Apático

postado por Murilo

Pobres crisântemos, têm seus aromas transformados em odores repugnantes nessas ocasiões. Cheiro de morte, dizem. Se não fosse por eles, no entanto, o cheiro no ar seria de podridão, sobretudo nesse calor. Aliás, que sacrifício ficar de preto nessa temperatura. Seria bom se acontecesse como nos filmes, em que sempre chove nos funerais. Além de um ar mais fresco eu poderia pegar algumas gotas de chuva para usar como lágrimas. Chorando, como todo mundo, talvez eu pudesse fugir dos olhares acusadores, que me viam como culpado pelo suicídio do guri. Mas eu não fiz absolutamente nada, como poderiam me acusar?

Fumar um cigarro pareceria falta de respeito, mas ao menos indicava aos outros que eu estava abalado. Na verdade, eu estava um pouco incomodado sim, mas era com o calor e a choradeira sem fim. Alguns consideravam-me cúmplice do ocorrido, mas eu não fui sequer testemunha. Eu não suspeitava que isso aconteceria, como então seria cúmplice? Doidos. Antes diziam que eu tinha problemas psicológicos, mas, no fim das contas, não fui eu que me matei.

Eu estava com uma bruta fome também. No início do dia havia começado a comer uns amendoins que trazia comigo, mas os olhares censores me convenceram a parar. Guardei o pacote e não comia nada desde então. As pessoas conversavam entre si, mas eu não. Nem mesmo com o guri eu costumava conversar. Também por isso penso: como minhas palavras poderiam ter influenciado em algo? Não, a responsabilidade não era minha e não seria minha agora.

Havia ali uma criança que, como eu, olhava tudo sem entender. Contudo, não precisava fingir pesar. Descobri, no entanto, alguém que se parecia muito mais comigo, e senti que não estava sozinho. O guri dormia profundamente em seu caixão, pálido e impassível. Parecia a ele que nada tinha gosto ou sentido, e que os sorumbáticos pranteavam em vão. Ao meu finado filho, que no fundo eu mal conhecia, sussurrei algumas últimas palavras:

– É rapaz, mais cedo ou mais tarde você haveria de puxar o pai.

1 comentário

Arquivado em Conto, Texto Curto

Uma resposta para “Apático

  1. Caramba, Murilo. T. Mas nem sei se foi apatia isso daí não.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s