postado por Carolinha
Jacira me foi apresentada pelo amigo Marco Antonio. Para quem quiser conhecê-la, foi nesse post que ela surgiu.
A escolha de Apolônio por Madalena em vez de Jacira não foi exatamente uma opção pela mulher que mais amava. Apolônio imergiu em um outro formato de existência.
Madalena assa tortas esplêndidas e mantém o televisor ligado o dia todo, do momento em que acorda (para não perder as dicas da Ana Maria) até a hora de dormir, quando o casal da novela se despede com um beijo, e era sempre um beijo tão bonito que deveriam aprender a técnica, para serem felizes como eles. À menção de felicidade, Apolônio se recorda de Jacira, aquela tresloucada. Era tão fácil aprender o beijo da novela ou qualquer um dos pedidos mornos de Madalena… mas com Jacira, a vida era outra. Visitavam um cantinho de Mercúrio quando queriam namorar mais perto do Sol, ou uma grande floresta além do céu onde todas as árvores são feitas de coisas abstratas – apanhar frutas era uma tarefa complicadíssima, e a empreitada punha Jacira às gargalhadas – ou, ainda, algum dos jardins inexplorados que se espalhavam pelo interior da Terra. Ao favorito chamavam de Jardim da Evasão, na camada intermediária entre o Manto e o Núcleo Líquido, para onde iam quando a modorra da superfície lhes sufocava. Poucos humanos conseguem chegar até lá. Alguns entram por engano e, incapazes de assimilá-lo, enlouquecem; outros enlouquecem na própria superfície da Terra e chegam até lá na procura por alternativas. Foi assim com Jacira.
A anfitriã encara as cortinas, observando que, se havia na vida algum sentido, ele certamente não estaria ali, naquele jantar, naquela sala, naquele tecido rendado que cobria suas janelas de vidro. Talvez Apolônio não fosse tanto ou tudo, conforme pensava. Quem é que escolheria tortas coradinhas de espinafre em vez de seus pratos, que só queimavam porque amava demais? O casal opaco da novela em vez do cantinho de mil cores em Mercúrio? Que escolha, viu, Apolônio. Que vidinha. Esperava que estivesse feliz, mas duvidava que o fosse plenamente.
Os convidados vão embora e Jacira arranca as cortinas da sala, mas não incendeia nada. Em vez disso, estica todas pelo assoalho, espalha as flores que minutos antes ocupavam vasos de vidro sobre a mesa e então se vê no Jardim da Evasão, onde é a Rainha Suprema e pequenas criaturas cantam ópera, colhem uvas e debatem, preocupados, uma possível enchente de magma contra suas moradias. Jacira nomeara as criaturas de elfos, embora não fossem elfos de forma alguma nem parecidos com qualquer coisa que o ser humano conhecesse. Naquele momento, Apolônio provavelmente se sentava em frente à televisão sentindo o cheiro de mais uma fantástica torta de Madalena. A mulherzinha nunca deixava queimar nada…
- E Apolônio? – pergunta um dos elfos.
- Ele agora tem uma casa nova, com uma esposa que faz tortas e uma televisão. Não deve voltar… não consegue vir sem mim.
Todos os elfos fazem careta à menção do nome televisão. Não suportam a ideia de uma caixinha que tenta copiar a realidade. Mas como é isso, Rainha Suprema? Dá pra entrar lá dentro? Quero sacudir o casal lá de dentro e ensiná-los a amar de verdade, posso, Rainha Suprema? Posso colori-los? Posso? Posso?, e Jacira desconversa elogiando a cor das videiras. Odeia responder perguntas sobre a caixinha. Um deles, o mais quieto e que observa Jacira em silêncio desde que se transportara até ali, aproxima-se, enquanto os demais seguem ao riacho.
- Não se preocupe com ele. Com Apolônio. O infinito é para poucos, Rainha.
N’algum lugar após o magma, a infindáveis níveis de consciência, Apolônio mastiga espinafre. À mente lhe sobe um gosto de queimado e de saudade – mas a vida está mais fácil assim.
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Eu demoro para escrever quando já não sinto tão plenamente aquilo que um dia me motivou a exteriorizar-me e montar um esqueleto do que eu tenho por dentro, pra ir trabalhando aos poucos depois (já que alma da gente é muito mais que um impulso ou um golpe de inspiração). Vai ficando mais difícil, porque a coisa perturbadora que me fez produzir um texto já não existe, e o que é escrever se não essa perturbação colocada no papel?
Conheci Jacira há alguns meses, quando fomos apresentadas por intermédio de um amigo em comum. O carisma uma com a outra floresceu de imediato. Mas o tempo passou, para ela e para mim; eu me forcei a enxergar sentido em viver o concreto, também, enquanto ela é incapaz de se adaptar na superfície e só vive quando transita para além das leis naturais. Assim ela se perdeu, vagando sem rumo por alguma das válvulas do meu coração ou de seus jardins de frutas intocáveis. Demorei semanas pra resgatá-la e trazê-la de volta à vida porque, hoje, Jacira já me está distante, e o que sente não tem mais muito a ver comigo. Trago à fora porque me concentrei para me lembrar daquela dor – e ainda assim de modo aproximado, recordativo. Como quando a gente sente vontade de tomar um sorvete de pistache mas não estão ali à nossa frente, descendo pela garganta, nem o sorvete nem o pistache. É uma lembrança de sabor e não um sabor pleno e de fato.
Neste momento estou com Jacira no Jardim da Evasão, saboreando uvas com nossos amigos elfos, e Apolônio está… está… onde estaria Apolônio? Talvez bebendo com os amigos, debatendo algum assunto tedioso e mundano (“os políticos são todos corruptos!” ou “Madalena esmigalha meu cartão de crédito. Ao menos faz boas tortas…”). Mas não está no jardim. Que miserável limitação a de seus pseudópodes, tão curtos, incapazes de se extrapolar a superfície. Jacira é o extremo contrário. Jamais funcionariam juntos.
Os elfos se agitam, saem em grupo e retornam, instantes depois, formalmente trajados para a próxima apresentação de ópera. Cantam muito bem e às vezes todos incorporamos asas durante o espetáculo, dependendo do êxtase com que interpretam a canção. Pobre Apolônio. As uvas estão fabulosas e estamos prestes a voar.
