Carta ao Capitão

escrito por André Petrini.

Terra/Continente Infra, 2169
Ao Capitão Aureliano Buenanoche.

Excelentíssimo Capitão, em vista da minha grande admiração pelo seu trabalho à frente do nosso Planeta-Nave, venho, por meio desta, fazer uma solicitação de máxima importância para a conclusão dos nossos objetivos de evolução constante. Entendo que alguns hábitos estão arraigados em nossos cotidianos de tal forma que se tornam quase automáticos, mas acredito que se pararmos para uma análise rápida e racional, perceberemos que eles nem sempre fazem sentido. Isto posto, gostaria de sugerir a revisão de um hábito, uma convenção – e se me permite, quase uma praga, a qual estamos acostumados a chamar de “horário comercial”. Não a sua existência em si, pois sei de sua importância em nossos sistemas comerciais tanto intra quanto extraplanetários, mas minha crítica refere-se exclusivamente ao período em que esse flagelo se realiza. Afinal, após séculos de evolução, ainda somos obrigados a iniciar nossas obrigações diárias às 8 horas da manhã e não há uma alma sequer, nesta ou em qualquer galáxia, que faça isso com bom gosto.

Veja bem, Capitão, longe de mim querer contestar qualquer decisão em sua maneira de comandar nossa nave, mas em vista de sua linhagem de Capitães, Coronéis, Padres e Políticos que vêm nos direcionando rumo às galáxias mais pacíficas, tenho certeza que compreende a necessidade de uma tripulação que trabalhe com um sorriso no rosto. Nós, meros humanos da Terra, obviamente temos muito a aprender com a inteligência de nossos vizinhos Budnianos, com a sabedoria milenar dos Schaefs, a alegria constante dos Marcolóculos, o silêncio lendário dos Scouts, a doçura dos Slonks, a perseverança dos Graes e a amizade dos Kaltows, mas se tem uma coisa que aprendemos nos anos de convivência com estes planetas-irmãos, foi que a união nos leva a galáxias mais distantes. E sinceramente, sr. Buenanoche, não há união que resista à interrupção contínua e diária do sono em horas tão prematuras.

Sei que nesses anos aprendemos muito e nossa morada já não padece das falácias pelas quais nossos ancestrais passaram, dentre as quais reverencio a recente inovação que não permite o acúmulo de calorias pela ingestão de bacon, a qual considero um passo importante rumo à felicidade plena da humanidade. Além disso, a completa extinção das calças saruel, sandálias Crocs, esmaltes vermelhos, reality shows, torcidas organizadas, funcionários públicos, professores de ginástica laboral, agentes de trânsito e tantos outros exemplos que não cabem nestas linhas, mostraram uma grande consciência e respeito de sua família pelos povos dos 3 continentes. Óbvio, a maioria destes itens ainda é encontrado nos mercados ilegais, mas a simples criminalização dos aplausos ao final da ginástica, já indica o pensamento que deveria ser adotado contra as corporações que nos forçam o despertar em horários impróprios.

Aureliano, meu amigo, sei que não deve receber muitas cartas e é um grande infortúnio que receba uma com tal pedido. Sei também que estamos em desvantagem em relação aos planetas que têm mais de 24 horas em seus dias, mas depois de tantos anos cruzando os oceanos em busca de profecias e invenções para o progresso do mundo, meu propósito não é o de diminuir o trabalho, mas o de aumentar o tempo para sonhar.

Do seu amigo de gerações,
Melquíades

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