10

Postado por Marco Antonio,

Entre impressões coloridas e em preto-e-branco J flagra a si próprio em uma crise brutal de consciência. Flagra-se, em terceira pessoa, como se ele e sua alma fossem entidades distintas e independentes uma da outra e pudessem, assim, contemplar-se admirativamente ou desprezar-se descompromissadamente.

J reflete sobre a atividade a que se submete para ganhar o dinheiro do aluguel e das refeições, e não gosta do que vislumbra. J opera máquinas, impressoras, computadores, capas de plástico e grampeadores durante oito horas diárias, e agora está pensando que cópias e impressões não são assim tão legais, que deve haver mais emoção em produzir que em reproduzir, e que há de haver algum resquício de ineditismo ou surpresa em algum lugar, mais provavelmente dentro de algum labirinto na própria mente.

O som cada vez mais alto de uma sirene, e a rua cheia de veículos cuspindo fumaça. A água acabou, e o cara só consegue trazer o novo galão daqui uma hora. A moça da lanchonete em frente não trabalha mais ali, e J está decepcionado. Viver não faz sentido, e essa constatação provavelmente doeria muito mais no passado selvagem.

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s