivo saio de casa pedalando até a avenida principal da cidade.

Mas sem planejar eu mudo o rumo do trajeto. A longa estrada que leva os trabalhadores do bairro aos seus ofícios diários também conduz ao mar quem se atrever a tomar o caminho contrário. Não muito longe dali havia a praia, pouco frequentada durante a semana, substituída pelos prédios com seus relógios de ponto. Sinto a pretensão de vê-la. Quero um dia na companhia do mar.

O tempo segue meu até o anoitecer, entre peixes e mergulhos, do cheiro de maresia ao sol e céu e sal, quando a lembrança da casa onde moro me faz subir à bicicleta e retornar. Verônica sorri quando abro a porta, cheio de suor e de saudades. A poeta é ela, mas antes de rumar o banho e cortarmos a cebola sou eu quem anota num pedaço de papel:

É ela, Verônica
que matiza esta
vida marginal
mulher biotônica
de tom e de cor
e som acima do som
supersônica.

Talvez amanhã eu acabe calculando uma desculpa qualquer para me justificar no escritório. Tive diarréia, ou a Verônica teve diarréia, ou – inacreditável, eu sei! – fui vítima de um terrível furacão que atingiu apenas a minha casa e me manteve soterrado e preso aos escombros. E os bombeiros só chegaram às 18h, depois do expediente, vejam só como está esse país.

Mas hoje não me importo com nenhuma destas bobagens, porque escolhi sentir.

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